THE KENNEDY FUNERAL: BOSTON'S LATEST SCANDAL
(recebido via Infovitae)
"Mas, no íntimo do vosso coração, confessai Cristo como Senhor, sempre dispostos a dar a razão da vossa esperança a todo aquele que vo-la peça" - Primeira Carta de São Pedro, cap. 3, vs. 15.
quinta-feira, 10 de setembro de 2009
sábado, 5 de setembro de 2009
Sofisma "gay"

(Max Mutchnick - fonte: http://www.proudparenting.com, obtida da Internet Movie Database)
«Sofisma. 1. Raciocínio ou argumento intencionalmente falso, com aparência de verdadeiro, com o qual se pretende enganar alguém. 2. Engano, logro.», - Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências (Verbo).
A palavra "gay" dispensa definições...
Vou criticar um texto publicado num site "gay & lesbian friendly" cujo nome eufemístico é "Proud Parenting". Faz sentido. Orgulho "gay". Parentalidade orgulhosa. Faz?
(O autor é Max Mutchnick, criador e produtor executivo da série televisiva "Will & Grace". Confesso que, por várias vezes, vi episódios dessa série, e até me ri de algumas das piadas. É bem sabido que, hoje em dia, nos canais televisivos dedicados a séries, há uma grande fatia de séries "gay & lesbian friendly". A tendência é descarada e assumida. "Will & Grace" é uma série muito inteligente, com sentido de humor, e cheia de propaganda "gay & lesbian". O humor é uma arma poderosa. Como em todas as séries de grandes audiências feitas com essa intenção "educativa", a coisa está tão bem feita que conseguimos ver os episódios, rimo-nos das piadas, e nunca nos vêm à cabeça as perversões sexuais que os casais "gay & lesbian" fazem debaixo dos lençóis - a coisa sexual está completamente edulcorada: como se o público a ensinar fosse infantil - e de facto é, visto que, sendo um público heterossexual, está ainda nos primeiros anos da formação "gay & lesbian")
Max Mutchnick relata uma situação vivida num aeroporto por si e pelo seu "companheiro" Erik, a quem ele se refere como "husband". Max, Erik, e duas gémeas de colo, dirigiam-se ao controlo de segurança do aeroporto quando foram interpelados por um segurança. Como se pode verificar pelo relato de Max, o segurança olhava perplexo para aquele grupo improvável: dois homens adultos acompanhados por dois bebés do sexo feminino.
Pelo texto, é fácil constatar a arrogância de Max, que do alto da sua popularidade "hollywoodesca", trata o segurança como se este fosse um anormal. Ora, o segurança apenas está a tomar contacto com as chamadas "novas realidades da família moderna". Nesta história sinistra, o segurança representa aquele que Chesterton apelidava de "the common man", ou seja, ele representa o senso comum da pessoa comum.
O que eu pretendo, com este meu texto, não é qualquer tipo de despudorado ataque homofóbico, aliás incompatível com a mais elementar caridade cristã, que nos inclina moralmente a tratar com misericórdia (com a "miséria do outro" no coração) toda e qualquer pessoa cuja vida seja vivida em profundo erro. Nesse sentido, olho para Max Mutchnick como quem olha para uma tragédia humana, e infelizmente, há tantas. Devemos sentir real e sincera compaixão por pessoas nesta situação. (Propositadamente, escrevi "por pessoas nesta situação", e não "por pessoas assim").
No entanto, a compaixão não obriga ao silêncio perante sofismas e soberbas. O facto de Max ter sido, neste episódio, um arrogante de primeira, e de ter exercido a sua arrogância aplicando um manhoso sofisma ao desgraçado do segurança, permite-me, a mim e a qualquer pessoa que preze a decência e a inteligência, escrever esta crítica.
Ora vamos ao cerne da questão...
O segurança estava então muito curioso com aquela singela "família"...
E, de forma espontânea, o segurança pergunta a Max:
"Where did you get your kids?"
E vem a resposta superior de Max:
"I made them."
Certamente perante o olhar estupefacto do segurança, Max dá, ali mesmo, uma aula ao segurança acerca de "gestacional surrrogacy". Ele mesmo o diz. O que completa o quadro professoral de soberba do sofista "gay".
«There's a donor. She gives us the eggs. We never meet her. She is not the "mom". There is no mom. There's a surrogate. She's the oven.»
E aqui temos o sofisma.
Escarrapachado.
Sem vergonha.
Não há "mãe", ensina Max.
Ela é apenas "o forno", ensina Max de forma complacente para com o segurança.
Ora isto é uma mentira científica. Uma mentira biológica. Uma mentira.
O genoma de qualquer ser humano, mesmo das desgraçadas das crianças adoptadas por "casais LGBT" é composto por 50% de genes provenientes de um espermatozóide, e por 50% de genes provenientes de um óvulo.
Se há coisa certa, ó Max, é que as gémeas que tinhas ao colo têm mãe!
Mas é também útil olhar para a metáfora escolhida por Max para a mãe das crianças: ela é "o forno". Alguém mergulhado na cultura LGBT poderia dizer que o Max estava apenas a simplificar uma questão complexa e sofisticada para que o bruto do segurança a compreendesse. Mas não estamos perante apenas uma simplificação. Estamos perante uma mudança de contexto. Max não está apenas a simplificar um processo gestacional. Está a desnaturá-lo.
Ao referir-se à mãe das crianças como "o forno", ele trai claramente o que lhe vai dentro da cabeça: a "coisificação" de pessoas. Se ele "coisifica" a mãe, tornando-a num forno, então coisifica (talvez inconscientemente) as crianças que adoptou, talvez encarando-as, quem sabe, como patos à Pequim ou cataplanas de marisco. As crianças que Max e "companheiro" trazem ao colo não são fruto do amor dos seus respectivos pais pela mãe. São fruto do capricho humano: são coisas que eles compraram. E como deve ser caro o processo técnico que eles seguiram para as obter...
É assim que Max, tentando simplificar a linguagem para o bruto, trai o seu pensamento e revela a sua filosofia desumana, que "coisifica" pessoas.
Mas a aula ainda não tinha acabado...
«(Giants prefer short sentences with small words).»
Este é o "à parte" cínico e arrogante de Max. Já todos sabemos que aqueles que não querem entrar no autocarro "LGBT" são, no mínimo, burros, e no máximo, homofóbicos cheios de ódio.
«My husband and I (the Giant winced) fertilized four eggs. They went inside the surrogate. Two of the eggs took.»
Os outros dois ovos fertilizados, que se lixe, certo, Max?
Mas aqui temos mais erros concretos: Max não fertilizou nada. Nem Erik. Eles doaram espermatozóides, e algum técnico de laboratório fez a fertilização dos óvulos da mãe com os espermatozóides de Max e Erik. É também por esta causa que a frase de Max referida atrás, "We made them.", é também ela uma mentira clara. As crianças foram feitas em laboratório. E cresceram e desenvolveram-se dentro da barriga da "mãe", o "forno".
«Fraternal twins were born 8 months and two weeks later. One of them was biologically his. One of them was biologically mine. But they're both ours, you know?»
Bom... Lamento, mas é necessário voltar a tocar a campainha da lógica.
Supondo que a precisão científica deste complexo processo gestacional foi rigorosamente controlada, e que Max e Erik sabiam exactamente que os dois ovos que se fixaram eram realmente, um cuja paternidade era de Max e outro cuja paternidade era de Erik, ou seja, tomando esse rigor como certo, ainda é preciso salvar a lógica: se isso é verdade, uma das crianças é filha de Max, a outra é filha de Erik, e são ambas filhas da sua mãe, "o forno". Mas não é muito lógico dizer que a filha de Max é filha de Erik, ou vice-versa. A não ser que Max se refira a uma paternidade afectiva, o que é algo diferente, mas Max não explica essa diferença na sua aula.
«You can do that?»
Pergunta o segurança, claramente vítima, também ele, do deslumbramento tecnológico que faz quase toda a gente olhar para novas técnicas de fertilização e gestação como uma criança olha para uma caixa de X-Men...
Max terá sorrido com benevolência: "You can!".
Se se pode fazer, que mal tem?
Em breve nos cinemas (será que cá também?)
«We had a whole plan to sell abortions: it was called Sex Education. Break down their natural modesty. Separate them from their parents and their values and become the sex expert in their lives, so they turn to us, when we would give them a low-dose birth control pill they would get pregnant on, or a defective condom.
Our goal was three to five abortions from every girl from the ages 13 to 18.»
- Carol Everett, antiga proprietária de quatro clínicas de aborto em Dallas, no Texas, E.U.A.
domingo, 9 de agosto de 2009
Progressistas e Conservadores
Um dos mais preocupantes sinais de esquizofrenia colectiva consiste em usar palavras cujo significado já se perdeu, ou em usá-las com um significado novo e ilógico, porque nada tem a ver com a sua etimologia.
O "progressista" e o "conservador" surgem assim, a partir do século XIX (e a moda não passa de moda), como dois dos mais irritantes adjectivos de uso comum. Irritantes porque, de tanto e mau uso, tornaram-se em palavras ocas. Todos as usam, e ninguém se dá conta da tontice.
Estes adjectivos nasceram na política, e da política. O "conservador" era, e ainda é, associado com a chamada "direita" política, e o "progressista" com a chamada "esquerda". Escusado será dizer que "direita" e "esquerda" são, também eles, termos muito irritantes, cuja frequência de uso é directamente proporcional à vacuidade do discurso onde surgem inseridas.
Tudo isto é muito pateta. Porque, na verdade, não é nada recomendável alguém ser conservador. E não é mais recomendável alguém ser progressista.
É o mesmo tipo de tontice daquele maluco que é pelo olho direito, ou daquele residente do hospital psiquiátrico que diz que prefere o rim esquerdo.
Como dizia o Chesterton, e como é bem sabido, a ocupação do progressistas consiste em fazer asneiras e a dos conservadores consiste em evitar que elas sejam corrigidas.
Eu acrescentaria que a paranóia do progressista está em preferir o novo porque é novo (mesmo que seja algo muito mau) e a paranóia do conservador está em preferir o velho porque é velho (mesmo que seja algo muito mau).
Evidentemente, não existem progressistas, como não existem conservadores. Quando muito, existirão nalguma ala psiquiátrica, afectados por alguma patologia rara. Mas, cá fora, simplesmente não existem.
Porque até o progressista mais radical e mais fanático é o primeiro a reconhecer a rotina conservadora do seu banho frequente (já nem digo diário, mas apenas frequente): é quase certo que o progressista não consegue inovar no que toca às partes do corpo que tem que lavar todos os dias: nessa matéria, e em muitas outras, não há progresso possível: um braço é sempre um braço e tem que ser limpo, um pé é sempre um pé, e claramente tem que ser limpo. E assim por diante, numa conservadora monotonia, mas que conserva o progressista num estado socialmente apresentável.
Já o conservador mais radical e mais fanático não tem como fugir ao facto de que, com a devida rotina, há que progredir da roupa suja para a roupa lavada. Sentirá, certamente, uma raiva contra a mudança que lhe vem do seu obstinado conservadorismo, mas conservador que se preze não é socialmente apresentável se não trocar de vez em quando a sua roupa suja por roupa lavada.
Alguém distraído pensaria agora que é a higiene que une o progressista ao conservador, mas é preciso ir mais além. O exemplo que dei mostra, claramente, que a higiene pode ser uma ponte entre progressistas e conservadores, mas a coisa é mais profunda. É agora o momento certo para se fazer uma revelação bombástica...
É que... na verdade... o ideal seria mudar do mau para bom, ou seja, ser progressista para melhor, e o ideal seria também, e ao mesmo tempo, manter o bom, ou seja, ser conservador face ao melhor.
Por isso, a pessoa equilibrada é progressista para melhor e conservadora face ao melhor. E então, a pessoa equilibrada, dotada do mais elementar bom senso, não se atreve a proferir esse disparate que é o de se intitular progressista ou conservador.
Os mais que simpáticos visitantes deste blogue, esse raro mas valioso grupo de apoiantes, já devem estar neste momento a pensar porque razão ainda não meti nenhum ingrediente religioso, visto que neste blogue quase só se fala de religião. Mas já vem aí, o ingrediente religioso...
É que, se é certo que há pessoas que vêem tudo do ponto de vista religioso (eu sofro dessa obsessão), há também pessoas que vêem tudo do ponto de vista político. Sabendo de antemão que há muita gente que diz que há assuntos para os quais a religião não é chamada, atrevo-me a dizer, de outro ponto de vista, que há assuntos para os quais a política não é chamada (escândalo!). É verdade. É que há mesmo assuntos desses...
Por exemplo, quando os "media", ou a opinião pública (tantas vezes andam de mãos dadas), falam sobre religião, costumam dizer "este bispo é conservador", ou então "aquele padre é progressista", ou ainda "venceu a ala conservadora do Vaticano", ou então "a Igreja precisa de um Papa mais progressista". Tal esquizofrenia é doentia e intoxicante. Porque acharão que uma Igreja deve ser analisada com ferramentas clássicas (mas não por isso inquestionáveis) da política?
Todo este texto vai então, descaradamente, desembocar nesta afirmação peremptória: não há católicos progressistas. Nem há católicos conservadores. Há católicos. Ponto final. E depois há católicos com problemas de identidade (ah, se os há!).
É que, mais uma vez, os epítetos de "progressista" e de "conservador" mostram-se incapazes de ajudar-nos a compreender realidades complexas. Porque, claramente, não servem para classificar pessoas. Logo, não servem como adjectivos aglutinadores de pessoas parecidas, se nem sequer acertam na classificação de uma só pessoa que seja.
Por exemplo: os teólogos chamados de "progressistas" nos anos 60 andavam todos entusiasmados com a ideia de abolir o dogma. Pregaram até à exaustão a liberdade de consciência do leigo, a sua autonomia e o seu inegável direito até a decidir a própria doutrina católica, ou a doutrina católica que cada um queria para si. Foram idolatrados e adorados, estes teólogos. Depois, ficaram sem audiência. Os leigos foram-se embora. Os seminários por eles orientados ficaram vazios. Dos alunos por eles ensinados, poucos seguiram vocações. Foi o deserto.
A certa altura, a Igreja entendeu pôr fim a essa patetice do "teólogo progressista", cujo problema não era ser teólogo, mas sim achar-se, e ser visto como, progressista, visto que, como vimos, não há pessoas progressistas nem conservadoras. Que não haja a mais pequena dúvida de que a Igreja tem a mesma tenacidade em querer acabar com os "teólogos conservadores", ou seja, gente a querer manter as coisas na mesma só por serem antigas. Se assim não fosse, espécimes raras como as de teólogos a defender a escravatura ou a defender os autos-de-fé ainda andariam por aí a ensinar cursos de Teologia.
(Note-se que, mais uma vez, o teólogo "conservador" em fim de carreira, que defendia obstinadamente coisas indefensáveis, fazia parte da mesma estirpe que, em tempos, apresentara essas coisas indefensáveis como "progresso")
Mas o que é irónico constatar, hoje em dia, é que o "teólogo progressista" dos anos 60, ainda cheio de ímpeto durante os anos 70 e 80, hoje em dia é um dinossauro fossilizado. Uma Igreja nova, rejuvenescida, que sabe desmontar os disparates do chamado "espírito do Concílio" (totalmente contrário ao que realmente se passou e decidiu no Concílio), realmente sobreviveu às paranóias de alguns (a certa altura, muitos) teólogos "progressistas". E, hoje em dia, o "progressista" passou a ser visto por muitos como um "conservador", como alguém que se opõe tenazmente às orientações realmente progressistas (no sentido de ir do pior para o melhor) de Roma. Visto que tal estirpe de teólogo optou, no seu tempo de juventude, por criar uma teologia individual e própria, essa teologia individual e própria envelheceu e definhou, como todas as coisas que não são eternas nem verdadeiras. E, ao se deparar com a futilidade das suas guerras de juventude, o agora velho teólogo, se se mantiver obstinado e não quiser seguir o rumo do verdadeiro progresso, irá naturalmente tentar "conservar" o velho só porque é seu, só porque representa os seus tempos de juventude. Ele não se dá conta, na verdade, de que caiu na fatalidade do conservador, do conservador que ele tanto repudiava em novo: é que ele, na verdade, tombou na pedra de tropeço de todos os conservadores: está a conservar o velho por ser velho.
Termino com um desafio aos que trombeteiam diariamente as palavras "progressista" e "conservador": façam um esforço sério por nos explicar porque é que querem mudar (e porque é que consideram o antes como mau e o depois como bom), e porque é que querem conservar (porque é que consideram bom o que querem conservar).
Já basta de querer lançar o novo só por ser novo, e de querer manter o velho só por ser velho...
O "progressista" e o "conservador" surgem assim, a partir do século XIX (e a moda não passa de moda), como dois dos mais irritantes adjectivos de uso comum. Irritantes porque, de tanto e mau uso, tornaram-se em palavras ocas. Todos as usam, e ninguém se dá conta da tontice.
Estes adjectivos nasceram na política, e da política. O "conservador" era, e ainda é, associado com a chamada "direita" política, e o "progressista" com a chamada "esquerda". Escusado será dizer que "direita" e "esquerda" são, também eles, termos muito irritantes, cuja frequência de uso é directamente proporcional à vacuidade do discurso onde surgem inseridas.
Tudo isto é muito pateta. Porque, na verdade, não é nada recomendável alguém ser conservador. E não é mais recomendável alguém ser progressista.
É o mesmo tipo de tontice daquele maluco que é pelo olho direito, ou daquele residente do hospital psiquiátrico que diz que prefere o rim esquerdo.
Como dizia o Chesterton, e como é bem sabido, a ocupação do progressistas consiste em fazer asneiras e a dos conservadores consiste em evitar que elas sejam corrigidas.
Eu acrescentaria que a paranóia do progressista está em preferir o novo porque é novo (mesmo que seja algo muito mau) e a paranóia do conservador está em preferir o velho porque é velho (mesmo que seja algo muito mau).
Evidentemente, não existem progressistas, como não existem conservadores. Quando muito, existirão nalguma ala psiquiátrica, afectados por alguma patologia rara. Mas, cá fora, simplesmente não existem.
Porque até o progressista mais radical e mais fanático é o primeiro a reconhecer a rotina conservadora do seu banho frequente (já nem digo diário, mas apenas frequente): é quase certo que o progressista não consegue inovar no que toca às partes do corpo que tem que lavar todos os dias: nessa matéria, e em muitas outras, não há progresso possível: um braço é sempre um braço e tem que ser limpo, um pé é sempre um pé, e claramente tem que ser limpo. E assim por diante, numa conservadora monotonia, mas que conserva o progressista num estado socialmente apresentável.
Já o conservador mais radical e mais fanático não tem como fugir ao facto de que, com a devida rotina, há que progredir da roupa suja para a roupa lavada. Sentirá, certamente, uma raiva contra a mudança que lhe vem do seu obstinado conservadorismo, mas conservador que se preze não é socialmente apresentável se não trocar de vez em quando a sua roupa suja por roupa lavada.
Alguém distraído pensaria agora que é a higiene que une o progressista ao conservador, mas é preciso ir mais além. O exemplo que dei mostra, claramente, que a higiene pode ser uma ponte entre progressistas e conservadores, mas a coisa é mais profunda. É agora o momento certo para se fazer uma revelação bombástica...
É que... na verdade... o ideal seria mudar do mau para bom, ou seja, ser progressista para melhor, e o ideal seria também, e ao mesmo tempo, manter o bom, ou seja, ser conservador face ao melhor.
Por isso, a pessoa equilibrada é progressista para melhor e conservadora face ao melhor. E então, a pessoa equilibrada, dotada do mais elementar bom senso, não se atreve a proferir esse disparate que é o de se intitular progressista ou conservador.
Os mais que simpáticos visitantes deste blogue, esse raro mas valioso grupo de apoiantes, já devem estar neste momento a pensar porque razão ainda não meti nenhum ingrediente religioso, visto que neste blogue quase só se fala de religião. Mas já vem aí, o ingrediente religioso...
É que, se é certo que há pessoas que vêem tudo do ponto de vista religioso (eu sofro dessa obsessão), há também pessoas que vêem tudo do ponto de vista político. Sabendo de antemão que há muita gente que diz que há assuntos para os quais a religião não é chamada, atrevo-me a dizer, de outro ponto de vista, que há assuntos para os quais a política não é chamada (escândalo!). É verdade. É que há mesmo assuntos desses...
Por exemplo, quando os "media", ou a opinião pública (tantas vezes andam de mãos dadas), falam sobre religião, costumam dizer "este bispo é conservador", ou então "aquele padre é progressista", ou ainda "venceu a ala conservadora do Vaticano", ou então "a Igreja precisa de um Papa mais progressista". Tal esquizofrenia é doentia e intoxicante. Porque acharão que uma Igreja deve ser analisada com ferramentas clássicas (mas não por isso inquestionáveis) da política?
Todo este texto vai então, descaradamente, desembocar nesta afirmação peremptória: não há católicos progressistas. Nem há católicos conservadores. Há católicos. Ponto final. E depois há católicos com problemas de identidade (ah, se os há!).
É que, mais uma vez, os epítetos de "progressista" e de "conservador" mostram-se incapazes de ajudar-nos a compreender realidades complexas. Porque, claramente, não servem para classificar pessoas. Logo, não servem como adjectivos aglutinadores de pessoas parecidas, se nem sequer acertam na classificação de uma só pessoa que seja.
Por exemplo: os teólogos chamados de "progressistas" nos anos 60 andavam todos entusiasmados com a ideia de abolir o dogma. Pregaram até à exaustão a liberdade de consciência do leigo, a sua autonomia e o seu inegável direito até a decidir a própria doutrina católica, ou a doutrina católica que cada um queria para si. Foram idolatrados e adorados, estes teólogos. Depois, ficaram sem audiência. Os leigos foram-se embora. Os seminários por eles orientados ficaram vazios. Dos alunos por eles ensinados, poucos seguiram vocações. Foi o deserto.
A certa altura, a Igreja entendeu pôr fim a essa patetice do "teólogo progressista", cujo problema não era ser teólogo, mas sim achar-se, e ser visto como, progressista, visto que, como vimos, não há pessoas progressistas nem conservadoras. Que não haja a mais pequena dúvida de que a Igreja tem a mesma tenacidade em querer acabar com os "teólogos conservadores", ou seja, gente a querer manter as coisas na mesma só por serem antigas. Se assim não fosse, espécimes raras como as de teólogos a defender a escravatura ou a defender os autos-de-fé ainda andariam por aí a ensinar cursos de Teologia.
(Note-se que, mais uma vez, o teólogo "conservador" em fim de carreira, que defendia obstinadamente coisas indefensáveis, fazia parte da mesma estirpe que, em tempos, apresentara essas coisas indefensáveis como "progresso")
Mas o que é irónico constatar, hoje em dia, é que o "teólogo progressista" dos anos 60, ainda cheio de ímpeto durante os anos 70 e 80, hoje em dia é um dinossauro fossilizado. Uma Igreja nova, rejuvenescida, que sabe desmontar os disparates do chamado "espírito do Concílio" (totalmente contrário ao que realmente se passou e decidiu no Concílio), realmente sobreviveu às paranóias de alguns (a certa altura, muitos) teólogos "progressistas". E, hoje em dia, o "progressista" passou a ser visto por muitos como um "conservador", como alguém que se opõe tenazmente às orientações realmente progressistas (no sentido de ir do pior para o melhor) de Roma. Visto que tal estirpe de teólogo optou, no seu tempo de juventude, por criar uma teologia individual e própria, essa teologia individual e própria envelheceu e definhou, como todas as coisas que não são eternas nem verdadeiras. E, ao se deparar com a futilidade das suas guerras de juventude, o agora velho teólogo, se se mantiver obstinado e não quiser seguir o rumo do verdadeiro progresso, irá naturalmente tentar "conservar" o velho só porque é seu, só porque representa os seus tempos de juventude. Ele não se dá conta, na verdade, de que caiu na fatalidade do conservador, do conservador que ele tanto repudiava em novo: é que ele, na verdade, tombou na pedra de tropeço de todos os conservadores: está a conservar o velho por ser velho.
Termino com um desafio aos que trombeteiam diariamente as palavras "progressista" e "conservador": façam um esforço sério por nos explicar porque é que querem mudar (e porque é que consideram o antes como mau e o depois como bom), e porque é que querem conservar (porque é que consideram bom o que querem conservar).
Já basta de querer lançar o novo só por ser novo, e de querer manter o velho só por ser velho...
terça-feira, 7 de julho de 2009
segunda-feira, 25 de maio de 2009
Artigos de Stanley Jaki
Com o recente desaparecimento do Pe. Jaki, começam a multiplicar-se os artigos da sua autoria que são colocados "online". Não sei se estes artigos seus, editados nas publicações do Intercollegiate Studies Institute, já estavam "online" há muito tempo ou não, mas só os descobri hoje no site do First Principles, e são inestimáveis:
A Thousand Years from Now
Science and the Future of Religion
The Modernity of the Middle Ages
The Physics of Impetus and the Impetus of the Koran
History as Science and Science in History
Science: Revolutionary or Conservative?
The Three Faces of Technology
Censorship and Science
Einstein and the Absolute Beneath the Relative
Estes textos (e basicamente tudo o que escreveu o Pe. Jaki em mais de quarenta livros e incontáveis artigos) são de leitura obrigatória, tanto para o católico que precisa de aprender que a sua fé católica é a mãe da ciência moderna, como para qualquer pessoa que ainda esteja sob o efeito nocivo da mitologia anticlerical dos últimos séculos.
Não são poucos os que têm tentado, ao longo de gerações e a todo o custo, criar uma artificial incompatibilidade entre cristianismo e ciência, e que têm tido sucesso na propaganda do conceito de "cristianismo obscurantista", de uma Igreja Católica inimiga do conhecimento científico. Aproveita-se a parca cultura de muita gente para lhes incutir ideias diametralmente opostas à verdade dos factos.
Também em Portugal, com a "lenda negra" acerca dos Jesuítas, tem-se tentado a todo o custo esconder a produção científica portuguesa nos séculos que antecederam o "iluminismo" do Marquês de Pombal. A razão é simples: essa produção científica está em choque frontal com a ideologia em voga, que atribui à Companhia de Jesus, e à Igreja Católica, todo o presumido "atraso" científico do nosso país.
Com o trabalho de Jaki, damo-nos conta de que este fenómeno propagandístico anticristão assume uma escala global. E quem sofre, nestas jogadas de bastidor, é a própria Ciência.
A Thousand Years from Now
Science and the Future of Religion
The Modernity of the Middle Ages
The Physics of Impetus and the Impetus of the Koran
History as Science and Science in History
Science: Revolutionary or Conservative?
The Three Faces of Technology
Censorship and Science
Einstein and the Absolute Beneath the Relative
Estes textos (e basicamente tudo o que escreveu o Pe. Jaki em mais de quarenta livros e incontáveis artigos) são de leitura obrigatória, tanto para o católico que precisa de aprender que a sua fé católica é a mãe da ciência moderna, como para qualquer pessoa que ainda esteja sob o efeito nocivo da mitologia anticlerical dos últimos séculos.
Não são poucos os que têm tentado, ao longo de gerações e a todo o custo, criar uma artificial incompatibilidade entre cristianismo e ciência, e que têm tido sucesso na propaganda do conceito de "cristianismo obscurantista", de uma Igreja Católica inimiga do conhecimento científico. Aproveita-se a parca cultura de muita gente para lhes incutir ideias diametralmente opostas à verdade dos factos.
Também em Portugal, com a "lenda negra" acerca dos Jesuítas, tem-se tentado a todo o custo esconder a produção científica portuguesa nos séculos que antecederam o "iluminismo" do Marquês de Pombal. A razão é simples: essa produção científica está em choque frontal com a ideologia em voga, que atribui à Companhia de Jesus, e à Igreja Católica, todo o presumido "atraso" científico do nosso país.
Com o trabalho de Jaki, damo-nos conta de que este fenómeno propagandístico anticristão assume uma escala global. E quem sofre, nestas jogadas de bastidor, é a própria Ciência.
quinta-feira, 21 de maio de 2009
Lixo mental
João César das Neves
DESTAK | 21 | 05 | 2009 07.48H
Vivemos num tempo que, tendo muito cuidado com o que mete no estômago e pulmões, não dá atenção ao que mete no cérebro. A cada passo ouvimos recomendações sobre saúde, alimentação e ambiente, multiplicam-se os produtos dietéticos, actividades saudáveis, locais sem fumo.
Ao mesmo tempo todos passam horas a absorver o pior lixo mental na televisão, computador, livros e revistas.
Filmes boçais, sites infames, programas idiotas, revistas escabrosas, videojogos obscenos, séries imbecis constituem a dieta intelectual dos cidadãos, tão conscientes da sua saúde física. Na ficção como nas notícias, a violência extrema, pornografia descarada, egoísmo, gula, desonestidade são produtos comuns.
Assim é inevitável a descida ao abismo espiritual a que se assiste. Sabemos bem que se não tivermos cuidado com a nutrição e não atendermos aos equilíbrios ambientais cairemos na obesidade e a poluição será avassaladora. Não admira portanto que, recusando-nos a formular orientações para o espírito, se acabe na decadência ética e estética. Isso em nome da liberdade, que rejeitamos na saúde e ambiente.
A razão da situação é clara. Os nossos avós, sem cuidado com comida, fumo e ecologia, eram moralistas intolerantes. Nós, censurando-os asperamente, corrigimo-los cuidando do corpo e libertando o espírito. Isso foi-nos fácil porque, afinal, os erros sanitários e a ditadura moral em que nos educaram não eram tão graves que nos impedissem de reagir. Os nossos netos saudáveis terão muito mais dificuldade em recuperar da porcaria intelectual em que nós os educámos.
João César das Neves | naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt
DESTAK | 21 | 05 | 2009 07.48H
Vivemos num tempo que, tendo muito cuidado com o que mete no estômago e pulmões, não dá atenção ao que mete no cérebro. A cada passo ouvimos recomendações sobre saúde, alimentação e ambiente, multiplicam-se os produtos dietéticos, actividades saudáveis, locais sem fumo.
Ao mesmo tempo todos passam horas a absorver o pior lixo mental na televisão, computador, livros e revistas.
Filmes boçais, sites infames, programas idiotas, revistas escabrosas, videojogos obscenos, séries imbecis constituem a dieta intelectual dos cidadãos, tão conscientes da sua saúde física. Na ficção como nas notícias, a violência extrema, pornografia descarada, egoísmo, gula, desonestidade são produtos comuns.
Assim é inevitável a descida ao abismo espiritual a que se assiste. Sabemos bem que se não tivermos cuidado com a nutrição e não atendermos aos equilíbrios ambientais cairemos na obesidade e a poluição será avassaladora. Não admira portanto que, recusando-nos a formular orientações para o espírito, se acabe na decadência ética e estética. Isso em nome da liberdade, que rejeitamos na saúde e ambiente.
A razão da situação é clara. Os nossos avós, sem cuidado com comida, fumo e ecologia, eram moralistas intolerantes. Nós, censurando-os asperamente, corrigimo-los cuidando do corpo e libertando o espírito. Isso foi-nos fácil porque, afinal, os erros sanitários e a ditadura moral em que nos educaram não eram tão graves que nos impedissem de reagir. Os nossos netos saudáveis terão muito mais dificuldade em recuperar da porcaria intelectual em que nós os educámos.
João César das Neves | naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt
terça-feira, 19 de maio de 2009
Stanley L. Jaki (1924-2009)

Húngaro de nascimento, norte-americano de coração (vivia em Princeton, Nova Jérsia), o beneditino Padre Jaki doutorou-se em Teologia em 1950, no Instituto Pontifício, em Roma. Em 1957, doutorou-se em Física, na Universidade de Fordham, sob a orientação de Victor Hess. Fez investigação em História da Ciência nas universidades de Stanford, Berkeley e Princeton. Foi professor de Física durante largos anos na Universidade de Seton Hall.
No seu livro, The Relevance of Physics (1966), o Padre Jaki foi pioneiro no retirar das devidas conclusões, para a tão procurada teoria unificadora em Física, dos Teoremas da Incompletude de Kurt Gödel. Apenas em 2002, o brilhante físico Stephen Hawking deu uma palestra em Cambridge com o título "Gödel and the end of physics", tirando as mesmas conclusões que Jaki, mas 36 anos mais tarde.
Foi sensivelmente há um ano atrás que o Henrique Leitão me emprestou, de uma assentada, dois livros do Padre Jaki: The Saviour of Science e The Purpose of it all.
Passei os meses seguintes a ler estes dois livros. No final do Verão, de forma algo desordenada e caótica, dei por mim a passar pela terceira vez por algumas das páginas. Perdi horas de sono graças ao Padre Jaki. Não sei explicar o que senti ao lê-lo: uma enorme afinidade, um entusiasmo contagiante, uma alegria que só se sente quando se descobrem verdades.
Era uma inteligência superior e um cristão superior. Quem o conheceu diz que rezava pelo menos uma hora por dia, de joelhos. E que este eminente físico e historiador da ciência andava com o seu terço no bolso, para que estivesse sempre pronto a rezá-lo (1).
Quando recuperei o fôlego, depois de me ter dado conta de que o Padre Jaki era, sem dúvida, o autor contemporâneo mais importante que eu tinha descoberto nos últimos anos, dei comigo a preocupar-me com algo natural: o Pe. Jaki tinha 84 anos e não caminhava para novo.
Pensei que já nos restava pouco tempo para aproveitarmos a riqueza humana e intelectual de alguém assim. Temi pela sua morte.
Apenas hoje, com muito atraso, soube da sua morte em Madrid, no passado dia 7 de Abril, acabado de regressar de uma viagem a Roma onde proferira conferências. A fotografia acima data deste último Março, e foi tirada em Roma.
Deus Pai, benevolente, garantirá ao Padre Jaki a imensa alegria de poder conversar animadamente, e sem problemas de tempo ou fadiga, com Chesterton, Pierre Duhem ou com o Cardeal Newman.
A nós, resta-nos a tristeza da separação de uma pessoa tão valiosa. E restam-nos os seus livros (mais livros do Padre Jaki aqui).
(1) Stanley L. Jaki by Rev. George W. Rutler, 21-4-2009.
Paulo Rangel e a Igreja Católica
Comentário à entrevista de Paulo Rangel para a revista "i", intitulada: "A Igreja deveria abrir mais na questão homossexual".
A coerência, como valor pessoal e intelectual fundamental, está fora de moda.
Muitas figuras públicas, sobretudo nos meandos da política, são descaradamente incoerentes, e não se preocupam por aí além.
Hoje em dia, é sobretudo valorizada a dissidência, ou seja, uma espécie de atitude de "jovem rebelde" ou "livre-pensador". A coerência passa para segundo plano, ou sai mesmo de cena. O que deve fazer um eleitor que procure, hoje em dia, um político coerente em quem depositar o seu voto?
É realmente espantoso que seja católico (mesmo da tal estirpe especial e minoritária dos "praticantes") e não se reveja em questões importantes da doutrina da Igreja.
É caso para perguntar: porque escolheu a Igreja Católica, quando há outras religiões que não apresentam a Paulo Rangel as objecções que ele levanta?
«Defende o casamento dos padres?
Este trecho é uma contradição.
Paulo Rangel defende a ordenação das mulheres na Igreja Católica, e logo a seguir, diz que "não compreende" essa restrição. Se não a compreende, como pode ser contra ela? Trata-se de simples lógica: se não compreende uma tese T, então não pode concordar com T nem com a sua negação: simplesmente não pode ter uma posição enquanto não compreender a tese T, e decidir a seu favor ou contra ela.
Outra erro terrível para qualquer católico é o de considerar que o sacerdote é um "chefe". É perfeitamente normal que São Paulo tenha dado responsabilidades de chefia a mulheres, mas isso não fez delas sacerdotes. As funções de sacerdote não são as funções de um "chefe".
Paulo Rangel diz que, na Igreja Católica institucional, o papel da mulher é subalterno. O que, mais uma vez, nos faz pensar porque razão terá Paulo Rangel escolhido uma religião machista para dela fazer parte. Mas, mais uma vez, Paulo Rangel erra, ao considerar que o papel da mulher na Igreja Católica é subalterno, e pelas razões atrás mencionadas: o sacerdote não é um "chefe".
«Concordou com a despenalização do aborto?
Paulo Rangel, aqui, usa a Igreja Católica como um supermercado. Vai ao corredor procurado, retira as partes que deseja, deixa o resto de parte. Uma religião "self-service". Note-se que Paulo Rangel, para além de se afirmar como um "radical activista" diz que na moral sexual, em geral, é contra as posições da Igreja. De novo, surge a teimosa pergunta: então, se é contra, porque razão escolheu a Igreja Católica?
Disfarçada sobre a capa de "respeito" pelas "convicções da maioria da população portuguesa", está uma escandalosa arrogância: a de pensar que a sociedade portuguesa ainda é "muito conservadora nesta matéria", o que é o mesmo que dizer que ele, Paulo Rangel, e os que pensam como ele, estão do lado do progresso, e que é só uma questão de tempo até os "atrasados" apanharem o comboio do progresso.
Outro problema para o Paulo Rangel católico: os católicos não se opõem ao "casamento gay" apenas porque isso "usurparia" uma palavra que lhes é cara. Eles opõem-se ao "casamento gay" porque se opõem à homossexualidade como tendência imoral, ou seja, errada.
Para além de uma linguagem metafórica ridícula (a da Igreja "fechada" e "aberta"), que se aplica a portas e janelas, e não a uma doutrina, Paulo Rangel mostra, neste trecho final, a incoerência apontada atrás: na mesma frase, sugere alterações profundas para a Igreja Católica, ao mesmo tempo que usa repetidamente expressões como "não compreendo" e "não percebo".
Recomendo a Paulo Rangel a consulta urgente do Catecismo da Igreja Católica.
A coerência, como valor pessoal e intelectual fundamental, está fora de moda.
Muitas figuras públicas, sobretudo nos meandos da política, são descaradamente incoerentes, e não se preocupam por aí além.
Hoje em dia, é sobretudo valorizada a dissidência, ou seja, uma espécie de atitude de "jovem rebelde" ou "livre-pensador". A coerência passa para segundo plano, ou sai mesmo de cena. O que deve fazer um eleitor que procure, hoje em dia, um político coerente em quem depositar o seu voto?
«É um católico mesmo praticante? Vai à missa?
Sim, mas sou um progressista, não me revejo na moral de costumes da Igreja Católica, na não ordenação das mulheres, no não casamento dos padres.»
É realmente espantoso que seja católico (mesmo da tal estirpe especial e minoritária dos "praticantes") e não se reveja em questões importantes da doutrina da Igreja.
É caso para perguntar: porque escolheu a Igreja Católica, quando há outras religiões que não apresentam a Paulo Rangel as objecções que ele levanta?
«Defende o casamento dos padres?
Em primeiro lugar defendo a ordenação das mulheres. Não compreendo que hoje, 2009, a Igreja tenha esta restrição. Olhe, o São Paulo, que tem aura de ser um autor sexista, em grande parte das igrejas que fundou as chefes eram mulheres. O que revela bem que o estatuto da mulher não era assim tão subalterno quanto pode parecer da leitura de alguns textos.» (negrito meu)
Este trecho é uma contradição.
Paulo Rangel defende a ordenação das mulheres na Igreja Católica, e logo a seguir, diz que "não compreende" essa restrição. Se não a compreende, como pode ser contra ela? Trata-se de simples lógica: se não compreende uma tese T, então não pode concordar com T nem com a sua negação: simplesmente não pode ter uma posição enquanto não compreender a tese T, e decidir a seu favor ou contra ela.
Outra erro terrível para qualquer católico é o de considerar que o sacerdote é um "chefe". É perfeitamente normal que São Paulo tenha dado responsabilidades de chefia a mulheres, mas isso não fez delas sacerdotes. As funções de sacerdote não são as funções de um "chefe".
«Na Igreja é [subalterno, o papel da mulher].
Na igreja institucional, sim. Mas com Jesus Cristo não. Tudo o que se conhece até aponta para um certo escândalo por ele ter mulheres apóstolas. E São Paulo também, curiosamente.»
Paulo Rangel diz que, na Igreja Católica institucional, o papel da mulher é subalterno. O que, mais uma vez, nos faz pensar porque razão terá Paulo Rangel escolhido uma religião machista para dela fazer parte. Mas, mais uma vez, Paulo Rangel erra, ao considerar que o papel da mulher na Igreja Católica é subalterno, e pelas razões atrás mencionadas: o sacerdote não é um "chefe".
«Concordou com a despenalização do aborto?
Eu estou de acordo com a posição da Igreja quanto ao aborto e à eutanásia. No resto não. Nos anticonceptivos sou um radical activista contra as posições da Igreja. Na moral sexual em geral sou contra: casamento, divórcio, a questão dos homossexuais.»
Paulo Rangel, aqui, usa a Igreja Católica como um supermercado. Vai ao corredor procurado, retira as partes que deseja, deixa o resto de parte. Uma religião "self-service". Note-se que Paulo Rangel, para além de se afirmar como um "radical activista" diz que na moral sexual, em geral, é contra as posições da Igreja. De novo, surge a teimosa pergunta: então, se é contra, porque razão escolheu a Igreja Católica?
«Defende o casamento gay?
Não é uma coisa que eu defenda hoje. Defendo uma instituição à parte.
A solução inglesa?
Um instituto análogo ao casamento. Para a sociedade portuguesa seria a melhor solução agora. Não porque eu não reconheça o direito? Eu percebo muito bem as reivindicações dos activistas e das activistas dos movimentos gay, mas acho que sociologicamente também temos que respeitar as convicções da maioria da população portuguesa, que é muito conservadora nesta matéria. Temos de encontrar um equilíbrio. A terceira via é um bom equilíbrio. Aliás, nas associações activistas há uma certa contradição. Elas dizem: agora falamos em casamento e mais tarde na adopção, é preciso um primeiro passo. Mas eu acho que é preciso um primeiro passo antes do casamento. Se aceitássemos a teoria gradualista, criavam- -se menos fracturas.»
Disfarçada sobre a capa de "respeito" pelas "convicções da maioria da população portuguesa", está uma escandalosa arrogância: a de pensar que a sociedade portuguesa ainda é "muito conservadora nesta matéria", o que é o mesmo que dizer que ele, Paulo Rangel, e os que pensam como ele, estão do lado do progresso, e que é só uma questão de tempo até os "atrasados" apanharem o comboio do progresso.
Outro problema para o Paulo Rangel católico: os católicos não se opõem ao "casamento gay" apenas porque isso "usurparia" uma palavra que lhes é cara. Eles opõem-se ao "casamento gay" porque se opõem à homossexualidade como tendência imoral, ou seja, errada.
«Mas eu percebo que há aqui questões sociológicas, de respeito pelas convicções dominantes na sociedade. E também têm de ser tidas em conta, não há aqui só direitos de uns. Prefiro uma engenharia social gradual. Mas acho que é aqui, na relação com os homossexuais, que a Igreja deveria abrir mais. Em toda a moral sexual é preciso uma grande renovação na Igreja. E há coisas que não compreendo de maneira nenhuma: a ordenação das mulheres, o casamento dos padres, a questão dos anticonceptivos, não percebo como é que se consegue continuar com este discurso.» (negrito meu)
Para além de uma linguagem metafórica ridícula (a da Igreja "fechada" e "aberta"), que se aplica a portas e janelas, e não a uma doutrina, Paulo Rangel mostra, neste trecho final, a incoerência apontada atrás: na mesma frase, sugere alterações profundas para a Igreja Católica, ao mesmo tempo que usa repetidamente expressões como "não compreendo" e "não percebo".
Recomendo a Paulo Rangel a consulta urgente do Catecismo da Igreja Católica.
segunda-feira, 18 de maio de 2009
Cinismo e atrevimento: Barack Obama em Notre Dame
O discurso integral de Barack Obama, na Universidade Católica de Notre Dame, proferido ontem, encontra-se aqui.
Algumas observações soltas em torno de certos trechos cínicos e atrevidos...
(para uma excelente crítica ao discurso, ver o texto de Keith Fournier)
Realmente, temos que decidir como salvar parte da Criação de Deus, nomeadamente os seres humanos que crescem nos ventres de suas mães, de um Presidente que já permite que estes sejam destruídos e considera essa destruição um direito das respectivas mães.
Uma família humana unida, excepto uns quantos milhões de fetos e embriões que ficam fora dela...
Quase que se ouve a sair da boca de Barack: "But I do target specific age groups...".
Cá está a referência ao Pecado Original. Só que, ao invés de ser uma "afagadela" aos católicos, é uma cuspidela na cara da decência moral. Haverá alguma dúvida de que matar fetos e embriões humanos é uma "crueldade" cujas raízes estão no pecado original? Dêem um espelho a este homem...
Como, por exemplo, para evitar uma gravidez indesejada, quando se permite um aborto a pedido...
Como no caso do aborto...
Todo este lindo sofisma cai por terra, quando se vê que não é possível ter políticas de saúde baseadas em "ética clara" e "sólida ciência" quando se nega o direito à vida a certas categorias de seres humanos. Exigir que se deixe viver um feto ou um embrião humano não é desrespeitar "a igualdade das mulheres", é dizer apenas "não matarás!".
E é curioso que se fale em "sólida ciência" quando é bem sabido que muitos "pró-escolha" dizem que a Ciência não sabe quando começa a vida humana...
E o atrevimento deste próximo trecho?
E que tal aplicar esta regra ao feto ou ao embrião?
Por acaso, pergunta o senhor Obama a esses seres humanos não nascidos se querem ser mortos?
Por acaso, faz o senhor Obama alguma coisa para garantir que esses seres humanos são tratados como ele mesmo gostaria de ser tratado?
Obama gostaria de ter sido abortado a pedido da sua mãe?
Oh, miséria de incoerência. Que atrevimento, que palavras traiçoeiras. Tenho pena sincera dos católicos que apoiaram este evento e presenciaram esta pouca-vergonha. É só ler as palavras de Obama e ver aonde elas levam... Como é que alguém que defende o direito ao aborto tem a lata de se afirmar como cristão e ainda por cima invocar a "regra de ouro"?
Para alguns, abortados antes do seu nascimento, os momentos na Terra são realmente breves...
Quando se poderia achar que o atrevimento terminara, eis senão quando o talentoso orador saca da cartola a referência ao caso Brown vs. "Board of Education".
Por fim, esta pérola sofista:
Os seres humanos não nascidos não têm a "dignidade possuída por todas as crianças de Deus"? Quem defende o direito a abortar consegue realmente "reconhecer-se a si mesmo no outro"?
Este caso "Obama/Notre Dame" marca, certamente, um ponto de viragem.
Abrirá os olhos a alguns católicos que ainda viam Obama com bons olhos, mas sobretudo permite algo de muito grave: muitos e muitos católicos, ao ver condecorada uma pessoa que desrespeita o mais básico dos direitos, o direito à vida, vão ficar confusos.
Vão, em consequência desta condecoração de um político "pró-escolha" pela universidade católica mais importante dos EUA, achar que se pode ser católico e não ligar ao direito à vida dos não nascidos. A vitória cabe, sem grande margem para dúvidas, a Obama, e à claque de políticos "soi disant" católicos, como Joe Biden, Nancy Pelosi, e muitos outros que tal.
E o Pe. Jenkins, tal qual Judas, vendeu Cristo em troca de protagonismo e um ar "moderno" junto da Comunicação Social e dos políticos com poder no momento.
Nossa Senhora nos ajude a todos, sobretudo aos que são destruídos no ventre materno e aos que colaboram com, e autorizam, essas mortes.
Algumas observações soltas em torno de certos trechos cínicos e atrevidos...
(para uma excelente crítica ao discurso, ver o texto de Keith Fournier)
«We must decide how to save God's creation from a changing climate that threatens to destroy it.»
Realmente, temos que decidir como salvar parte da Criação de Deus, nomeadamente os seres humanos que crescem nos ventres de suas mães, de um Presidente que já permite que estes sejam destruídos e considera essa destruição um direito das respectivas mães.
«In short, we must find a way to live together as one human family.»
Uma família humana unida, excepto uns quantos milhões de fetos e embriões que ficam fora dela...
It is this last challenge that I'd like to talk about today. For the major threats we face in the 21st century - whether it's global recession or violent extremism; the spread of nuclear weapons or pandemic disease - do not discriminate. They do not recognize borders. They do not see color. They do not target specific ethnic groups.
Quase que se ouve a sair da boca de Barack: "But I do target specific age groups...".
«all the cruelties large and small that those of us in the Christian tradition understand to be rooted in original sin»
Cá está a referência ao Pecado Original. Só que, ao invés de ser uma "afagadela" aos católicos, é uma cuspidela na cara da decência moral. Haverá alguma dúvida de que matar fetos e embriões humanos é uma "crueldade" cujas raízes estão no pecado original? Dêem um espelho a este homem...
«We too often seek advantage over others.»
Como, por exemplo, para evitar uma gravidez indesejada, quando se permite um aborto a pedido...
«The strong too often dominate the weak»
Como no caso do aborto...
«That's when we begin to say, "Maybe we won't agree on abortion, but we can still agree that this is a heart-wrenching decision for any woman to make, with both moral and spiritual dimensions.
So let's work together to reduce the number of women seeking abortions by reducing unintended pregnancies, and making adoption more available, and providing care and support for women who do carry their child to term. Let's honor the conscience of those who disagree with abortion, and draft a sensible conscience clause, and make sure that all of our health care policies are grounded in clear ethics and sound science, as well as respect for the equality of women."»
Todo este lindo sofisma cai por terra, quando se vê que não é possível ter políticas de saúde baseadas em "ética clara" e "sólida ciência" quando se nega o direito à vida a certas categorias de seres humanos. Exigir que se deixe viver um feto ou um embrião humano não é desrespeitar "a igualdade das mulheres", é dizer apenas "não matarás!".
E é curioso que se fale em "sólida ciência" quando é bem sabido que muitos "pró-escolha" dizem que a Ciência não sabe quando começa a vida humana...
E o atrevimento deste próximo trecho?
It is, of course, the Golden Rule - the call to treat one another as we wish to be treated.
E que tal aplicar esta regra ao feto ou ao embrião?
Por acaso, pergunta o senhor Obama a esses seres humanos não nascidos se querem ser mortos?
Por acaso, faz o senhor Obama alguma coisa para garantir que esses seres humanos são tratados como ele mesmo gostaria de ser tratado?
Obama gostaria de ter sido abortado a pedido da sua mãe?
Oh, miséria de incoerência. Que atrevimento, que palavras traiçoeiras. Tenho pena sincera dos católicos que apoiaram este evento e presenciaram esta pouca-vergonha. É só ler as palavras de Obama e ver aonde elas levam... Como é que alguém que defende o direito ao aborto tem a lata de se afirmar como cristão e ainda por cima invocar a "regra de ouro"?
To do what we can to make a difference in the lives of those with whom we share the same brief moment on this Earth.
Para alguns, abortados antes do seu nascimento, os momentos na Terra são realmente breves...
«After all, I stand here today, as President and as an African-American, on the 55th anniversary of the day that the Supreme Court handed down the decision in Brown v. the Board of Education.»
Quando se poderia achar que o atrevimento terminara, eis senão quando o talentoso orador saca da cartola a referência ao caso Brown vs. "Board of Education".
Por fim, esta pérola sofista:
«Remember that each of us, endowed with the dignity possessed by all children of God, has the grace to recognize ourselves in one another; to understand that we all seek the same love of family and the same fulfillment of a life well-lived.»
Os seres humanos não nascidos não têm a "dignidade possuída por todas as crianças de Deus"? Quem defende o direito a abortar consegue realmente "reconhecer-se a si mesmo no outro"?
Este caso "Obama/Notre Dame" marca, certamente, um ponto de viragem.
Abrirá os olhos a alguns católicos que ainda viam Obama com bons olhos, mas sobretudo permite algo de muito grave: muitos e muitos católicos, ao ver condecorada uma pessoa que desrespeita o mais básico dos direitos, o direito à vida, vão ficar confusos.
Vão, em consequência desta condecoração de um político "pró-escolha" pela universidade católica mais importante dos EUA, achar que se pode ser católico e não ligar ao direito à vida dos não nascidos. A vitória cabe, sem grande margem para dúvidas, a Obama, e à claque de políticos "soi disant" católicos, como Joe Biden, Nancy Pelosi, e muitos outros que tal.
E o Pe. Jenkins, tal qual Judas, vendeu Cristo em troca de protagonismo e um ar "moderno" junto da Comunicação Social e dos políticos com poder no momento.
Nossa Senhora nos ajude a todos, sobretudo aos que são destruídos no ventre materno e aos que colaboram com, e autorizam, essas mortes.
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