"Mas, no íntimo do vosso coração, confessai Cristo como Senhor, sempre dispostos a dar a razão da vossa esperança a todo aquele que vo-la peça" - Primeira Carta de São Pedro, cap. 3, vs. 15.
quarta-feira, 16 de dezembro de 2009
quarta-feira, 9 de dezembro de 2009
O Inferno
Do Padre Hugo de Azevedo:
«Quem não acredita no inferno não acredita no homem. Não acredita no homem como ser consciente e livre, pessoal, responsável. Capaz de escolher o seu destino. Não acredita em nada, afinal: assiste à existência, perplexo ou distraído. Não lhe vê sentido nenhum. Vive e movimenta-se como um galo sem cabeça, até cair dessangrado. Quem não acredita no inferno não acredita na dignidade humana, tal e tanta, que Deus a respeita escrupulosamente, até ao ponto de deixar perder-se um filho, depois de ter dado a vida do seu Unigénito por ele. Nenhuma pessoa nem sociedade manifesta maior respeito pela nossa liberdade, um respeito que chega a ser assustador, pela tremenda responsabilidade que nos confere, e à qual não podemos renunciar. E, se só de pensar na eterna separação de Deus nos afligimos, que será presenciar o inferno, como Nossa Senhora o mostrou aos três pastorinhos?
E por que o fez, senão para nos dar a todos, através deles, o sentido das realidades que estão em jogo na vida? «Viver é um negócio muito perigoso», diz sabiamente um personagem de Guimarães Rosa. Não faltaram hereges que, presumindo-se mais bondosos do que Deus, o contestaram a existência do inferno, ou a sua eternidade. De facto, «é horrendo cair nas mãos do Deus vivo» (Hebr 10, 31), exclamava o Apóstolo, assim como é maravilhoso «viver com Ele no amor» (Sab 3, 9). Embora devamos animar-nos com a esperança do Céu, é muito conveniente não esquecermos a horrível alternativa da perdição. Caso contrário, não entendemos a Encarnação, nem a Cruz, nem a instituição da Igreja, nem o valor dos Sacramentos, nem a necessidade da vigilância e da oração constantes, nem a luta ascética, nem a urgência do apostolado...
«As afirmações da Sagrada Escritura e os ensinamentos da Igreja a respeito do inferno são um apelo ao sentido de responsabilidade com que o homem deve usar da sua liberdade, tendo em vista o destino eterno. Constituem, ao mesmo tempo, um apelo urgente à conversão: 'Entrai pela porta estreita...'» (Catecismo da Igreja Católica, 1036).
Quando perguntavam aos militares destinados ao Iraque se não sentiam medo, a resposta sensata era a que davam: «Não ter medo seria irracional!» E, se é irracional não temer a morte violenta, quanto mais sensato será temer a morte eterna! «Não temais os que podem matar o corpo... Temei antes aquele que pode lançar a alma e o corpo na Geena!» (Mt 10, 28)
Mas não diz o Apóstolo que quem teme não é perfeito na caridade? (I Jo 4, 18) Temer o inferno não é temer Deus; é justamente o contrário: temer a separação d’Ele. Quanto a Ele não cabe o temor, mas só o amor. Nem sequer havemos de recear a nossa fragilidade, pois Ele bem sabe «de que barro somos feitos» (S 102, 14). O inferno não se destina aos pecadores, que todos somos; destina-se aos soberbos. Assim como o Céu não se destina aos «perfeitos», que nenhum de nós é; destina-se aos humildes, aos que amam a Deus e se arrependem... até do bem que fazem, por ser tão pouco!
A soberba é o caminho do inferno. Aquele que não se habituou a pedir desculpa, tanto a Deus como ao próximo; aquele que «tem sempre razão», que só erra «por culpa dos outros», que não encontra nada de que se arrepender, e foi sempre «perfeito» no seu comportamento, modelo e padrão da restante gente... esse está a caminho de se perder eternamente.
Por isso havemos de animar todos os cristãos ao Sacramento da Penitência. Quem frequenta a Confissão, está preparado para entrar na glória divina, ainda que a morte o colha de surpresa, porque nesse instante decisivo seguirá facilmente o exemplo do bom ladrão, e Deus o receberá com alegria. Rezemos, porém, pelos que perderam o costume de se confessarem: nem imaginam em que perigo estão! «Rezai, rezai muito e fazei sacrifícios pelos pecadores», pedia com tristeza, em Agosto de 1917, Nossa Senhora aos três meninos de Fátima, «que vão muitas almas para o inferno por não haver quem se sacrifique por elas!»
Muitos problemas pastorais preocupam a Igreja, mas este é o decisivo. E o espírito de penitência, a solução.»
Fonte: Site Celebração Litúrgica
«Quem não acredita no inferno não acredita no homem. Não acredita no homem como ser consciente e livre, pessoal, responsável. Capaz de escolher o seu destino. Não acredita em nada, afinal: assiste à existência, perplexo ou distraído. Não lhe vê sentido nenhum. Vive e movimenta-se como um galo sem cabeça, até cair dessangrado. Quem não acredita no inferno não acredita na dignidade humana, tal e tanta, que Deus a respeita escrupulosamente, até ao ponto de deixar perder-se um filho, depois de ter dado a vida do seu Unigénito por ele. Nenhuma pessoa nem sociedade manifesta maior respeito pela nossa liberdade, um respeito que chega a ser assustador, pela tremenda responsabilidade que nos confere, e à qual não podemos renunciar. E, se só de pensar na eterna separação de Deus nos afligimos, que será presenciar o inferno, como Nossa Senhora o mostrou aos três pastorinhos?
E por que o fez, senão para nos dar a todos, através deles, o sentido das realidades que estão em jogo na vida? «Viver é um negócio muito perigoso», diz sabiamente um personagem de Guimarães Rosa. Não faltaram hereges que, presumindo-se mais bondosos do que Deus, o contestaram a existência do inferno, ou a sua eternidade. De facto, «é horrendo cair nas mãos do Deus vivo» (Hebr 10, 31), exclamava o Apóstolo, assim como é maravilhoso «viver com Ele no amor» (Sab 3, 9). Embora devamos animar-nos com a esperança do Céu, é muito conveniente não esquecermos a horrível alternativa da perdição. Caso contrário, não entendemos a Encarnação, nem a Cruz, nem a instituição da Igreja, nem o valor dos Sacramentos, nem a necessidade da vigilância e da oração constantes, nem a luta ascética, nem a urgência do apostolado...
«As afirmações da Sagrada Escritura e os ensinamentos da Igreja a respeito do inferno são um apelo ao sentido de responsabilidade com que o homem deve usar da sua liberdade, tendo em vista o destino eterno. Constituem, ao mesmo tempo, um apelo urgente à conversão: 'Entrai pela porta estreita...'» (Catecismo da Igreja Católica, 1036).
Quando perguntavam aos militares destinados ao Iraque se não sentiam medo, a resposta sensata era a que davam: «Não ter medo seria irracional!» E, se é irracional não temer a morte violenta, quanto mais sensato será temer a morte eterna! «Não temais os que podem matar o corpo... Temei antes aquele que pode lançar a alma e o corpo na Geena!» (Mt 10, 28)
Mas não diz o Apóstolo que quem teme não é perfeito na caridade? (I Jo 4, 18) Temer o inferno não é temer Deus; é justamente o contrário: temer a separação d’Ele. Quanto a Ele não cabe o temor, mas só o amor. Nem sequer havemos de recear a nossa fragilidade, pois Ele bem sabe «de que barro somos feitos» (S 102, 14). O inferno não se destina aos pecadores, que todos somos; destina-se aos soberbos. Assim como o Céu não se destina aos «perfeitos», que nenhum de nós é; destina-se aos humildes, aos que amam a Deus e se arrependem... até do bem que fazem, por ser tão pouco!
A soberba é o caminho do inferno. Aquele que não se habituou a pedir desculpa, tanto a Deus como ao próximo; aquele que «tem sempre razão», que só erra «por culpa dos outros», que não encontra nada de que se arrepender, e foi sempre «perfeito» no seu comportamento, modelo e padrão da restante gente... esse está a caminho de se perder eternamente.
Por isso havemos de animar todos os cristãos ao Sacramento da Penitência. Quem frequenta a Confissão, está preparado para entrar na glória divina, ainda que a morte o colha de surpresa, porque nesse instante decisivo seguirá facilmente o exemplo do bom ladrão, e Deus o receberá com alegria. Rezemos, porém, pelos que perderam o costume de se confessarem: nem imaginam em que perigo estão! «Rezai, rezai muito e fazei sacrifícios pelos pecadores», pedia com tristeza, em Agosto de 1917, Nossa Senhora aos três meninos de Fátima, «que vão muitas almas para o inferno por não haver quem se sacrifique por elas!»
Muitos problemas pastorais preocupam a Igreja, mas este é o decisivo. E o espírito de penitência, a solução.»
Fonte: Site Celebração Litúrgica
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
Dissidentes...
Nos comentários ao texto do Bispo Tobin que publiquei há umas semanas, o Sérgio defendeu o valor positivo de uma Igreja Católica que acolhe, como católicos, pessoas de ideias muito diferentes. À partida, a ideia parece boa. Mas claramente, qualquer pessoa entende que isso depende muito de que ideias e diferenças se está a falar! Por exemplo, tenho a certeza quase absoluta de que o Sérgio rejeitaria imediatamente como católico alguém que se afirmasse católico e firmemente defendesse a escravatura!
O Sérgio deu o exemplo de Frei Bento Dominges e do Padre Anselmo Borges para vincar, segundo ele, o valor positivo de uma Igreja que os acolhe como católicos em pé de igualdade com os outros. Aqui, o Sérgio dá um passo arriscado: o de supor que a ausência de punição ou admoestação a estes teólogos, por parte da hierarquia da Igreja, implica uma aceitação das suas posições. Eu não vejo como é que o Sérgio dá este passo. Será numa de "quem cala, consente"?
Evidentemente, estes exemplos dados pelo Sérgio têm significado: ele não escolheu estes nomes à toa. É que são os nomes de dois dos mais conhecidos teólogos dissidentes aqui em Portugal. Tenho a noção do peso enorme do que digo. Eu, o leigo ignorante, a acusar estes dois professores e teólogos de dissidência! No entanto, mais não faço que constatar um facto. E posso dar um exemplo concreto, sendo certo que conseguiria encontrar inúmeros outros exemplos… Aquando do último referendo acerca do aborto, estes dois teólogos vieram a público defender o voto “sim”: Frei Bento chegou ao ponto de invocar São Tomás para defender esse sentido de voto [1]. Sendo claríssimo que a Igreja sempre condenou o aborto como crime moral, pela razão evidente de que se trata da morte de uma vida humana inocente, não há quaisquer dúvidas de que qualquer católico (mesmo que protegido pela chancela de teólogo profissional) que não aceite este ponto, está em dissidência [2]. No caso especialmente grave do aborto, a dissidência assume contornos sinistros, fazendo dos defensores do “sim” e do pretenso “direito” ao aborto, colaboradores coniventes no crime do aborto. Nem mais, nem menos…
Quem me lê, discordando daquilo que escrevo, vai quase de certeza associar as minhas ideias ao meu “conservadorismo”, esse termo de significado vazio e ilegalmente importado da política, que se tira, qual “ás” do baralho, para acabar logo com a discussão. O Bernardo é um “conservador”, assunto arrumado. Os menos simpáticos chamar-me-ão “fanático” ou “fundamentalista”. Mas, para se ver porque razão essa apreciação é injusta, gostaria de contar algo sobre o meu percurso no catolicismo.
Nem sempre me dei conta do que era isso de ser católico, e do que implicava, sobretudo em termos morais, ser católico. Por volta dos vinte e poucos anos, recordo-me do entusiasmo que sentia quando lia os textos de Frei Bento Domingues no Público.
(Um parêntesis curioso: tanto Frei Bento Domingues como Anselmo Borges têm crónicas regulares em dois dos maiores jornais portugueses – porque será que os “media” dão tanto espaço à dissidência católica? Isso daria outro debate complexo, mas é evidente que a enorme exposição mediática destes dois teólogos coloca-os numa fortíssima posição de influência, e isso deveria acarretar uma responsabilidade, pois eles são vistos, por quem lê as suas crónicas, como representantes da Igreja Católica…)
Lia os textos de Frei Bento sempre ao Domingo, quando pegava no jornal comprado pelo meu avô. Recordo-me que, assim que pegava no jornal, eu começava sempre pelas palavras de Frei Bento. Lia-as com muita satisfação. O que eu sentia, então, era que aquele homem tinha um discurso arejado e positivo, moderno e entusiasmante. De vez em quando, Frei Bento criticava a hierarquia, mas também é verdade que nem sempre o tom era esse, e seria injusto dizê-lo. Por vezes, Frei Bento questionava o Magistério, sugeria mudanças profundas. Duas coisas ficaram-me para sempre na cabeça quando eu lia essas suas crónicas mais dissidentes: uma delas, já referi, era o enorme entusiasmo que tais crónicas me provocavam. A outra era o agrado com o qual eu constatava que Frei Bento referia constantemente, para suportar as suas posições, o Concílio Vaticano II. Era a chancela de que eu precisava para aceitar Frei Bento, incondicionalmente, como fonte de autoridade.
Aos olhos de um miúdo de vinte e poucos anos, quase totalmente ignorante em matéria de eclesiologia e doutrina católica, a coisa parecia feia no que tocava ao Magistério: ficava-se com a impressão de que a hierarquia estava a tentar sufocar ou pelo menos a tentar fazer esquecer pontos centrais do último grande concílio, e que teólogos como Frei Bento estavam, não só na vanguarda do pensamento, mas também na posição de defensores da verdade do ensinamento do próprio concílio. Curiosamente, foi neste período da minha vida que menos fui à missa: não me confessava há anos, não fazia qualquer juízo moral aos meus actos e pensamentos. Procurava justificar tudo o que fazia, e encaixar isso no catolicismo que criava à minha medida.
O meu percurso de mudança de admirador inicial incondicional de Frei Bento para o extremo diametralmente oposto, pois hoje em dia tenho uma péssima opinião sobre as suas posições doutrinais, não foi percorrido de uma só vez. Precisei de anos para me dar conta de que o catolicismo era uma coisa diferente da que era retratada pelos teólogos dissidentes. E o mais curioso é que eu poderia ter-me dado conta disso numa só assentada: isso só não aconteceu porque o ser humano é muito teimoso, e a minha teimosia e casmurrice é lendária. Tão arrogante era eu acerca da minha “autonomia intelectual” de católico progressista, que achava que podia ser católico e discordar de quase tudo, desde a homossexualidade, passando pelo aborto, pelo divórcio, pela ordenação das mulheres, pela contracepção artificial, pelo celibato sacerdotal, e pelas demais causas “liberais” da dissidência, que eu demorei anos a arrumar a casa. Não foi fácil dar-me conta da minha estupidez proverbial. Os factos eram evidentes, mas a falta de cultura católica era explosiva, quando estava misturada com um feitio orgulhoso como o meu.
Mas que factos eram esses? Que factos é que se me depararam, e fizeram com que, a pouco e pouco, eu rejeitasse a dissidência e reencontrasse a minha identidade católica?
Em primeiro lugar, que o Concílio Vaticano II tinha um conteúdo muito diferente do que os teólogos “progressistas” afirmavam. Aprendi a distinguir a “letra” do Concílio do dito “espírito” do Concílio, esse cheiro pestilento que normalmente se costuma colar aos textos conciliares, fazendo-os dizer à força coisas que não dizem.
Por exemplo, nunca, em texto algum do Frei Bento que eu tenha lido, eu pude aprender o facto claro e inegável de que o Vaticano II confirmava o papel central do Magistério como agente de preservação e ensinamento da doutrina, papel esse que recebera uma formulação forte de infalibilidade no Vaticano I. Sem nunca ter lido os textos do Concílio, e pela leitura assídua dos dissidentes, fiquei com a ideia de que o Vaticano II era um momento incontornável e decisivo de ruptura. Ora nada é mais contrário à verdade dos factos. O Vaticano II deixou claro quem ensina na Igreja. Nessa e noutras matérias, o Vaticano II, longe de ser ruptura, é um concílio de continuidade, que aprofunda questões que foram trabalhadas no Vaticano I. Por exemplo, um trecho como o seguinte, retirado da Constituição Dogmática Lumen Gentium, não deixa margens para dúvidas ou outras interpretações:
Se o ponto 22 da Constituição Dogmática deixa claro o papel do Papa e dos Bispos, vejamos agora o ponto 25, acerca do ministério episcopal de ensinar:
Como se pode constatar, a Lumen Gentium é límpida e clara, como o próprio título deixa transparecer. Como tão bem sintetizou Ralph McInerny:
Ou ainda, como explica o professor de filosofia Germain Grisez:
Se eu tivesse tido acesso a esta informação valiosa, e também abertura para a receber, poderia ter “regressado a casa” mais cedo, ou seja, poderia ter reencontrado a minha identidade católica mais cedo… Citações como estas, de Ralph McInerny ou de Germain Grisez podem chocar muita gente, mesmo católicos, sobretudo os que ainda vivem sob a alçada da teologia liberal. Mas é inegável que reflectem o verdadeiro espírito do Concílio.
Mas será, realmente, chocante a ideia de que um católico é, por definição, um papista? Só chocará se alguém defender que o Papa não é uma fonte fiável em matéria de doutrina. É esse pressuposto não demonstrado e irrazoável que assumem os não papistas: eles assumem que o Papa não é fiável em matéria de moral e doutrina. E então, seria evidentemente um abuso para a boa formação da consciência ter que aquiescer a uma fonte de moral errada, ou no melhor caso, falível. No entanto, é claro que se o Papa não se engana em matéria de doutrina e de moral, então a aquiescência da nossa consciência, o nosso sim filial e incondicional, é para nós garantia segura de inerrância. Ao estarmos com Pedro, e sob Pedro, estamos na melhor situação possível. E isso é algo claro e transparente para qualquer católico que entendeu o que é ser católico. E é por isso que qualquer católico não pode deixar de olhar para o Papa como quem olha para um real e presente “alter Christus”, como um ícone e reflexo da mesma verdade de sempre que nos foi legada por Jesus Cristo Senhor Nosso, não para nossa ilustração intelectual, não para os nossos debates filosóficos, mas para a nossa salvação. Isto não resulta, é óbvio, de um “endeusamento” da figura do Papa: é apenas conclusão lógica e racional da promessa de Cristo descrita em Mateus 16, 18: “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do abismo nada poderão contra ela”.
Mas então, de onde vem esta esquizofrenia pretensamente católica que consiste em querer defender a posição indefensável de que se pode ser católico e ao mesmo tempo, divergir dos ensinamentos do Magistério?
O ponto histórico central que marca esta ruptura dos teólogos liberais com o ensinamento de sempre da Igreja pode definir-se de forma clara na reacção destes à encíclica Humanae Vitae, de Paulo VI. Os teólogos liberais ficaram duplamente “ofendidos” com esta encíclica: por um lado, durante as décadas que precederam a encíclica, eles ensinavam aos casais que a contracepção artificial era tolerável, ou mesmo louvável, no casamento católico. Por outro lado, uma comissão teológica instituída pelo Papa João XXIII, e cujos trabalhos se prolongaram até ao papado de Paulo VI, concluiu que não havia objecções à contracepção artificial, desde que usada dentro do casamento. Quando o Papa Paulo VI publica a Humanae Vitae a 25 de Julho de 1968, indo no sentido contrário da conclusão da comissão teológica, compreende-se a situação delicada na qual o Papa deixara estes teólogos, ou melhor, a situação delicada na qual os teólogos, eles mesmos, se haviam colocado. O que já não se compreende é a reacção intempestiva destes últimos. Frei Charles Curran, professor de teologia na Catholic University of America e vice-presidente da American Theological Association, lançou um abaixo-assinado que chegou às páginas do New York Times a 30 de Julho, apenas 5 dias após a publicação da encíclica. O abaixo-assinado trazia as assinaturas de mais de duzentos teólogos (note-se a ausência de bispos). Surgia então, em 1968, este “novo magistério” alternativo e não oficial! Nos anos que se seguiram, este “novo magistério” iria ganhar aderentes e espalhar-se por todo o mundo católico, entrando em seminários, em universidades, nas catequeses, nas paróquias, em casas de retiro, e nos jornais e publicações católicas. Aos fiéis, cabia-lhes escolher de que lado ficariam. Os teólogos dissidentes deixavam os fiéis numa situação horrível…
O que isto deixa claro, nesse ano já remoto de 1968, era que se estava perante um problema novo, criado pelos teólogos liberais: estes procuravam promover uma nova visão do que era a Igreja Católica, e mais do que isso, queriam ser vistos como dotados de uma real vocação para o ensino de doutrina e moral em pé de igualdade com o Magistério. Claramente, estavam contra os ensinamentos de sempre, incluindo evidentemente o Concílio Vaticano II, que não mudou, nem podia mudar, a natureza da Igreja Católica. Veja-se, a título de exemplo da inicial “solidão” destes teólogos dissidentes, a posição clara tomada pelos bispos norte-americanos, que no dia 31 de Julho de 1968, pela voz do presidente da Conferência Episcopal dos Estados Unidos, o Arcebispo John Dearden de Detroit, tornou pública a posição oficial dos bispos norte-americanos, totalmente alinhada com Paulo VI.
Surge a questão central: então, como é que a posição isolada dos teólogos dissidentes se massificou nas décadas seguintes? A resposta não é fácil de dar. Certamente, inúmeras razões podem e devem ser apontadas para esta disseminação generalizada, que fez de uma posição extremista de teólogos a posição assumida por um enorme número de fiéis nos anos seguintes. É inegável que uma das razões está na maior facilidade em aceitar esta nova “moralidade” dos teólogos dissidentes. É agradável para o ouvido humano a defesa da “maturidade” dos fiéis católicos modernos, a defesa da irrelevância do sacramento da confissão, a promoção da prática de um “juízo interior” no qual o crente “maduro” avalia sozinho a sua consciência. Para mais, a “nova moral” proposta pelos teólogos dissidentes rivalizava com a moral católica de sempre com uma força desequilibrada. Não só esta “nova moral”, muito menos exigente, era mais apelativa e fácil de ser aceite, como evidentemente, caiu em cheio na mentalidade moderna da altura.
Em 1968, o mundo recebeu de braços abertos a nova teologia dissidente. Os inimigos da Igreja regozijaram-se com esta nova fissura na muralha. Os que, não sendo inimigos da Igreja, não a conheciam nem a compreendiam, ficaram satisfeitos com esta nova “adaptação” da doutrina da Igreja à cultura moderna. Na sociedade moderna, a fronteira entre católico e não católico diluiu-se: afinal, podia-se ser católico e ter uma moral muito mais relaxada e ao gosto da época. Esta atitude fracturante abriu caminho para o surgimento de pequenas facções dissidentes, como o movimento We Are Church (em Portugal, Nós somos Igreja), cuja visão da Igreja Católica está totalmente em contra-ciclo com o Vaticano II (apesar de os seus líderes dizerem precisamente o contrário). Estas facções, que passados vários da sua fundação continuam marginais e sem bases de apoio, culpam a hierarquia pelo insucesso das suas iniciativas revolucionárias, em vez de verem as coisas como elas são: o tal "povo de Deus", dos quais estes movimentos se julgaram porta-vozes, não ligou nenhuma a este convite à dissidência.
Os teólogos dissidentes tornaram-se, hoje em dia, figuras do passado. A teologia dissidente está a definhar. É que, quatro décadas de teologia dissidente deixaram claras quais são as consequências de seguir esse caminho da asneira: seminários vazios, igrejas a esvaziar de forma sistemática, desenraizamento das novas gerações da cultura e da doutrina católicas, desorientação e desânimo dos fiéis, e sensação permanente de desunião.
Olhando para o papado de João Paulo II e de Bento XVI, fica evidente, para qualquer observador atento, que o tempo da dissidência já lá vai. A Igreja recupera, de novo, a sua identidade, enquanto tenta sarar as feridas da dissidência. Muitos teólogos dissidentes ainda estão vivos e falantes. Ainda dão palestras, ainda dirigem cursos de teologia, ainda influenciam as novas gerações. Mas é uma questão de tempo: eles defendem uma ideologia “datada” dessa década de sessenta, uma ideologia que quis promover um catolicismo de ruptura. A Igreja existe há 2.000 anos. Irá, certamente, sobreviver aos teólogos dissidentes que montaram o “Maio de 68” (para usar uma expressão de Massimo Introvigne) da Igreja Católica…
Ainda há poucos anos, enquanto me dava conta dos meus erros de juventude, e da imoralidade que lhes estava associada, cheguei a sentir genuína antipatia por estes teólogos dissidentes, que foram os meus ídolos do catolicismo da minha juventude. Via-os como os únicos culpados: responsabilizava os seus escritos por me terem enganado, a mim e a muitos, acerca do real significado da Igreja, e por me terem mantido longe do verdadeiro catolicismo durante muito tempo. Mas a verdade é que eu próprio fui conivente, preferindo lê-los e ouvi-los como “progressistas” e ignorando os muitos que, realmente dentro do espírito católico, diziam o contrário. É que abandonar o “catolicismo liberal” em favor do catolicismo de sempre não é uma decisão fácil: obriga a mudar toda a nossa vida, a começar pelos nossos actos, pela nossa moral.
O tempo passou, e se ainda sinto repulsa intelectual pelas posições dos teólogos dissidentes, hoje olho para eles com outros olhos. De certa forma, é complicado para a maioria das pessoas escapar ao “espírito dos tempos”, sobretudo àquele final da década de sessenta, que foi tudo menos tranquilo. Não movo nenhuma guerra pessoal contra Frei Bento ou contra outros teólogos liberais. Tal atitude não seria cristã, e hoje tenho a certeza de que não se deve mover tal guerra no plano pessoal. No entanto, algumas das suas ideias erradas continuam vivas e espalhadas por aí. E essas ideias devem ser combatidas. Penso que, como em tudo, o tempo será um valioso ajudante, à medida que progredimos e ultrapassamos a atitude adolescente de dissidência (e o espírito de “Maio de 68” que tanto marcou as últimas décadas do catolicismo) e entramos na maturidade da fé católica.
[1] "Por opção da mulher", jornal Público, Fevereiro de 2007. Ver artigo aqui.
[2] Para que não restem dúvidas de que votar "sim" no referendo ao aborto implicava dissidência, bastaria ter-se consultado o documento da Congregação para a Doutrina da Fé, de 24 de Novembro de 2002, que deixava a questão bem esclarecida: «Neste contexto, há que acrescentar que a consciência cristã bem formada não permite a ninguém favorecer, com o próprio voto, a actuação de um programa político ou de uma só lei, onde os conteúdos fundamentais da fé e da moral sejam subvertidos com a apresentação de propostas alternativas ou contrárias aos mesmos.», Nota doutrinal sobre algumas questões relativas à participação e comportamento dos católicos na vida política.
[3] Constituição Dogmática Lumen Gentium, ponto 22.
[4] Constituição Dogmática Lumen Gentium, ponto 25.
[5] McInerny, Ralph, What went wrong with Vatican II - The Catholic Crisis explained, Sophia Institute Press, 1998, p. 81.
[6] Ibidem, pp. 81-82.
O Sérgio deu o exemplo de Frei Bento Dominges e do Padre Anselmo Borges para vincar, segundo ele, o valor positivo de uma Igreja que os acolhe como católicos em pé de igualdade com os outros. Aqui, o Sérgio dá um passo arriscado: o de supor que a ausência de punição ou admoestação a estes teólogos, por parte da hierarquia da Igreja, implica uma aceitação das suas posições. Eu não vejo como é que o Sérgio dá este passo. Será numa de "quem cala, consente"?
Evidentemente, estes exemplos dados pelo Sérgio têm significado: ele não escolheu estes nomes à toa. É que são os nomes de dois dos mais conhecidos teólogos dissidentes aqui em Portugal. Tenho a noção do peso enorme do que digo. Eu, o leigo ignorante, a acusar estes dois professores e teólogos de dissidência! No entanto, mais não faço que constatar um facto. E posso dar um exemplo concreto, sendo certo que conseguiria encontrar inúmeros outros exemplos… Aquando do último referendo acerca do aborto, estes dois teólogos vieram a público defender o voto “sim”: Frei Bento chegou ao ponto de invocar São Tomás para defender esse sentido de voto [1]. Sendo claríssimo que a Igreja sempre condenou o aborto como crime moral, pela razão evidente de que se trata da morte de uma vida humana inocente, não há quaisquer dúvidas de que qualquer católico (mesmo que protegido pela chancela de teólogo profissional) que não aceite este ponto, está em dissidência [2]. No caso especialmente grave do aborto, a dissidência assume contornos sinistros, fazendo dos defensores do “sim” e do pretenso “direito” ao aborto, colaboradores coniventes no crime do aborto. Nem mais, nem menos…
Quem me lê, discordando daquilo que escrevo, vai quase de certeza associar as minhas ideias ao meu “conservadorismo”, esse termo de significado vazio e ilegalmente importado da política, que se tira, qual “ás” do baralho, para acabar logo com a discussão. O Bernardo é um “conservador”, assunto arrumado. Os menos simpáticos chamar-me-ão “fanático” ou “fundamentalista”. Mas, para se ver porque razão essa apreciação é injusta, gostaria de contar algo sobre o meu percurso no catolicismo.
Nem sempre me dei conta do que era isso de ser católico, e do que implicava, sobretudo em termos morais, ser católico. Por volta dos vinte e poucos anos, recordo-me do entusiasmo que sentia quando lia os textos de Frei Bento Domingues no Público.
(Um parêntesis curioso: tanto Frei Bento Domingues como Anselmo Borges têm crónicas regulares em dois dos maiores jornais portugueses – porque será que os “media” dão tanto espaço à dissidência católica? Isso daria outro debate complexo, mas é evidente que a enorme exposição mediática destes dois teólogos coloca-os numa fortíssima posição de influência, e isso deveria acarretar uma responsabilidade, pois eles são vistos, por quem lê as suas crónicas, como representantes da Igreja Católica…)
Lia os textos de Frei Bento sempre ao Domingo, quando pegava no jornal comprado pelo meu avô. Recordo-me que, assim que pegava no jornal, eu começava sempre pelas palavras de Frei Bento. Lia-as com muita satisfação. O que eu sentia, então, era que aquele homem tinha um discurso arejado e positivo, moderno e entusiasmante. De vez em quando, Frei Bento criticava a hierarquia, mas também é verdade que nem sempre o tom era esse, e seria injusto dizê-lo. Por vezes, Frei Bento questionava o Magistério, sugeria mudanças profundas. Duas coisas ficaram-me para sempre na cabeça quando eu lia essas suas crónicas mais dissidentes: uma delas, já referi, era o enorme entusiasmo que tais crónicas me provocavam. A outra era o agrado com o qual eu constatava que Frei Bento referia constantemente, para suportar as suas posições, o Concílio Vaticano II. Era a chancela de que eu precisava para aceitar Frei Bento, incondicionalmente, como fonte de autoridade.
Aos olhos de um miúdo de vinte e poucos anos, quase totalmente ignorante em matéria de eclesiologia e doutrina católica, a coisa parecia feia no que tocava ao Magistério: ficava-se com a impressão de que a hierarquia estava a tentar sufocar ou pelo menos a tentar fazer esquecer pontos centrais do último grande concílio, e que teólogos como Frei Bento estavam, não só na vanguarda do pensamento, mas também na posição de defensores da verdade do ensinamento do próprio concílio. Curiosamente, foi neste período da minha vida que menos fui à missa: não me confessava há anos, não fazia qualquer juízo moral aos meus actos e pensamentos. Procurava justificar tudo o que fazia, e encaixar isso no catolicismo que criava à minha medida.
O meu percurso de mudança de admirador inicial incondicional de Frei Bento para o extremo diametralmente oposto, pois hoje em dia tenho uma péssima opinião sobre as suas posições doutrinais, não foi percorrido de uma só vez. Precisei de anos para me dar conta de que o catolicismo era uma coisa diferente da que era retratada pelos teólogos dissidentes. E o mais curioso é que eu poderia ter-me dado conta disso numa só assentada: isso só não aconteceu porque o ser humano é muito teimoso, e a minha teimosia e casmurrice é lendária. Tão arrogante era eu acerca da minha “autonomia intelectual” de católico progressista, que achava que podia ser católico e discordar de quase tudo, desde a homossexualidade, passando pelo aborto, pelo divórcio, pela ordenação das mulheres, pela contracepção artificial, pelo celibato sacerdotal, e pelas demais causas “liberais” da dissidência, que eu demorei anos a arrumar a casa. Não foi fácil dar-me conta da minha estupidez proverbial. Os factos eram evidentes, mas a falta de cultura católica era explosiva, quando estava misturada com um feitio orgulhoso como o meu.
Mas que factos eram esses? Que factos é que se me depararam, e fizeram com que, a pouco e pouco, eu rejeitasse a dissidência e reencontrasse a minha identidade católica?
Em primeiro lugar, que o Concílio Vaticano II tinha um conteúdo muito diferente do que os teólogos “progressistas” afirmavam. Aprendi a distinguir a “letra” do Concílio do dito “espírito” do Concílio, esse cheiro pestilento que normalmente se costuma colar aos textos conciliares, fazendo-os dizer à força coisas que não dizem.
Por exemplo, nunca, em texto algum do Frei Bento que eu tenha lido, eu pude aprender o facto claro e inegável de que o Vaticano II confirmava o papel central do Magistério como agente de preservação e ensinamento da doutrina, papel esse que recebera uma formulação forte de infalibilidade no Vaticano I. Sem nunca ter lido os textos do Concílio, e pela leitura assídua dos dissidentes, fiquei com a ideia de que o Vaticano II era um momento incontornável e decisivo de ruptura. Ora nada é mais contrário à verdade dos factos. O Vaticano II deixou claro quem ensina na Igreja. Nessa e noutras matérias, o Vaticano II, longe de ser ruptura, é um concílio de continuidade, que aprofunda questões que foram trabalhadas no Vaticano I. Por exemplo, um trecho como o seguinte, retirado da Constituição Dogmática Lumen Gentium, não deixa margens para dúvidas ou outras interpretações:
“22. Assim como, por instituição do Senhor, S. Pedro e os restantes Apóstolos formam um colégio apostólico, assim de igual modo estão unidos entre si o Romano Pontífice, sucessor de Pedro, e os Bispos, sucessores dos Apóstolos. A natureza colegial da ordem episcopal, claramente comprovada pelos Concílios ecuménicos celebrados no decurso dos séculos, manifesta-se já na disciplina. primitiva, segundo a qual os Bispos de todo o orbe comunicavam entre si e com o Bispo de Roma no vínculo da unidade, da caridade e da paz (59); e também na reunião de Concílios (60), nos quais se decidiram em comum coisas importantes (61), depois de ponderada a decisão pelo parecer de muitos (62); o mesmo é claramente demonstrado pelos Concílios Ecuménicos, celebrados no decurso dos séculos. E o uso já muito antigo de chamar vários Bispos a participarem na elevação do novo eleito ao ministério do sumo sacerdócio insinua-a já também. É, pois, em virtude da sagração episcopal e pela comunhão hierárquica com a cabeça e os membros do colégio que alguém é constituído membro do corpo episcopal.
Porém, o colégio ou corpo episcopal não tem autoridade a não ser em união com o Romano Pontífice, sucessor de Pedro, entendido com sua cabeça, permanecendo inteiro o poder do seu primado sobre todos, quer pastores quer fiéis. Pois o Romano Pontífice, em virtude do seu cargo de vigário de Cristo e pastor de toda a Igreja, tem nela pleno, supremo e universal poder que pode sempre exercer livremente. A Ordem dos Bispos, que sucede ao colégio dos Apóstolos no magistério e no governo pastoral, e, mais ainda, na qual o corpo apostólico se continua perpetuamente, é também juntamente com o Romano Pontífice, sua cabeça, e nunca sem a cabeça, sujeito do supremo e pleno poder sobre toda a Igreja (63), poder este que não se pode exercer senão com o consentimento do Romano Pontífice. Só a Simão colocou o Senhor como pedra e clavário da Igreja (cfr. Mt. 16, 18-19), e o constituiu pastor de todo o Seu rebanho (cfr. Jo. 21, 15 ss.); mas é sabido que o encargo de ligar e desligar conferido a Pedro (Mt. 16,19), foi também atribuído ao colégio dos Apóstolos unido à sua cabeça (Mt. 18,18; 28, 16-20) (64). Este colégio, enquanto composto por muitos, exprime a variedade e universalidade do Povo de Deus e, enquanto reunido sob uma só cabeça, revela a unidade do redil de Cristo. Neste colégio, os Bispos, respeitando fielmente o primado e chefia da sua cabeça, gozam de poder próprio para bem dos seus fiéis e de toda a Igreja, corroborando sem cessar o Espírito Santo a estrutura orgânica e a harmonia desta.
O supremo poder sobre a Igreja universal, que este colégio tem, exerce-se solenemente no Concílio Ecuménico. Nunca se dá um Concílio Ecuménico sem que seja como tal confirmado ou pelo menos aceite pelo sucessor de Pedro; e é prerrogativa do Romano Pontífice convocar estes Concílios, presidi-los e confirmá-los (65). O mesmo poder colegial pode ser exercido, juntamente com o Papa, pelos Bispos espalhados pelo mundo, contanto que a cabeça do colégio os chame a uma acção colegial ou, pelo menos, aprove ou aceite livremente a acção conjunta dos Bispos dispersos, de forma que haja verdadeiro acto colegial.” [3] (negrito meu)
Se o ponto 22 da Constituição Dogmática deixa claro o papel do Papa e dos Bispos, vejamos agora o ponto 25, acerca do ministério episcopal de ensinar:
“25. Entre os principais encargos dos Bispos ocupa lugar preeminente a pregação do Evangelho (75). Os Bispos são os arautos da fé que para Deus conduzem novos discípulos. Dotados da autoridade de Cristo, são doutores autênticos, que pregam ao povo a eles confiado a fé que se deve crer e aplicar na vida prática; ilustrando-a sob a luz do Espírito Santo e tirando do tesoiro da revelação coisas novas e antigas (cfr. Mt. 13,52), fazem-no frutificar e solicitamente afastam os erros que ameaçam o seu rebanho (cfr. 2 Tim. 4, 1-4). Ensinando em comunhão com o Romano Pontífice, devem por todos ser venerados como testemunhas da verdade divina e católica. E os fiéis devem conformar-se ao parecer que o seu Bispo emite em nome de Cristo sobre matéria de fé ou costumes, aderindo a ele com religioso acatamento. Esta religiosa submissão da vontade e do entendimento é por especial razão devida ao magistério autêntico do Romano Pontífice, mesmo quando não fala ex cathedra; de maneira que o seu supremo magistério seja reverentemente reconhecido, se preste sincera adesão aos ensinamentos que dele emanam, segundo o seu sentir e vontade; estes manifestam-se sobretudo quer pela índole dos documentos, quer pelas frequentes repetições da mesma doutrina, quer pelo modo de falar.
Embora os Bispos, individualmente, não gozem da prerrogativa da infalibilidade, anunciam, porém, infalivelmente a doutrina de Cristo sempre que, embora dispersos pelo mundo mas unidos entre si e com o sucessor de Pedro, ensinam autenticamente matéria de fé ou costumes concordando em que uma doutrina deve ser tida por definida (76). O que se verifica ainda mais manifestamente quando, reunidos em Concílio Ecuménico, são doutores e juízes da fé e dos costumes para toda a Igreja, devendo-se aderir com fé às suas definições (77).
Mas esta infalibilidade com que o divino Redentor quis dotar a Sua igreja, na definição de doutrinas de fé ou costumes, estende-se tanto quanto se estende o depósito da divina Revelação, o qual se deve religiosamente guardar e fielmente expor. Desta mesma infalibilidade goza o Romano Pontífice em razão do seu ofício de cabeça do colégio episcopal, sempre que, como supremo pastor dos fiéis cristãos, que deve confirmar na fé os seus irmãos (cfr. Lc. 22,32), define alguma doutrina em matéria de fé ou costumes (78). As suas definições com razão se dizem irreformáveis por si mesmas e não pelo consenso da Igreja, pois foram pronunciadas sob a assistência do Espírito Santo, que lhe foi prometida na pessoa de S. Pedro. Não precisam, por isso, de qualquer alheia aprovação, nem são susceptíveis de apelação a outro juízo. Pois, nesse caso, o Romano Pontífice não fala como pessoa privada, mas expõe ou defende a doutrina da fé católica como mestre supremo da Igreja universal, no qual reside de modo singular o carisma da infalibilidade da mesma Igreja (79). A infalibilidade prometida à Igreja reside também no colégio episcopal, quando este exerce o supremo magistério em união com o sucessor de Pedro. A estas definições nunca pode faltar o assentimento da Igreja, graças à acção do Espírito Santo, que conserva e faz progredir na unidade da fé todo o rebanho de Cristo (80).
Porém, quando o Romano Pontífice, ou o corpo episcopal com ele, define alguma verdade, propõe-na segundo a Revelação, à qual todos se devem conformar. Esta transmite-se integralmente, por escrito ou por tradição, através da legítima sucessão dos Bispos e, antes de mais, graças à solicitude do mesmo Romano Pontífice; e, sob a iluminação do Espírito de verdade, é santamente conservada e fielmente exposta na Igreja (81). Para a investigar como convém e enunciar aptamente, o Romano Pontífice e os Bispos, segundo o próprio ofício e a gravidade do assunto, trabalham diligentemente, recorrendo aos meios adequados (82); não recebem, porém, nenhuma nova revelação pública que pertença ao depósito divino da fé (83).” [4] (negrito meu)
Como se pode constatar, a Lumen Gentium é límpida e clara, como o próprio título deixa transparecer. Como tão bem sintetizou Ralph McInerny:
“(…) while anyone is, of course, free to be Catholic or not, he is not free as a Catholic to reject what the Church teaches. To do so is to cease to be a Catholic” [5]
Ou ainda, como explica o professor de filosofia Germain Grisez:
“The thing peculiar to Catholics is that we are papists. I think that the decision is undoubtedly a very hard one, and many people will have to decide whether they want to be papists, that is, Catholic or not. If one is a Catholic, one is a papist. And if one is a papist, then one cannot say, “Rome has spoken, but the cause goes on.” One has to say, “Rome has spoken; the cause is finished.” [6]
Se eu tivesse tido acesso a esta informação valiosa, e também abertura para a receber, poderia ter “regressado a casa” mais cedo, ou seja, poderia ter reencontrado a minha identidade católica mais cedo… Citações como estas, de Ralph McInerny ou de Germain Grisez podem chocar muita gente, mesmo católicos, sobretudo os que ainda vivem sob a alçada da teologia liberal. Mas é inegável que reflectem o verdadeiro espírito do Concílio.
Mas será, realmente, chocante a ideia de que um católico é, por definição, um papista? Só chocará se alguém defender que o Papa não é uma fonte fiável em matéria de doutrina. É esse pressuposto não demonstrado e irrazoável que assumem os não papistas: eles assumem que o Papa não é fiável em matéria de moral e doutrina. E então, seria evidentemente um abuso para a boa formação da consciência ter que aquiescer a uma fonte de moral errada, ou no melhor caso, falível. No entanto, é claro que se o Papa não se engana em matéria de doutrina e de moral, então a aquiescência da nossa consciência, o nosso sim filial e incondicional, é para nós garantia segura de inerrância. Ao estarmos com Pedro, e sob Pedro, estamos na melhor situação possível. E isso é algo claro e transparente para qualquer católico que entendeu o que é ser católico. E é por isso que qualquer católico não pode deixar de olhar para o Papa como quem olha para um real e presente “alter Christus”, como um ícone e reflexo da mesma verdade de sempre que nos foi legada por Jesus Cristo Senhor Nosso, não para nossa ilustração intelectual, não para os nossos debates filosóficos, mas para a nossa salvação. Isto não resulta, é óbvio, de um “endeusamento” da figura do Papa: é apenas conclusão lógica e racional da promessa de Cristo descrita em Mateus 16, 18: “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do abismo nada poderão contra ela”.
Mas então, de onde vem esta esquizofrenia pretensamente católica que consiste em querer defender a posição indefensável de que se pode ser católico e ao mesmo tempo, divergir dos ensinamentos do Magistério?
O ponto histórico central que marca esta ruptura dos teólogos liberais com o ensinamento de sempre da Igreja pode definir-se de forma clara na reacção destes à encíclica Humanae Vitae, de Paulo VI. Os teólogos liberais ficaram duplamente “ofendidos” com esta encíclica: por um lado, durante as décadas que precederam a encíclica, eles ensinavam aos casais que a contracepção artificial era tolerável, ou mesmo louvável, no casamento católico. Por outro lado, uma comissão teológica instituída pelo Papa João XXIII, e cujos trabalhos se prolongaram até ao papado de Paulo VI, concluiu que não havia objecções à contracepção artificial, desde que usada dentro do casamento. Quando o Papa Paulo VI publica a Humanae Vitae a 25 de Julho de 1968, indo no sentido contrário da conclusão da comissão teológica, compreende-se a situação delicada na qual o Papa deixara estes teólogos, ou melhor, a situação delicada na qual os teólogos, eles mesmos, se haviam colocado. O que já não se compreende é a reacção intempestiva destes últimos. Frei Charles Curran, professor de teologia na Catholic University of America e vice-presidente da American Theological Association, lançou um abaixo-assinado que chegou às páginas do New York Times a 30 de Julho, apenas 5 dias após a publicação da encíclica. O abaixo-assinado trazia as assinaturas de mais de duzentos teólogos (note-se a ausência de bispos). Surgia então, em 1968, este “novo magistério” alternativo e não oficial! Nos anos que se seguiram, este “novo magistério” iria ganhar aderentes e espalhar-se por todo o mundo católico, entrando em seminários, em universidades, nas catequeses, nas paróquias, em casas de retiro, e nos jornais e publicações católicas. Aos fiéis, cabia-lhes escolher de que lado ficariam. Os teólogos dissidentes deixavam os fiéis numa situação horrível…
O que isto deixa claro, nesse ano já remoto de 1968, era que se estava perante um problema novo, criado pelos teólogos liberais: estes procuravam promover uma nova visão do que era a Igreja Católica, e mais do que isso, queriam ser vistos como dotados de uma real vocação para o ensino de doutrina e moral em pé de igualdade com o Magistério. Claramente, estavam contra os ensinamentos de sempre, incluindo evidentemente o Concílio Vaticano II, que não mudou, nem podia mudar, a natureza da Igreja Católica. Veja-se, a título de exemplo da inicial “solidão” destes teólogos dissidentes, a posição clara tomada pelos bispos norte-americanos, que no dia 31 de Julho de 1968, pela voz do presidente da Conferência Episcopal dos Estados Unidos, o Arcebispo John Dearden de Detroit, tornou pública a posição oficial dos bispos norte-americanos, totalmente alinhada com Paulo VI.
Surge a questão central: então, como é que a posição isolada dos teólogos dissidentes se massificou nas décadas seguintes? A resposta não é fácil de dar. Certamente, inúmeras razões podem e devem ser apontadas para esta disseminação generalizada, que fez de uma posição extremista de teólogos a posição assumida por um enorme número de fiéis nos anos seguintes. É inegável que uma das razões está na maior facilidade em aceitar esta nova “moralidade” dos teólogos dissidentes. É agradável para o ouvido humano a defesa da “maturidade” dos fiéis católicos modernos, a defesa da irrelevância do sacramento da confissão, a promoção da prática de um “juízo interior” no qual o crente “maduro” avalia sozinho a sua consciência. Para mais, a “nova moral” proposta pelos teólogos dissidentes rivalizava com a moral católica de sempre com uma força desequilibrada. Não só esta “nova moral”, muito menos exigente, era mais apelativa e fácil de ser aceite, como evidentemente, caiu em cheio na mentalidade moderna da altura.
Em 1968, o mundo recebeu de braços abertos a nova teologia dissidente. Os inimigos da Igreja regozijaram-se com esta nova fissura na muralha. Os que, não sendo inimigos da Igreja, não a conheciam nem a compreendiam, ficaram satisfeitos com esta nova “adaptação” da doutrina da Igreja à cultura moderna. Na sociedade moderna, a fronteira entre católico e não católico diluiu-se: afinal, podia-se ser católico e ter uma moral muito mais relaxada e ao gosto da época. Esta atitude fracturante abriu caminho para o surgimento de pequenas facções dissidentes, como o movimento We Are Church (em Portugal, Nós somos Igreja), cuja visão da Igreja Católica está totalmente em contra-ciclo com o Vaticano II (apesar de os seus líderes dizerem precisamente o contrário). Estas facções, que passados vários da sua fundação continuam marginais e sem bases de apoio, culpam a hierarquia pelo insucesso das suas iniciativas revolucionárias, em vez de verem as coisas como elas são: o tal "povo de Deus", dos quais estes movimentos se julgaram porta-vozes, não ligou nenhuma a este convite à dissidência.
Os teólogos dissidentes tornaram-se, hoje em dia, figuras do passado. A teologia dissidente está a definhar. É que, quatro décadas de teologia dissidente deixaram claras quais são as consequências de seguir esse caminho da asneira: seminários vazios, igrejas a esvaziar de forma sistemática, desenraizamento das novas gerações da cultura e da doutrina católicas, desorientação e desânimo dos fiéis, e sensação permanente de desunião.
Olhando para o papado de João Paulo II e de Bento XVI, fica evidente, para qualquer observador atento, que o tempo da dissidência já lá vai. A Igreja recupera, de novo, a sua identidade, enquanto tenta sarar as feridas da dissidência. Muitos teólogos dissidentes ainda estão vivos e falantes. Ainda dão palestras, ainda dirigem cursos de teologia, ainda influenciam as novas gerações. Mas é uma questão de tempo: eles defendem uma ideologia “datada” dessa década de sessenta, uma ideologia que quis promover um catolicismo de ruptura. A Igreja existe há 2.000 anos. Irá, certamente, sobreviver aos teólogos dissidentes que montaram o “Maio de 68” (para usar uma expressão de Massimo Introvigne) da Igreja Católica…
Ainda há poucos anos, enquanto me dava conta dos meus erros de juventude, e da imoralidade que lhes estava associada, cheguei a sentir genuína antipatia por estes teólogos dissidentes, que foram os meus ídolos do catolicismo da minha juventude. Via-os como os únicos culpados: responsabilizava os seus escritos por me terem enganado, a mim e a muitos, acerca do real significado da Igreja, e por me terem mantido longe do verdadeiro catolicismo durante muito tempo. Mas a verdade é que eu próprio fui conivente, preferindo lê-los e ouvi-los como “progressistas” e ignorando os muitos que, realmente dentro do espírito católico, diziam o contrário. É que abandonar o “catolicismo liberal” em favor do catolicismo de sempre não é uma decisão fácil: obriga a mudar toda a nossa vida, a começar pelos nossos actos, pela nossa moral.
O tempo passou, e se ainda sinto repulsa intelectual pelas posições dos teólogos dissidentes, hoje olho para eles com outros olhos. De certa forma, é complicado para a maioria das pessoas escapar ao “espírito dos tempos”, sobretudo àquele final da década de sessenta, que foi tudo menos tranquilo. Não movo nenhuma guerra pessoal contra Frei Bento ou contra outros teólogos liberais. Tal atitude não seria cristã, e hoje tenho a certeza de que não se deve mover tal guerra no plano pessoal. No entanto, algumas das suas ideias erradas continuam vivas e espalhadas por aí. E essas ideias devem ser combatidas. Penso que, como em tudo, o tempo será um valioso ajudante, à medida que progredimos e ultrapassamos a atitude adolescente de dissidência (e o espírito de “Maio de 68” que tanto marcou as últimas décadas do catolicismo) e entramos na maturidade da fé católica.
[1] "Por opção da mulher", jornal Público, Fevereiro de 2007. Ver artigo aqui.
[2] Para que não restem dúvidas de que votar "sim" no referendo ao aborto implicava dissidência, bastaria ter-se consultado o documento da Congregação para a Doutrina da Fé, de 24 de Novembro de 2002, que deixava a questão bem esclarecida: «Neste contexto, há que acrescentar que a consciência cristã bem formada não permite a ninguém favorecer, com o próprio voto, a actuação de um programa político ou de uma só lei, onde os conteúdos fundamentais da fé e da moral sejam subvertidos com a apresentação de propostas alternativas ou contrárias aos mesmos.», Nota doutrinal sobre algumas questões relativas à participação e comportamento dos católicos na vida política.
[3] Constituição Dogmática Lumen Gentium, ponto 22.
[4] Constituição Dogmática Lumen Gentium, ponto 25.
[5] McInerny, Ralph, What went wrong with Vatican II - The Catholic Crisis explained, Sophia Institute Press, 1998, p. 81.
[6] Ibidem, pp. 81-82.
sexta-feira, 27 de novembro de 2009
Diagrama - Heresias cristãs
(fonte: http://en.wikipedia.org/wiki/Christology)
Durante muito tempo, procurei um esquema que explicasse bem as primeiras heresias, e como se foi definindo a doutrina cristã ao longo dos vários concílios. Este esquema, que afinal estava à mão de semear, está excelente.
No final do esquema, onde esta "chalcedonianism", leia-se "doutrina católica". A última ponta da ramificação (a mais no fundo) representa o credo católico definitivo e aceite no Concílio de Calcedónia (451). O diagrama ilustra bem como a Igreja foi formulando, com base na razão e no testemunho apostólico e escriturístico, uma ideia correcta acerca de Cristo, deixando as heresias para trás.
Já agora, vejamos as características de Cristo que foram definidas como credo cristão, e as respectivas heresias que foram rejeitadas em consequência da formulação da doutrina:
- verdadeiro Homem
(contra os docetistas)
- verdadeiro Deus
(contra os ebionitas)
- consubstancial ao Pai
(contra os arianos; o termo "homoousion", "consubstancial" é o único termo de jargão filosófico que surge no Credo)
- uma só hipóstase (um só indivíduo)
(contra os nestorianos)
- diofisita (dotado de de naturezas distintas: a humana e a divina)
(contra os monofisitas em geral, contra os eutiquianos, os apolinarianos e os miafisitas)
- diotelita (dotado de duas vontades distintas: a humana e a divina)
(contra os monotelitas)
Um ponto importante a reter é que a Igreja cristã não ia "criando" doutrina, mas sim "formulando" doutrina, ou seja, procurando a linguagem precisa necessária para se poder definir com a melhor precisão possível a doutrina deixada por Cristo.
quarta-feira, 25 de novembro de 2009
sexta-feira, 13 de novembro de 2009
Um Bispo colossal
A 29 de Outubro de 2009, o congressista Patrick Kennedy fez a seguinte afirmação:
“The fact that I disagree with the hierarchy on some issues does not make me any less of a Catholic.”
Teve a resposta que merecia do Bispo de Providence, Monsenhor Thomas Tobin:
«Since our recent correspondence has been rather public, I hope you don’t mind if I share a few reflections about your practice of the faith in this public forum. I usually wouldn’t do that – that is speak about someone’s faith in a public setting – but in our well-documented exchange of letters about health care and abortion, it has emerged as an issue. I also share these words publicly with the thought that they might be instructive to other Catholics, including those in prominent positions of leadership.
For the moment I’d like to set aside the discussion of health care reform, as important and relevant as it is, and focus on one statement contained in your letter of October 29, 2009, in which you write, “The fact that I disagree with the hierarchy on some issues does not make me any less of a Catholic.” That sentence certainly caught my attention and deserves a public response, lest it go unchallenged and lead others to believe it’s true. And it raises an important question: What does it mean to be a Catholic?
“The fact that I disagree with the hierarchy on some issues does not make me any less of a Catholic.” Well, in fact, Congressman, in a way it does. Although I wouldn’t choose those particular words, when someone rejects the teachings of the Church, especially on a grave matter, a life-and-death issue like abortion, it certainly does diminish their ecclesial communion, their unity with the Church. This principle is based on the Sacred Scripture and Tradition of the Church and is made more explicit in recent documents.
For example, the “Code of Canon Law” says, “Lay persons are bound by an obligation and possess the right to acquire a knowledge of Christian doctrine adapted to their capacity and condition so that they can live in accord with that doctrine.” (Canon 229, #1)
The “Catechism of the Catholic Church” says this: “Mindful of Christ’s words to his apostles, ‘He who hears you, hears me,’ the faithful receive with docility the teaching and directives that their pastors give them in different forms.” (#87)
Or consider this statement of the Church: “It would be a mistake to confuse the proper autonomy exercised by Catholics in political life with the claim of a principle that prescinds from the moral and social teaching of the Church.” (Congregation for the Doctrine of the Faith, 2002)
There’s lots of canonical and theological verbiage there, Congressman, but what it means is that if you don’t accept the teachings of the Church your communion with the Church is flawed, or in your own words, makes you “less of a Catholic.”
But let’s get down to a more practical question; let’s approach it this way: What does it mean, really, to be a Catholic? After all, being a Catholic has to mean something, right?
Well, in simple terms – and here I refer only to those more visible, structural elements of Church membership – being a Catholic means that you’re part of a faith community that possesses a clearly defined authority and doctrine, obligations and expectations. It means that you believe and accept the teachings of the Church, especially on essential matters of faith and morals; that you belong to a local Catholic community, a parish; that you attend Mass on Sundays and receive the sacraments regularly; that you support the Church, personally, publicly, spiritually and financially.
Congressman, I’m not sure whether or not you fulfill the basic requirements of being a Catholic, so let me ask: Do you accept the teachings of the Church on essential matters of faith and morals, including our stance on abortion? Do you belong to a local Catholic community, a parish? Do you attend Mass on Sundays and receive the sacraments regularly? Do you support the Church, personally, publicly, spiritually and financially?
In your letter you say that you “embrace your faith.” Terrific. But if you don’t fulfill the basic requirements of membership, what is it exactly that makes you a Catholic? Your baptism as an infant? Your family ties? Your cultural heritage?
Your letter also says that your faith “acknowledges the existence of an imperfect humanity.” Absolutely true. But in confronting your rejection of the Church’s teaching, we’re not dealing just with “an imperfect humanity” – as we do when we wrestle with sins such as anger, pride, greed, impurity or dishonesty. We all struggle with those things, and often fail.
Your rejection of the Church’s teaching on abortion falls into a different category – it’s a deliberate and obstinate act of the will; a conscious decision that you’ve re-affirmed on many occasions. Sorry, you can’t chalk it up to an “imperfect humanity.” Your position is unacceptable to the Church and scandalous to many of our members. It absolutely diminishes your communion with the Church.
Congressman Kennedy, I write these words not to embarrass you or to judge the state of your conscience or soul. That’s ultimately between you and God. But your description of your relationship with the Church is now a matter of public record, and it needs to be challenged. I invite you, as your bishop and brother in Christ, to enter into a sincere process of discernment, conversion and repentance. It’s not too late for you to repair your relationship with the Church, redeem your public image, and emerge as an authentic “profile in courage,” especially by defending the sanctity of human life for all people, including unborn children. And if I can ever be of assistance as you travel the road of faith, I would be honored and happy to do so.
Sincerely yours,
Thomas J. Tobin
Bishop of Providence»
- Bishop Tobin's Public Letter to Rep. Kennedy
Quem fala assim não é gago.
Em Portugal, há muito político "católico" a precisar de ouvir coisas destas...
“The fact that I disagree with the hierarchy on some issues does not make me any less of a Catholic.”
Teve a resposta que merecia do Bispo de Providence, Monsenhor Thomas Tobin:
«Since our recent correspondence has been rather public, I hope you don’t mind if I share a few reflections about your practice of the faith in this public forum. I usually wouldn’t do that – that is speak about someone’s faith in a public setting – but in our well-documented exchange of letters about health care and abortion, it has emerged as an issue. I also share these words publicly with the thought that they might be instructive to other Catholics, including those in prominent positions of leadership.
For the moment I’d like to set aside the discussion of health care reform, as important and relevant as it is, and focus on one statement contained in your letter of October 29, 2009, in which you write, “The fact that I disagree with the hierarchy on some issues does not make me any less of a Catholic.” That sentence certainly caught my attention and deserves a public response, lest it go unchallenged and lead others to believe it’s true. And it raises an important question: What does it mean to be a Catholic?
“The fact that I disagree with the hierarchy on some issues does not make me any less of a Catholic.” Well, in fact, Congressman, in a way it does. Although I wouldn’t choose those particular words, when someone rejects the teachings of the Church, especially on a grave matter, a life-and-death issue like abortion, it certainly does diminish their ecclesial communion, their unity with the Church. This principle is based on the Sacred Scripture and Tradition of the Church and is made more explicit in recent documents.
For example, the “Code of Canon Law” says, “Lay persons are bound by an obligation and possess the right to acquire a knowledge of Christian doctrine adapted to their capacity and condition so that they can live in accord with that doctrine.” (Canon 229, #1)
The “Catechism of the Catholic Church” says this: “Mindful of Christ’s words to his apostles, ‘He who hears you, hears me,’ the faithful receive with docility the teaching and directives that their pastors give them in different forms.” (#87)
Or consider this statement of the Church: “It would be a mistake to confuse the proper autonomy exercised by Catholics in political life with the claim of a principle that prescinds from the moral and social teaching of the Church.” (Congregation for the Doctrine of the Faith, 2002)
There’s lots of canonical and theological verbiage there, Congressman, but what it means is that if you don’t accept the teachings of the Church your communion with the Church is flawed, or in your own words, makes you “less of a Catholic.”
But let’s get down to a more practical question; let’s approach it this way: What does it mean, really, to be a Catholic? After all, being a Catholic has to mean something, right?
Well, in simple terms – and here I refer only to those more visible, structural elements of Church membership – being a Catholic means that you’re part of a faith community that possesses a clearly defined authority and doctrine, obligations and expectations. It means that you believe and accept the teachings of the Church, especially on essential matters of faith and morals; that you belong to a local Catholic community, a parish; that you attend Mass on Sundays and receive the sacraments regularly; that you support the Church, personally, publicly, spiritually and financially.
Congressman, I’m not sure whether or not you fulfill the basic requirements of being a Catholic, so let me ask: Do you accept the teachings of the Church on essential matters of faith and morals, including our stance on abortion? Do you belong to a local Catholic community, a parish? Do you attend Mass on Sundays and receive the sacraments regularly? Do you support the Church, personally, publicly, spiritually and financially?
In your letter you say that you “embrace your faith.” Terrific. But if you don’t fulfill the basic requirements of membership, what is it exactly that makes you a Catholic? Your baptism as an infant? Your family ties? Your cultural heritage?
Your letter also says that your faith “acknowledges the existence of an imperfect humanity.” Absolutely true. But in confronting your rejection of the Church’s teaching, we’re not dealing just with “an imperfect humanity” – as we do when we wrestle with sins such as anger, pride, greed, impurity or dishonesty. We all struggle with those things, and often fail.
Your rejection of the Church’s teaching on abortion falls into a different category – it’s a deliberate and obstinate act of the will; a conscious decision that you’ve re-affirmed on many occasions. Sorry, you can’t chalk it up to an “imperfect humanity.” Your position is unacceptable to the Church and scandalous to many of our members. It absolutely diminishes your communion with the Church.
Congressman Kennedy, I write these words not to embarrass you or to judge the state of your conscience or soul. That’s ultimately between you and God. But your description of your relationship with the Church is now a matter of public record, and it needs to be challenged. I invite you, as your bishop and brother in Christ, to enter into a sincere process of discernment, conversion and repentance. It’s not too late for you to repair your relationship with the Church, redeem your public image, and emerge as an authentic “profile in courage,” especially by defending the sanctity of human life for all people, including unborn children. And if I can ever be of assistance as you travel the road of faith, I would be honored and happy to do so.
Sincerely yours,
Thomas J. Tobin
Bishop of Providence»
- Bishop Tobin's Public Letter to Rep. Kennedy
Quem fala assim não é gago.
Em Portugal, há muito político "católico" a precisar de ouvir coisas destas...
terça-feira, 3 de novembro de 2009
José Manuel Pureza, o católico
Da entrevista publicada pelo Sol ao líder do grupo parlamentar do Bloco de Esquerda:
«É católico, vai à missa?
Vou, claro.
Estas questões, o aborto, como as resolve?
Muito bem, não vejo nenhuma dificuldade. Sei que há diferenças entre o que penso e o que pensa essa outra gente que é católica, também sei que não estou isolado: viu-se o que aconteceu no referendo na IVG. Mas compreendo que estamos habituados a uma matriz ideológica de comportamento de católicos que é predominantemente conservadora.
No aborto, há a questão quando é concebida a vida…
Pois há. Mas baseio-me não num conhecimento do séc. XVI, mas num conhecimento do ponto de vista das ciências da vida do séc. XXI, que me mostra, tanto quanto me é possível mostrar, que o que alguns chamam vida absoluta desde o momento da concepção é muito discutível. Há pessoas que ainda acham que eliminar espermatozóides é um crime que lesa a vida. Essa coisa de pôr os católicos em matéria de bioética, no séc. XVI é o pior que se pode fazer para a Igreja Católica.»
Pede-se aos nossos leitores católicos a amabilidade de localizarem alguém que conheça José Manuel Pureza e saiba a que missa ele vai. É imperativo abordar este nosso irmão católico à saída da missa e explicar-lhe o catecismo por gestos. A única explicação que se vislumbra para as posições exóticas deste nosso irmão só poderá ser a de ele sofrer de graves problemas de leitura e de audição, uma vez que nunca se deparou com uma só frase dos quilómetros existentes acerca da impossibilidade em se ser católico e defender o direito ao aborto.
Por outro lado, só uma surdez intransponível pode explicar o facto aparentemente misterioso de ele nunca ter ouvido um só sacerdote ou leigo a explicar o porquê da dita incompatibilidade. Para além de tudo isto, é também notório o alheamento deste nosso irmão, uma vez que, em total contra-ciclo, no preciso momento histórico em que um grupo importante de anglicanos se junta à Igreja Católica precisamente para reagir à facção radical que quer casar e ordenar homossexuais, José Manuel Pureza está a defender essa ideia peregrina.
Pureza está de tal forma baralhado, que foi logo escolher ser membro do Bloco de Esquerda, acabando em líder parlamentar! Pasme-se... É verdade que é preciso escavar para encontrar, na Assembleia da República, um partido católico (esse partido está enterrado: são os monges de São Bento que lá viveram há uns quantos séculos). Mas Pureza foi logo escolher um dos partidos cuja doutrina está mais em choque com o catolicismo.
Alguém que acuda!
PS: Quem estiver nos próximos tempos com José Manuel Pureza faça a amabilidade de lhe explicar que católico algum defendeu o direito à vida de um espermatozóide.
PS2: De caminho, expliquem-lhe que os mecanismos complexos da fertilização foram descobertos no século XIX, aprofundados durante o século XX, e ainda em activo estudo no século XXI. Fenómenos importantes para a fertilização humana e para a marcação biológica do início da vida, como por exemplo o bloqueio rápido da polispermia, são descobertas recentes da ciência, e não datam do século XVI.
«É católico, vai à missa?
Vou, claro.
Estas questões, o aborto, como as resolve?
Muito bem, não vejo nenhuma dificuldade. Sei que há diferenças entre o que penso e o que pensa essa outra gente que é católica, também sei que não estou isolado: viu-se o que aconteceu no referendo na IVG. Mas compreendo que estamos habituados a uma matriz ideológica de comportamento de católicos que é predominantemente conservadora.
No aborto, há a questão quando é concebida a vida…
Pois há. Mas baseio-me não num conhecimento do séc. XVI, mas num conhecimento do ponto de vista das ciências da vida do séc. XXI, que me mostra, tanto quanto me é possível mostrar, que o que alguns chamam vida absoluta desde o momento da concepção é muito discutível. Há pessoas que ainda acham que eliminar espermatozóides é um crime que lesa a vida. Essa coisa de pôr os católicos em matéria de bioética, no séc. XVI é o pior que se pode fazer para a Igreja Católica.»
Pede-se aos nossos leitores católicos a amabilidade de localizarem alguém que conheça José Manuel Pureza e saiba a que missa ele vai. É imperativo abordar este nosso irmão católico à saída da missa e explicar-lhe o catecismo por gestos. A única explicação que se vislumbra para as posições exóticas deste nosso irmão só poderá ser a de ele sofrer de graves problemas de leitura e de audição, uma vez que nunca se deparou com uma só frase dos quilómetros existentes acerca da impossibilidade em se ser católico e defender o direito ao aborto.
Por outro lado, só uma surdez intransponível pode explicar o facto aparentemente misterioso de ele nunca ter ouvido um só sacerdote ou leigo a explicar o porquê da dita incompatibilidade. Para além de tudo isto, é também notório o alheamento deste nosso irmão, uma vez que, em total contra-ciclo, no preciso momento histórico em que um grupo importante de anglicanos se junta à Igreja Católica precisamente para reagir à facção radical que quer casar e ordenar homossexuais, José Manuel Pureza está a defender essa ideia peregrina.
Pureza está de tal forma baralhado, que foi logo escolher ser membro do Bloco de Esquerda, acabando em líder parlamentar! Pasme-se... É verdade que é preciso escavar para encontrar, na Assembleia da República, um partido católico (esse partido está enterrado: são os monges de São Bento que lá viveram há uns quantos séculos). Mas Pureza foi logo escolher um dos partidos cuja doutrina está mais em choque com o catolicismo.
Alguém que acuda!
PS: Quem estiver nos próximos tempos com José Manuel Pureza faça a amabilidade de lhe explicar que católico algum defendeu o direito à vida de um espermatozóide.
PS2: De caminho, expliquem-lhe que os mecanismos complexos da fertilização foram descobertos no século XIX, aprofundados durante o século XX, e ainda em activo estudo no século XXI. Fenómenos importantes para a fertilização humana e para a marcação biológica do início da vida, como por exemplo o bloqueio rápido da polispermia, são descobertas recentes da ciência, e não datam do século XVI.
terça-feira, 27 de outubro de 2009
"Casamento" homossexual - o triunfo da vontade
O problema não é de "timing", como afirmam os sofistas da praxe. Liga-se a rádio, a televisão, e lá estão eles: "há assuntos mais importantes... não é a altura certa... há que ver as prioridades...". É patético ver gente crescida a fugir ao cerne da questão: têm real repulsa por este tema, mas têm medo de serem vistos como retrógrados, e por isso optam pela fuga.
O problema não é de direitos fiscais ou sucessórios: a amnésia colectiva é o desporto nacional, mas ainda há quem se lembre de que essa questão foi resolvida aquando do vivo debate em torno das uniões de facto, que acabaram por ser metidas na lei. Na altura, não faltaram corifeus para bradar que a questão das uniões de facto não era o "casamento" homossexual encapotado, que era apenas uma questão de legítimos direitos de pessoas que vivem juntas independentemente da sua vida sexual. A quem dizia que a união de facto era o primeiro degrau dessa escadaria que levaria ao "casamento" homossexual é à adopção de crianças por homossexuais, gritou-se: falácia! Falácia!
O problema é de vontade. De pura, despótica e tirânica vontade. Daquela vontade que passa por cima das contingências biológicas, que pisa a razão e o bom senso, que atropela a lógica.
A propósito do triunfo da vontade, brevemente legislado num Diário da República perto de si, veja-se este trecho profético dos Monty Python, retirado do filme Life of Brian. O Stan quer ser uma mulher, e quer que o chamem de Loretta. E quer ter bebés...
O problema não é de direitos fiscais ou sucessórios: a amnésia colectiva é o desporto nacional, mas ainda há quem se lembre de que essa questão foi resolvida aquando do vivo debate em torno das uniões de facto, que acabaram por ser metidas na lei. Na altura, não faltaram corifeus para bradar que a questão das uniões de facto não era o "casamento" homossexual encapotado, que era apenas uma questão de legítimos direitos de pessoas que vivem juntas independentemente da sua vida sexual. A quem dizia que a união de facto era o primeiro degrau dessa escadaria que levaria ao "casamento" homossexual é à adopção de crianças por homossexuais, gritou-se: falácia! Falácia!
O problema é de vontade. De pura, despótica e tirânica vontade. Daquela vontade que passa por cima das contingências biológicas, que pisa a razão e o bom senso, que atropela a lógica.
A propósito do triunfo da vontade, brevemente legislado num Diário da República perto de si, veja-se este trecho profético dos Monty Python, retirado do filme Life of Brian. O Stan quer ser uma mulher, e quer que o chamem de Loretta. E quer ter bebés...
sexta-feira, 23 de outubro de 2009
O mito de Hipátia
"Agora" and Hypatia - Hollywood Strikes Again
Excelente leitura, recomendada pelo Pedro Gaspar, a quem agradeço profundamente. Só à conta desta dica valiosa, já acrescentei mais um livro à minha lista na Amazon.
Cá vai o "trailer" do filme "Agora", mais uma peça de propaganda anticristã primária, baseada em ignorância histórica, que certamente vai ter assistência e vai dar conforto aos preconceitos ignorantes de muita gente:
Como explica o Tim O'Neill no artigo acima referido, não é fácil encontrar cientistas "mártires" mortos pelo cristianismo por causa de um suposto conflito entre religião cristã e ciência. Fizeram do mago e bruxo Giordano Bruno um cientista. Já foi obra. O caso de Hipátia é um bocado diferente, como explica O'Neill: ela era uma verdadeira cientista (para evitar anacronismos, era uma verdadeira filósofa). Só que não foi morta por causa dos seus conhecimentos científicos. A causa da morte de Hipátia foi política, como explica O'Neill de forma magistral.
PS: No "trailer" do filme, gostei muito das cruzinhas que aquela maltosa toda transportava na mão, enquanto tomavam tudo de assalto. Dá imenso jeito ter as mãos ocupadas enquanto se massacra e se toma alguma coisa de assalto. E metendo-lhes umas cruzes na mão e no peito, garante-se que o espectador deste filme não perde a mensagem central: aquela cambada de assassinos do saber e do conhecimento científico era toda cristã.
Excelente leitura, recomendada pelo Pedro Gaspar, a quem agradeço profundamente. Só à conta desta dica valiosa, já acrescentei mais um livro à minha lista na Amazon.
Cá vai o "trailer" do filme "Agora", mais uma peça de propaganda anticristã primária, baseada em ignorância histórica, que certamente vai ter assistência e vai dar conforto aos preconceitos ignorantes de muita gente:
Como explica o Tim O'Neill no artigo acima referido, não é fácil encontrar cientistas "mártires" mortos pelo cristianismo por causa de um suposto conflito entre religião cristã e ciência. Fizeram do mago e bruxo Giordano Bruno um cientista. Já foi obra. O caso de Hipátia é um bocado diferente, como explica O'Neill: ela era uma verdadeira cientista (para evitar anacronismos, era uma verdadeira filósofa). Só que não foi morta por causa dos seus conhecimentos científicos. A causa da morte de Hipátia foi política, como explica O'Neill de forma magistral.
PS: No "trailer" do filme, gostei muito das cruzinhas que aquela maltosa toda transportava na mão, enquanto tomavam tudo de assalto. Dá imenso jeito ter as mãos ocupadas enquanto se massacra e se toma alguma coisa de assalto. E metendo-lhes umas cruzes na mão e no peito, garante-se que o espectador deste filme não perde a mensagem central: aquela cambada de assassinos do saber e do conhecimento científico era toda cristã.
Argumentum ad ignorantiam
(Que não se julgue que estou a embirrar com o Ludwig, só pelo facto de a minha escrita ser esporádica, e de ter dedicado vários textos recentes ao Ludwig...
Sucede que leio o blogue dele com frequência, e considero que a argumentação do Ludwig é bastante representativa daquilo que impede tanta gente inteligente de abraçar imediatamente o cristianismo, e deixar-se de tretas.)
Isto é um bom exemplo de uma falácia que dá pelo nome clássico de "argumentum ad ignorantiam", ou em bom portugês, "apelo à ignorância".
Não é nada espantoso encontrá-lo na escrita do Ludwig, porque não é nada espantoso encontrar falácias na escrita de toda a gente. Todos as fazemos. Por isso é que é importante que, quando detectadas, elas sejam logo apontadas e preferencialmente corrigidas.
O Ludwig tem formação científica, e para além disso, tem um gosto e um talento natural para a argumentação estruturada. Logo, é pessoa para detestar falácias.
Mais uma razão para lhe dar esta achega: é incoerente que sejamos muito rigorosos no raciocínio científico, e depois deitemos às malvas, mesmo que inconscientemente, esse rigor quando tratamos de outros temas fora da esfera da ciência.
Ludwig: que fazes, homem?
Pela "dificuldade em apurar detalhes", desligas o cérebro?
Vê bem as tuas próprias palavras: estás a sugerir que, dada a dispersão de formas e credos religiosos, dada a distância temporal que nos separa dos acontecimentos "in illo tempore", vamos ficar-nos pela mediocridade? Vamos ficar-nos pelas "explicações genéricas"?
A mecânica quântica é muito complexa. Tem imensas ramificações. Tem imensas teorias epistémicas. É uma grande confusão. Mas quem se esforça por entrar nesse mundo esotérico, descobre a beleza matemática de uma teoria explicativa da realidade física que é espantosamente poderosa. Imaginemos que um aluno universitário de Física, lá pelo primeiro ano do curso, se assustava com a "dificuldade em apurar detalhes", e sugeria aos seus colegas de curso, e a si mesmo, que se procurassem "explicações genéricas"?
Já estou a ouvir o Ludwig: "Bernardo, é completamente diferente: em Física, posso fazer experiências, com o teu deus e com a tua doutrina não posso". Mas isso é mesmo assim? É certo que não podes fazer experiências com Deus, mas podes certamente usar o intelecto para procurar incoerências em certa doutrina religiosa, e assim, removê-la do baralho.
Por exemplo, eu posso olhar para a defesa teológica da irracionalidade, presente em muita teologia islâmica, e usar isso para dizer: "o Islão tem coisas fascinantes, mas não me convence". Posso olhar para a história fantástica do mormonismo, com a descoberta do Livro de Mórmon pelo Joseph Smith no século XIX, que alega que uma comunidade de judeus migrou há muitos séculos para a América do Norte, e ver que é uma tese inconsistente e sem bases históricas. Posso olhar para o hinduísmo, e ver que a intrínseca desconfiança hindú nos sentidos é muito incómoda para o gosto que tenho pela ciência empírica. Posso olhar para o Budismo, notável caminho espiritual para a libertação do sofrimento, e perguntar aos budistas: meus amigos, onde está a vossa ontologia? Para vós, há ou não há Deus? Será, caros amigos budistas, que o mundo material é assim tão mau? Desanimado, é assim que também descarto o budismo, porque gosto das coisas deste mundo.
Finalmente, olho para a religião do Nazareno. Vejo os frutos dessa religião, e como esses frutos estruturaram a melhor civilização que o mundo conheceu. Vejo como uma religião de escravos seduziu, no melhor sentido, o coração dos romanos. E como séculos depois, seduziu o coração dos bárbaros. E como hoje continua a seduzir corações.
Posso ir a Roma, à Basílica de São Pedro, e sob o baldaquino, encontrar e descer os degraus que levam à sepultura do apóstolo. Em volta dessa sepultura, distribuídas de forma radial, estão centenas de sepulturas modestas, os restos dos primeiros cristãos sepultados nas catacumbas, que quiseram que os seus ossos descansassem ao redor de São Pedro.
Pedro, o pescador da Galileia que abandonou as redes de peixes para ir pescar homens, e que se meteu a caminho de Roma para desafiar o Imperador. Este matou-o, achando que matando Pedro matava a Igreja. Como se sabe, em poucos séculos, deu-se a reviravolta. Teodósio fez do Império Romano, cuja essência era a adoração pagã de um ramalhete de deuses e deusas, o Império da Cruz de Cristo.
Não será, Ludwig, que a tua "dificuldade em apurar detalhes" resulta de um problema teu? Porque apontas essa dificuldade às coisas e não a ti? É espantoso ver como desistes desse apurar da verdade religiosa, sem sequer dedicares algum tempo que seja a estudar as raízes das várias religiões, sem sequer te meteres a olhar para os dados históricos que fazem determinado grupo de pessoas seguir determinada doutrina. Desistes à partida.
Eu não me atrevo a apontar o problema ao teu intelecto. Tenho a certeza de que ele funciona bem. Aponto o problema à tua vontade. A vontade é que é tramada. Enquanto não tiveres vontade de estudar a questão religiosa, enquanto achares que é tudo treta, não terás qualquer possibilidade de chegar ao fundo destas questões.
É má argumentação dizer o seguinte: "há várias religiões, todas dizem coisas diferentes, logo são todas falsas". Non sequitur!
É perfeitamente lógico supor, por hipótese:
a) que poderão ser todas falsas
b) que algumas delas poderão ser verdadeiras (desde que concordem entre si)
c) que apenas uma delas poderá ser verdadeira (caso discordem todas entre si)
O que não podes nunca supor é que são todas verdadeiras, é claro, visto que é sabido que dizem coisas diferentes.
Mas como é que saltas directamente para a certeza de que a) é o que corresponde à verdade? Como é que passas da suposição lógica de que todas poderão ser falsas, para a certeza epistémica de que todas são falsas?
Eu digo-te como dás esse salto: apoias-te no preconceito.
PS - Dizes:
Mais uma vez... Não te parece realista exigir uma explicação detalhada, ou não queres procurar uma explicação detalhada? De novo a maldita da vontade.
Antes do Édito de Milão (313), todas as religiões autorizadas do Império Romano tinham algo em comum, que lhes garantia a autorização legal: prestar culto ao Imperador como se presta a um Deus. Para as religiões autorizadas, e eram muitas, a "latria" ao Imperador era um dado adquirido. Quando Pedro entra em cena, chegando a Roma, e espalhando o cristianismo por todas as camadas sociais da complexa e robusta estrutura social romana, instala-se o caos. E a razão é simples: pela primeira vez, uma religião recusa-se a prestar a "latria" ao Imperador, pois os cristãos não reconhecem a divindade de César. É este o busílis da questão cristã.
Nunca te preocupaste em perceber porque é que o cristianismo "pegou", e é isso que é preocupante em ti, Ludwig: atreves-te a descartar uma coisa que nunca estudaste porque nunca quiseste.
É o carácter único e desafiador do cristianismo que, em última análise, está por detrás do seu retumbante sucesso. O cristão trazia algo de novo para contar. O cristão estava disposto a morrer na arena do circo romano por uma verdade superior. O cristão tinha saboreado, em Cristo, a eternidade. E essa eternidade é o único antídoto contra qualquer tipo de morte cruel ou violenta. Essa eternidade é o bálsamo da esperança cristã.
Todo aquele que não entendeu ainda o frémito social que provocou este fenómeno inédito do cristão a morrer corajosamente na arena por uma verdade superior, recusando tratar o Imperador como deus, não faz a mais pequena ideia do que foi a história primitiva da Igreja Católica, e do impacto que isso teve na nossa civilização.
O Ocidente nasce ali, nas areias do Circo Romano. O obelisco egípcio, trazido por Calígula e colocado como eixo da arena, está hoje triunfalmente no meio da Praça de São Pedro, no Vaticano, em Roma.
Sucede que leio o blogue dele com frequência, e considero que a argumentação do Ludwig é bastante representativa daquilo que impede tanta gente inteligente de abraçar imediatamente o cristianismo, e deixar-se de tretas.)
«Pelos aspectos análogos das muitas religiões e pela dificuldade em apurar os detalhes acerca de acontecimentos tão antigos, o melhor é procurar explicações genéricas para as religiões em vez de focar uma só religião ignorando as outras, que é um erro de muitos crentes.», in Razões Históricas.
Isto é um bom exemplo de uma falácia que dá pelo nome clássico de "argumentum ad ignorantiam", ou em bom portugês, "apelo à ignorância".
Não é nada espantoso encontrá-lo na escrita do Ludwig, porque não é nada espantoso encontrar falácias na escrita de toda a gente. Todos as fazemos. Por isso é que é importante que, quando detectadas, elas sejam logo apontadas e preferencialmente corrigidas.
O Ludwig tem formação científica, e para além disso, tem um gosto e um talento natural para a argumentação estruturada. Logo, é pessoa para detestar falácias.
Mais uma razão para lhe dar esta achega: é incoerente que sejamos muito rigorosos no raciocínio científico, e depois deitemos às malvas, mesmo que inconscientemente, esse rigor quando tratamos de outros temas fora da esfera da ciência.
Ludwig: que fazes, homem?
Pela "dificuldade em apurar detalhes", desligas o cérebro?
Vê bem as tuas próprias palavras: estás a sugerir que, dada a dispersão de formas e credos religiosos, dada a distância temporal que nos separa dos acontecimentos "in illo tempore", vamos ficar-nos pela mediocridade? Vamos ficar-nos pelas "explicações genéricas"?
A mecânica quântica é muito complexa. Tem imensas ramificações. Tem imensas teorias epistémicas. É uma grande confusão. Mas quem se esforça por entrar nesse mundo esotérico, descobre a beleza matemática de uma teoria explicativa da realidade física que é espantosamente poderosa. Imaginemos que um aluno universitário de Física, lá pelo primeiro ano do curso, se assustava com a "dificuldade em apurar detalhes", e sugeria aos seus colegas de curso, e a si mesmo, que se procurassem "explicações genéricas"?
Já estou a ouvir o Ludwig: "Bernardo, é completamente diferente: em Física, posso fazer experiências, com o teu deus e com a tua doutrina não posso". Mas isso é mesmo assim? É certo que não podes fazer experiências com Deus, mas podes certamente usar o intelecto para procurar incoerências em certa doutrina religiosa, e assim, removê-la do baralho.
Por exemplo, eu posso olhar para a defesa teológica da irracionalidade, presente em muita teologia islâmica, e usar isso para dizer: "o Islão tem coisas fascinantes, mas não me convence". Posso olhar para a história fantástica do mormonismo, com a descoberta do Livro de Mórmon pelo Joseph Smith no século XIX, que alega que uma comunidade de judeus migrou há muitos séculos para a América do Norte, e ver que é uma tese inconsistente e sem bases históricas. Posso olhar para o hinduísmo, e ver que a intrínseca desconfiança hindú nos sentidos é muito incómoda para o gosto que tenho pela ciência empírica. Posso olhar para o Budismo, notável caminho espiritual para a libertação do sofrimento, e perguntar aos budistas: meus amigos, onde está a vossa ontologia? Para vós, há ou não há Deus? Será, caros amigos budistas, que o mundo material é assim tão mau? Desanimado, é assim que também descarto o budismo, porque gosto das coisas deste mundo.
Finalmente, olho para a religião do Nazareno. Vejo os frutos dessa religião, e como esses frutos estruturaram a melhor civilização que o mundo conheceu. Vejo como uma religião de escravos seduziu, no melhor sentido, o coração dos romanos. E como séculos depois, seduziu o coração dos bárbaros. E como hoje continua a seduzir corações.
Posso ir a Roma, à Basílica de São Pedro, e sob o baldaquino, encontrar e descer os degraus que levam à sepultura do apóstolo. Em volta dessa sepultura, distribuídas de forma radial, estão centenas de sepulturas modestas, os restos dos primeiros cristãos sepultados nas catacumbas, que quiseram que os seus ossos descansassem ao redor de São Pedro.
Pedro, o pescador da Galileia que abandonou as redes de peixes para ir pescar homens, e que se meteu a caminho de Roma para desafiar o Imperador. Este matou-o, achando que matando Pedro matava a Igreja. Como se sabe, em poucos séculos, deu-se a reviravolta. Teodósio fez do Império Romano, cuja essência era a adoração pagã de um ramalhete de deuses e deusas, o Império da Cruz de Cristo.
Não será, Ludwig, que a tua "dificuldade em apurar detalhes" resulta de um problema teu? Porque apontas essa dificuldade às coisas e não a ti? É espantoso ver como desistes desse apurar da verdade religiosa, sem sequer dedicares algum tempo que seja a estudar as raízes das várias religiões, sem sequer te meteres a olhar para os dados históricos que fazem determinado grupo de pessoas seguir determinada doutrina. Desistes à partida.
Eu não me atrevo a apontar o problema ao teu intelecto. Tenho a certeza de que ele funciona bem. Aponto o problema à tua vontade. A vontade é que é tramada. Enquanto não tiveres vontade de estudar a questão religiosa, enquanto achares que é tudo treta, não terás qualquer possibilidade de chegar ao fundo destas questões.
É má argumentação dizer o seguinte: "há várias religiões, todas dizem coisas diferentes, logo são todas falsas". Non sequitur!
É perfeitamente lógico supor, por hipótese:
a) que poderão ser todas falsas
b) que algumas delas poderão ser verdadeiras (desde que concordem entre si)
c) que apenas uma delas poderá ser verdadeira (caso discordem todas entre si)
O que não podes nunca supor é que são todas verdadeiras, é claro, visto que é sabido que dizem coisas diferentes.
Mas como é que saltas directamente para a certeza de que a) é o que corresponde à verdade? Como é que passas da suposição lógica de que todas poderão ser falsas, para a certeza epistémica de que todas são falsas?
Eu digo-te como dás esse salto: apoias-te no preconceito.
PS - Dizes:
«não me parece realista exigir uma explicação detalhada para ter sido aquela seita, e não outra das muitas da altura, a religião oficial do Império Romano»
Mais uma vez... Não te parece realista exigir uma explicação detalhada, ou não queres procurar uma explicação detalhada? De novo a maldita da vontade.
Antes do Édito de Milão (313), todas as religiões autorizadas do Império Romano tinham algo em comum, que lhes garantia a autorização legal: prestar culto ao Imperador como se presta a um Deus. Para as religiões autorizadas, e eram muitas, a "latria" ao Imperador era um dado adquirido. Quando Pedro entra em cena, chegando a Roma, e espalhando o cristianismo por todas as camadas sociais da complexa e robusta estrutura social romana, instala-se o caos. E a razão é simples: pela primeira vez, uma religião recusa-se a prestar a "latria" ao Imperador, pois os cristãos não reconhecem a divindade de César. É este o busílis da questão cristã.
Nunca te preocupaste em perceber porque é que o cristianismo "pegou", e é isso que é preocupante em ti, Ludwig: atreves-te a descartar uma coisa que nunca estudaste porque nunca quiseste.
É o carácter único e desafiador do cristianismo que, em última análise, está por detrás do seu retumbante sucesso. O cristão trazia algo de novo para contar. O cristão estava disposto a morrer na arena do circo romano por uma verdade superior. O cristão tinha saboreado, em Cristo, a eternidade. E essa eternidade é o único antídoto contra qualquer tipo de morte cruel ou violenta. Essa eternidade é o bálsamo da esperança cristã.
Todo aquele que não entendeu ainda o frémito social que provocou este fenómeno inédito do cristão a morrer corajosamente na arena por uma verdade superior, recusando tratar o Imperador como deus, não faz a mais pequena ideia do que foi a história primitiva da Igreja Católica, e do impacto que isso teve na nossa civilização.
O Ocidente nasce ali, nas areias do Circo Romano. O obelisco egípcio, trazido por Calígula e colocado como eixo da arena, está hoje triunfalmente no meio da Praça de São Pedro, no Vaticano, em Roma.
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