A coerência, como valor pessoal e intelectual fundamental, está fora de moda.
Muitas figuras públicas, sobretudo nos meandos da política, são descaradamente incoerentes, e não se preocupam por aí além.
Hoje em dia, é sobretudo valorizada a dissidência, ou seja, uma espécie de atitude de "jovem rebelde" ou "livre-pensador". A coerência passa para segundo plano, ou sai mesmo de cena. O que deve fazer um eleitor que procure, hoje em dia, um político coerente em quem depositar o seu voto?
«É um católico mesmo praticante? Vai à missa?
Sim, mas sou um progressista, não me revejo na moral de costumes da Igreja Católica, na não ordenação das mulheres, no não casamento dos padres.»
É realmente espantoso que seja católico (mesmo da tal estirpe especial e minoritária dos "praticantes") e não se reveja em questões importantes da doutrina da Igreja.
É caso para perguntar: porque escolheu a Igreja Católica, quando há outras religiões que não apresentam a Paulo Rangel as objecções que ele levanta?
«Defende o casamento dos padres?
Em primeiro lugar defendo a ordenação das mulheres. Não compreendo que hoje, 2009, a Igreja tenha esta restrição. Olhe, o São Paulo, que tem aura de ser um autor sexista, em grande parte das igrejas que fundou as chefes eram mulheres. O que revela bem que o estatuto da mulher não era assim tão subalterno quanto pode parecer da leitura de alguns textos.» (negrito meu)
Este trecho é uma contradição.
Paulo Rangel defende a ordenação das mulheres na Igreja Católica, e logo a seguir, diz que "não compreende" essa restrição. Se não a compreende, como pode ser contra ela? Trata-se de simples lógica: se não compreende uma tese T, então não pode concordar com T nem com a sua negação: simplesmente não pode ter uma posição enquanto não compreender a tese T, e decidir a seu favor ou contra ela.
Outra erro terrível para qualquer católico é o de considerar que o sacerdote é um "chefe". É perfeitamente normal que São Paulo tenha dado responsabilidades de chefia a mulheres, mas isso não fez delas sacerdotes. As funções de sacerdote não são as funções de um "chefe".
«Na Igreja é [subalterno, o papel da mulher].
Na igreja institucional, sim. Mas com Jesus Cristo não. Tudo o que se conhece até aponta para um certo escândalo por ele ter mulheres apóstolas. E São Paulo também, curiosamente.»
Paulo Rangel diz que, na Igreja Católica institucional, o papel da mulher é subalterno. O que, mais uma vez, nos faz pensar porque razão terá Paulo Rangel escolhido uma religião machista para dela fazer parte. Mas, mais uma vez, Paulo Rangel erra, ao considerar que o papel da mulher na Igreja Católica é subalterno, e pelas razões atrás mencionadas: o sacerdote não é um "chefe".
«Concordou com a despenalização do aborto?
Eu estou de acordo com a posição da Igreja quanto ao aborto e à eutanásia. No resto não. Nos anticonceptivos sou um radical activista contra as posições da Igreja. Na moral sexual em geral sou contra: casamento, divórcio, a questão dos homossexuais.»
Paulo Rangel, aqui, usa a Igreja Católica como um supermercado. Vai ao corredor procurado, retira as partes que deseja, deixa o resto de parte. Uma religião "self-service". Note-se que Paulo Rangel, para além de se afirmar como um "radical activista" diz que na moral sexual, em geral, é contra as posições da Igreja. De novo, surge a teimosa pergunta: então, se é contra, porque razão escolheu a Igreja Católica?
«Defende o casamento gay?
Não é uma coisa que eu defenda hoje. Defendo uma instituição à parte.
A solução inglesa?
Um instituto análogo ao casamento. Para a sociedade portuguesa seria a melhor solução agora. Não porque eu não reconheça o direito? Eu percebo muito bem as reivindicações dos activistas e das activistas dos movimentos gay, mas acho que sociologicamente também temos que respeitar as convicções da maioria da população portuguesa, que é muito conservadora nesta matéria. Temos de encontrar um equilíbrio. A terceira via é um bom equilíbrio. Aliás, nas associações activistas há uma certa contradição. Elas dizem: agora falamos em casamento e mais tarde na adopção, é preciso um primeiro passo. Mas eu acho que é preciso um primeiro passo antes do casamento. Se aceitássemos a teoria gradualista, criavam- -se menos fracturas.»
Disfarçada sobre a capa de "respeito" pelas "convicções da maioria da população portuguesa", está uma escandalosa arrogância: a de pensar que a sociedade portuguesa ainda é "muito conservadora nesta matéria", o que é o mesmo que dizer que ele, Paulo Rangel, e os que pensam como ele, estão do lado do progresso, e que é só uma questão de tempo até os "atrasados" apanharem o comboio do progresso.
Outro problema para o Paulo Rangel católico: os católicos não se opõem ao "casamento gay" apenas porque isso "usurparia" uma palavra que lhes é cara. Eles opõem-se ao "casamento gay" porque se opõem à homossexualidade como tendência imoral, ou seja, errada.
«Mas eu percebo que há aqui questões sociológicas, de respeito pelas convicções dominantes na sociedade. E também têm de ser tidas em conta, não há aqui só direitos de uns. Prefiro uma engenharia social gradual. Mas acho que é aqui, na relação com os homossexuais, que a Igreja deveria abrir mais. Em toda a moral sexual é preciso uma grande renovação na Igreja. E há coisas que não compreendo de maneira nenhuma: a ordenação das mulheres, o casamento dos padres, a questão dos anticonceptivos, não percebo como é que se consegue continuar com este discurso.» (negrito meu)
Para além de uma linguagem metafórica ridícula (a da Igreja "fechada" e "aberta"), que se aplica a portas e janelas, e não a uma doutrina, Paulo Rangel mostra, neste trecho final, a incoerência apontada atrás: na mesma frase, sugere alterações profundas para a Igreja Católica, ao mesmo tempo que usa repetidamente expressões como "não compreendo" e "não percebo".
Recomendo a Paulo Rangel a consulta urgente do Catecismo da Igreja Católica.