quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Sobre a resposta do Ludwig ao meu desafio

Ver texto original aqui:
O desafio do Bernardo

Ludwig...
Por simplicidade, os blocos de texto que aqui não forem citados são por mim considerados não problemáticos ou mesmo correctos.

«As religiões vão no sentido inverso. Cada religião define-se por um conjunto fixo de crenças, costumes e rituais.»

É totalmente falacioso escrever desta maneira. Insistes na expressão "as religiões", procurando em vão definir e contestar todas "as religiões" em bloco. E pelo menos a religião cristã não vai no sentido inverso do conhecimento científico, como é afirmado. Basta pegar numa questão qualquer, por exemplo, o heliocentrismo ou o evolucionismo, e analisar a reacção intelectual do cristianismo às novas ideias científicas, e entende-se que há uma constante reinterpretação da doutrina à luz de novos conhecimentos. Um outro exemplo: quando se dá o primeiro contacto da intelectualidade cristã com o aristotelismo, a reacção inicial é de desconfiança: que teria o filósofo pagão para ensinar aos cristãos? Nos séculos seguintes, o aristotelismo foi integrado numa visão filosófica cristã, sobretudo graças a São Tomás de Aquino. Após esta reacção cristã salutar ao que o aristotelismo tinha de bom, verificou-se no final da Idade Média uma crescente contestação às fragilidades da física aristotélica, que ao contrário do que se pensa, não começou com Galileu ou Newton (apesar de ambos serem cristãos convictos e praticantes), mas sim com Buridan e Oresme, uns séculos antes.

É sistemática e constante, não só a reacção da Igreja Católica ao conhecimento científico, mas também a produção de conhecimento científico. Foi o padre belga Lemaître quem pela primeira vez sugeriu a teoria do átomo primordial, que viria a ficar conhecida como teoria do "Big Bang".



Lemaître aparece nesta fotografia a dar uma aula de Física usando as vestes sacerdotais. Quem julga que essas vestes, símbolo exterior dos seus votos e da sua vocação, não têm nada a ver com o facto de este homem vir a dar aulas de Física, não faz ideia do que está a falar.

Seria preciso bastante tempo para te mostrar, Ludwig, inúmeros exemplos de pessoas concretas cuja vida e obra refutam totalmente a visão deturpada que tens acerca do cristianismo: Buridan, Oresme, Mersenne, Stensen, Mendel, Lemaître, são alguns dos nomes que me vêm à memória neste momento, em variadas áreas do saber científico.

«Enquanto a ciência visa escolher hipóteses segundo critérios objectivos de adequação à realidade, independentes do sujeito, as religiões são manifestações de subjectividade que projectam sobre a realidade o acto pessoal de crer.»

Tornas isto difícil pelo facto de que usas sistematicamente a expressão "as religiões", expressão essa que só poderias usar se realmente TODAS as religiões entrassem nesse padrão.

A religião cristã certamente não entra nesse padrão que traças e criticas.
Custa a entender a que é que te referes, num contexto cristão, quando falas em critérios objectivos de adequação à realidade... Será que te referes ao célebre adágio escolástico, "veritas est adaequatio rei et intellectus" (a verdade é a adequação do intelecto à realidade), explicada por exemplo por São Tomás de Aquino na sua questão disputada sobre a verdade?

É que é difícil dizer que um cristão está contra essa concepção "realista" do conhecimento, quando o maior doutor da Igreja, e longe de estar sozinho, o afirma de forma tão categórica...

Se, pela frase "veritas est adaequatio rei et intellectus", a filosofia escolástica quer precisamente erradicar a subjectividade para fora do conceito de verdade (ao dizer que o intelecto se tem que adequar ao real para atingir a verdade, considerada independente do sujeito), a que é que te referes quando falas em "manifestações de subjectividade, que projectam sobre a realidade" o que quer que seja? Se há alguém que critica essas irreais projecções subjectivas do intelecto para a realidade, esse alguém é o cristão, que sempre defendeu que o intelecto é que se deve adequar ao real, e não o inverso!

«Filósofos gregos especularam que o universo seria feito de água, fogo, ar ou terra. Os alquimistas elaboraram a especulação e, eventualmente, nasceu a química e a moderna teoria dos átomos.»

Ludwig: porque é que passas um rolo compressor por cima de questões tão complexas? Achas que estás a fazer uma boa síntese desses conceitos? Achas que tens uma ideia precisa acerca da alquimia? Eu também aprendi no ensino secundário que a alquimia era uma química primitiva. Mas isso tem uma explicação simples: ignorância dos professores que me ensinaram essas baboseiras. A alquimia não é uma proto-ciência experimental. Tem certamente uma componente experimental, mas é altamente dependente de uma cultura hermética, que a fez surgir e que a protegeu. Aliás, uma interpretação hermética da alquimia, que é transversal a toda a alquimia ocidental, e que tinha pretensões metafísicas e espirituais, foi fortemente criticada por isso mesmo pela Igreja Católica. Ao fazê-lo, a Igreja procurava erradicar o espírito de magia e hermetismo que considerava nocivo para a doutrina cristã e para o conhecimento em geral.

Chega a ser irónico que tu apresentes a alquimia como exemplo de método científico ou pré-científico quando a motivação por detrás de todo o alquimista sério (havia também o alquimista burlão, que só queria enganar, e o ganancioso, que só procurava fortuna fácil) era uma motivação ocultista ou hermética, a motivação diametralmente oposta à do cientista.

O surgimento da ciência moderna é um fenómeno complexo e ainda cheio de pontas soltas. Por exemplo, há umas décadas atrás, Frances Yates propôs a teoria singular e polémica (mas ainda em debate) de que a corrente hermética tinha sido muito importante para o surgimento da ciência moderna, ao procurar, com a sua rebeldia intelectual, fugir do "hiper-racionalismo" da tradição escolástica, e procurar através da magia, da cabala e da alquimia, manipular as "forças do mundo". É uma tese muito interessante e séria, que ainda hoje tem defensores e oponentes.

É certo que as experimentações alquímicas vão desembocar, mais tarde ou mais cedo, na química moderna. Não nego que estejas certo neste ponto. Mas vês uma linearidade, uma relação causa-efeito tão limpinha, que chocarias qualquer historiador da Alquimia. Parece-me que te está a passar completamente ao lado, pela visão que tens acerca destes assuntos (uma visão típica de um triunfalismo céptico-iluminista tão comum nos séculos XVIII e XIX), como é que estas transições se deram ao longo da História, e passa-te também ao lado o papel fundamental que a Igreja teve neste processo. Mersenne, por exemplo, pelo papel que teve no combate à cultura hermética, foi uma peça-chave nesse virar cultural que inaugurou a era científica moderna.

«Mais cedo ou mais tarde, empurradas pelo que se observa, estas especulações acabariam por convergir numa descrição mais próxima da realidade. Coisa que o fundamento subjectivo das religiões impede.»

Quem te lê, julga que a ciência moderna surgiu por milagre, no século XVIII, graças ao secularismo iluminista, e que surgiu APESAR do catolicismo dominante. Galileu, Newton, Leibniz, Descartes, e toda a elite intelectual do renascimento e do iluminismo andou aos ombros de gigantes. A começar pelas bases: quase todos os grandes cientistas e intelectuais da modernidade receberam os seus estudos básicos e universitários em instituições cristãs (católicas ou protestantes).

Quem julgas tu que, pela primeira vez na História, ensinou a alunos universitários como é que se montava um telescópio galileano? Achas que foi um desses cientistas seculares do iluminismo, um desses adversários da "superstição" religiosa? Foi o jesuíta Giovanni Lembo, do Collegio Romano, que estava a dar aulas no Colégio de Santo Antão, em Lisboa, instituição jesuíta.

Quem julgas tu que levou para o extremo oriente as descobertas científicas de Galileu? Achas que foi um desses cientistas seculares do iluminismo, um desses adversários da "superstição" religiosa? Foi o jesuíta Manuel Dias quem traduziu para chinês, em 1614, as descobertas astronómicas de Galileu, apenas poucos anos após terem sido feitas.

O Marquês de Pombal, esse “campeão” do iluminismo secularista em Portugal, conseguiu a notável proeza de destruir a rede de ensino jesuíta que existia em Portugal, deixando o país mergulhado no analfabetismo e desligado das redes internacionais de conhecimento (das quais se destacava, a larga distância, a rede jesuíta de ensino). Expulsou os detentores do saber. É preciso recuar uns séculos para encontrar uma estupidez do mesmo calibre, quando o nosso rei D. Manuel I decidiu expulsar os judeus, detentores dos recursos financeiros.

Os teus "subjectivistas religiosos" garantiram, durante séculos, não só a preservação do conhecimento científico (os copistas, as bibliotecas, as universidades) mas também a produção de genuíno conhecimento científico.

«Religiões e ciência são incompatíveis à partida porque não podemos subordinar as crenças aos dados que obtemos ao mesmo tempo que assentamos uma visão do mundo num crer arbitrário.»

E cais no mesmo... Das duas uma: ou admites que estás a aglutinar todas as religiões no mesmo saco, passando por cima das enormes diferenças entre elas, ou então admites que é por teimosia que continuas a dizer que o crer cristão é arbitrário. No último texto que escrevi, frisei de forma clara que esse crer arbitrário, baseado exclusivamente em argumentos de autoridade, e desconfiado da razão humana, é considerado pela Igreja, e há muitos séculos, como uma HERESIA, chamada "fideísmo". Ludwig: o que é que quer dizer “teologia”? Não vem de “theos-logos”, ou seja, a procura da razão, da lógica, de Deus?

«Isto não impede que alguém seja religioso e cientista. Também há pára-quedistas que fazem mergulho. Mas a capacidade humana para fazer e pensar coisas incompatíveis não faz com que deixem de o ser. Não é por um cientista ir à missa que provam a compatibilidade. Para isso teriam de mostrar como se faz ciência com rezas, fé e dogmas religiosos.»

Alguma vez leste a introdução do "De revolutionibus orbium coelestium", do Copérnico? O que é que lá aparece? Não me refiro ao prefácio espúrio do protestante Osiander, refiro-me às próprias palavras do Copérnico na introdução, às palavras que ele usa para explicar ao leitor porque razão decidiu escrever aquela obra...
Ah, Copérnico era cristão.

Só desconhecendo totalmente a mentalidade dos cientistas cristãos é que se pode dizer que eles faziam ciência separadamente das suas crenças religiosas. Dá mesmo vontade de rir. Está no dogma cristão, está na doutrina cristã, toda a motivação para a descoberta científica: todos estes grandes nomes investigavam o mundo com a profunda convicção de quem está a ler "o livro de Deus", de quem está a entrar no intelecto divino através das Suas obras, interpretando o desígnio de Deus através do estudo da Criação. É judaico-cristã a ideia de que a Criação é boa, racional, inteligível, obra de um Deus bom.

Dizes que não se faz ciência com rezas... Talvez concorde contigo, mas o cientista cristão reza para pedir a Deus a inspiração necessária para um trabalho intelectual de qualidade, para que o intelecto humano limitado do cientista possa penetrar nas verdades acerca da realidade natural. E isto porque o cientista cristão, aquele a quem deves quase toda a ciência que tens hoje em dia, vê o seu trabalho científico como um diálogo intelectual com Deus. Para alguns cientistas cristãos, não poucos, a sua investigação científica é apenas mais uma forma de rezar, ou seja, de estabelecer um diálogo racional com Deus através do estudo da Sua obra.

Tu, porém, regulaste tudo com medida, número e peso.
Livro da Sabedoria, 11,20

O que é que achas que esta citação quer dizer, Ludwig?

«Por exemplo, muitas religiões – entre as quais a católica – afirmam a existência de seres conscientes e imateriais. Deus, almas, anjos, espíritos santos. E isto a ciência diz, claramente, ser impossível.»

Onde é que ela diz isso?
Vamos ver se eu percebi. A ciência, cujo domínio é 100% empírico, ao excluir do seu campo de estudo tudo o que não é empírico (como Deus, almas, anjos, espíritos santos), ainda assim, diz que esses conceitos são irreais? Como?

Seria como tentar medir temperaturas com uma balança, ou medir pesos com um termómetro. Explica-me como é que a ciência prova, cientificamente, que esses conceitos fora do âmbito científico não existem...

«É algo que segue da física mais fundamental. O processamento de informação, no sentido mais lato que abrange certamente qualquer forma de consciência, exige energia e acarreta custos em entropia. Disso não há escapa. A menos que a ciência moderna esteja redondamente enganada.»

Não é preciso, de forma alguma, dizer mal da ciência moderna. Mas entendes que falas de processamento de informação feito por consciências humanas? Que podes dizer tu acerca do consumo de energia, acerca da entropia, do raciocínio divino? Que pode a ciência natural dizer acerca disso?

Que pode a ciência moderna dizer acerca de uma alma imaterial?
Entendes que, por definição, a ciência exclui trabalhar sobre esse tipo de conceitos?

O meu desafio mantém-se: mostra-me onde é que a ciência moderna refuta a doutrina cristã. Só me estás a dar razão... Os teus exemplos são inaplicáveis. Metes abusivamente a ciência a falar fora da sua esfera de trabalho.

«Quando nos diz que não se pode acelerar objectos à velocidade da luz é mesmo isso que quer dizer.»

Onde é que me viste defender a ideia de que Deus seria capaz de fazer um objecto ultrapassar a velocidade da luz? Deus, como os cristãos O entendem, é racional. Se faz realmente parte da estrutura do nosso cosmos, como tudo indica, esse limite da velocidade da luz, porque razão haveria Deus, que criou o cosmos, e portanto esse mesmo limite, querer ultrapassá-lo? Só para provar a sua omnipotência?

Para os cristãos, Deus fez as regras do jogo. Caramba, Deus criou o jogo! Logo, seria irracional Deus querer quebrá-las. E Deus não é irracional.

«Para disfarçar esta contradição é costume alegar-se que Deus opera num domínio diferente ou que ele é que criou as leis da natureza e pode fazer o que quiser. Nada disso serve.»

Claro que serve.
Eu não estou a dizer que Deus viola leis da Natureza. Porque razão haveria de dar esse salto arriscado? Posso apenas dizer que Deus criou o mundo dotado de certas leis que Ele mesmo desenhou e projectou. Ao fazê-lo terá certamente pensado em formas de intervir na Sua criação. E, do ponto de vista de Deus, essas formas de intervir são perfeitamente "lícitas" em termos das leis que Ele mesmo concebeu. Sucede apenas que essas “intromissões” de Deus no mundo, apesar de serem “legais” e “lícitas” do ponto de vista de Deus, são impossíveis de analisar pela ciência, pelo facto de que causas sobrenaturais estão fora do método científico.

Um milagre, da forma como este fenómeno é entendido pelo cristão, não é uma violação de qualquer tipo de leis da Natureza.

«Torçam-se como quiserem, mas dizer que há um deus que o pode fazer é contradizer a ciência.»

Estás a bater num espantalho. Eu não disse nada disso.

«Quando alguém se cura e dá jeito mais um santo, reúne-se cientistas para certificar que a cura é cientificamente impossível e oficializa-se o milagre.»

Não é nada disso que se passa. A comissão científica que analisa o suposto milagre, após análise de todos os dados, e se não encontrar explicação científica, apenas diz que não a encontrou. Não diz nunca, nem nunca disse, que a cura por via natural do caso em estudo era cientificamente impossível. Se uma dada comissão dessas conclui que não encontra explicação científica, isso apenas abre caminho para uma explicação sobrenatural (esta explicação apenas sugere que se coloque a causa do fenómeno "fora" da realidade natural, e não altera nem os efeitos naturais do milagre, nem os processos naturais que decorrem juntamente com os efeitos naturais).

A base explicativa do milagre, que é claramente metafísica e não científica, está em apontar uma causa externa à Natureza. Mas tal explicação metafísica não tem que, e não pode, levar à conclusão de que se violaram leis científicas. Se um dado fenómeno, devido a uma causa sobrenatural, não pode ser logicamente analisado puramente com causas naturais, não tenho que deduzir que se violaram leis científicas.

«É claro que o Bernardo vai dizer que Deus é um ser transcendente»

Sim...

«...que está para além do tempo e do espaço...»

Sim, não entendendo o termo "além" em sentido espacial ou temporal...

«...é incompreensível para a mente humana...»

Depende. Se tomares "incompreensível" no sentido de que o intelecto humano não consegue abarcar a divindade, é realmente isso que eu defendo. Se tomares "incompreensível" no sentido de irracional, então discordo radicalmente. De novo, a ideia de uma suposta "irracionalidade" da revelação cristã é precisamente uma das ideias condenadas pela Igreja, ao atacar a heresia fideísta.

«O que o leva a mais uma contradição com a ciência.»

Eu não entendo mais este ponto no teu discurso: quando usas a palavra "contradição", estás a assumir que a não existência de contradição equivale a uma espécie de equiparação? Ou seja, julgas que eu, por defender que não há contradição entre Ciência e doutrina cristã, vou defender algum tipo de equiparação?

Esse risco não existe. Quando eu digo que a ciência moderna não contradiz a doutrina cristã, estou a dizer que não há verdades científicas em colisão com verdades de doutrina cristã. Não estou a dizer que elas operam com as mesmas ferramentas. Por exemplo, o conceito de "prova" é totalmente diferente para o trabalho científico e para a discussão filosófica ou teológica. Mas isso não quer dizer que a razão tenha sido posta a andar do debate filosófico ou teológico: a razão é intrínseca a este debate. Esta diferença tem a ver com método de trabalho e com âmbito de trabalho. Ciência e doutrina cristã estão interessadas em aspectos tipicamente diferentes da realidade (se bem que, como referi, há por vezes sobreposição): a ciência foca-se nas explicações naturais para os fenómenos naturais, enquanto que a doutrina cristã se foca em realidades sobrenaturais. Por vezes, como nos milagres, a doutrina cristã foca-se em explicações sobrenaturais para fenómenos naturais. Mas porque razão não haveriam ambas as coisas, naturas e sobrenaturais, de coexistir numa mesma realidade?

Pergunto-te: porque razão não poderia toda a realidade estar dividida em dois domínios distintos, mas co-existentes: o natural e o sobrenatural? Se assim fosse, e não percebo porque razão excluis "a priori" esta explicação, o mais natural era que conceitos como os de "prova" ou de "demonstração" tivessem que ser diferentes para os diferentes domínios do real.

Mesmo no dia-a-dia, eu uso "prova" nestes dois sentidos diferentes. Uma coisa é uma prova científica, outra coisa é eu achar que pessoa A gosta de mim. Posso estar seguro de ambas as coisas, mas eu sei bem que as valido de forma diferente.

«Em ciência, essas desculpas são inaceitáveis. Porque não há maneira nenhuma de saber se isso é mesmo assim ou se é tudo treta. Nem faz qualquer diferença...»

O teu problema principal, Ludwig, é que na tua guerra louvável contra as tretas, estás a mandar fora o bebé com a água do banho. E olha que esse bebé, nascido numas palhotas em Belém há 2.000 anos, é o único bebé realmente eficaz contra todo o tipo de tretas, científicas e metafísicas.

Um abraço!

Igreja Católica - Construtora da Civilização - III

Igreja Católica - Construtora da Civilização - II

Igreja Católica - Construtora da Civilização - I

terça-feira, 6 de outubro de 2009

«Crenças e diferenças»

No seu artigo "Crenças e Diferenças", o Ludwig defende a incompatibilidade entre crença científica e crença religiosa.

Pretendo brevemente apontar alguns erros no artigo em questão, aproveitando algumas afirmações específicas feitas pelo Ludwig:

«Os crentes mais moderados defendem que as crenças científicas e religiosas estão ao mesmo nível, assentando as primeiras na ideia de um universo regular e observável e as últimas num deus que revela os seus mistérios.»

Há aqui um problema claro de generalização. O Ludwig não o especifica, mas esta frase não pode ser escrita assim. Os hindus, por exemplo, não confiam na regularidade e observabilidade do universo. Nem entendem Deus como alguém que revela coisas sagradas à Humanidade.

Mas há outro problema mais grave: na esfera concreta da crença católica, nenhum católico pode defender que as crenças científicas e religiosas estão ao mesmo nível. Há duas nuances importantes:

a) para o crente católico, a fonte da crença religiosa é Deus e nessa qualidade, trata-se de crença infalivelmente verdadeira; a crença científica, tendo sempre uma fundamentação empírica (mais ou menos sólida), nunca é definitiva e é sempre passível de refutação (pior caso) ou melhoria (melhor caso)

b) para o crente católico, a realidade é toda a mesma e foi toda criada por Deus, ou seja, o objecto da crença científica faz parte da mesma realidade do objecto da crença religiosa: os milagres de Cristo foram realizados no mesmo mundo real no qual se desenrolam todos os fenómenos estudados pela ciência

Um pouco adiante, o Ludwig escreve:

«A crença do cristão é diferente. O cristão que crê que Maria era virgem não está a assumir que, algures, existem os exames ginecológicos necessários para substanciar esta proposição, que pode ter acesso a esses registos e que, se os analisar cuidadosamente, concluirá que Maria era mesmo virgem. Esta sua crença não é condicional. Não depende de assumir que há fundamento objectivo para a proposição. É uma crença categórica. O cristão crê. Ponto final.»


Não é nada disto que o cristão diz. A crença cristã não é cega. Por exemplo, nenhum cristão pode afirmar a crença numa proposição refutada pela experiência ou pelo conhecimento prático das coisas. A fé é entendida como a aceitação daquilo que é revelado por Deus, e tem como objecto proposições às quais nunca chegaríamos pela via empírica. No entanto, a via empírica não pode refutar uma proposição de fé, senão essa proposição era falsa.

Por exemplo: imaginemos que alguns dos discípulos de Cristo afirmavam que o Mestre era imaterial. Isso era facilmente refutado pelo simples facto de que os discípulos próximos de Cristo poderiam facilmente fazer o teste.

Outro exemplo: imaginemos que se descobria uma sepultura muito antiga, com os restos mortais de uma mulher da Galileia, e que era possível estabelecer, graças a inscrições e a tradições orais e escritas, que se tratava da sepultura de Maria, Mãe de Cristo. Automaticamente, estava refutado o dogma da assunção de Maria aos céus, pois esse dogma afirma de modo categórico que o corpo de Maria foi "absorvido para fora" da materialidade, para fora do tempo e do espaço.

Segundo a forma errada como o Ludwig vê a fé cristã, então o cristão deveria manter a crença no dogma da assunção de Maria, MESMO que surgissem restos mortais de Maria. Ora isso é totalmente falso, e nenhuma verdade cristã é assumida CONTRA verdades empíricas demonstradas.

1) Não só não podem existir incompatibilidades entre a doutrina e as verdades manifestas e indiscutíveis (incluídas as regras da lógica, essenciais ao raciocínio coerente e estruturado)

2) Como são tidos e pesados todos os argumentos a favor de uma tese doutrinal: não se chegou a nenhum dogma da Igreja através de argumentos puros de autoridade, ou através de literalismos escriturísticos, mas sim através de longos e extensos debates (basta conhecer a história dos concílios para se ver como a Igreja amadureceu a exposição da sua doutrina)

O cristão afirma que Maria era virgem por várias fortes razões, que vão desde a tradição oral de quem viveu na altura próximo a Maria, até à coerência teológica que foi procurada tenazmente nos primeiros séculos: para Cristo ser realmente Deus (e este postulado data do tempo dos primeiros doze) e realmente Homem, teria que ter um progenitor humano (Maria) e outro divino (Espírito Santo). A doutrina cristã é o resultado de séculos de consolidação doutrinal (eliminando incoerências e contradições) efectuada sobre tradição escrita e oral.

O cristão não afirma que Maria era virgem só porque "está escrito", ou porque "alguém disse". Isso é fideísmo (ver abaixo), e é uma heresia.

«Esta é uma razão importante para a incompatibilidade entre a ciência e as religiões.»

Não há qualquer incompatibilidade entre fé cristã e ciência. Até seria ilógico supô-lo, uma vez que o cristianismo foi o berço e a motivação do progresso da ciência moderna.

O que se passa é que o cristão não defende um absurdo reducionismo filosófico. É por puro preconceito filosófico que o ateu materialista julga que a realidade tem que ser toda material porque o método científico (por natureza empírico) não vai mais longe. Ora isto é ridículo. Seria o mesmo que afirmar que não existe amor humano só porque não o conseguimos medir com instrumentos. É que o ateu materialista confunde mesmo o real com o empírico, como se não pudesse existir nada que não pudesse ser medido empiricamente. Isto é um preconceito filosófico, e nada tem a ver com ciência.

Já no que toca à compatibilidade entre outras religiões e ciência, então é certo que há muita fé religiosa que é incompatível em maior ou menor grau com a ciência, e é por isso que erra todo e qualquer ateu, como o Ludwig, que trata a crença religiosa toda por igual. Ao não distinguir aqueles credos (como o cristão) que afirmam cabalmente que nenhuma verdade de fé contradiz uma verdade de ciência, o Ludwig generaliza demais e acaba por ser injusto para com o cristianismo.

Por exemplo, o Hinduismo desconfia profundamente dos sentidos (por causa do conceito de "maya"), e por isso, é impossível a integração no hinduísmo da abordagem empírica essencial ao trabalho científico.

Outro exemplo: no Islão, a crença religiosa pode ser irracional, algo impossível na crença cristã. Por isso, é complicado conciliar, na mente do crente muçulmano, a doutrina do Islão com a metodologia do trabalho científico.

«Como as crenças científicas são todas condicionadas à premissa de haver fundamento objectivo, acessível e compreensível, para as proposições em que se crê, os cientistas têm uma exigência quase paranóica de registos de resultados, descrições detalhadas dos procedimentos, conclusões cautelosas, crítica aberta, verificação independente e todo esse aparato que nos dá confiança que, quando chegam a acordo acerca de algo, há por trás um forte fundamento para o que defendem.»

Eu não vejo nada de paranóico nisso. Essa boa escola do cientista é a boa escola da cosmovisão judaico-cristã. O cristão só pode valorizar o empirismo, uma vez que o Cristão acredita que a realidade é boa, porque é obra de um Deus bom, que não engana, e que os sentidos do Homem, feitos por Deus, são fiáveis, e que o intelecto humano, feito à imagem do de Deus, é minimamente fiável, e que ambos os intelectos partilham do uso da razão e da lógica.

Desafio o Ludwig a explicar como é que essa escola científica teria chegado aos nossos dias se não tivesse sido precisamente a Igreja Católica a pior inimiga das heresias opostas a essa escola, como a heresia gnóstica, ou a tradição hermético/ocultista ocidental, que via magia e "poderes ocultos" na Natureza.

«As religiões fazem o contrário. A crença incondicional e dogmática vira as religiões para dentro, para as suas figuras de autoridade ou escritos sagrados onde o fundamento último de tudo é o mistério insondável da fé.»

Isto é uma heresia cristã: chama-se "fideísmo". É estranhíssimo, mas está longe de ser um caso raro, que tantos ateus continuem a insistir numa generalização que acaba por ser injusta para com a Igreja Católica.

Como se pode ver aqui, a Igreja justamente considerou herética a filosofia de crença que o Ludwig tanto critica, e que ele julga erradamente ser algo geral e comum a todas as religiões. Há muitas religiões, mas não a cristã, que pensam assim. Vendo bem, da heresia do "fideísmo" à superstição pura e dura vai um passo curto.

Termino com um desafio: peço ao Ludwig que me aponte uma contradição, basta apenas uma, entre doutrina católica e ciência. Note-se bem: não pergunto se há coisas na doutrina católica que a ciência não pode nem provar nem refutar (é certo que as há). Pergunto se há verdades científicas que tenham refutado pontos da doutrina cristã...
Porque será que não existem?
Será só sorte da doutrina cristã?
Estará a primeira refutação ao virar da esquina?

sábado, 5 de setembro de 2009

Sofisma "gay"


(Max Mutchnick - fonte: http://www.proudparenting.com, obtida da Internet Movie Database)

«Sofisma. 1. Raciocínio ou argumento intencionalmente falso, com aparência de verdadeiro, com o qual se pretende enganar alguém. 2. Engano, logro.», - Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências (Verbo).

A palavra "gay" dispensa definições...

Vou criticar um texto publicado num site "gay & lesbian friendly" cujo nome eufemístico é "Proud Parenting". Faz sentido. Orgulho "gay". Parentalidade orgulhosa. Faz?

(O autor é Max Mutchnick, criador e produtor executivo da série televisiva "Will & Grace". Confesso que, por várias vezes, vi episódios dessa série, e até me ri de algumas das piadas. É bem sabido que, hoje em dia, nos canais televisivos dedicados a séries, há uma grande fatia de séries "gay & lesbian friendly". A tendência é descarada e assumida. "Will & Grace" é uma série muito inteligente, com sentido de humor, e cheia de propaganda "gay & lesbian". O humor é uma arma poderosa. Como em todas as séries de grandes audiências feitas com essa intenção "educativa", a coisa está tão bem feita que conseguimos ver os episódios, rimo-nos das piadas, e nunca nos vêm à cabeça as perversões sexuais que os casais "gay & lesbian" fazem debaixo dos lençóis - a coisa sexual está completamente edulcorada: como se o público a ensinar fosse infantil - e de facto é, visto que, sendo um público heterossexual, está ainda nos primeiros anos da formação "gay & lesbian")

Max Mutchnick relata uma situação vivida num aeroporto por si e pelo seu "companheiro" Erik, a quem ele se refere como "husband". Max, Erik, e duas gémeas de colo, dirigiam-se ao controlo de segurança do aeroporto quando foram interpelados por um segurança. Como se pode verificar pelo relato de Max, o segurança olhava perplexo para aquele grupo improvável: dois homens adultos acompanhados por dois bebés do sexo feminino.

Pelo texto, é fácil constatar a arrogância de Max, que do alto da sua popularidade "hollywoodesca", trata o segurança como se este fosse um anormal. Ora, o segurança apenas está a tomar contacto com as chamadas "novas realidades da família moderna". Nesta história sinistra, o segurança representa aquele que Chesterton apelidava de "the common man", ou seja, ele representa o senso comum da pessoa comum.

O que eu pretendo, com este meu texto, não é qualquer tipo de despudorado ataque homofóbico, aliás incompatível com a mais elementar caridade cristã, que nos inclina moralmente a tratar com misericórdia (com a "miséria do outro" no coração) toda e qualquer pessoa cuja vida seja vivida em profundo erro. Nesse sentido, olho para Max Mutchnick como quem olha para uma tragédia humana, e infelizmente, há tantas. Devemos sentir real e sincera compaixão por pessoas nesta situação. (Propositadamente, escrevi "por pessoas nesta situação", e não "por pessoas assim").

No entanto, a compaixão não obriga ao silêncio perante sofismas e soberbas. O facto de Max ter sido, neste episódio, um arrogante de primeira, e de ter exercido a sua arrogância aplicando um manhoso sofisma ao desgraçado do segurança, permite-me, a mim e a qualquer pessoa que preze a decência e a inteligência, escrever esta crítica.

Ora vamos ao cerne da questão...
O segurança estava então muito curioso com aquela singela "família"...
E, de forma espontânea, o segurança pergunta a Max:

"Where did you get your kids?"

E vem a resposta superior de Max:

"I made them."

Certamente perante o olhar estupefacto do segurança, Max dá, ali mesmo, uma aula ao segurança acerca de "gestacional surrrogacy". Ele mesmo o diz. O que completa o quadro professoral de soberba do sofista "gay".

«There's a donor. She gives us the eggs. We never meet her. She is not the "mom". There is no mom. There's a surrogate. She's the oven.»

E aqui temos o sofisma.
Escarrapachado.
Sem vergonha.
Não há "mãe", ensina Max.
Ela é apenas "o forno", ensina Max de forma complacente para com o segurança.

Ora isto é uma mentira científica. Uma mentira biológica. Uma mentira.
O genoma de qualquer ser humano, mesmo das desgraçadas das crianças adoptadas por "casais LGBT" é composto por 50% de genes provenientes de um espermatozóide, e por 50% de genes provenientes de um óvulo.

Se há coisa certa, ó Max, é que as gémeas que tinhas ao colo têm mãe!

Mas é também útil olhar para a metáfora escolhida por Max para a mãe das crianças: ela é "o forno". Alguém mergulhado na cultura LGBT poderia dizer que o Max estava apenas a simplificar uma questão complexa e sofisticada para que o bruto do segurança a compreendesse. Mas não estamos perante apenas uma simplificação. Estamos perante uma mudança de contexto. Max não está apenas a simplificar um processo gestacional. Está a desnaturá-lo.

Ao referir-se à mãe das crianças como "o forno", ele trai claramente o que lhe vai dentro da cabeça: a "coisificação" de pessoas. Se ele "coisifica" a mãe, tornando-a num forno, então coisifica (talvez inconscientemente) as crianças que adoptou, talvez encarando-as, quem sabe, como patos à Pequim ou cataplanas de marisco. As crianças que Max e "companheiro" trazem ao colo não são fruto do amor dos seus respectivos pais pela mãe. São fruto do capricho humano: são coisas que eles compraram. E como deve ser caro o processo técnico que eles seguiram para as obter...

É assim que Max, tentando simplificar a linguagem para o bruto, trai o seu pensamento e revela a sua filosofia desumana, que "coisifica" pessoas.

Mas a aula ainda não tinha acabado...

«(Giants prefer short sentences with small words).»

Este é o "à parte" cínico e arrogante de Max. Já todos sabemos que aqueles que não querem entrar no autocarro "LGBT" são, no mínimo, burros, e no máximo, homofóbicos cheios de ódio.

«My husband and I (the Giant winced) fertilized four eggs. They went inside the surrogate. Two of the eggs took.»

Os outros dois ovos fertilizados, que se lixe, certo, Max?
Mas aqui temos mais erros concretos: Max não fertilizou nada. Nem Erik. Eles doaram espermatozóides, e algum técnico de laboratório fez a fertilização dos óvulos da mãe com os espermatozóides de Max e Erik. É também por esta causa que a frase de Max referida atrás, "We made them.", é também ela uma mentira clara. As crianças foram feitas em laboratório. E cresceram e desenvolveram-se dentro da barriga da "mãe", o "forno".

«Fraternal twins were born 8 months and two weeks later. One of them was biologically his. One of them was biologically mine. But they're both ours, you know?»

Bom... Lamento, mas é necessário voltar a tocar a campainha da lógica.
Supondo que a precisão científica deste complexo processo gestacional foi rigorosamente controlada, e que Max e Erik sabiam exactamente que os dois ovos que se fixaram eram realmente, um cuja paternidade era de Max e outro cuja paternidade era de Erik, ou seja, tomando esse rigor como certo, ainda é preciso salvar a lógica: se isso é verdade, uma das crianças é filha de Max, a outra é filha de Erik, e são ambas filhas da sua mãe, "o forno". Mas não é muito lógico dizer que a filha de Max é filha de Erik, ou vice-versa. A não ser que Max se refira a uma paternidade afectiva, o que é algo diferente, mas Max não explica essa diferença na sua aula.

«You can do that?»

Pergunta o segurança, claramente vítima, também ele, do deslumbramento tecnológico que faz quase toda a gente olhar para novas técnicas de fertilização e gestação como uma criança olha para uma caixa de X-Men...

Max terá sorrido com benevolência: "You can!".
Se se pode fazer, que mal tem?

Em breve nos cinemas (será que cá também?)



«We had a whole plan to sell abortions: it was called Sex Education. Break down their natural modesty. Separate them from their parents and their values and become the sex expert in their lives, so they turn to us, when we would give them a low-dose birth control pill they would get pregnant on, or a defective condom.

Our goal was three to five abortions from every girl from the ages 13 to 18.»


- Carol Everett, antiga proprietária de quatro clínicas de aborto em Dallas, no Texas, E.U.A.

domingo, 9 de agosto de 2009

Progressistas e Conservadores

Um dos mais preocupantes sinais de esquizofrenia colectiva consiste em usar palavras cujo significado já se perdeu, ou em usá-las com um significado novo e ilógico, porque nada tem a ver com a sua etimologia.

O "progressista" e o "conservador" surgem assim, a partir do século XIX (e a moda não passa de moda), como dois dos mais irritantes adjectivos de uso comum. Irritantes porque, de tanto e mau uso, tornaram-se em palavras ocas. Todos as usam, e ninguém se dá conta da tontice.

Estes adjectivos nasceram na política, e da política. O "conservador" era, e ainda é, associado com a chamada "direita" política, e o "progressista" com a chamada "esquerda". Escusado será dizer que "direita" e "esquerda" são, também eles, termos muito irritantes, cuja frequência de uso é directamente proporcional à vacuidade do discurso onde surgem inseridas.

Tudo isto é muito pateta. Porque, na verdade, não é nada recomendável alguém ser conservador. E não é mais recomendável alguém ser progressista.

É o mesmo tipo de tontice daquele maluco que é pelo olho direito, ou daquele residente do hospital psiquiátrico que diz que prefere o rim esquerdo.

Como dizia o Chesterton, e como é bem sabido, a ocupação do progressistas consiste em fazer asneiras e a dos conservadores consiste em evitar que elas sejam corrigidas.

Eu acrescentaria que a paranóia do progressista está em preferir o novo porque é novo (mesmo que seja algo muito mau) e a paranóia do conservador está em preferir o velho porque é velho (mesmo que seja algo muito mau).

Evidentemente, não existem progressistas, como não existem conservadores. Quando muito, existirão nalguma ala psiquiátrica, afectados por alguma patologia rara. Mas, cá fora, simplesmente não existem.

Porque até o progressista mais radical e mais fanático é o primeiro a reconhecer a rotina conservadora do seu banho frequente (já nem digo diário, mas apenas frequente): é quase certo que o progressista não consegue inovar no que toca às partes do corpo que tem que lavar todos os dias: nessa matéria, e em muitas outras, não há progresso possível: um braço é sempre um braço e tem que ser limpo, um pé é sempre um pé, e claramente tem que ser limpo. E assim por diante, numa conservadora monotonia, mas que conserva o progressista num estado socialmente apresentável.

Já o conservador mais radical e mais fanático não tem como fugir ao facto de que, com a devida rotina, há que progredir da roupa suja para a roupa lavada. Sentirá, certamente, uma raiva contra a mudança que lhe vem do seu obstinado conservadorismo, mas conservador que se preze não é socialmente apresentável se não trocar de vez em quando a sua roupa suja por roupa lavada.

Alguém distraído pensaria agora que é a higiene que une o progressista ao conservador, mas é preciso ir mais além. O exemplo que dei mostra, claramente, que a higiene pode ser uma ponte entre progressistas e conservadores, mas a coisa é mais profunda. É agora o momento certo para se fazer uma revelação bombástica...

É que... na verdade... o ideal seria mudar do mau para bom, ou seja, ser progressista para melhor, e o ideal seria também, e ao mesmo tempo, manter o bom, ou seja, ser conservador face ao melhor.

Por isso, a pessoa equilibrada é progressista para melhor e conservadora face ao melhor. E então, a pessoa equilibrada, dotada do mais elementar bom senso, não se atreve a proferir esse disparate que é o de se intitular progressista ou conservador.

Os mais que simpáticos visitantes deste blogue, esse raro mas valioso grupo de apoiantes, já devem estar neste momento a pensar porque razão ainda não meti nenhum ingrediente religioso, visto que neste blogue quase só se fala de religião. Mas já vem aí, o ingrediente religioso...

É que, se é certo que há pessoas que vêem tudo do ponto de vista religioso (eu sofro dessa obsessão), há também pessoas que vêem tudo do ponto de vista político. Sabendo de antemão que há muita gente que diz que há assuntos para os quais a religião não é chamada, atrevo-me a dizer, de outro ponto de vista, que há assuntos para os quais a política não é chamada (escândalo!). É verdade. É que há mesmo assuntos desses...

Por exemplo, quando os "media", ou a opinião pública (tantas vezes andam de mãos dadas), falam sobre religião, costumam dizer "este bispo é conservador", ou então "aquele padre é progressista", ou ainda "venceu a ala conservadora do Vaticano", ou então "a Igreja precisa de um Papa mais progressista". Tal esquizofrenia é doentia e intoxicante. Porque acharão que uma Igreja deve ser analisada com ferramentas clássicas (mas não por isso inquestionáveis) da política?

Todo este texto vai então, descaradamente, desembocar nesta afirmação peremptória: não há católicos progressistas. Nem há católicos conservadores. Há católicos. Ponto final. E depois há católicos com problemas de identidade (ah, se os há!).

É que, mais uma vez, os epítetos de "progressista" e de "conservador" mostram-se incapazes de ajudar-nos a compreender realidades complexas. Porque, claramente, não servem para classificar pessoas. Logo, não servem como adjectivos aglutinadores de pessoas parecidas, se nem sequer acertam na classificação de uma só pessoa que seja.

Por exemplo: os teólogos chamados de "progressistas" nos anos 60 andavam todos entusiasmados com a ideia de abolir o dogma. Pregaram até à exaustão a liberdade de consciência do leigo, a sua autonomia e o seu inegável direito até a decidir a própria doutrina católica, ou a doutrina católica que cada um queria para si. Foram idolatrados e adorados, estes teólogos. Depois, ficaram sem audiência. Os leigos foram-se embora. Os seminários por eles orientados ficaram vazios. Dos alunos por eles ensinados, poucos seguiram vocações. Foi o deserto.

A certa altura, a Igreja entendeu pôr fim a essa patetice do "teólogo progressista", cujo problema não era ser teólogo, mas sim achar-se, e ser visto como, progressista, visto que, como vimos, não há pessoas progressistas nem conservadoras. Que não haja a mais pequena dúvida de que a Igreja tem a mesma tenacidade em querer acabar com os "teólogos conservadores", ou seja, gente a querer manter as coisas na mesma só por serem antigas. Se assim não fosse, espécimes raras como as de teólogos a defender a escravatura ou a defender os autos-de-fé ainda andariam por aí a ensinar cursos de Teologia.

(Note-se que, mais uma vez, o teólogo "conservador" em fim de carreira, que defendia obstinadamente coisas indefensáveis, fazia parte da mesma estirpe que, em tempos, apresentara essas coisas indefensáveis como "progresso")

Mas o que é irónico constatar, hoje em dia, é que o "teólogo progressista" dos anos 60, ainda cheio de ímpeto durante os anos 70 e 80, hoje em dia é um dinossauro fossilizado. Uma Igreja nova, rejuvenescida, que sabe desmontar os disparates do chamado "espírito do Concílio" (totalmente contrário ao que realmente se passou e decidiu no Concílio), realmente sobreviveu às paranóias de alguns (a certa altura, muitos) teólogos "progressistas". E, hoje em dia, o "progressista" passou a ser visto por muitos como um "conservador", como alguém que se opõe tenazmente às orientações realmente progressistas (no sentido de ir do pior para o melhor) de Roma. Visto que tal estirpe de teólogo optou, no seu tempo de juventude, por criar uma teologia individual e própria, essa teologia individual e própria envelheceu e definhou, como todas as coisas que não são eternas nem verdadeiras. E, ao se deparar com a futilidade das suas guerras de juventude, o agora velho teólogo, se se mantiver obstinado e não quiser seguir o rumo do verdadeiro progresso, irá naturalmente tentar "conservar" o velho só porque é seu, só porque representa os seus tempos de juventude. Ele não se dá conta, na verdade, de que caiu na fatalidade do conservador, do conservador que ele tanto repudiava em novo: é que ele, na verdade, tombou na pedra de tropeço de todos os conservadores: está a conservar o velho por ser velho.

Termino com um desafio aos que trombeteiam diariamente as palavras "progressista" e "conservador": façam um esforço sério por nos explicar porque é que querem mudar (e porque é que consideram o antes como mau e o depois como bom), e porque é que querem conservar (porque é que consideram bom o que querem conservar).

Já basta de querer lançar o novo só por ser novo, e de querer manter o velho só por ser velho...