quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Pedido de desculpas de Mons. Fellay ao Papa

«Abbiamo avuto conoscenza di un’intervista rilasciata da Mons. Richard Williamson, membro della nostra Fraternità San Pio X, alla televisione svedese. In questa intervista, egli si esprime su questioni storiche, in particolare sulla questione del genocidio degli ebrei da parte dei nazionalsocialisti. È evidente che un vescovo cattolico non può parlare con autorità ecclesiastica che su questioni che riguardano la fede e la morale. La nostra Fraternità non rivendica alcuna autorità sulle altre questioni. La sua missione è la propagazione e la restaurazione della dottrina cattolica autentica, esposta nei dogmi della fede. È per questo motivo che siamo conosciuti, accettati e apprezzati nel mondo intero. È con grande dolore che costatiamo quanto la trasgressione di questo mandato può far torto alla nostra missione. Le affermazioni di Mons. Williamson non riflettono in nessun caso la posizione della nostra Fraternità. Perciò io gli ho proibito, fino a nuovo ordine, ogni presa di posizione pubblica su questioni politiche o storiche. Noi domandiamo perdono al Sommo Pontefice e a tutti gli uomini di buona volontà, per le conseguenze drammatiche di tale atto. Benché noi riconosciamo l’inopportunità di queste dichiarazioni, noi non possiamo che costatare con tristezza che esse hanno colpito direttamente la nostra Fraternità discreditandone la missione. Questo non possiamo ammetterlo e dichiariamo che continueremo a predicare la dottrina cattolica e di amministrare i sacramenti della grazia di Nostro Signore Gesù Cristo.Menzingen, 27 gennaio 2009+ Bernard Fellay, Superiore Generale»


Retirado do blogue de Andrea Tornielli.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

A noção filosófica de "forma substancial"

Preâmbulo

Ensina a escolástica que a "alma humana" é a "forma substancial" do ser humano.

A palavra "alma" tornou-se, nos dias de hoje, num alçapão linguístico. Não por culpa do termo em si, certamente, mas devido à ignorância filosófica. Crentes usam-na sem conhecer as suas raízes filosóficas, não crentes repudiam-na como se se tratasse de jargão supersticioso e obscuro. A ignorância está na base destas atitudes erradas.

É, por isso, cada vez mais premente a recuperação das bases filosóficas do conceito, a defesa da justeza dessas bases, e o vincar da importância do mesmo, sobretudo no diálogo entre filosofia e ciência.

Filosofia e Ciência

A filosofia e a ciência são companheiras no eterno trabalho de estudo do mundo natural. Uma não serve para nada sem a outra.

A base da ciência é empírica: está no uso dos sentidos para obter informação sobre a realidade sensível que nos rodeia. A evolução tecnológica tem permitido levar as fronteiras dos sentidos do ser humano para limites surpreendentes, sendo hoje possível descobrir com os mesmos cinco sentidos aspectos da realidade que desconhecíamos por completo. No entanto, a evolução tecnológica não altera em nada o carácter empírico da ciência.

A base da filosofia é intelectual: está no uso da razão humana para compreender, compilar, unificar e estruturar o conhecimento científico.

Certos cientistas trabalham sem se darem conta de que, no dia-a-dia, filosofam (bem ou mal) sobre dados empíricos.

Por outro lado, certos filósofos especulam "ad libitum" sem se preocuparem com o confronto das suas teorias com os dados empíricos.

Este "divórcio", na prática, entre os dois pilares do conhecimento humano tem gerado dissabores, equívocos e atrasos no seu desejável progresso.

A alma e os seus vários tipos

Antes de passarmos à questão filosófica da forma substancial, há que fazer alguns esclarecimentos sobre terminologia, no âmbito do quadro filosófico que defendemos (que é o da filosofia clássica tomista-aristotélica).

Como se disse, a alma humana é a forma substancial do ser humano. Mas a alma, em geral, é a forma substancial dos seres vivos.

O termo "alma" vem do latim "anima". Todo o ser vivo tem alma, porque todo o ser vivo está animado por definição (está vivo). A alma distingue o ser vivo da matéria inanimada. No entanto, há diferenças importantes nos vários tipos de alma, consoante as faculdades que esta apresenta em cada classe de ser vivo.

Há seres vivos cuja actividade fisiológica apenas consiste na nutrição e na reprodução: é o caso dos membros do reino vegetal.

Há seres vivos cuja actividade fisiológica, para além da nutrição e da reprodução, inclui ainda a locomoção e a sensação (o uso dos sentidos): é o caso dos membros do reino animal. Alguns dos membros deste reino têm ainda faculdades de memória, que lhes permitem armazenar no seu sistema neuronal determinados padrões obtidos por via sensorial. O chamado "instinto" impele estes animais a executar certas acções quando um determinado padrão sensorial se lhes apresenta, sem que no entanto exista intelecção e compreensão desses padrões.

Por fim, há seres vivos que, para além de tudo isto, ainda apresentam actividade intelectiva e racional: é o caso (único) dos seres humanos. São os únicos seres capazes de abstracção intelectual, ou seja, de formar ideias abstractas que transcendem os dados empíricos.

Forma substancial e alma

A forma substancial, termo filosófico, designa a forma (composição, arranjo, estrutura) única e irrepetível de um dado agregado material. Na tradição filosófica clássica, a forma substancial dos seres vivos recebe o nome de "alma".

A forma substancial é uma realidade indetectável pelos sentidos, ou seja, só é "detectada" com o raciocínio filosófico próprio do intelecto humano. Por isso, a forma substancial não é um termo científico, mas sim filosófico. Não pode ser provada pelo método científico, mas é demonstrável como necessária e essencial para o pensamento humano.

Estamos em crer que o equívoco fatal do Intelligent Design, não obstante tratar-se de uma sugestão interessante e merecedora de atenção, está em procurar provas empíricas para a realidade filosófica que é a forma substancial das coisas (neste caso, dos seres vivos).

Forma substancial como princípio da individuação

A noção filosófica de individuação está em crise na filosofia moderna, mas não há razões de fundo para tal, senão a incompreensão de muitos filósofos modernos.

1. É possível individuar alguma entidade? Por exemplo, um átomo de Hidrogénio?

Não só é possível como é forçoso. A actividade intelectiva do ser humano está dependente da sua capacidade inata para distinguir coisas, mesmo quando pertecem a uma mesma categoria (real ou artificial). Uma certa corrente filosófica, bem antiga mas que costuma ressurgir de tempos a tempos com novas vestes, quis afirmar que as distinções eram todas artificiais, e que as coisas que nos pareciam diferentes eram, afinal, parte de um mesmo Todo indistinto.

Ora, isto é um absurdo: é razoável defender a distinção das coisas como uma realidade concreta, que o nosso intelecto é capaz de apreender, contra quem defende que as distinções são subjectivas, ou seja, são criações do nosso intelecto subjectivo. No entanto, é inegável que este trabalho de distinção, apoiando-se nos sentidos, é um trabalho filosófico.

É possível falar de uma entidade, enquanto tal, atendendo aos conceitos de "coesão" e de "estabilidade". Se uma dada entidade permanece estavelmente coesa, por muito ou por pouco tempo, mesmo usando o actual sentido da palavra "estabilidade" na moderna Teoria do Controlo, então essa entidade tende a realimentar negativamente toda e qualquer perturbação externa até certo limite. Por exemplo: nos animais ditos de "sangue quente", uma perturbação como a descida ou subida da temperatura ambiente é compensada por mecanismos internos de regulação térmica, que permitem que a temperatura do corpo não saia do seu valor estável. É através da compensação de perturbações que o ser vivo consegue resistir, coeso, a factores exteriores que o poderiam destruir. Algo de análogo sucede com a estabilidade de entidades inanimadas: é pela força da atracção gravítica gerada pelo campo gravítico da Terra que esta se mantém coesa e não se desfaz no vazio do espaço. É essa capacidade de auto-preservação que marca a fronteira entre uma entidade e outra, e que nos permite que as consigamos distinguir.

É evidente que tanto o ser vivo, como a Terra, como o átomo de Hidrogénio, todos têm um tempo de existência finito, seja ele pequeno ou grande. Enquanto um determinado átomo de Hidrogénio mantiver estável a sua coesão, poder-se-á falar "nesse átomo", ou "desse átomo": ele está individuado.

2. Como se individua um determinado átomo de Hidrogénio perante outros átomos de Hidrogénio?

Não pode ser com base apenas na sua posição no tempo ou no espaço. Isso não basta. Suponhamos que fixamos a nossa atenção numa zona limitada do espaço. Um observador que vigie esse espaço num instante t1 e lá veja um átomo de Hidrogénio poderia depois fechar os olhos e vigiar o mesmo espaço mais tarde no instante t2. Se visse de novo um átomo de Hidrogénio, estaria a ver o mesmo, mas noutra posição (ou na mesma), ou estaria perante um átomo diferente do que viu no início?

Poderíamos dizer que, com a precisão suficiente, seria possível diferenciar os átomos: afinal, poderíamos usar, para os distinguir, factores de medida como a distância do electrão ao núcleo, ou a evolução temporal da trajectória do mesmo. Mas, por muito improvável que tal seja, poderia dar-se o caso de tais factores serem idênticos nos dois casos. Em todo o caso, tais distinções, à escala atómica, são muito difíceis, entre outras razões, por causa do princípio da incerteza de Heisenberg, e à nossa escala, são também muito difíceis pela complexidade material das coisas que nos rodeiam. Sabemos distinguir uma maçã de uma pêra. Mas, perante maçãs idênticas, com a mesma cor, com o mesmo peso, sem diferenças macroscópicas, temos um problema: só uma análise mais detalhada permite uma distinção segura. E o problema não é apenas distinguir, mas saber que a maçã A, aqui e agora, será reconhecida como a mesma maçã A, noutro local e noutro tempo. Atrelado ao problema da distinção, costuma vir o da correlação.

É por isso que a simples observação, por muito sofisticada, precisa e potente que seja, não chega para a individuação. A observação tem limites. Duas coisas distintas podem ser tão parecidas entre elas que iludem as nossas faculdades de observação. Deve-se defender, em filosofia, um realismo moderado, no qual as coisas tenham existência real, independentemente de nós as conseguirmos observar, bem ou mal, ou de nós as conseguirmos distinguir, bem ou mal. Mesmo que tivéssemos maus aparelhos de medida, uma maçã que fosse metida num navio de Lisboa para Nova Iorque seria a mesma maçã em Nova Iorque que era em Lisboa, mesmo que lá ninguém a conseguisse identificar como a maçã que saiu de cá.

O que distingue um átomo de Hidrogénio de outro átomo de Hidrogénio, ou o que distingue uma maçã de outra maçã, é a forma substancial. A forma substancial é o princípio da individuação. É a causa filosófica que faz uma coisa ser única e individual, mesmo que essa coisa possa pertencer a uma classe ou categoria de coisas com uma ou mais propriedades comuns.

Estamos a entrar na crítica questão filosófica dos "universais". Categorias como "maçãs" ou "pêras" são categorias reais ou são meras convenções humanas? Não falamos dos nomes que damos às categorias, mas sim das próprias categorias. Se aceitamos os "universais" como categorias de coisas com propriedades em comum, então é fundamental que tomemos algum princípio de individuação das várias instâncias dentro de uma categoria. Esse princípio é que nos salva de não confundir, filosoficamente, uma maçã com outra parecida, dentro da categoria das maçãs.

Conclusão

Vimos como a forma substancial é o conceito filosófico chave que permite individuar coisas materiais. E vimos que a forma substancial não é perceptível pelos sentidos (apesar de estes "alimentarem" a sua "detecção" intelectual). Por esta razão, a necessidade das formas substanciais (já vimos que são necessárias) serve como argumento anti-materialista. Se há certas coisas reais (como as formas substanciais) que não se percepcionam de forma suficiente pelos sentidos, ou seja, se a interacção física entre os nossos sistemas sensoriais e as coisas físicas não é suficiente para percepcionarmos as formas substanciais, então estas são imateriais, e o materialismo está errado.

Vimos também que as coisas são, elas mesmas, individuais, independentemente de nós as conseguirmos individuar através dos nossos sentidos e intelectos. E vimos ainda que certas coisas podem estar naturalmente correlacionadas em categorias de propriedades que partilham entre si, independentemente dos nomes que os seres humanos dão a tais categorias ou às propriedades partilhadas.

No caso concreto do ser humano, é o conceito de forma substancial que "salva" a eventual confusão entre gémeos verdadeiros que possuem códigos genéticos idênticos. Se a simples manifestação de um dado código genético fosse suficiente para individuar o ser humano, então os gémeos verdadeiros seriam um mesmo indivíduo, e o mesmo sucederia com um dado ser humano e um seu clone. E, como já vimos, as coordenadas que um ser humano ocupa, ao longo da sua vida, no tempo e no espaço, não servem como factor decisivo na individuação.

Assim, mesmo perante clones, ou mesmo perante gémeos verdadeiros, estamos perante dois indivíduos distintos: não o sabemos graças aos sentidos, ou aos instrumentos científicos, ou ao método científico. É graças ao raciocínio filosófico, que percepciona intelectualmente a forma substancial (partindo de dados empíricos, é certo), que sabemos com segurança que cada ser humano, mesmo que seja um clone de outro ser humano, é sempre único e irrepetivel.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Acerca do artigo “O Código Escondido da Virgem Maria”

(Publicado na Revista Sábado em 18-12-2008)

Serve o presente texto para corrigir uma série de erros factuais e interpretativos que surgem no referido artigo da revista Sábado. As citações do artigo surgem entre aspas, enquanto que os comentários e correcções surgem logo a seguir a cada citação. Por simplicidade, este "post" não contém notas de rodapé nem referências: estas podem ser consultadas na versão Acrobat PDF deste texto, na secção lateral "Artigos". O autor deste texto agradece a quem identificar eventuais erros nas correcções que aqui são feitas.

«Maria poderia ser consagrada co-redentora e isso significaria que Jesus teria tido a ajuda da mãe na salvação da Humanidade. Algo impensável para a Igreja mais conservadora»


Porquê “impensável”?
É uma consequência lógica da doutrina cristã: sem o “sim” voluntário de Maria, Cristo não teria nascido. Logo, Maria desempenha um papel decisivo na salvação da Humanidade. O prefixo “co” em “co-redentora” vem do latim “cum”, ou seja, “com”. Não implica igualdade entre Maria e Cristo, mas sim uma cooperação entre ambos.

«Os evangelhos canónicos (…) quase não falam dela. (…) Em todo o Novo Testamento, o seu nome é designado uma dezena de vezes (…)»


Trata-se de um erro factual. O nome concreto de Maria surge dezanove vezes, o dobro do indicado no artigo. Mas se procurarmos por “mãe de Jesus” ou por “sua mãe” (de Jesus), surgem trinta e três ocorrências, o triplo do indicado no artigo. Ver no Anexo (disponível na versão Acrobat PDF deste texto, na secção lateral "Artigos") o elenco completo das referências à mãe de Jesus em todo o Novo Testamento.

«Paulo, o apóstolo mais importante no desenvolvimento do cristianismo e autor de 14 dos 27 textos que constituem o Novo Testamento, nunca se refere a Maria.»


Paulo (Saulo de Tarso) não conheceu Maria pessoalmente, nem acompanhou Jesus no seu percurso terreno. No entanto, esse distanciamento físico dos acontecimentos não implica um distanciamento em relação à doutrina cristã sobre Maria. As cartas de Paulo têm funções específicas e um conteúdo teológico concreto: transmitir aos gentios a doutrina da Incarnação de Deus em Cristo, proclamar a sua Morte e Ressurreição, bem como o carácter salvífico de Cristo. Paulo não pretendeu com as suas cartas narrar episódios históricos como o da infância de Jesus ou o da Anunciação a Maria.
Mas ao mesmo tempo, Lucas, o evangelista que mais escreve sobre Maria, foi companheiro de viagem de Paulo e seu colaborador próximo , pelo que certamente teriam tido ampla oportunidade para falar sobre Maria e o seu papel na salvação. Pela elevada estima que Paulo demonstra pelo médico Lucas , é inverosímil que não partilhassem da mesma doutrina acerca de Maria. Lucas recolheu os detalhes acerca de Maria nas suas viagens, quando ia ao encontro dos apóstolos e dos demais discípulos que conheceram Cristo e Maria pessoalmente.
Paulo refere (Gálatas 4, 4) que Cristo nasceu de uma mulher tendo em mente a promessa de Deus feita acerca da Mulher e da serpente (Génesis, 3, 15): que seria através de uma mulher que se venceria o Mal, devido à perpétua inimizade fixada por Deus entre a descendência de Eva e a da serpente e da superioridade daquela em relação a esta. Por isso, esse único ponto em que Paulo fala concretamente sobre Maria é crucial porque demonstra que ele tinha bem presente o carácter central e providencial de Maria para a salvação da Humanidade.
Paulo cita ainda na sua carta a Timóteo (Timóteo 5, 18) um versículo do Evangelho de Lucas (Lucas 10, 7), o que prova que conhecia o texto; e fá-lo usando a expressão “como diz a Escritura” o que permite constatar que Paulo considera o texto de Lucas como parte integrante das Sagradas Escrituras.

«”A imagem que conhecemos de Nossa Senhora ao colo tem origem nas imagens de Ísis com o filho Horus”, explica Paulo Mendes Pinto.»


A imagem de uma mãe com o filho ao colo é suficientemente universal na cultura da humanidade, e por isso não é necessário forçar ligações ao Antigo Egipto. Se é certo que, nos primeiros séculos da nossa era, existia um importante culto popular a Ísis e a Hórus, há que afirmar que esse culto subsistia já desligado da tradição sacerdotal egípcia. A religião egípcia enquanto tal, à falta de representantes autênticos, estava praticamente extinta.
Se é legítimo afirmar que um artista cristão, eventualmente exposto à arte egípcia, se poderia inspirar nas formas artísticas das representações de Ísis e Hórus para criar obras representativas de Maria com o Menino, por outro lado, é ilegítimo fazer derivar todas estas representações artísticas cristãs da tradição artística relativa a Ísis e Hórus.
As conquistas de Alexandre, o Grande, espalharam a cultura helénica pela bacia do Mediterrâneo e pelo Médio Oriente. Nos primeiros séculos da nossa era, Alexandria era a capital dessa cultura, que sem dúvida marcou muito mais o cristianismo do que a egípcia.

«Os cristãos dividiam-se em facções e uma delas, a dos arianos, defendia mesmo que Jesus era o filho natural de Maria e José e só depois se tornara o Messias»


Não é correcto falar em facção ariana, uma vez que os cristãos sempre procuraram preservar uma doutrina comum de tradição apostólica. Mas é certo que, ao longo da História, surgiram correntes que se desviaram dessa tradição, e por isso mesmo foram rejeitadas pelo cristianismo, como é o caso de Ário de Alexandria e dos seus seguidores, mas esta corrente, mesmo no auge da sua importância, era minoritária no colégio episcopal, como se vê pela sua derrota esmagadora, por voto, no Concílio de Niceia em 325. As ideias do bispo Ário contrariavam a tradição apostólica, e por isso mesmo, foram rejeitadas pela clara maioria dos bispos reunidos em Niceia. De um total aproximado de 220 bispos, apenas são conhecidos dois apoiantes de Ário: Teónas de Marmarica e Segundo de Ptolemais.

«Perante uma situação que ameaçava tornar-se incontrolável, era urgente definir o culto a Jesus e reduzir o papel de Maria. Foi com este objectivo que, no ano de 325, se convocou o primeiro concílio fundador da Igreja – que só podia acabar da pior maneira, com uma demonstração radical de força. Os bispos reuniram em Niceia (Turquia) e, por maioria, afirmaram Jesus como filho de Deus.»


O Concílio de Niceia não se reuniu para definir o culto a Jesus ou reduzir o papel de Maria, mas sim para condenar as ideias heréticas do bispo Ário, que contra a tradição apostólica, pretendia reduzir a divindade de Cristo; o Concílio definiu ainda a forma de calcular a data da Páscoa, uma festa móvel ;
Porquê “demonstração radical de força”? Uma votação “inter pares”, entre bispos, sobre questões de doutrina é uma demonstração radical de força?
Em Niceia, não se votou Jesus como Deus: deliberou-se o afastamento dos que não O viam plenamente como tal, os seguidores da heresia de Ário, tendo o Concílio sugerido a palavra “consubstancial” (em grego «homoousios») como expressão verbal da unidade divina (em substância) do Pai com o Filho; Jesus sempre foi visto como Deus pelos seus seguidores: um bom exemplo desta doutrina encontra-se na obra de Santo Ireneu, datada do final do século II , e portanto, anterior ao Concílio de Niceia;

«Atanásio, Bispo de Alexandria, aproveitou o momento e determinou os textos que fariam parte do cânone da Igreja. (…) Sem surpresa, ficou de fora o texto que mais se refere a Maria, o Proto-Evangelho de Tiago.»


O Concílio de Niceia em 325 não determinou os textos do cânone: o tema nem sequer constou da ordem de trabalhos;
Os textos do Novo Testamento datam do século I d.C, conforme o acordo dos especialistas; quando muito, o Evangelho de São João e o Livro do Apocalipse de São João datarão do início do século II;
As compilações do Novo Testamento já estavam consolidadas no final do século II d.C. (o Codex Muratori , a mais antiga compilação conhecida dos textos neotestamentários, é datada quase unanimemente entre 180-200 d.C.);
O Proto-evangelho de Tiago não foi deixado de parte por se referir a Maria: o texto não apresenta problemas doutrinais, e de facto, não poucos dos seus elementos passaram a integrar a tradição popular cristã; o texto foi excluído do cânone do Novo Testamento por conter detalhes fantasiosos e inverosímeis .

«De tal forma que, no século V, a Igreja foi obrigada a reconhecê-lo. (…) E, em 10 dias, Maria passaria de segredo envergonhado a rainha da Igreja»


Custa a acreditar que uma transformação tão profunda, a ter ocorrido, como se pretende no artigo, teria ocorrido em apenas dez dias. Qual é a base histórica para esta afirmação? Porque razão seria a mãe de Cristo (Deus para os cristãos) um “segredo envergonhado”? A conclusão de Éfeso, de que Maria é Mãe de Deus (“teotokos”), é a conclusão lógica e necessária para todo aquele que defende que Cristo é Deus, uma vez que Maria é mãe de Cristo.

«O concílio decorreu em Julho de 431 na cidade de Éfeso (Turquia) e foi no mínimo escandaloso. Cirilo, que partia em desvantagem, uma vez que o imperador apoiava Nestório, enviou agentes a Constantinopla e distribuiu prendas e subornos entre os bispos. Depois, aproveitou a sorte. Foi o primeiro a chegar a Éfeso e nem esperou pelos bispos partidários de Nestório. Sem autorização imperial, abriu o concílio e, recorrendo-se de todos os textos antigos, mesmo dos não reconhecidos pela Igreja, contou a história de Maria e acrescentou novidades. Apresentou-a como virgem perpétua e garantiu que, depois de morrer, fora elevada ao céu ali mesmo, em Éfeso.»


Porque razão se diz que o concílio “foi no mínimo escandaloso”?
Porque razão se diz que “Cirilo partia em desvantagem”, quando era o séquito de Cirilo (50 bispos) o maior, quando comparado com os apoiantes de Nestório (16 bispos)? Para mais, o papa Celestino I, numa carta de 11 de Agosto de 430, encarrega o Patriarca Cirilo da responsabilidade de dirigir o Concílio; o imperador bizantino, não tendo autoridade em teologia, tomou inicialmente o partido de Nestório, mas após o fecho do concílio, aceitou as suas conclusões;
Quais são as evidências históricas dos ditos “subornos”?
“Foi o primeiro a chegar a Éfeso” é um erro factual: Nestório chegou antes de Cirilo, ou na melhor das hipóteses, chegou no mesmo dia que este (vide Actas Coptas), um pouco antes do Pentecostes;
O papa Celestino I, tendo declarado heréticas as ideias de Nestório, deu-lhe dez dias para as repudiar; a intenção do Papa era usar o concílio para julgar as ideias de Nestório; no entanto, este não quis comparecer nas sessões: foi três vezes convocado para comparecer, e recusou todas; o mandato de Cirilo dava-lhe poder para iniciar o concílio após os dez dias concedidos a Nestório; Cirilo deu um prazo maior, tendo iniciado o concílio apenas a 22 de Junho;
Não se sabe se o atraso do Patriarca João de Antioquia, amigo de Nestório, foi um atraso propositado ou acidental; ao chegar ao concílio apenas no dia 27 de Junho, João decidiu acusar Cirilo de heresia, mas a sua posição foi rejeitada por todos os restantes bispos, e foi o próprio João a ver-se excomungado pelo Concílio .

«"Maria tinha as características necessárias para ser uma figura divina: era mulher e mãe (…)", explica o professor de Ciência das Religiões Paulo Mendes Pinto.»


Esta afirmação é incompreensível no contexto cristão. Sabe-se que, em certos politeísmos, certas deusas eram associadas à sexualidade e à maternidade. Mas no cristianismo, só há um Deus, e Deus não tem sexo, nem masculino nem feminino. Maria não é nenhuma “deusa”, nem nunca foi definida como divina pela doutrina cristã.
A doutrina cristã é muito explícita no considerar Maria como humana e não divina. A doutrina da Imaculada Conceição, definindo que Maria desde o seu início não foi tocada pelo pecado original, entre outras coisas equipara-a ao estado de Adão e Eva antes de pecarem, pelo que essa doutrina não a eleva a um estatuto divino. A doutrina da sua assunção aos céus também não altera a sua natureza humana, bem como a doutrina da sua virgindade perpétua. Ser declarada mãe de Deus também não a torna divina: ela é a progenitora humana de Cristo, que é Deus feito Homem.

«Os primeiros indícios desta teoria surgiram por volta do ano 178 d.C. No texto Da Verdadeira Doutrina, o filósofo grego Celso escreveu que Maria “engravidara de um soldado romano chamado Panthera”»


É preciso dizer que a dita obra Alethes Logos, do filósofo platónico Celso (que seria romano e não grego), está desaparecida há séculos e só a conhecemos através da extensa obra (oito volumes) de refutação escrita pelo escritor cristão Orígenes em 248, Contra Celsum . Orígenes teve tanto cuidado na sua refutação que foi possível a partir dela reconstruir a quase totalidade do texto original de Celso. Este facto vai contra a ideia geral do artigo, que seria a de que a Igreja teria tentado ocultar verdades sobre Maria e sobre Jesus. Ora a verdade é que só sabemos desta teoria de Celsus acerca do soldado romano Panthera porque um autor cristão, Orígenes, a contestou por escrito. Se o objectivo fosse a ocultação do segredo, porque não teria Orígenes ficado calado?
Para mais, a teoria proposta por Celso é uma corruptela de uma teoria hebraica mais antiga. Segundo algumas fontes hebraicas que visavam desacreditar o relato cristão , Jesus seria filho de Pandira (ou Panthira) e Stada e teria vivido no tempo dos Macabeus, ou seja, um século antes de Cristo. Ele teria aprendido magia no Egipto, teria sido um “sedutor do povo” e teria sido enforcado numa árvore na véspera da Páscoa. O objectivo desta propaganda hebraica anticristã estava em situar a vida de Cristo um século antes da destruição do Segundo Templo, para contrariar a associação de Cristo às profecias do Antigo Testamento acerca do destino do Templo.

«Mas em 1859 foi descoberta na Alemanha uma nova peça do puzzle. Num cemitério romano foi encontrada uma lápide de um soldado romano chamado Tiberius Julius Abdes Pantera. No epitáfio lia-se que Pantera era de Sídon, uma vila a norte da Galileia, e prestara serviço na primeira coorte de arqueiros, a mesma que segundo registos romanos esteve presente na Rebelião da Galileia, no ano 4 a.C. – o que coloca Panthera perto de Nazaré na altura em que Maria teria engravidado»


Não compreendemos como é que isto pode ser considerado sequer um indício histórico. Em História não se trabalha com bases tão frágeis. Pantera era um apelido muito frequente, sobretudo entre soldados romanos . Descobrir um soldado de apelido Pantera na província da Galileia por altura do nascimento de Cristo não faz desse soldado pai de Cristo.

«A Igreja ensina que, mesmo depois de dar à luz Jesus, Maria permaneceu virgem até morrer. Uma ideia estranha se pensarmos que no tempo de Jesus o conceito de voto de virgindade não existia na cultura judaica. “Permanecer virgem era impensável, todas as mulheres judias sonhavam em conceber o Messias”, explica Rui Alberto Silva.»


A dar voz aos relatos dos apócrifos, nomeadamente ao Proto-Evangelho de Tiago, José teria idade avançada quando se casou com Maria, e para permanecer virgem, bastaria que Maria não tivesse voltado a casar depois de enviuvar. Mas certos apócrifos, como o Proto-Evangelho de Tiago, não foram incluídos no cânone precisamente por conterem dados inverosímeis, e a tradição apócrifa de José ser idoso quando se casou com Maria pode representar um desses casos. Para mais, os Evangelhos são omissos quanto a este ponto.
Independentemente desta questão, o que é estranho nas palavras de Rui Alberto Silva, mesmo admitindo um contexto cultural adverso ao celibato, é que este parece sugerir que, entre o povo judeu ao tempo de Jesus, não existiria nem um só caso de uma mulher que tivesse permanecido virgem durante toda a vida!
Por outras palavras, um contexto cultural adverso a votos de virgindade não implica a total inexistência de mulheres ou homens virgens durante toda a vida!

«Outros responsabilizam o autor do evangelho por ter traduzido mal a palavra grega adelfós, que significaria primos.»


Trata-se de um equívoco: a palavra grega “adelphos” deve ser traduzida literalmente como “irmão” . Pode significar, quer um irmão biológico, quer um “irmão” na fé cristã. Os primeiros cristãos não se chamavam a si mesmos “cristãos” mas sim “irmãos” . Sem factos que o comprovem, não há razões para interpretar a palavra “adelphos” em São Marcos 6 no sentido biológico.
Em relação à frase do artigo, há ainda outro equívoco quando se diz que Marcos teria “traduzido mal a palavra grega adelfós”,: o Evangelho segundo São Marcos é já uma obra grega no seu original. Logo, o autor do evangelho escreveu-o em grego, e portanto, não fez qualquer tradução.

«Tiago seria o verdadeiro sucessor de Jesus, e não Pedro, como acabou por acontecer. Uma das provas reside no Evangelho de Tomé, descoberto no Egipto em 1945, e onde está escrito que Jesus designou Tiago como seu sucessor.»


Não se trata de uma prova: o facto de os autores do texto gnóstico intitulado “Evangelho de Tomé” atribuírem tais palavras a Jesus não prova que tal tenha ocorrido de facto. O dito Evangelho de Tomé é a segunda obra do códice II de Nag Hammadi, está escrito em copta e data do século IV. Provavelmente, foi composto na Síria. É quase certo que este texto se baseou parcialmente em textos ou fragmentos mais antigos , mas a datação e identificação das fontes usadas no Evangelho de Tomé é um tema ainda em aberto. Nenhum historiador sério afirma que este texto é da autoria do apóstolo Tomé.

Bernardo Motta

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Cardeal Egan: 1 - Nancy Pelosi: 0

Nos EUA, Nancy Pelosi atreveu-se a dizer que o aborto era uma questão opcional da consciência do católico.

A lista de bispos e arcebispos norte-americanos que já contestou esta asneira já vai em 26 nomes, como se pode ver aqui...

Vale a pena destacar as palavras do Cardeal Egan, de Nova Iorque.
Estas palavras são uma lição de coragem, de integridade, de clareza a toda a prova:

STATEMENT OF HIS EMINENCE, EDWARD CARDINAL EGAN CONCERNING REMARKS MADE BY THE SPEAKER OF THE HOUSE OF REPRESENTATIVES

Like many other citizens of this nation, I was shocked to learn that the Speaker of the House of Representatives of the United States of America would make the kind of statements that were made to Mr. Tom Brokaw of NBC-TV on Sunday, August 24, 2008. What the Speaker had to say about theologians and their positions regarding abortion was not only misinformed; it was also, and especially, utterly incredible in this day and age.

We are blessed in the 21st century with crystal-clear photographs and action films of the living realities within their pregnant mothers. No one with the slightest measure of integrity or honor could fail to know what these marvelous beings manifestly, clearly, and obviously are, as they smile and wave into the world outside the womb. In simplest terms, they are human beings with an inalienable right to live, a right that the Speaker of the House of Representatives is bound to defend at all costs for the most basic of ethical reasons. They are not parts of their mothers, and what they are depends not at all upon the opinions of theologians of any faith. Anyone who dares to defend that they may be legitimately killed because another human being “chooses” to do so or for any other equally ridiculous reason should not be providing leadership in a civilized democracy worthy of the name.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

O aborto mata?

Então o Duarte Vilar, da Associação para o Planeamento Familiar (APF), não sabe que o aborto mata?
É curioso constatar que quem passou anos a fio a montar um mau raciocínio acaba por se ver "preso" pelas palavras.
A defesa do aborto é algo de tão errado, de tão ilógico, de tão bárbaro, que a lógica também cede. Também dá de si...
Para Duarte Vilar, o aborto não deveria ser considerado causa de mortalidade...
Será então causa de vitalidade?

Lisboa, 07 Mai (Lusa) - Nos 27 países da União Europeia é feito um aborto em cada 27 segundos o que representa um milhão e duzentos mil abortos anuais, segundo um estudo sobre a evolução da família na Europa em 2008.

O documento, apresentado hoje no Parlamento Europeu, foi elaborado pelo Instituto de Política Familiar (IPF), uma entidade civil que se define como independente, não vinculada às administrações públicas, partidos políticos ou organizações religiosas.

Segundo o relatório - realizado por uma equipa multidisciplinar composta por psicólogos, demografos, sexólogos e peritos em conciliação entre trabalho e família -, a Europa é um continente velho, "imerso num Inverno demográfico" com a natalidade em crise.

Os maiores de 65 anos já superaram em mais de seis milhões os jovens de 14 anos e cada vez nascem menos crianças (quase um milhão de nascimentos menos do que em 1980).

Dois em cada três lares europeus não têm nenhuma criança e apenas 17 por cento têm dois ou mais filhos.

De acordo com o relatório, Polónia, Roménia e Alemanha são os países da Europa dos 27 com um índice de natalidade mais crítico.

Por outro lado, adianta, são praticados por ano mais de um milhão e 200 mil abortos "o que equivale a um aborto em cada 27 segundos".

"O aborto, juntamente com o cancro, é a primeira causa de mortalidade na Europa", refere o documento acrescentando que cada dia deixam de nascer na Europa 3.199 crianças.

Esta análise é criticada pelo Director Executivo da Associação portuguesa de Planeamento Familiar que em declarações à Lusa considerou "uma aberração científica classificar o aborto como uma causa de morte".

"Isso é um discurso ideológico. Nunca vi nem nunca ouvi qualquer organismo a considerar o aborto como uma causa de mortalidade", disse Duarte Vilar, uma das caras do "Sim" no último referendo em Portugal sobre a despenalização do aborto.
(...)

quinta-feira, 24 de abril de 2008

O processo contra Galileu

A motivação para escrever um trabalho sobre o processo do Santo Ofício contra Galileu nasceu do artigo Mais hipocrisias do Ricardo Silvestre (Portal Ateu) a propósito da recente decisão da Santa Sé em homenagear Galileu erigindo um busto seu.

O Ricardo criticava essa decisão, e eu comecei por comentar que não via razão de ser para tais críticas, uma vez que o caso Galileu, sendo certamente uma página triste na história da Igreja, não devia ser interpretado como um exemplo de uma presumida incompatibilidade "institucional" entre Fé e Ciência, mas sim como um acontecimento historicamente complexo e carregado de motivações pessoais e erros humanos.

Após a troca de alguns comentários, o Ricardo convidou-me para redigir um texto de resposta. Aproveitei a simpatia do convite para fazer um estudo mais detalhado sobre este tema. Rapidamente me dei conta de que era um tema verdadeiramente complexo e difícil.

Como sincero crente católico, encarei este desafio do Ricardo como uma oportunidade para dedicar algum tempo ao estudo frontal do caso Galileu. Parti para esse estudo convencido de que, no pesar das responsabilidades, caberia a Galileu alguma culpa no desenrolar dos acontecimentos. Terminado este breve estudo, concluo que é complicado atribuir a Galileu qualquer culpa objectiva, mesmo considerando a sua legítima predisposição para debates apaixonados sobre temas polémicos, como era então o da interpretação das Sagradas Escrituras à luz das recentes descobertas científicas.

Seguindo o mote evangélico tão usado pelo Papa João Paulo II, "não tenhais medo", e na linha da afirmação fundamental que encontramos no evangelista São João, "a verdade vos libertará", encaro de frente todos os erros cometidos pelos responsáveis da Igreja da qual faço parte, seguro de que tais erros, manchando o currículo de alguns responsáveis católicos, deixam intacta a sacra doutrina que me orgulho de professar.

"No Evangelho que acabamos de escutar, Jesus diz a seus Apóstolos que acreditem nele, porque Ele é «o caminho, a verdade e a vida» (Jo 14,6). Cristo é o caminho que conduz ao Pai, a verdade que dá sentido à existência humana, e a fonte dessa vida que é alegria eterna com todos os Santos no Reino dos céus. Acolhamos estas palavras do Senhor. Renovemos a nossa fé nele e ponhamos nossa esperança em suas promessas."
- Papa Bento XVI, Homilia da Missa no Yankee Stadium, Nova Iorque, 20 de Abril de 2008.

A verdade trazida por Cristo liberta. Liberta a moral do ser humano, fazendo-o viver uma vida plena e com sentido, e liberta o intelecto do ser humano, fazendo-o aceder, dentro das suas capacidades, ao âmago das verdades científicas, filosóficas e teológicas. Um aprofundar do conhecimento nestas várias áreas do saber revelará, ao estudioso persistente e humilde, a existência de uma unidade explicativa fundamental que dá sentido a tudo. Os cristãos chamam a essa unidade explicativa o "logos", que serve à vez como termo grego para "Palavra" (ou "Verbo") e para "Razão".

Um católico não deve ter medo de reconhecer nem os seus erros pessoais nem os erros dos seus irmãos na fé, uma vez que não existe católico (nem ser humano) que não cometa erros. É base fundamental do cristianismo o exame de consciência, o reconhecimento dos erros, a esperança do misericordioso perdão divino, dessa palavra de salvação que simultaneamente nos liberta e nos abre o intelecto. Que nos abre o caminho para a plena realização humana.

Em suma, terminada esta introdução pessoal, eis as ideias-chave que queria apresentar sobre o tema...

1. A maioria dos ateus partilha de uma opinião errada sobre o caso Galileu: segundo essa opinião, o processo contra Galileu representaria um choque inevitável entre uma concepção atrasada do mundo porque religiosa, e uma concepção avançada do mundo porque científica; a religião vista como o domínio das "trevas", de um poder eclesiástico dominador e autoritário, que oprimia os cientistas.

2. Quase nenhuma das pessoas que partilha desta opinião alguma vez folheou os arquivos do processo; logo, tal opinião é, nada mais, nada menos do que, propaganda; alguma desta propaganda já tem mais de um século de idade.

3. Os arquivos do processo contra Galileu não estão completos: falta documentação; por exemplo, Napoleão mandou trazer os arquivos de Roma para Versalhes, e só várias décadas mais tarde é que eles foram recuperados; no entretanto, valiosos documentos, indispensáveis para reconstituir os acontecimentos, foram destruídos ou perdidos.

4. Os arquivos do processo contêm muito material em segunda mão: cópias de cartas, cópias de documentos oficiais, etc; logo, há que ter muito cuidado com a sua análise; nem sempre o que lá se lê deve ser tomado à letra.

5. Durante a vida de Copérnico, as suas ideias e obras não foram censuradas; a colocação da obra "De Revolutionibus" de Copérnico no Índex dos livros proibidos só ocorre no tempo do processo contra Galileu.

6. Galileu foi sempre um homem de fé; provavelmente, amou mais a Igreja e as verdades da Fé do que os seus adversários, mesmo os eclesiásticos.

7. O Cardeal Bellarmino, figura importante durante a primeira fase do processo (1615-1616), afirmou que estava disposto a rever a interpretação de certas passagens das Escrituras, caso surgissem provas definitivas do modelo heliocêntrico (provas que Galileu ainda não tinha), e que nessa situação, seria preciso agir com cautela, procurando corrigir os erros interpretativos do passado.

8. O caso Galileu não se compreende sem estudar primeiro dois importantes acontecimentos, o Concílio de Trento (1545-1563) e a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648). Só se entende o contexto das atitudes tomadas pelo Santo Ofício e pelo Papa tomando em consideração o surgimento da Reforma protestante e o movimento católico de reacção da Contra-Reforma, vincado no Concílio de Trento. A Guerra dos Trinta Anos ajuda a compreender o complexo tecido político de alianças e guerras menores que marcavam o pano de fundo da Europa do tempo de Galileu.

9. O processo contra Galileu está repleto de erros e fragilidades: as provas contra Galileu não são conclusivas e, no entanto, ele recebe em 1633 uma dura e injusta pena de prisão domiciliária até ao fim da sua vida.

10. O móbil do processo está fortemente ligado às variadas inimizades que Galileu foi coleccionando ao longo da vida; os seus inimigos não o conseguiram prejudicar em 1616 porque Galileu tinha amigos poderosos, e por isso, nessa primeira fase, ele não foi condenado; em 1632-33, os amigos importantes de Galileu tinham quase todos morrido, ou tinham sido arredados dos centros de poder e de decisão devido à sua incompatibilização com as posições defendidas pelo Papa relativamente à Guerra dos Trinta Anos e à guerra sucessória em Mântua (1627-1630).
Galileu, em 1632-33, ficou à mercê das denúncias e das difamações que se montaram contra ele ao longo dos anos, e não havia ninguém com influência eclesiástica para o proteger de um processo comandado pelo Santo Ofício.

11. Para além dos erros processuais, um dos grandes equívocos da Igreja foi o de não reconhecer logo após a morte de Galileu que tinham sido cometidos erros graves; um "arrastar" nos séculos que se seguiram de uma atitude proteccionista em não reconhecer estes erros explica a enorme duração histórica desta polémica.

12. Para mais, o caso Galileu foi tomado e aproveitado ao longo dos séculos seguintes, e ainda o é hoje em dia, por pessoas vincadamente anticlericais e anticatólicas, como poderosa arma de propaganda. Foi assim que se propagou a ideia de que o caso Galileu mostraria que a Fé cristã seria incompatível com a Ciência. Este tipo de propaganda ainda é, nos nossos dias, eficazmente veiculada aos alunos do Ensino Secundário, que não recebem a necessária preparação histórica, científica e filosófica para se poder lidar com as complexidades deste caso.

CONCLUSÃO:

a) a tradição cristã (p. ex., em São Tomás de Aquino ou Santo Agostinho) consolidou a necessidade de ajustar as interpretações das Escrituras às verdades científicas; para o cristão, não há incompatibilidade entre verdades de Fé e verdades da Ciência, porque o verdadeiro não pode contradizer o verdadeiro;

b) o processo contra Galileu foi um grave erro disciplinar; como o Papa Urbano VIII não se pronunciou "ex cathedra", porque o julgamento foi sobre matéria disciplinar e não doutrinária, não se aplica a infalibilidade papal; de modo análogo, a colocação de obras em defesa do heliocentrismo no Índex de livros proibidos não possui o carácter positivo de uma afirmação sobre doutrina de fé e moral cristãs, pelo que também não se enquadra no contexto da infalibilidade papal, e tratam-se assim de decisões que podem ser reformadas ou revogadas.

A Santa Sé reconheceu os erros e a injustiça do processo contra Galileu (Papa João Paulo II - 1992).
Este reconhecimento, há muito necessário, não invalida a infalibilidade do Papa em matéria de doutrina e moral.

O Papa Bento XVI segue a mesma leitura de João Paulo II: rejeitou, por exemplo, a opinião do ateu Feyerabend, que considerava que o julgamento de Galileu fora justo. Esta rejeição das ideias de Feyerabend foi entendida em sentido oposto pelos equivocados signatários da recente petição na Universidade de Roma, La Sapienza, contra a vinda do Papa àquela instituição.

O processo contra Galileu, bem como alguns acontecimentos contemporâneos ligados ao tema, estão expostos cronologicamente num texto que fica permanentemente disponível na lista de artigos que consta da margem direita deste blogue.

Bernardo Motta

segunda-feira, 24 de março de 2008

O problema do Opus Dei

Precisamente porque João César das Neves consegue de forma magnífica colocar por escrito aquilo que eu penso acerca desta matéria, transcrevo uma parte do seu artigo de hoje, no Diário de Notícias:

«O Opus Dei anda nas bocas do mundo. Não bastava a fama antiga de manipulação, agora perdeu um banco, que é negligência de monta. Qual será o problema do Opus Dei?

Como todos os mitos urbanos, a teoria da relação entre a Prelatura e o BCP levanta mais questões do que resolve. Como se pode deixar escapar um banco daquele tamanho assim tão facilmente? Quais eram afinal os poderes ocultos que, de forma tão dramática mas silenciosa, foram derrotados? Não devemos temer mais a Maçonaria, que alegadamente ganhou o negócio, que o Opus Dei, que nem sequer teve força para o conservar? Afinal, não será toda esta confusão de poderes escondidos um enorme disparate, tendo tido o BCP apenas uma zanga habitual entre administração e accionistas?

Mas o problema da Prelatura do Opus Dei vai mais fundo. Toma-se consciência disso ao vermos "acusados" de serem da Obra muitos leigos só por se afirmarem publicamente como cristãos, mesmo sem nada a ver com ela, como eu. Em particular, são-lhe atribuídos todos os católicos "conservadores", entendendo-se por esta palavra aqueles que querem seguir a doutrina cristã como ela é. Ser fiel ao Papa e à Cúria, acreditar nos Evangelhos, Credo e obras dos Padres, recusar as patranhas que os críticos do momento inventam, isso hoje é ser conservador e automaticamente do Opus Dei.

Um cristão é tolerado desde que não se note que o é.

No fundo, esse problema é o mesmo que vários outros grupos católicos foram tendo ao longo dos séculos. Em todas as épocas a Igreja sempre defrontou inimigos poderosos. Esses gostavam de isolar uma pequena secção de crentes para a mimosear com o pior das suas fúrias. Há cem anos eram os jesuítas; há 500 os dominicanos; hoje é o Opus Dei. Estes têm a honra da escolha do inimigo. (...)»
(negrito meu)

domingo, 23 de março de 2008

A noite das noites

Se a missa é o centro gravítico do cristão, a da Vigília Pascal é o centro gravítico de todas as missas. Esta é a noite das noites, porque em torno dela gira todo o ano litúrgico.

A cerimónia principia com toda a igreja às escuras e em silêncio.

A ausência de luz e de som traz aos presentes a experiência do sepúlcro.

Há mais de 2.000 anos, numa sepultura escavada na rocha, na Cidade Santa de Jerusalém, num Sábado de Páscoa, jazia um corpo morto, na mais profunda escuridão e pesado silêncio.

Foi nessa noite de Sábado, desde então dito de Aleluia, que, do meio da escuridão sepulcral, saiu uma luz. O corpo morto de Jesus Cristo regressou à vida.

É esse o acontecimento central do cristianismo, e atrevo-me a dizer, da Humanidade. Porque a vitória de Cristo sobre a morte prefigura a nossa própria vitória, enquanto seres humanos, sobre a morte natural e sobre a morte espiritual.

Não é fácil ficar-se indiferente a este acontecimento: por ele, muitos dedicaram e dedicam a sua vida a Cristo. Contra ele, muitos outros dedicaram e dedicam a sua vida a tentar negá-lo ou ignorá-lo.

Essa luz é inesgotável. Do mesmo modo que o círio pascal, no início da cerimónia, espalha a sua luz a todas as velas sem ele mesmo perder o seu brilho, e iluminando deste modo toda a igreja, também a luz da Ressurreição de Cristo se espalha por todo o Universo sem perder o seu brilho, e iluminando toda a Criação.

Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa fé, e os cristãos são as mais miseráveis das criaturas.

Por outro lado, se Cristo ressuscitou, é então em vão que se nega este acontecimento central. Porque a luz de Cristo dissipa todas as trevas do erro e do pecado, e a verdade aparece tal qual ela é. Por essa mesma razão, Deus fez-Se Homem, morreu por nós, lavou os nossos pecados, e ressuscitou, para Se nos mostrar como Ele é.

Cristo ressuscitou!
Aleluia!

terça-feira, 18 de março de 2008

Ainda o anti-clericalismo maçónico?

Quando se poderia pensar que nas hostes maçónicas a febre anti-católica estava a serenar, considerando que a animosidade anti-maçónica está relativamente calma na nossa sociedade, aparecem situações caricatas como esta.

O jornalista e fotógrafo Inácio Ludgero (um excelente fotógrafo, diga-se sem ironia), que também é maçon, apresentou ontem a obra "Dicionário de termos maçónicos", do autor Pedro Manuel Pereira.

A notícia da RTP que dá conta deste acontecimento é de se pasmar, por aquilo que Ludgero disse aos "media". Vejamos alguns excertos da notícia:

«"Somos e seremos uma República. Conquistámos esse direito gloriosamente a 5 de Outubro de 1910, e agora dar voz a uma minoria, que nem sabe quem é o seu verdadeiro Rei, é uma pura perda de tempo, um disparate sem sentido", afirmou Inácio Ludgero, que hoje apresenta em Lisboa o "Dicionário de Termos Maçónicos", de Pedro Manuel Pereira.»


Até aqui, tudo mais ou menos bem. Ludgero assume-se republicano convicto. Isso é razoável. No entanto, é sempre desagradável que perca o sentido democrático ao considerar o debate público sobre a forma de regime "uma perda de tempo" ou "um disparate". Se a sociedade portuguesa, concedo que num futuro remoto, quisesse debater a questão, ecoariam as pesadas e anti-democráticas palavras de Ludgero: "uma pura perda de tempo, um disparate sem sentido". Aliás, pertence ao clássico espírito de muitos maçons a ideia de que a elite iluminada dos "iniciados" é competente para esclarecer o povo "profano" acerca do que, segundo eles, é ou não disparate.

O "iniciado" diz: "Monarquia é disparate", o "profano" ouve e cala... "Democracia" maçónica no seu melhor...

«Aproveitando a apresentação do livro, Inácio Ludgero fez questão de prestar homenagem a Manuel dos Reis Buíça e Alfredo Luís Costa, os autores dos disparos que mataram o rei D. Carlos e o príncipe herdeiro D. Luís Filipe, no dia 01 de Fevereiro de 1908.
"Quero prestar homenagem a estes dois cidadãos impolutos, que sendo assassinados, matando (...) foram capazes de mudar o rumo da história pela Pátria e pela República", afirmou, defendendo que "nas revoluções pela Liberdade tem de haver mortes".»


Aqui é que o caldo se entorna. Este texto deplorável é bem claro: Ludgero faz a apologia do assassinato político. Enquanto que as solenidades do Grande Oriente Lusitano se esforçaram e esforçam tanto para passar a imagem de que não se associam ao regicídio e que repudiam o assassinato político como ferramenta de "trabalho" revolucionário, eis que Ludgero não tem papas na língua: "tem que haver mortes".
Bonito...
«Igualdade, Liberdade, Fraternindade!», mas com sangue.

Mas a "pièce de résistance" está mais adiante, numa não assumida profissão de anti-catolicismo, como sempre, usando a clássica separação maniqueísta entre os bons "católicos" e os maus da "hierarquia da Igreja":

«Vincando a sua condição de maçon assumido, Inácio Ludgero sublinha que os inimigos da Maçonaria "não são nem os monárquicos, nem os católicos, ou de qualquer outro credo, ateus, ou Homens que sejam de qualquer raça ou partido".
"Os verdadeiros inimigos da Maçonaria são os membros de uma seita que dá pelo nome de Opus Dei e quem os apoia, a Igreja Católica, Vaticano com seu papa, no seu profundo reaccionarismo intolerante e racista (onde a mulher nada vale) e todos os ditadores que ainda governam neste nosso mundo", disse.»


Aqui está patente a demonização do Opus Dei (é que já nos tínhamos esquecido do Dan Brown e há que ressuscitar os fantasmas que fizeram sucesso há poucos anos), a identificação do Opus Dei com um Papado maligno, com uma hierarquia "intolerante e (sic) racista"! Será que Ludgero quereria dizer "machista"? Nem assim acertaria no seu juizo preconceituoso, mas ao menos usava um termo lógico.

Tudo isto é da mais pura fantasia, porque quando o Opus Dei foi criado já a Maçonaria contava com mais de um século de actividade anti-católica notória, e já havia nas fileiras católicas muitos e bravos anti-maçons a reagir a essas ofensivas.

O catolicismo é incompatível com a Maçonaria. Ponto.
É bem certo que a sobrevivência da Igreja às investidas anti-católicas dos séculos XIX e XX é uma das maiores frustrações destes "engenheiros sociais" que quereriam ter trocado o catolicismo pelo jacobinismo. Mas a Igreja está para ficar. E isso nada tem a ver com pretensas teorias conspiratórias que apontem o Opus Dei (ou antigamente, os Jesuítas) como arqui-inimigos da Maçonaria.

A questão não tem a ver com inimizade, pelo menos do lado católico. Não se trata de questões de amor ou ódio. Trata-se de defender a verdade. A Igreja e a Maçonaria têm noções diametralmente opostas acerca do que é verdadeiro. E isso é irreconciliável.

Alguns maçons mais intempestivos e desbocados bem podem procurar demonizar a hierarquia da Igreja ou o Opus Dei. Mas ainda há muitos católicos atentos, categoria na qual me incluo, que não pertencem ao Opus Dei (apesar de lhe reconhecerem virtudes inegáveis), pelo que não podem ser acusados de defender causa própria, e ao mesmo tempo nem aderem a teorias conspiratórias acerca desta organização ou da hierarquia da Igreja, nem têm qualquer apetência pelos ideais maçónicos. A visão simplista, redutora e maniqueísta de Ludgero, simplesmente, não cola.

Parece claro que Ludgero quer fazer uma aproximação "amiga" aos "monárquicos" e aos "católicos", ao afirmar que não são eles os verdadeiros inimigos da Maçonaria. Face a esta aproximação atrevida, há que dizer-lhe em voz alta que não é previsível que qualquer bom monárquico (eles sabem bem quem lhes matou o Rei) ou que qualquer bom católico (eles sabem bem de que é feita a cartilha maçónica) alinhe com alegria neste neste "convite" do maçon Ludgero...