quinta-feira, 8 de maio de 2008

O aborto mata?

Então o Duarte Vilar, da Associação para o Planeamento Familiar (APF), não sabe que o aborto mata?
É curioso constatar que quem passou anos a fio a montar um mau raciocínio acaba por se ver "preso" pelas palavras.
A defesa do aborto é algo de tão errado, de tão ilógico, de tão bárbaro, que a lógica também cede. Também dá de si...
Para Duarte Vilar, o aborto não deveria ser considerado causa de mortalidade...
Será então causa de vitalidade?

Lisboa, 07 Mai (Lusa) - Nos 27 países da União Europeia é feito um aborto em cada 27 segundos o que representa um milhão e duzentos mil abortos anuais, segundo um estudo sobre a evolução da família na Europa em 2008.

O documento, apresentado hoje no Parlamento Europeu, foi elaborado pelo Instituto de Política Familiar (IPF), uma entidade civil que se define como independente, não vinculada às administrações públicas, partidos políticos ou organizações religiosas.

Segundo o relatório - realizado por uma equipa multidisciplinar composta por psicólogos, demografos, sexólogos e peritos em conciliação entre trabalho e família -, a Europa é um continente velho, "imerso num Inverno demográfico" com a natalidade em crise.

Os maiores de 65 anos já superaram em mais de seis milhões os jovens de 14 anos e cada vez nascem menos crianças (quase um milhão de nascimentos menos do que em 1980).

Dois em cada três lares europeus não têm nenhuma criança e apenas 17 por cento têm dois ou mais filhos.

De acordo com o relatório, Polónia, Roménia e Alemanha são os países da Europa dos 27 com um índice de natalidade mais crítico.

Por outro lado, adianta, são praticados por ano mais de um milhão e 200 mil abortos "o que equivale a um aborto em cada 27 segundos".

"O aborto, juntamente com o cancro, é a primeira causa de mortalidade na Europa", refere o documento acrescentando que cada dia deixam de nascer na Europa 3.199 crianças.

Esta análise é criticada pelo Director Executivo da Associação portuguesa de Planeamento Familiar que em declarações à Lusa considerou "uma aberração científica classificar o aborto como uma causa de morte".

"Isso é um discurso ideológico. Nunca vi nem nunca ouvi qualquer organismo a considerar o aborto como uma causa de mortalidade", disse Duarte Vilar, uma das caras do "Sim" no último referendo em Portugal sobre a despenalização do aborto.
(...)

quinta-feira, 24 de abril de 2008

O processo contra Galileu

A motivação para escrever um trabalho sobre o processo do Santo Ofício contra Galileu nasceu do artigo Mais hipocrisias do Ricardo Silvestre (Portal Ateu) a propósito da recente decisão da Santa Sé em homenagear Galileu erigindo um busto seu.

O Ricardo criticava essa decisão, e eu comecei por comentar que não via razão de ser para tais críticas, uma vez que o caso Galileu, sendo certamente uma página triste na história da Igreja, não devia ser interpretado como um exemplo de uma presumida incompatibilidade "institucional" entre Fé e Ciência, mas sim como um acontecimento historicamente complexo e carregado de motivações pessoais e erros humanos.

Após a troca de alguns comentários, o Ricardo convidou-me para redigir um texto de resposta. Aproveitei a simpatia do convite para fazer um estudo mais detalhado sobre este tema. Rapidamente me dei conta de que era um tema verdadeiramente complexo e difícil.

Como sincero crente católico, encarei este desafio do Ricardo como uma oportunidade para dedicar algum tempo ao estudo frontal do caso Galileu. Parti para esse estudo convencido de que, no pesar das responsabilidades, caberia a Galileu alguma culpa no desenrolar dos acontecimentos. Terminado este breve estudo, concluo que é complicado atribuir a Galileu qualquer culpa objectiva, mesmo considerando a sua legítima predisposição para debates apaixonados sobre temas polémicos, como era então o da interpretação das Sagradas Escrituras à luz das recentes descobertas científicas.

Seguindo o mote evangélico tão usado pelo Papa João Paulo II, "não tenhais medo", e na linha da afirmação fundamental que encontramos no evangelista São João, "a verdade vos libertará", encaro de frente todos os erros cometidos pelos responsáveis da Igreja da qual faço parte, seguro de que tais erros, manchando o currículo de alguns responsáveis católicos, deixam intacta a sacra doutrina que me orgulho de professar.

"No Evangelho que acabamos de escutar, Jesus diz a seus Apóstolos que acreditem nele, porque Ele é «o caminho, a verdade e a vida» (Jo 14,6). Cristo é o caminho que conduz ao Pai, a verdade que dá sentido à existência humana, e a fonte dessa vida que é alegria eterna com todos os Santos no Reino dos céus. Acolhamos estas palavras do Senhor. Renovemos a nossa fé nele e ponhamos nossa esperança em suas promessas."
- Papa Bento XVI, Homilia da Missa no Yankee Stadium, Nova Iorque, 20 de Abril de 2008.

A verdade trazida por Cristo liberta. Liberta a moral do ser humano, fazendo-o viver uma vida plena e com sentido, e liberta o intelecto do ser humano, fazendo-o aceder, dentro das suas capacidades, ao âmago das verdades científicas, filosóficas e teológicas. Um aprofundar do conhecimento nestas várias áreas do saber revelará, ao estudioso persistente e humilde, a existência de uma unidade explicativa fundamental que dá sentido a tudo. Os cristãos chamam a essa unidade explicativa o "logos", que serve à vez como termo grego para "Palavra" (ou "Verbo") e para "Razão".

Um católico não deve ter medo de reconhecer nem os seus erros pessoais nem os erros dos seus irmãos na fé, uma vez que não existe católico (nem ser humano) que não cometa erros. É base fundamental do cristianismo o exame de consciência, o reconhecimento dos erros, a esperança do misericordioso perdão divino, dessa palavra de salvação que simultaneamente nos liberta e nos abre o intelecto. Que nos abre o caminho para a plena realização humana.

Em suma, terminada esta introdução pessoal, eis as ideias-chave que queria apresentar sobre o tema...

1. A maioria dos ateus partilha de uma opinião errada sobre o caso Galileu: segundo essa opinião, o processo contra Galileu representaria um choque inevitável entre uma concepção atrasada do mundo porque religiosa, e uma concepção avançada do mundo porque científica; a religião vista como o domínio das "trevas", de um poder eclesiástico dominador e autoritário, que oprimia os cientistas.

2. Quase nenhuma das pessoas que partilha desta opinião alguma vez folheou os arquivos do processo; logo, tal opinião é, nada mais, nada menos do que, propaganda; alguma desta propaganda já tem mais de um século de idade.

3. Os arquivos do processo contra Galileu não estão completos: falta documentação; por exemplo, Napoleão mandou trazer os arquivos de Roma para Versalhes, e só várias décadas mais tarde é que eles foram recuperados; no entretanto, valiosos documentos, indispensáveis para reconstituir os acontecimentos, foram destruídos ou perdidos.

4. Os arquivos do processo contêm muito material em segunda mão: cópias de cartas, cópias de documentos oficiais, etc; logo, há que ter muito cuidado com a sua análise; nem sempre o que lá se lê deve ser tomado à letra.

5. Durante a vida de Copérnico, as suas ideias e obras não foram censuradas; a colocação da obra "De Revolutionibus" de Copérnico no Índex dos livros proibidos só ocorre no tempo do processo contra Galileu.

6. Galileu foi sempre um homem de fé; provavelmente, amou mais a Igreja e as verdades da Fé do que os seus adversários, mesmo os eclesiásticos.

7. O Cardeal Bellarmino, figura importante durante a primeira fase do processo (1615-1616), afirmou que estava disposto a rever a interpretação de certas passagens das Escrituras, caso surgissem provas definitivas do modelo heliocêntrico (provas que Galileu ainda não tinha), e que nessa situação, seria preciso agir com cautela, procurando corrigir os erros interpretativos do passado.

8. O caso Galileu não se compreende sem estudar primeiro dois importantes acontecimentos, o Concílio de Trento (1545-1563) e a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648). Só se entende o contexto das atitudes tomadas pelo Santo Ofício e pelo Papa tomando em consideração o surgimento da Reforma protestante e o movimento católico de reacção da Contra-Reforma, vincado no Concílio de Trento. A Guerra dos Trinta Anos ajuda a compreender o complexo tecido político de alianças e guerras menores que marcavam o pano de fundo da Europa do tempo de Galileu.

9. O processo contra Galileu está repleto de erros e fragilidades: as provas contra Galileu não são conclusivas e, no entanto, ele recebe em 1633 uma dura e injusta pena de prisão domiciliária até ao fim da sua vida.

10. O móbil do processo está fortemente ligado às variadas inimizades que Galileu foi coleccionando ao longo da vida; os seus inimigos não o conseguiram prejudicar em 1616 porque Galileu tinha amigos poderosos, e por isso, nessa primeira fase, ele não foi condenado; em 1632-33, os amigos importantes de Galileu tinham quase todos morrido, ou tinham sido arredados dos centros de poder e de decisão devido à sua incompatibilização com as posições defendidas pelo Papa relativamente à Guerra dos Trinta Anos e à guerra sucessória em Mântua (1627-1630).
Galileu, em 1632-33, ficou à mercê das denúncias e das difamações que se montaram contra ele ao longo dos anos, e não havia ninguém com influência eclesiástica para o proteger de um processo comandado pelo Santo Ofício.

11. Para além dos erros processuais, um dos grandes equívocos da Igreja foi o de não reconhecer logo após a morte de Galileu que tinham sido cometidos erros graves; um "arrastar" nos séculos que se seguiram de uma atitude proteccionista em não reconhecer estes erros explica a enorme duração histórica desta polémica.

12. Para mais, o caso Galileu foi tomado e aproveitado ao longo dos séculos seguintes, e ainda o é hoje em dia, por pessoas vincadamente anticlericais e anticatólicas, como poderosa arma de propaganda. Foi assim que se propagou a ideia de que o caso Galileu mostraria que a Fé cristã seria incompatível com a Ciência. Este tipo de propaganda ainda é, nos nossos dias, eficazmente veiculada aos alunos do Ensino Secundário, que não recebem a necessária preparação histórica, científica e filosófica para se poder lidar com as complexidades deste caso.

CONCLUSÃO:

a) a tradição cristã (p. ex., em São Tomás de Aquino ou Santo Agostinho) consolidou a necessidade de ajustar as interpretações das Escrituras às verdades científicas; para o cristão, não há incompatibilidade entre verdades de Fé e verdades da Ciência, porque o verdadeiro não pode contradizer o verdadeiro;

b) o processo contra Galileu foi um grave erro disciplinar; como o Papa Urbano VIII não se pronunciou "ex cathedra", porque o julgamento foi sobre matéria disciplinar e não doutrinária, não se aplica a infalibilidade papal; de modo análogo, a colocação de obras em defesa do heliocentrismo no Índex de livros proibidos não possui o carácter positivo de uma afirmação sobre doutrina de fé e moral cristãs, pelo que também não se enquadra no contexto da infalibilidade papal, e tratam-se assim de decisões que podem ser reformadas ou revogadas.

A Santa Sé reconheceu os erros e a injustiça do processo contra Galileu (Papa João Paulo II - 1992).
Este reconhecimento, há muito necessário, não invalida a infalibilidade do Papa em matéria de doutrina e moral.

O Papa Bento XVI segue a mesma leitura de João Paulo II: rejeitou, por exemplo, a opinião do ateu Feyerabend, que considerava que o julgamento de Galileu fora justo. Esta rejeição das ideias de Feyerabend foi entendida em sentido oposto pelos equivocados signatários da recente petição na Universidade de Roma, La Sapienza, contra a vinda do Papa àquela instituição.

O processo contra Galileu, bem como alguns acontecimentos contemporâneos ligados ao tema, estão expostos cronologicamente num texto que fica permanentemente disponível na lista de artigos que consta da margem direita deste blogue.

Bernardo Motta

segunda-feira, 24 de março de 2008

O problema do Opus Dei

Precisamente porque João César das Neves consegue de forma magnífica colocar por escrito aquilo que eu penso acerca desta matéria, transcrevo uma parte do seu artigo de hoje, no Diário de Notícias:

«O Opus Dei anda nas bocas do mundo. Não bastava a fama antiga de manipulação, agora perdeu um banco, que é negligência de monta. Qual será o problema do Opus Dei?

Como todos os mitos urbanos, a teoria da relação entre a Prelatura e o BCP levanta mais questões do que resolve. Como se pode deixar escapar um banco daquele tamanho assim tão facilmente? Quais eram afinal os poderes ocultos que, de forma tão dramática mas silenciosa, foram derrotados? Não devemos temer mais a Maçonaria, que alegadamente ganhou o negócio, que o Opus Dei, que nem sequer teve força para o conservar? Afinal, não será toda esta confusão de poderes escondidos um enorme disparate, tendo tido o BCP apenas uma zanga habitual entre administração e accionistas?

Mas o problema da Prelatura do Opus Dei vai mais fundo. Toma-se consciência disso ao vermos "acusados" de serem da Obra muitos leigos só por se afirmarem publicamente como cristãos, mesmo sem nada a ver com ela, como eu. Em particular, são-lhe atribuídos todos os católicos "conservadores", entendendo-se por esta palavra aqueles que querem seguir a doutrina cristã como ela é. Ser fiel ao Papa e à Cúria, acreditar nos Evangelhos, Credo e obras dos Padres, recusar as patranhas que os críticos do momento inventam, isso hoje é ser conservador e automaticamente do Opus Dei.

Um cristão é tolerado desde que não se note que o é.

No fundo, esse problema é o mesmo que vários outros grupos católicos foram tendo ao longo dos séculos. Em todas as épocas a Igreja sempre defrontou inimigos poderosos. Esses gostavam de isolar uma pequena secção de crentes para a mimosear com o pior das suas fúrias. Há cem anos eram os jesuítas; há 500 os dominicanos; hoje é o Opus Dei. Estes têm a honra da escolha do inimigo. (...)»
(negrito meu)

domingo, 23 de março de 2008

A noite das noites

Se a missa é o centro gravítico do cristão, a da Vigília Pascal é o centro gravítico de todas as missas. Esta é a noite das noites, porque em torno dela gira todo o ano litúrgico.

A cerimónia principia com toda a igreja às escuras e em silêncio.

A ausência de luz e de som traz aos presentes a experiência do sepúlcro.

Há mais de 2.000 anos, numa sepultura escavada na rocha, na Cidade Santa de Jerusalém, num Sábado de Páscoa, jazia um corpo morto, na mais profunda escuridão e pesado silêncio.

Foi nessa noite de Sábado, desde então dito de Aleluia, que, do meio da escuridão sepulcral, saiu uma luz. O corpo morto de Jesus Cristo regressou à vida.

É esse o acontecimento central do cristianismo, e atrevo-me a dizer, da Humanidade. Porque a vitória de Cristo sobre a morte prefigura a nossa própria vitória, enquanto seres humanos, sobre a morte natural e sobre a morte espiritual.

Não é fácil ficar-se indiferente a este acontecimento: por ele, muitos dedicaram e dedicam a sua vida a Cristo. Contra ele, muitos outros dedicaram e dedicam a sua vida a tentar negá-lo ou ignorá-lo.

Essa luz é inesgotável. Do mesmo modo que o círio pascal, no início da cerimónia, espalha a sua luz a todas as velas sem ele mesmo perder o seu brilho, e iluminando deste modo toda a igreja, também a luz da Ressurreição de Cristo se espalha por todo o Universo sem perder o seu brilho, e iluminando toda a Criação.

Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa fé, e os cristãos são as mais miseráveis das criaturas.

Por outro lado, se Cristo ressuscitou, é então em vão que se nega este acontecimento central. Porque a luz de Cristo dissipa todas as trevas do erro e do pecado, e a verdade aparece tal qual ela é. Por essa mesma razão, Deus fez-Se Homem, morreu por nós, lavou os nossos pecados, e ressuscitou, para Se nos mostrar como Ele é.

Cristo ressuscitou!
Aleluia!

terça-feira, 18 de março de 2008

Ainda o anti-clericalismo maçónico?

Quando se poderia pensar que nas hostes maçónicas a febre anti-católica estava a serenar, considerando que a animosidade anti-maçónica está relativamente calma na nossa sociedade, aparecem situações caricatas como esta.

O jornalista e fotógrafo Inácio Ludgero (um excelente fotógrafo, diga-se sem ironia), que também é maçon, apresentou ontem a obra "Dicionário de termos maçónicos", do autor Pedro Manuel Pereira.

A notícia da RTP que dá conta deste acontecimento é de se pasmar, por aquilo que Ludgero disse aos "media". Vejamos alguns excertos da notícia:

«"Somos e seremos uma República. Conquistámos esse direito gloriosamente a 5 de Outubro de 1910, e agora dar voz a uma minoria, que nem sabe quem é o seu verdadeiro Rei, é uma pura perda de tempo, um disparate sem sentido", afirmou Inácio Ludgero, que hoje apresenta em Lisboa o "Dicionário de Termos Maçónicos", de Pedro Manuel Pereira.»


Até aqui, tudo mais ou menos bem. Ludgero assume-se republicano convicto. Isso é razoável. No entanto, é sempre desagradável que perca o sentido democrático ao considerar o debate público sobre a forma de regime "uma perda de tempo" ou "um disparate". Se a sociedade portuguesa, concedo que num futuro remoto, quisesse debater a questão, ecoariam as pesadas e anti-democráticas palavras de Ludgero: "uma pura perda de tempo, um disparate sem sentido". Aliás, pertence ao clássico espírito de muitos maçons a ideia de que a elite iluminada dos "iniciados" é competente para esclarecer o povo "profano" acerca do que, segundo eles, é ou não disparate.

O "iniciado" diz: "Monarquia é disparate", o "profano" ouve e cala... "Democracia" maçónica no seu melhor...

«Aproveitando a apresentação do livro, Inácio Ludgero fez questão de prestar homenagem a Manuel dos Reis Buíça e Alfredo Luís Costa, os autores dos disparos que mataram o rei D. Carlos e o príncipe herdeiro D. Luís Filipe, no dia 01 de Fevereiro de 1908.
"Quero prestar homenagem a estes dois cidadãos impolutos, que sendo assassinados, matando (...) foram capazes de mudar o rumo da história pela Pátria e pela República", afirmou, defendendo que "nas revoluções pela Liberdade tem de haver mortes".»


Aqui é que o caldo se entorna. Este texto deplorável é bem claro: Ludgero faz a apologia do assassinato político. Enquanto que as solenidades do Grande Oriente Lusitano se esforçaram e esforçam tanto para passar a imagem de que não se associam ao regicídio e que repudiam o assassinato político como ferramenta de "trabalho" revolucionário, eis que Ludgero não tem papas na língua: "tem que haver mortes".
Bonito...
«Igualdade, Liberdade, Fraternindade!», mas com sangue.

Mas a "pièce de résistance" está mais adiante, numa não assumida profissão de anti-catolicismo, como sempre, usando a clássica separação maniqueísta entre os bons "católicos" e os maus da "hierarquia da Igreja":

«Vincando a sua condição de maçon assumido, Inácio Ludgero sublinha que os inimigos da Maçonaria "não são nem os monárquicos, nem os católicos, ou de qualquer outro credo, ateus, ou Homens que sejam de qualquer raça ou partido".
"Os verdadeiros inimigos da Maçonaria são os membros de uma seita que dá pelo nome de Opus Dei e quem os apoia, a Igreja Católica, Vaticano com seu papa, no seu profundo reaccionarismo intolerante e racista (onde a mulher nada vale) e todos os ditadores que ainda governam neste nosso mundo", disse.»


Aqui está patente a demonização do Opus Dei (é que já nos tínhamos esquecido do Dan Brown e há que ressuscitar os fantasmas que fizeram sucesso há poucos anos), a identificação do Opus Dei com um Papado maligno, com uma hierarquia "intolerante e (sic) racista"! Será que Ludgero quereria dizer "machista"? Nem assim acertaria no seu juizo preconceituoso, mas ao menos usava um termo lógico.

Tudo isto é da mais pura fantasia, porque quando o Opus Dei foi criado já a Maçonaria contava com mais de um século de actividade anti-católica notória, e já havia nas fileiras católicas muitos e bravos anti-maçons a reagir a essas ofensivas.

O catolicismo é incompatível com a Maçonaria. Ponto.
É bem certo que a sobrevivência da Igreja às investidas anti-católicas dos séculos XIX e XX é uma das maiores frustrações destes "engenheiros sociais" que quereriam ter trocado o catolicismo pelo jacobinismo. Mas a Igreja está para ficar. E isso nada tem a ver com pretensas teorias conspiratórias que apontem o Opus Dei (ou antigamente, os Jesuítas) como arqui-inimigos da Maçonaria.

A questão não tem a ver com inimizade, pelo menos do lado católico. Não se trata de questões de amor ou ódio. Trata-se de defender a verdade. A Igreja e a Maçonaria têm noções diametralmente opostas acerca do que é verdadeiro. E isso é irreconciliável.

Alguns maçons mais intempestivos e desbocados bem podem procurar demonizar a hierarquia da Igreja ou o Opus Dei. Mas ainda há muitos católicos atentos, categoria na qual me incluo, que não pertencem ao Opus Dei (apesar de lhe reconhecerem virtudes inegáveis), pelo que não podem ser acusados de defender causa própria, e ao mesmo tempo nem aderem a teorias conspiratórias acerca desta organização ou da hierarquia da Igreja, nem têm qualquer apetência pelos ideais maçónicos. A visão simplista, redutora e maniqueísta de Ludgero, simplesmente, não cola.

Parece claro que Ludgero quer fazer uma aproximação "amiga" aos "monárquicos" e aos "católicos", ao afirmar que não são eles os verdadeiros inimigos da Maçonaria. Face a esta aproximação atrevida, há que dizer-lhe em voz alta que não é previsível que qualquer bom monárquico (eles sabem bem quem lhes matou o Rei) ou que qualquer bom católico (eles sabem bem de que é feita a cartilha maçónica) alinhe com alegria neste neste "convite" do maçon Ludgero...

quarta-feira, 5 de março de 2008

"Catholics for a free choice" - comunicado da Conferência Episcopal Norte-americana

Este texto foi referido na notícia aqui reproduzida anteriormente.
Já é antigo: data do ano 2000. Mas as palavras claras da Conferência Episcopal dos Estados Unidos são tão importantes que merecem destaque.

NCCB/USCC President Issues Statement on Catholics for a Free Choice

WASHINGTON (May 10, 2000) -- Galveston-Houston Bishop Joseph A. Fiorenza, president of the National Conference of Catholic Bishops/U. S. Catholic Conference, issued the following statement on the status of the organization "Catholics for a Free Choice":

"For a number of years, a group calling itself Catholics for a Free Choice (CFFC) has been publicly supporting abortion while claiming it speaks as an authentic Catholic voice. That claim is false. In fact, the group's activity is directed to rejection and distortion of Catholic teaching about the respect and protection due to defenseless unborn human life.

"On a number of occasions the National Conference of Catholic Bishops (NCCB) has stated publicly that CFFC is not a Catholic organization, does not speak for the Catholic Church, and in fact promotes positions contrary to the teaching of the Church as articulated by the Holy See and the NCCB.

"CFFC is, practically speaking, an arm of the abortion lobby in the United States and throughout the world. It is an advocacy group dedicated to supporting abortion. It is funded by a number of powerful and wealthy private foundations, mostly American, to promote abortion as a method of population control. This position is contrary to existing United Nations policy and the laws and policies of most nations of the world.

"In its latest campaign, CFFC has undertaken a concentrated public relations effort to end the official presence and silence the moral voice of the Holy See at the United Nations as a Permanent Observer. The public relations effort has ridiculed the Holy See in language reminiscent of other episodes of anti-Catholic bigotry that the Catholic Church has endured in the past.

"As the Catholic Bishops of the United States have stated for many years, the use of the name Catholic as a platform for promoting the taking of innocent human life and ridiculing the Church is offensive not only to Catholics, but to all who expect honesty and forthrightness in public discourse. We state once again with the strongest emphasis: `Because of its opposition to the human rights of some of the most defenseless members of the human race, and because its purposes and activities deliberately contradict essential teachings of the Catholic faith,....Catholics for a Free Choice merits no recognition or support as a Catholic organization" (Administrative Committee, National Conference of Catholic Bishops, 1993)."

__________________________________

Office of Communications
United States Conference of Catholic Bishops
3211 4th Street, N.E., Washington, DC 20017-1194 (202) 541-3000June 03, 2003 United States Conference of Catholic Bishops

"Católicas pelo direito a decidir" - comunicado da CNBB

Fonte: Zenit (www.zenit.org)

«Católicas pelo Direito de Decidir» não é organização católica, lembra CNBB - E não fala pela Igreja Católica, enfatiza Conferência episcopal brasileira

Por Alexandre Ribeiro

BRASÍLIA, terça-feira, 4 de março de 2008 (ZENIT.org).- «Católicas pelo Direito de Decidir» não é uma organização católica e não fala pela Igreja Católica, recorda a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil).

O organismo episcopal brasileiro manifestou-se sobre o assunto por meio de nota, esta segunda-feira, já que «têm chegado à sede da CNBB inúmeras consultas sobre a ONG», «uma vez que em seus pronunciamentos há vários pontos contrários à doutrina e à moral católicas».

A nota esclarece que «se trata de uma entidade feminista, constituída no Brasil em 1993, e que atua em articulação e rede com vários parceiros no Brasil e no mundo, em particular com uma organização norte-americana intitulada “Catholics for a Free Choice”».

«Sobre esta última, a Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos já fez várias declarações, destacando que o grupo tem defendido publicamente o aborto e distorcido o ensinamento católico sobre o respeito e a proteção devidos à vida do nascituro indefeso», explica a CNBB.

O grupo também «é contrário a muitos ensinamentos do Magistério da Igreja; não é uma organização católica e não fala pela Igreja Católica (Cf. http://www.usccb.org/comm/archives/2000/00-123.htm)».

De acordo com a nota da CNBB, «essas observações se aplicam, também, ao grupo que atua em nosso país».

A Conferência episcopal brasileira lembra que a Campanha da Fraternidade 2008 «reafirma nosso compromisso com a vida, especialmente, com a vida do ser humano mais indefeso, que é a criança no ventre materno, e com a vida da própria gestante».

«Políticas públicas realmente voltadas à pessoa humana são as que procuram atender às necessidades da mulher grávida, dando-lhe condições para ter e a criar bem os seus filhos, e não para abortá-los», afirma a nota.

«“Escolhe, pois, a vida” (Dt 30,19). Ainda que em determinadas circunstâncias se trate de uma escolha difícil e exigente, reafirmamos ser a única escolha aceitável e digna para nós que somos filhos e filhas do Deus da Vida.»

A CNBB encerra a nota conclamando «os católicos e todas as pessoas de boa vontade a se unirem a nós na defesa e divulgação do Evangelho da Vida, atentos a todas as forças e expressões de uma cultura da morte que se expande sempre mais».

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Modern Physics and Ancient Faith



Já não é propriamente recente, mas sucede que só descobri este livro (Modern Physics and Ancient Faith, University of Notre Dame Press, E.U.A., 2006) há pouco tempo, quando me foi emprestado por um amigo. A obra de Stephen M. Barr, físico de formação, investigador, professor universitário na Universidade de Delaware, e católico desde sempre, é fundamental. Contém uma argumentação estruturada e racional que defende a compatibilidade entre a religião cristã e a física moderna. Stephen M. Barr alude à teoria do "Big Bang", às inovadoras teorias cosmológicas que desafiam o modelo clássico do "Big Bang", à física quântica e aos seus desenvolvimentos mais recentes, e a muitas outras teorias para demonstrar como estas, longe de refutar a religião cristã, podem elucidar alguns dos seus aspectos.

A vantagem de Barr, para além de uma clareza invejável na escrita, e de uma capacidade incrível para explicar coisas complicadas de forma simples (veja-se o apêndice sobre os teoremas da incompletude de Kurt Gödel), está em que é duplamente competente, tanto em física como em religião cristã. Isso faz toda a diferença nesta obra indispensável.

Uma entrevista a Barr, feita por Mark Brumley a 25 de Setembro de 2006, pode ser lida aqui:

The Mythological Conflict Between Christianity and Science

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Será que aprendemos com a História?

(Segue-se um texto do meu amigo José Maria André, cuja divulgação o autor agradece)

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Será que aprendemos com a História?
Para quando a verdade sobre a conferência de Ratzinger em 1990?


As recentes atitudes desagradáveis na «La Sapienza» recordaram-me um velho episódio no «Diário de Notícias», que deformou completamente a Conferência do Cardeal Ratzinger em Parma em 1990. Agora, deparei-me com o mesmo erro, desta vez no «Público», em 2008.

No dia 21 de Janeiro de 2008, a última página do «Público» trouxe um artigo azedo contra a Igreja e o Papa Bento XVI. O título, «No Index», prometia evocar as falhas mais desagradáveis da História da Igreja e o corpo do artigo satisfazia a expectativa, em sucessivas estocadas rápidas, à primeira vista fulminantes.

Só que o autor não conhecia bem o tema e não teve tempo de confirmar as frases e os episódios que criticou, pelo que o resultado foi apenas uma sequência de afirmações falsas, escritas num tom muito agreste.

A situação é fácil de compreender, porque os clichés que serviram de mote a cada estocada contra a Igreja tinham aparecido na Imprensa e, como se sabe, é frequente os jornalistas reproduzirem o que leram algures, sem verificar os factos. Pode acontecer a qualquer um, basear-se em referências erradas e tirar delas conclusões inválidas, por debilidade das premissas. E pode acontecer com mais facilidade e aparato a quem publica abundantemente, cultivando um estilo mordaz. Por isso, não custa perceber o percalço, apesar de o autor não ter tido intenção de faltar à verdade. Neste caso, a boa recordação de outras crónicas dele no «Público», sobre outros assuntos, pode ajudar-nos a relativizar a infelicidade daquele texto.

Quase todos os pontos de partida do artigo estavam errados, mas não interessa escalpelizar agora tantos erros factuais. Quero apenas fixar-me na referência directa àquela conferência do Cardeal Ratzinger:

«(...) Já em 1990, para comentar o caso Galileu, Ratzinger tivera de se socorrer das palavras de Paul Feyerabend (...). E foram as palavras do relativista Feyerabend, que o anti-relativista Ratzinger citava aprovadoramente quando pareciam desculpar a Inquisição no processo de Galileu, que agora voltaram para assombrar o anti-relativista Ratzinger diante de físicos (...)».

Como se sabe, Ratzinger não usou as palavras de Feyerabend a seu favor, nem as citou aprovadoramente. Pelo contrário, declarou bem claramente na conferência: «Seria ingénuo construir uma apologética improvisada, com base nestas afirmações; a fé não cresce a partir do ressentimento e de se pôr em questão a racionalidade, mas só cresce com um profundo apreço pela razão e com uma mais ampla compreensão intelectual (...)». E acrescentou: «Mencionei tudo isto só como um exemplo sintomático, que manifesta como é profunda hoje a problematização que a modernidade, a ciência e a técnica fazem de si mesmas».

Obviamente, a fonte deste disparate de pretender que «Ratzinger cita aprovadoramente Feyerabend...» não é o texto original, mas algum comentário, em segunda ou terceira mão, que os jornais publicaram nestes dias. Resolvi, por isso, enviar ao autor o texto da conferência, que ele tinha criticado sem conhecer, e alertá-lo para as outras incorrecções.

Algumas semanas depois, pareceu-me oportuno recordar ao autor a importância de ler a conferência do Cardeal e de repor aqueles factos mais mal noticiados no seu artigo, mas desta vez não houve resposta. Podem ter-se metido outras tarefas pelo meio, mas o facto é que os erros não foram corrigidos.

Assim, mais uma vez, a imagem da Igreja junto da Opinião Pública acumulou elementos falsos, sem se conseguir repor a verdade.

Algo de comparável ocorreu no século XVII e seguintes, quando as autoridades eclesiásticas não tiveram coragem de dizer imediatamente que o julgamento de Galileu tinha sido uma farsa. Passaram anos, à espera de que o assunto deixasse de ser importante e se «resolvesse» por esquecimento. Alguns jornais dos nossos dias actuam da mesma maneira.

Como sempre, Deus é a vítima das vaidades humanas. Assiste sem nenhum espírito de vingança aos nossos erros e à teimosia com que fugimos de os corrigir. Sofre as impertinências dos padres e as pesporrências dos leigos, as imprudências dos que estão afastados e a vaidade de todos. É caso para Lhe agradecer de todo o coração que o ar que respiramos não desapareça e cada manhã nos volte a oferecer o calor aconchegado do sol e a beleza da vida.

Escrevo estas páginas para repor (na medida do possível) a realidade que foi distorcida no artigo mencionado acima e também para ponderar sobre esta dificuldade imensa da natureza humana, de emendar o erro. Convinha-nos aprender da História e, mais ainda, convir-nos-ia aprender com a paciência de Deus.

José Maria C. S. André
Lisboa, 15 de Fevereiro de 2008

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

"Católicas pelo direito de decidir"

Desde a aurora dos modernos "direitos abortivos", com o caso Roe vs. Wade nos E.U.A. em 1973, que todos os grupos e lobbies pró-aborto se têm deparado com um enorme problema e entrave: a Igreja Católica. Se, nalguma das sedes destes movimentos pró-aborto existir uma foto afixada numa parede que seja usada para atirar dardos para relaxar, essa foto será a de um Papa. Paulo VI era papa aquando do caso Roe vs. Wade e opôs-se firmemente ao aborto e aos métodos contraceptivos (são ambos imorais, mas há um fosso ético enorme entre a gravidade do primeiro e a gravidade dos segundos). João Paulo II fez o mesmo. Bento XVI segue na mesma linha. E porquê? Simples como a água: o quinto mandamento estabelece a imoralidade do homicídio. Desde que a Ciência compreendeu e explicou os processos da embriologia humana que se sabe que a vida de todo o ser humano principia na fertilização do óvulo pelo espermatozóide. A conjugação da lei moral anti-homicídio do quinto mandamento com os conhecimentos científicos acerca da embriologia humana leva à conclusão óbvia: o aborto, praticado em qualquer fase da vida humana intra-uterina, é um acto moral grave.

Em suma, a Igreja Católica, pela solidez dos seus ensinamentos, e pela tenacidade dos seus representantes e membros espalhados por todo o mundo, é um forte obstáculo à prossecução dos objectivos abortófilos.

Vive-se, hoje em dia, uma situação espantosa ao nível internacional: por um lado, o pedido para uma moratória das Nações Unidas pela protecção do direito à vida está a ganhar força e adeptos, mesmo oriundos de sectores laicos, agnósticos ou ateus. Este pedido da moratória anti-aborto é uma consequência lógica da moratória contra a pena de morte, que foi subscrita pelas Nações Unidas.

Contra o direito à vida, move-se o CEDAW, o Committee for the Elimination of All Forms of Discrimination Against Women, cujo nome ilusório dá a impressão de que estamos a falar de um Comité preocupado com as mulheres. Fundado em 1979, torna-se cada vez mais num bastião dos lobbies pró-aborto. Estes grupos movem-se com base em financiamentos milionários, tanto públicos como privados, e trabalham em duas vertentes: nos países sub-desenvolvidos, aplicam um malthusianismo disfarçado de luta pelos direitos da mulheres, invocando o aborto como solução para os problemas de sobrepopulação. Nos países desenvolvidos, procuram usar o aborto como arma de guerra contra os valores tradicionais da família, mais uma vez invocando hipocritamente a defesa dos direitos da mulher.

Mas parece-me especialmente interessante notar como é montada a estratégia destes grupos contra a Igreja Católica, o seu mais poderoso adversário. Um dos vectores da estratégia assenta neste argumento:

a) Existe uma diferença entre o catolicismo e a hierarquia da Igreja Católica
b) É possível ser-se católico e ser-se a favor do direito ao aborto
c) É possível ser-se católico e ter uma opinião pessoal sobre o aborto, se é certo ou errado; como se o catolicismo não tivesse nada a definir nesta matéria
d) A luta pelos direitos da mulher implica uma luta contra a hierarquia da Igreja, e não contra o catolicismo

Esta estratégia é brilhante, há que reconhecer. Para a implementar, foi criada uma panóplia de movimentos ditos "católicos" que pretendem representar movimentos de leigos católicos que exigem que a "antiquada" hierarquia não bloqueie o verdadeiro espírito do catolicismo, que defenderia, segundo eles, o direito a abortar, direito esse que a hierarquia não quereria reconhecer por ser machista e antiquada.

O argumento é péssimo em termos lógicos porque, como se viu atrás, basta invocar o quinto mandamento para se compreender que o católico não pode concordar com o aborto (assim como não pode concordar com o aborto qualquer pessoa que considere que matar seres humanos inocentes é moralmente errado), mas é um argumento que funciona muito bem com um grande número de pessoas pouco ou mal informadas. Hoje em dia, abunda a noção de que o católico pode construir a sua opinião nesta matéria segundo a sua consciência, sem contradizer o seu catolicismo. Não poucos teólogos, curiosamente os mais requisitados para exposição mediática, têm contribuido para a confusão, defendendo o direito a abortar. Quando um leigo católico mal informado vê um teólogo católico a afirmar, à Comunicação Social, que o direito ao aborto não choca com o catolicismo, ou que este até levaria necessariamente à defesa do direito ao aborto, está o caldo entornado.

O Catholics for a Free Choice (CFFC, ou em português, Católicas pelo direito de decidir) nada tem de católico para além do nome. Hoje em dia é dirigido por Jon O'Brien, mas foi fundado e ainda se apoia imenso na obra da activista Frances Kissling. Kissling fundou há mais de 30 anos a CFFC, e numa entrevista à revista Mother Jones em 1989, declarou o seu objectivo:

"I spent twenty years looking for a government that I could overthrow without being thrown in jail. I finally found one in the Catholic Church."

Kissling tornou-se profissional no uso do pseudo-argumento atrás apresentado. Eis um exemplo da sua retórica:

"I know with every ounce of my being that you don’t have to agree with the positions of the church on issues of abortion and contraception to be Catholic."

A Crisis Magazine publicou em 2002 um artigo de Kathryn Jean Lopez, intitulado Aborting the Church - Frances Kissling & Catholics For A Free Choice, de onde extraímos este trecho:

The media love Frances Kissling. It's hard to blame them, really, given their general political agenda: Kissling wants abortion to remain legal, with no restrictions. She wants to boot the Vatican from the United Nations (UN). She wants bishops to tell Catholics it's okay to use condoms-even to distribute them. She wants RU-486, the abortion pill, to be cheaper. She wants Catholic hospitals to perform the whole gamut of "reproductive services," including abortion and sterilization. She wants "gender equity," even in the Roman Catholic priesthood.

And she's Catholic. Perfect.

Frances Kissling is president of the 29-year-old Catholics for a Free Choice (CFFC), an independent "Catholic" group with a solid funding base and perhaps all you really need to make an impact-a major media presence. CFFC's purpose is to promote abortion, "reproductive health," and gender equality, in line with what the CFFC calls a "social justice tradition."


Claro que se vê que esta organização nada tem de católico. Pretende ser uma espécie de Cavalo de Tróia, mas só com uma diferença: o cavalo está do lado de fora da "cidade católica". Só que, como é sabido, a "cidade católica" já não tem muralhas tão fortes como antigamente, e a confusão reinante em muitos movimentos e institutos católicos tem permitido a aproximação e infiltração de membros de organizações pseudo-católicas como estas.

Os objectivos anti-católicos de Kissling tornam-se evidentes em quase todas as suas actividades. Ela promove a iniciativa See Change da CFFC, cujo objectivo é retirar a Santa Sé da ONU, alegando que não se trata de um país mas sim de uma organização. É uma asneira diplomática óbvia negar que a Santa Sé é uma nação: basta, para cometer tal asneira, ignorar ou minimizar a problemática da Questão de Roma no final do século XIX e o facto histórico do Tratado de Latrão de 1929, que reconhece legamente a Santa Sé como estado, reconhecido neste momento por todos os estados.

Kissling quer a Santa Sé fora da ONU porque quer levar os objectivos abortófilos do CEDAW adiante, ao mesmo tempo que trabalha fora da ONU com a sua CFFC, travestida de suposta organização "católica".

Em Dezembro de 2006, Kissling deu uma entrevista ao jornalista Nuno Sá Lourenço, do Público, que vale a pena ler.

É também interessante ler o artigo do The New York Times, datado de Fevereiro de 2007, acerca da saída de Kissling do cargo de presidente da CFFC:

Backing Abortion Rights While Keeping the Faith

Regressando ao CEDAW, na ONU, a actual vice-presidente é uma brasileira, a jurista Sylvia Pimentel. Uma entrevista desta senhora à Globo diz-nos muito sobre ela e os seus objectivos:

Uma brasileira na ONU

Eis outra entrevista, desta vez para a Women's Human Rights:

An Interview with Silvia Pimentel

E, no entanto, pasme-se, ela é professora há 33 anos na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo! É de bradar aos céus... Há uns tempos, o filósofo brasileiro Olavo de Carvalho já tinha alertado para a infiltração de abortófilos em movimentos e institutos católicos no Brasil:

Meras coincidências
Escolha o adjectivo
Católicas, uma ova!

É, também, notório que a CFFC trabalha, em todo o mundo católico, lado a lado com outra organização, já bem conhecida, chamada We Are Church (Nós somos Igreja, em Portugal - note-se como o manifesto das "Católicas pelo Direito de Decidir" aparece logo no início da página), cujos objectivos são muito parecidos, e passam também pela demolição (por implosão) da Igreja católica e pela promoção do aborto como suposto "direito" da mulher. A consulta da página de "organizações relacionadas" no site da We Are Church é também muito interessante.

A pergunta óbvia é: o que é que será preciso fazer para resolver de vez o problema destes pseudo-católicos abortistas, que usam as instituições e o nome da própria Igreja Católica para promover o aborto, e pelo caminho, destruí-la por dentro? O problema não é só no Brasil, mas sim em todo o país onde o catolicismo é forte. Incluindo Portugal. Há que abrir os olhos e estar atentos. Aos leigos cabe o importante trabalho de desmascarar estes impostores e expor as suas "agendas".