No seu "post" Q&A, o Ludwig, na tentativa de esclarecer a sua posição, gerou uma grande confusão.
Parece-me estranho que alguém racional e cerebral como o Ludwig adopte dois pesos e duas medidas sistematicamente. Penso que não se dá conta disso. Refiro-me ao facto de o Luwdig ser tão cumpridor das tradições estabelecidas quando fala acerca de Ciência, e tão rebelde e incumpridor quando se trata das tradições filosóficas e epistemológicas.
É como se, dentro da cabeça do Ludwig, existisse uma mente de cientista (com obra feita e competência que não discuto) e simultaneamente uma mente de anti-filósofo, de alguém que rejeita toda a tradição filosófica, e mais grave ainda, toda a tradição epistemológica.
Isto nada tem a ver com ateísmo. Um ateu pode e deve definir a sua posição filosófica com algum rigor filosófico. Um ateu pode e deve conhecer a tradição epistemológica para a saber usar quando fala de Ciência, pois enquanto que o trabalho científico é Ciência, a reflexão filosófica acerca do trabalho científico é meta-Ciência, é epistemologia.
O Ludwig não pode tratar como Ciência a reflexão acerca do conhecimento científico, pois isso seria raciocínio auto-referencial, e sofreria da falácia de petição de princípio e dos problemas da circularidade.
Ora é isso que eu depreendo de vários pontos do texto dele.
«Basta que se possa inferir algo observável das hipóteses acerca de Deus.»
Eu nem sei bem o que isto quer dizer. Mas poderá ter duas leituras, julgo eu. Por um lado, que o Ludwig pretenderia que a hipótese Deus pudesse ser testada empiricamente. O que é algo de bizarro, uma vez que toda a tradição filosófica trata a hipótese Deus como uma hipótese metafísica, logo não testável empiricamente. Talvez o Ludwig não pretendesse dizer isto mas sim algo mais sofisticado, a saber, que a hipótese Deus, sendo verdadeira, deveria deixar um "rasto empírico". Ora bolas, mas a tradição filosófica também tem algo a dizer acerca disso, nomeadamente quando fala acerca da finalidade, ou seja, da causa final. O raciocínio meta-científico (filosófico) acerca das coisas que encontramos no Cosmos leva-nos à necessidade de causas finais para essas várias coisas. O argumento cosmológico, como argumento "a posteriori" que é, parte da observação da realidade empírica para montar um argumento filosófico acerca da existência de Deus. O movimento é indutivo, partindo-se da observação do Cosmos e chegando-se a uma tese metafísica.
Sendo assim, é possível fazer o que o Ludwig pede, mas como filósofo e não como cientista. Um filósofo pode inferir algo observável das hipóteses acerca de Deus, se como filósofo, vir nas coisas naturais contingentes uma causa final que remete para a causa primeira, necessária. Não estamos ainda a pretender inferir a infinitude da causa primeira a partir da observação, pois isso é muito espinhoso e difícil, e nem sei se será possível. Estamos a inferir que há uma causa primeira, e essa causa é "exterior" ao Cosmos, por não ser condicionada, por não ser contingente, por ser necessária.
Parece que Ludwig manda às malvas tudo isto, ignorando o debate filosófico como se fosse irrelevante, e não tendo a mesma preocupação com as teses filosóficas que tem com as teses científicas.
A falta de noção de fronteira fica patente também nesta frase:
«e formarmos as nossas ideias de maneira a poder descobrir quando erramos, elas dão-nos um caminho para o conhecimento. E isso é ciência.»
Pode não ser ciência. Pode ser filosofia. Quando eu afirmo "não há juízos verdadeiros de sujeito singular e predicado universal" eu tenho um método intelectual para saber com toda a certeza que acabei de errar. Chama-se a isso o método de retorsão, e é uma ferramenta filosófica muito antiga e útil para estabelecer com solidez os primeiros princípios, e neste caso em concreto, para eu saber que errei: é um caminho para um certo tipo de conhecimento sólido e seguro, só que não se trata de conhecimento científico (em sentido moderno), pois não foi obtido por via empírica. Logo, pode-se chamar esse conhecimento de conhecimento filosófico. Só este exemplo demonstra a estreiteza de vistas que o Ludwig parece postular.
Ele escreve como um adepto do cientismo. Eu sei que ele detesta "ismos", mas é uma constatação incontornável. O adepto do cientismo, antes de mais, é um materialista, ou seja, pretende que toda a realidade é empírica. Para além disso, o adepto do cientismo pretende que só é conhecimento aquilo que se pode colocar sob o crivo do método científico. Tal postura não é científica: é filosófica. Tal tese não é científica, é filosófica. E é má filosofia: é uma treta de uma tese, como aliás se demonstra facilmente:
1. O adepto do cientismo diz que uma tese só representa um caminho para o conhecimento se houver um método empírico para a testar
2. O adepto do cientismo não apresenta um método empírico para testar a tese que acabou de formular
3. Com essa sua tese inútil e auto-refutatória, o adepto do cientismo não trouxe qualquer conhecimento verdadeiro para a discussão
A incapacidade que o Ludwig parece demonstrar no que toca a traçar fronteiras há muito estabelecidas é patente, mais uma vez, neste trecho:
«Há muito na ciência que não é “causa entre outras causas” nem “ser entre outros seres”, desde o princípio de incerteza de Heisenberg às leis da termodinâmica, e incluindo todas as abstracções lógicas e matemáticas que usamos para construir modelos, como a raiz quadrada de dois ou as funções trigonométricas.»
Eu já nem parto para o debate (perfeitamente razoável) acerca do estatuto das Matemáticas, pois parece-me extremamente abusivo pretender que as Matemáticas façam parte do que hoje em dia se convencionou chamar Ciência, visto que as Matemáticas têm uma autonomia filosófica, e não dependem de confirmações ou refutações empíricas (pela via do método científico) para se susterem como conhecimento válido.
Mas deixando de lado, por agora, as Matemáticas, será que o Ludwig pretende que, por exemplo, o princípio lógico do terceiro excluído é conhecimento científico, no sentido moderno do termo? A lógica não pertence ao domínio da ciência, mas sim ao da filosofia, mais especificamente, ao domínio da metafísica, ou seja, dos primeiros princípios do conhecimento intelectual. Como pretende o Ludwig provar pelo método científico os primeiros princípios? Como se prova em laboratório a lógica clássica? E, para tomar outro exemplo, as verdades de sempre acerca dos silogismos, tão bem estudadas e conhecidas já na Idade Média e mesmo em Aristóteles? Vieram ao conhecimento humano por via do método científico? Como é que eu sei que um silogismo em Barbara é sempre verdadeiro, se as suas teses maior e menor forem verdadeiras? Medi isso com que aparelho?
O sistemático desprezo pela Filosofia, a atitude persistente em ignorar a diferença entre trabalho científico (Ciência) e reflexão filosófica acerca desse mesmo trabalho (Epistemologia) é a marca do adepto da superstição do cientismo, essa simplificação grotesca que pretende que todo o conhecimento humano com pretensão de validade deve estar sob a alçada do método científico.
Se eu fui injusto para com o Ludwig, distorcendo as suas ideias, eu agradecia imenso se ele pudesse ajudar a esclarecer estas questões, mormente a explicar, de uma vez por todas, o que pensa ele da epistemologia e da filosofia, e de que forma vê ele o conhecimento humano no seu todo, incluindo o (mas não limitado ao) conhecimento científico.
"Mas, no íntimo do vosso coração, confessai Cristo como Senhor, sempre dispostos a dar a razão da vossa esperança a todo aquele que vo-la peça" - Primeira Carta de São Pedro, cap. 3, vs. 15.
quarta-feira, 8 de setembro de 2010
segunda-feira, 6 de setembro de 2010
Gaston Isaye e a fundamentação rigorosa da metafísica
Eis o livro que me deu a volta à cabeça durante o Verão:
L'affirmation de l'être et les sciences positives
Uma obra pequena, humilde, mas muito sintética e poderosa. Se compreendesse esta obra, e fosse intelectualmente honesto, Dawkins nunca teria escrito um só livro ateísta.
O sonho do padre Isaye era grande, mas belo: montar uma argumentação racional para defender os primeiros princípios da metafísica. Defender de quem? Daqueles que ele chama os “hipercríticos”, ou seja, aqueles loucos que preferem o suicídio intelectual a aceitar a força dos primeiros princípios. Contra esses cépticos irrazoáveis, Isaye lança toda a força do velho método de retorsão, por ele refrescado e actualizado.
Isaye demonstra que o problema do ateísmo, ou seja, da convicção de que não existe um Ser necessário e infinito, é um problema epistemológico, e não lógico. Contra aqueles crentes que procuram o fugitivo argumento ontológico, ou seja, uma forma de provar que o ateísmo é ilógico e o teísmo é logicamente necessário, Isaye segue outra via, muito mais eficaz. Segundo Isaye, a afirmação ateísta é lógica, ou seja, não apresenta contradição interna. Isaye demonstra que o erro do ateísmo está no exercício de fazer afirmações que se pretendem verdadeiras. Então, é “in actu” que o ateu se demonstra incoerente. A frase “Deus não existe” não apresenta contradição interna, assim como a frase “Deus existe” também não a apresenta (ao contrário do que afirmava o pateta do Sartre). O problema, ensina Isaye, não se resolve acusando a outra parte de contradição nos termos das respectivas afirmações. O problema resolve-se analisando filosoficamente o acto de afirmar. E aí, quem sai mal é o ateu. O ateu que pretende afirmar coisas verdadeiras dá um tiro filosófico no pé.
Mais para breve…
L'affirmation de l'être et les sciences positives
Uma obra pequena, humilde, mas muito sintética e poderosa. Se compreendesse esta obra, e fosse intelectualmente honesto, Dawkins nunca teria escrito um só livro ateísta.
O sonho do padre Isaye era grande, mas belo: montar uma argumentação racional para defender os primeiros princípios da metafísica. Defender de quem? Daqueles que ele chama os “hipercríticos”, ou seja, aqueles loucos que preferem o suicídio intelectual a aceitar a força dos primeiros princípios. Contra esses cépticos irrazoáveis, Isaye lança toda a força do velho método de retorsão, por ele refrescado e actualizado.
Isaye demonstra que o problema do ateísmo, ou seja, da convicção de que não existe um Ser necessário e infinito, é um problema epistemológico, e não lógico. Contra aqueles crentes que procuram o fugitivo argumento ontológico, ou seja, uma forma de provar que o ateísmo é ilógico e o teísmo é logicamente necessário, Isaye segue outra via, muito mais eficaz. Segundo Isaye, a afirmação ateísta é lógica, ou seja, não apresenta contradição interna. Isaye demonstra que o erro do ateísmo está no exercício de fazer afirmações que se pretendem verdadeiras. Então, é “in actu” que o ateu se demonstra incoerente. A frase “Deus não existe” não apresenta contradição interna, assim como a frase “Deus existe” também não a apresenta (ao contrário do que afirmava o pateta do Sartre). O problema, ensina Isaye, não se resolve acusando a outra parte de contradição nos termos das respectivas afirmações. O problema resolve-se analisando filosoficamente o acto de afirmar. E aí, quem sai mal é o ateu. O ateu que pretende afirmar coisas verdadeiras dá um tiro filosófico no pé.
Mais para breve…
sexta-feira, 3 de setembro de 2010
Factos e símbolos no Génesis
Inseri há pouco este comentário, em resposta a este texto da Leonor Abrantes: Literalismo e interpretação.
Leonor,
Muito agradeço este teu texto, que me deixou muito contente. Por uma principal razão: consegui, felizmente, passar o ponto de vista que queria passar: que uma leitura do Génesis 100% simbólica, que tratasse tudo aquilo como “não factual”, é um contrasenso para um católico.
Usando a lógica (excluindo a possibilidade absurda de que não há narrativas, nem simbólicas nem factuais, no Génesis), temos estas possibilidades:
a) o Génesis tem apenas uma leitura simbólica: nada daquilo aconteceu
b) o Génesis tem apenas uma leitura literal: tudo aquilo aconteceu COMO DESCRITO
c) o Génesis tem, pelo menos, duas camadas de leitura: uma narrativa de factos e uma narrativa de símbolos: os factos são coisas que aconteceram, os símbolos são meios de expressar de forma mais fácil e compreensível as ditas coisas que aconteceram
A posição a) é típica de alguns exegetas modernos que, assustados (sem razão) com a Ciência, julgam que salvam o cristianismo do escárnio dos seus adversários deitando fora o bebé com a água do banho, ou seja, deitando fora todo e qualquer conteúdo factual do Génesis. Isso é tolo, e é mandar às malvas 2.000 anos de tradição de exegese.
A posição b) é típica de várias (mas não todas) correntes protestantes. Tais correntes, quando defendem a factualidade do Génesis, colocam o relato bíblico acima da Ciência, e em caso de conflito, rejeitam a Ciência para ficarem com a descrição literal dos acontecimentos. Como se vê facilmente com algum estudo, raras autoridades católicas em matéria de doutrina e de exegese defenderam esta posição. Tão cedo como com Santo Agostinho temos a separação entre a narrativa factual e a narrativa simbólica (“De Genesi ad Litteram”). Por exemplo: Santo Agostinho não aceitava que os seis dias da Criação tivessem durado 24 horas cada.
A posição c) é a que reúne o consenso de todas as grandes figuras da tradição católica e é a que é defendida pelo Magistério. A narrativa dos factos é imperiosa, pois ela estabelece de forma firme o sustentáculo da teologia posterior, tanto da teologia judaica, como (e sobretudo) da teologia cristã. A narrativa dos símbolos não deixa de ter a sua importância e a sua utilidade. Eu costumo dar este exemplo: se um “pele vermelha” vê um comboio na planície e volta a correr para a sua aldeia, afirmando ter avistado um “cavalo de ferro” na planície, temos as duas narrativas: o símbolo do “cavalo de ferro” reflecte a linguagem que a testemunha usa e conhece, mas existe a factualidade: um comboio passou mesmo na planície, e ele avistou-o.
Como resolver o imbróglio da leitura correcta do Génesis?
Aprendendo com o passado: respeitando a Tradição e ao mesmo tempo respeitando da Ciência. Na Idade Média, o escolástico Sigério de Brabante propunha uma separação radical (era mesmo uma separação epistémica) de domínios do saber: havia as verdades da Fé, e havia as verdades de Filosofia (científicas). Segundo Sigério, quando dois postulados, um teológico e outro filosófico, se pronunciavam sobre determinado objecto, poderia haver contradição entre os dois postulados. Esta ideia, com razão, arrepiou o grande São Tomás, que disse que a verdade era una, e que a presença de contradição, mesmo entre teses de áreas distintas, era prova de erro.
A Igreja sempre procurou seguir esta via de conciliação: não distorcer a doutrina legada por Cristo, a mesma doutrina defendida pela tradição da Patrística, e pelo Magistério, e ao mesmo tempo, respeitar TODAS as verdades do conhecimento humano, ou seja, as verdades filosóficas e científicas. Mas a conciliação não se faz, nunca, à custa da verdade. Onde há contradição, há erro.
Contra quem diz que a leitura católica do Génesis esbarra com a ciência actual, eu pergunto: ONDE?? Quem o afirma, ou desconhece a leitura católica do Génesis, ou desconhece a ciência actual, ou desconhece ambas.
Não sou eu quem decide estas coisas, pelo que o que aqui está escrito não é a opinião do Bernardo Motta, mas sim a posição da Igreja.
Em relação ao Génesis, para se ter uma prova cabal daquilo que eu afirmo, de que o Magistério defende uma leitura factual (mas não necessariamente literal) do Génesis, nada como ler este trecho esclarecedor da encíclica Humani Generis, do Papa Pio XII:
«37. Mas, tratando-se de outra hipótese, isto é, a do poligenismo, os filhos da Igreja não gozam da mesma liberdade, pois os fiéis cristãos não podem abraçar a teoria de que depois de Adão tenha havido na terra verdadeiros homens não procedentes do mesmo protoparente por geração natural, ou, ainda, que Adão signifique o conjunto dos primeiros pais; já que não se vê claro de que modo tal afirmação pode harmonizar-se com o que as fontes da verdade revelada e os documentos do magistério da Igreja ensinam acerca do pecado original, que procede do pecado verdadeiramente cometido por um só Adão e que, transmitindo-se a todos os homens pela geração, é próprio de cada um deles.(11)»
Vale a pena ler a encíclica toda, mas quis destacar este parágrafo, por ser ilustrativo daquilo que acabei de escrever. De forma clara, Pio XII, com toda a sua autoridade papal, declara que o católico não pode deixar de aceitar a verdade de um primeiro casal humano, para salvaguardar a doutrina católica da Queda. Se isto não é um exemplo claro de leitura factual do Génesis…
Mas em toda esta encíclica, escrita com imenso cuidado (Pio XII era um ávido leitor de literatura científica), o Papa evita pronunciar-se sobre teses científicas, e em parte alguma, ele afirma algo hoje provado cientificamente como errado.
Tenho todo o respeito pelo Padre Carreira das Neves, e pela sua vida inteira de estudo bíblico. Mas reconheço, como se entende, mais autoridade doutrinal a um Papa.
Qualquer estudioso das questões científicas em torno do surgimento da vida, e dos problemas relativos ao surgimento da vida humana, sabe ver que o texto de Pio XII, nesta encíclica, é um texto muito cuidadoso. A Igreja Católica, em momento algum, condenou doutrinalmente o evolucionismo científico. Certamente, também pairou, na Cúria, o “fantasma Galileu”, pois o caso Galileu (que hoje quase ninguém ainda compreende, mas todos julgam compreender) é o único exemplo real, e com consequências graves, de fricção epistemológica entre a doutrina católica e a Ciência.
Mas se, nem no caso Galileu, o Magistério condenou formalmente o copernicanismo como herético, e nesse Caso, a Igreja arriscou demasiado (nomeadamente, uma comissão teológica incompetente emitiu um fatal e precipitado juízo teológico em 1616, mas sem valor de condenação formal), na questão da Evolução, a Igreja foi muitíssimo mais cuidadosa. Em momento algum, a Igreja se pronunciou contra verdades científicas estabelecidas (nem nunca o fará, se Deus quiser).
Leonor,
Muito agradeço este teu texto, que me deixou muito contente. Por uma principal razão: consegui, felizmente, passar o ponto de vista que queria passar: que uma leitura do Génesis 100% simbólica, que tratasse tudo aquilo como “não factual”, é um contrasenso para um católico.
Usando a lógica (excluindo a possibilidade absurda de que não há narrativas, nem simbólicas nem factuais, no Génesis), temos estas possibilidades:
a) o Génesis tem apenas uma leitura simbólica: nada daquilo aconteceu
b) o Génesis tem apenas uma leitura literal: tudo aquilo aconteceu COMO DESCRITO
c) o Génesis tem, pelo menos, duas camadas de leitura: uma narrativa de factos e uma narrativa de símbolos: os factos são coisas que aconteceram, os símbolos são meios de expressar de forma mais fácil e compreensível as ditas coisas que aconteceram
A posição a) é típica de alguns exegetas modernos que, assustados (sem razão) com a Ciência, julgam que salvam o cristianismo do escárnio dos seus adversários deitando fora o bebé com a água do banho, ou seja, deitando fora todo e qualquer conteúdo factual do Génesis. Isso é tolo, e é mandar às malvas 2.000 anos de tradição de exegese.
A posição b) é típica de várias (mas não todas) correntes protestantes. Tais correntes, quando defendem a factualidade do Génesis, colocam o relato bíblico acima da Ciência, e em caso de conflito, rejeitam a Ciência para ficarem com a descrição literal dos acontecimentos. Como se vê facilmente com algum estudo, raras autoridades católicas em matéria de doutrina e de exegese defenderam esta posição. Tão cedo como com Santo Agostinho temos a separação entre a narrativa factual e a narrativa simbólica (“De Genesi ad Litteram”). Por exemplo: Santo Agostinho não aceitava que os seis dias da Criação tivessem durado 24 horas cada.
A posição c) é a que reúne o consenso de todas as grandes figuras da tradição católica e é a que é defendida pelo Magistério. A narrativa dos factos é imperiosa, pois ela estabelece de forma firme o sustentáculo da teologia posterior, tanto da teologia judaica, como (e sobretudo) da teologia cristã. A narrativa dos símbolos não deixa de ter a sua importância e a sua utilidade. Eu costumo dar este exemplo: se um “pele vermelha” vê um comboio na planície e volta a correr para a sua aldeia, afirmando ter avistado um “cavalo de ferro” na planície, temos as duas narrativas: o símbolo do “cavalo de ferro” reflecte a linguagem que a testemunha usa e conhece, mas existe a factualidade: um comboio passou mesmo na planície, e ele avistou-o.
Como resolver o imbróglio da leitura correcta do Génesis?
Aprendendo com o passado: respeitando a Tradição e ao mesmo tempo respeitando da Ciência. Na Idade Média, o escolástico Sigério de Brabante propunha uma separação radical (era mesmo uma separação epistémica) de domínios do saber: havia as verdades da Fé, e havia as verdades de Filosofia (científicas). Segundo Sigério, quando dois postulados, um teológico e outro filosófico, se pronunciavam sobre determinado objecto, poderia haver contradição entre os dois postulados. Esta ideia, com razão, arrepiou o grande São Tomás, que disse que a verdade era una, e que a presença de contradição, mesmo entre teses de áreas distintas, era prova de erro.
A Igreja sempre procurou seguir esta via de conciliação: não distorcer a doutrina legada por Cristo, a mesma doutrina defendida pela tradição da Patrística, e pelo Magistério, e ao mesmo tempo, respeitar TODAS as verdades do conhecimento humano, ou seja, as verdades filosóficas e científicas. Mas a conciliação não se faz, nunca, à custa da verdade. Onde há contradição, há erro.
Contra quem diz que a leitura católica do Génesis esbarra com a ciência actual, eu pergunto: ONDE?? Quem o afirma, ou desconhece a leitura católica do Génesis, ou desconhece a ciência actual, ou desconhece ambas.
Não sou eu quem decide estas coisas, pelo que o que aqui está escrito não é a opinião do Bernardo Motta, mas sim a posição da Igreja.
Em relação ao Génesis, para se ter uma prova cabal daquilo que eu afirmo, de que o Magistério defende uma leitura factual (mas não necessariamente literal) do Génesis, nada como ler este trecho esclarecedor da encíclica Humani Generis, do Papa Pio XII:
«37. Mas, tratando-se de outra hipótese, isto é, a do poligenismo, os filhos da Igreja não gozam da mesma liberdade, pois os fiéis cristãos não podem abraçar a teoria de que depois de Adão tenha havido na terra verdadeiros homens não procedentes do mesmo protoparente por geração natural, ou, ainda, que Adão signifique o conjunto dos primeiros pais; já que não se vê claro de que modo tal afirmação pode harmonizar-se com o que as fontes da verdade revelada e os documentos do magistério da Igreja ensinam acerca do pecado original, que procede do pecado verdadeiramente cometido por um só Adão e que, transmitindo-se a todos os homens pela geração, é próprio de cada um deles.(11)»
Vale a pena ler a encíclica toda, mas quis destacar este parágrafo, por ser ilustrativo daquilo que acabei de escrever. De forma clara, Pio XII, com toda a sua autoridade papal, declara que o católico não pode deixar de aceitar a verdade de um primeiro casal humano, para salvaguardar a doutrina católica da Queda. Se isto não é um exemplo claro de leitura factual do Génesis…
Mas em toda esta encíclica, escrita com imenso cuidado (Pio XII era um ávido leitor de literatura científica), o Papa evita pronunciar-se sobre teses científicas, e em parte alguma, ele afirma algo hoje provado cientificamente como errado.
Tenho todo o respeito pelo Padre Carreira das Neves, e pela sua vida inteira de estudo bíblico. Mas reconheço, como se entende, mais autoridade doutrinal a um Papa.
Qualquer estudioso das questões científicas em torno do surgimento da vida, e dos problemas relativos ao surgimento da vida humana, sabe ver que o texto de Pio XII, nesta encíclica, é um texto muito cuidadoso. A Igreja Católica, em momento algum, condenou doutrinalmente o evolucionismo científico. Certamente, também pairou, na Cúria, o “fantasma Galileu”, pois o caso Galileu (que hoje quase ninguém ainda compreende, mas todos julgam compreender) é o único exemplo real, e com consequências graves, de fricção epistemológica entre a doutrina católica e a Ciência.
Mas se, nem no caso Galileu, o Magistério condenou formalmente o copernicanismo como herético, e nesse Caso, a Igreja arriscou demasiado (nomeadamente, uma comissão teológica incompetente emitiu um fatal e precipitado juízo teológico em 1616, mas sem valor de condenação formal), na questão da Evolução, a Igreja foi muitíssimo mais cuidadosa. Em momento algum, a Igreja se pronunciou contra verdades científicas estabelecidas (nem nunca o fará, se Deus quiser).
quinta-feira, 2 de setembro de 2010
A agenda anti-vida de Tony Blair
Importantíssimo artigo acerca da agenda anti-vida de Tony Blair, revelada de forma clara no seu recente livro de memórias, "A Journey". Já há muito se sabia que este católico "soi disant" usava o seu recente catolicismo para veicular as suas convicções de sempre:
Tony Blair's Memoirs Reveal Dishonesty Was Dark Heart of His Anti-Life/Anti-Family Rule
A ideia é sempre a mesma: tendo-se tornado um católico de fachada, Tony Blair usa agora a sua força política para tentar distorcer a doutrina católica e forçar a doutrina da Igreja a mudar. É a estratégia do Cavalo de Tróia. Em analogia com a informática, poderíamos dizer que Blair é um vírus "trojan" que se tenta infiltrar nos meios católicos para os envenenar.
Tony Blair é uma farsa. E como muitas farsas com poder, é uma farsa perigosa.
(recebi esta notícia via Infovitae)
quinta-feira, 26 de agosto de 2010
Living within the Truth - Arcebispo Chaput (EUA)
É cada vez mais sabido que os EUA estão bem fornecidos de Bispos de categoria. Tenho citado neste blogue vários bons exemplos. Eis mais um texto lúcido e importante do Arcebispo de Denver, Charles Chaput, do qual tomei conhecimento via Infovitae.
Living within the truth: Religious liberty and Catholic mission in the new order of the world
Eis um excerto deste texto poderoso:
«This diagnosis helps us understand one of the foundational injustices in the West today -- the crime of abortion.
I realize that the abortion license is a matter of current law in almost every nation in the West. In some cases, this license reflects the will of the majority and is enforced through legal and democratic means. And I’m aware that many people, even in the Church, find it strange that we Catholics in America still make the sanctity of unborn life so central to our public witness.
Let me tell you why I believe abortion is the crucial issue of our age.
First, because abortion, too, is about living within the truth. The right to life is the foundation of every other human right. If that right is not inviolate, then no right can be guaranteed.
Or to put it more bluntly: Homicide is homicide, no matter how small the victim.
Here’s another truth that many persons in the Church have not yet fully reckoned: The defense of newborn and preborn life has been a central element of Catholic identity since the Apostolic Age.
I’ll say that again: From the earliest days of the Church, to be Catholic has meant refusing in any way to participate in the crime of abortion -- either by seeking an abortion, performing one, or making this crime possible through actions or inactions in the political or judicial realm. More than that, being Catholic has meant crying out against all that offends the sanctity and dignity of life as it has been revealed by Jesus Christ.
The evidence can be found in the earliest documents of Church history. In our day -- when the sanctity of life is threatened not only by abortion, infanticide and euthanasia, but also by embryonic research and eugenic temptations to eliminate the weak, the disabled and the infirm elderly -- this aspect of Catholic identity becomes even more vital to our discipleship.
My point in mentioning abortion is this: Its widespread acceptance in the West shows us that without a grounding in God or a higher truth, our democratic institutions can very easily become weapons against our own human dignity.
Our most cherished values cannot be defended by reason alone, or simply for their own sake. They have no self-sustaining or “internal” justification.
There is no inherently logical or utilitarian reason why society should respect the rights of the human person. There is even less reason for recognizing the rights of those whose lives impose burdens on others, as is the case with the child in the womb, the terminally ill, or the physically or mentally disabled.
If human rights do not come from God, then they devolve to the arbitrary conventions of men and women. The state exists to defend the rights of man and to promote his flourishing. The state can never be the source of those rights. When the state arrogates to itself that power, even a democracy can become totalitarian.
What is legalized abortion but a form of intimate violence that clothes itself in democracy? The will to power of the strong is given the force of law to kill the weak.»
Living within the truth: Religious liberty and Catholic mission in the new order of the world
Eis um excerto deste texto poderoso:
«This diagnosis helps us understand one of the foundational injustices in the West today -- the crime of abortion.
I realize that the abortion license is a matter of current law in almost every nation in the West. In some cases, this license reflects the will of the majority and is enforced through legal and democratic means. And I’m aware that many people, even in the Church, find it strange that we Catholics in America still make the sanctity of unborn life so central to our public witness.
Let me tell you why I believe abortion is the crucial issue of our age.
First, because abortion, too, is about living within the truth. The right to life is the foundation of every other human right. If that right is not inviolate, then no right can be guaranteed.
Or to put it more bluntly: Homicide is homicide, no matter how small the victim.
Here’s another truth that many persons in the Church have not yet fully reckoned: The defense of newborn and preborn life has been a central element of Catholic identity since the Apostolic Age.
I’ll say that again: From the earliest days of the Church, to be Catholic has meant refusing in any way to participate in the crime of abortion -- either by seeking an abortion, performing one, or making this crime possible through actions or inactions in the political or judicial realm. More than that, being Catholic has meant crying out against all that offends the sanctity and dignity of life as it has been revealed by Jesus Christ.
The evidence can be found in the earliest documents of Church history. In our day -- when the sanctity of life is threatened not only by abortion, infanticide and euthanasia, but also by embryonic research and eugenic temptations to eliminate the weak, the disabled and the infirm elderly -- this aspect of Catholic identity becomes even more vital to our discipleship.
My point in mentioning abortion is this: Its widespread acceptance in the West shows us that without a grounding in God or a higher truth, our democratic institutions can very easily become weapons against our own human dignity.
Our most cherished values cannot be defended by reason alone, or simply for their own sake. They have no self-sustaining or “internal” justification.
There is no inherently logical or utilitarian reason why society should respect the rights of the human person. There is even less reason for recognizing the rights of those whose lives impose burdens on others, as is the case with the child in the womb, the terminally ill, or the physically or mentally disabled.
If human rights do not come from God, then they devolve to the arbitrary conventions of men and women. The state exists to defend the rights of man and to promote his flourishing. The state can never be the source of those rights. When the state arrogates to itself that power, even a democracy can become totalitarian.
What is legalized abortion but a form of intimate violence that clothes itself in democracy? The will to power of the strong is given the force of law to kill the weak.»
Vaticano doa 1,2 milhões de euro para luta contra a SIDA
Devia ser bem sabido que a Igreja Católica, sobretudo pela voz do Papa e dos seus Bispos, tem carradas de razão ao afirmar a preponderância negativa do uso do preservativo, como potenciador de comportamentos promíscuos e de risco, na disseminação da SIDA.
Mas se é elementar justiça reconhecer que a Igreja está do lado da verdade nesta matéria, o papel da Igreja sai ainda mais reforçado pelo facto impressionante de que é a maior organização não lucrativa activa no terreno, ou seja, a prestar ajuda humana e material a quem dela precisa.
Por isso, notícias como estas, mais uma no meio de muitas, não devem ser silenciadas:
LUTA CONTRA AIDS: VATICANO DESTINA 1,2 MILHÃO DE EUROS
Mas se é elementar justiça reconhecer que a Igreja está do lado da verdade nesta matéria, o papel da Igreja sai ainda mais reforçado pelo facto impressionante de que é a maior organização não lucrativa activa no terreno, ou seja, a prestar ajuda humana e material a quem dela precisa.
Por isso, notícias como estas, mais uma no meio de muitas, não devem ser silenciadas:
LUTA CONTRA AIDS: VATICANO DESTINA 1,2 MILHÃO DE EUROS
quinta-feira, 19 de agosto de 2010
terça-feira, 17 de agosto de 2010
Idiotas morais
Via Cláudio Anaia, a quem agradeço ter realçado a notícia, vim a saber deste novo disparate: Burla e fraude deixaram de ser crime.
À partida, a ideia até parece fazer algum sentido: se alguém rouba ou atenta contra o património de outrem, e depois ressarcir o lesado, o processo judicial não avança e o acto não é considerado crime. Dá-se uma negociação entre o gatuno e o lesado, e a coisa morre na praia.
Este "avanço" fantástico é defendido desta forma por Germano Marques da Silva, segundo a notícia, um "especialista em Direito Penal": «O Direito não tem um conteúdo nem moral nem ético. A sua função é resolver conflitos da sociedade».
Esta visão "utilitarista" do Direito está perfeitamente alinhada com as novas modas instauradas por alguns destacados filósofos morais contemporâneos, que procuram dissolver conceitos como "certo" e "errado", e cada vez instaurar de forma mais profunda o relativismo moral e ético.
Segundo pontifica o "especialista" Marques da Silva, o Direito "não tem um conteúdo nem moral nem ético". Ora, aqui o não especialista interroga-se: o Direito deixou de ter alguma coisa a ver com Justiça? Em que dia é que os "especialistas" decretaram a separação entre Direito e Justiça? Decidiram por voto?
É que o cidadão comum, aquele que não é especialista nem lecciona em Universidades, interroga-se, afinal de contas, acerca da relação que ele supunha existir entre Direito e Justiça. É que não há Justiça sem reparação do mal cometido. E, antigamente, quando as pessoas tinham cérebro, achava-se que a atribuição de uma pena por parte de um Tribunal era uma forma de a sociedade ser reparada pelo mal cometido pelo prevaricador.
Mas não: isso agora pertence ao passado. Segundo outro "especialista", desta feita Costa Andrade da Universidade de Coimbra: «Pode ser discutível desde o ponto de vista ético, mas esse é o futuro. Nos Estados Unidos da América, por exemplo, tudo se negoceia».
Este "especialista" afirma que este tipo de decisão é "discutível do ponto de vista ético". A sério, professor? Quem diria?
Mas claro, cá vem a palhaçada do mito do progresso, pois se os especialistas dizem que certa nova moda jurídica é "o futuro", está tudo dito! O futuro é sempre risonho para estes novos visionários! Se a coisa já se faz nos "States" é porque está certo, pá!
Tudo isto é uma verdadeira miséria racional. É a destruição da razão, do intelecto, do bom senso, e um puro dinamitar da Justiça. A nossa sociedade está entregue a idiotas morais.
O nosso pragmatista prossegue, em defesa da ideia peregrina da não prisão dos prevaricadores: "alguém tem de ficar cá fora para trabalhar". Ah, bravo, senhor Professor! E porque não descriminalizar outros crimes, e resolver a chatice que é ter os violadores e os assassinos atrás de barras? Bela lógica, hã? E dão cadeiras a esta gente, para eles meterem estas burradas nas cabeças dos alunos. É a desgraça.
Ainda Marques da Silva: "o Direito só deve intervir para assegurar a paz". Mas há paz sem justiça, Professor? E ainda: «É fácil legislar e mandar toda a gente para a cadeia. Mais difícil é resolver os problemas sociais que são causa de criminalidade.» Belo sofisma: mas o que fica por explicar é de que forma é que dinamitando a Justiça, e acabando com o conceito de reparação que sempre esteve por detrás do Direito e da Justiça Penal, é que se vai atacar esses "problemas sociais".
Gente pateta. Problemas sociais? Mas a sociedade é um indivíduo? A criminalidade é um problema social, é certo, mas a culpa dessa criminalidade é da sociedade? A culpa é dos criminosos, cuja mole é responsável pela criminalidade. Isto é lógica, estúpido. E como se ataca a criminalidade? Atacando os criminosos, ora bolas. Metendo-os atrás de barras. Com o duplo e clássico efeito: proteger a sociedade dos patifes, isolando-os na cadeia, e fazendo-os retribuir à sociedade pelo mal cometido. Como? Pela pena de privação da liberdade, à qual se poderia e deveria sempre juntar o pagamento de coimas, ou na falta de recursos por parte do criminoso, na prestação de serviço obrigatório à sociedade.
Claro que, para bom observador, o que está por detrás destas modernices balofas é o puro pragmatismo de quem não quer organizar nem pagar o sistema penal e o estado de Direito. Emagrecer os tribunais e as prisões, reduzir as penas, reduzir os crimes, são tudo formas muito pragmáticas (e muito estúpidas) de desbloquear os tribunais e fechar as prisões. Pela mesma lógica, no combate aos incêndios em Portugal, deveria adoptar-se a política da terra queimada. É uma medida bem pragmática, e que garante, de certeza absoluta, que no futuro Portugal nunca mais haverá lenha para arder. Aplique-se isto à mole de patifes que cirandam pelas ruas: acabe-se com o conceito de crime e deixam de existir criminosos. Logo, deixam de existir prisões, e pode-se gastar o dinheiro noutras coisas mais importantes. Como por exemplo, comprar mais Magalhães e mais "magic boards" para as escolas, ou construir uma 4ª e uma 5ª travessias do Tejo, ou ainda construir um aeroporto no Poceirão.
Uma nota final, e sinistra: Marques da Silva é professor na Universidade Católica.
À partida, a ideia até parece fazer algum sentido: se alguém rouba ou atenta contra o património de outrem, e depois ressarcir o lesado, o processo judicial não avança e o acto não é considerado crime. Dá-se uma negociação entre o gatuno e o lesado, e a coisa morre na praia.
Este "avanço" fantástico é defendido desta forma por Germano Marques da Silva, segundo a notícia, um "especialista em Direito Penal": «O Direito não tem um conteúdo nem moral nem ético. A sua função é resolver conflitos da sociedade».
Esta visão "utilitarista" do Direito está perfeitamente alinhada com as novas modas instauradas por alguns destacados filósofos morais contemporâneos, que procuram dissolver conceitos como "certo" e "errado", e cada vez instaurar de forma mais profunda o relativismo moral e ético.
Segundo pontifica o "especialista" Marques da Silva, o Direito "não tem um conteúdo nem moral nem ético". Ora, aqui o não especialista interroga-se: o Direito deixou de ter alguma coisa a ver com Justiça? Em que dia é que os "especialistas" decretaram a separação entre Direito e Justiça? Decidiram por voto?
É que o cidadão comum, aquele que não é especialista nem lecciona em Universidades, interroga-se, afinal de contas, acerca da relação que ele supunha existir entre Direito e Justiça. É que não há Justiça sem reparação do mal cometido. E, antigamente, quando as pessoas tinham cérebro, achava-se que a atribuição de uma pena por parte de um Tribunal era uma forma de a sociedade ser reparada pelo mal cometido pelo prevaricador.
Mas não: isso agora pertence ao passado. Segundo outro "especialista", desta feita Costa Andrade da Universidade de Coimbra: «Pode ser discutível desde o ponto de vista ético, mas esse é o futuro. Nos Estados Unidos da América, por exemplo, tudo se negoceia».
Este "especialista" afirma que este tipo de decisão é "discutível do ponto de vista ético". A sério, professor? Quem diria?
Mas claro, cá vem a palhaçada do mito do progresso, pois se os especialistas dizem que certa nova moda jurídica é "o futuro", está tudo dito! O futuro é sempre risonho para estes novos visionários! Se a coisa já se faz nos "States" é porque está certo, pá!
Tudo isto é uma verdadeira miséria racional. É a destruição da razão, do intelecto, do bom senso, e um puro dinamitar da Justiça. A nossa sociedade está entregue a idiotas morais.
O nosso pragmatista prossegue, em defesa da ideia peregrina da não prisão dos prevaricadores: "alguém tem de ficar cá fora para trabalhar". Ah, bravo, senhor Professor! E porque não descriminalizar outros crimes, e resolver a chatice que é ter os violadores e os assassinos atrás de barras? Bela lógica, hã? E dão cadeiras a esta gente, para eles meterem estas burradas nas cabeças dos alunos. É a desgraça.
Ainda Marques da Silva: "o Direito só deve intervir para assegurar a paz". Mas há paz sem justiça, Professor? E ainda: «É fácil legislar e mandar toda a gente para a cadeia. Mais difícil é resolver os problemas sociais que são causa de criminalidade.» Belo sofisma: mas o que fica por explicar é de que forma é que dinamitando a Justiça, e acabando com o conceito de reparação que sempre esteve por detrás do Direito e da Justiça Penal, é que se vai atacar esses "problemas sociais".
Gente pateta. Problemas sociais? Mas a sociedade é um indivíduo? A criminalidade é um problema social, é certo, mas a culpa dessa criminalidade é da sociedade? A culpa é dos criminosos, cuja mole é responsável pela criminalidade. Isto é lógica, estúpido. E como se ataca a criminalidade? Atacando os criminosos, ora bolas. Metendo-os atrás de barras. Com o duplo e clássico efeito: proteger a sociedade dos patifes, isolando-os na cadeia, e fazendo-os retribuir à sociedade pelo mal cometido. Como? Pela pena de privação da liberdade, à qual se poderia e deveria sempre juntar o pagamento de coimas, ou na falta de recursos por parte do criminoso, na prestação de serviço obrigatório à sociedade.
Claro que, para bom observador, o que está por detrás destas modernices balofas é o puro pragmatismo de quem não quer organizar nem pagar o sistema penal e o estado de Direito. Emagrecer os tribunais e as prisões, reduzir as penas, reduzir os crimes, são tudo formas muito pragmáticas (e muito estúpidas) de desbloquear os tribunais e fechar as prisões. Pela mesma lógica, no combate aos incêndios em Portugal, deveria adoptar-se a política da terra queimada. É uma medida bem pragmática, e que garante, de certeza absoluta, que no futuro Portugal nunca mais haverá lenha para arder. Aplique-se isto à mole de patifes que cirandam pelas ruas: acabe-se com o conceito de crime e deixam de existir criminosos. Logo, deixam de existir prisões, e pode-se gastar o dinheiro noutras coisas mais importantes. Como por exemplo, comprar mais Magalhães e mais "magic boards" para as escolas, ou construir uma 4ª e uma 5ª travessias do Tejo, ou ainda construir um aeroporto no Poceirão.
Uma nota final, e sinistra: Marques da Silva é professor na Universidade Católica.
segunda-feira, 9 de agosto de 2010
A influência da Maçonaria na IIIª República Portuguesa
Há vários textos a circular na Internet sobre a Maçonaria e o Portugal contemporâneo. Quase nenhum tem aspecto verosímil, e alguns arriscam mesmo vaticínios que são autênticas contradições.
Este texto é uma excepção e merece uma leitura mais atenta:
A influência da Maçonaria na IIIª República Portuguesa
O que me chamou a atenção foi a introdução, com detalhes de rigor histórico que demonstram que o autor (anónimo) tem conhecimento da História da Maçonaria.
Este texto é uma excepção e merece uma leitura mais atenta:
A influência da Maçonaria na IIIª República Portuguesa
O que me chamou a atenção foi a introdução, com detalhes de rigor histórico que demonstram que o autor (anónimo) tem conhecimento da História da Maçonaria.
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