Denis Dutton (1944-2010) era professor de Filosofia na Universidade de Cantebury, Christchurch (Nova Zelândia). Ouvi falar dele pela primeira vez há umas semanas atrás, ao ver na Internet o vídeo de uma conferência TED por ele proferida no ano passado, intitulada A Darwinian theory of beauty. Quando assisti ao vídeo no início de Janeiro deste ano, não sabia que Dutton tinha acabado de morrer de cancro a 28 de Dezembro de 2010. Dei-me conta disso agora mesmo, ao começar a escrever este texto. Fiquei sinceramente triste com a notícia. Quem vir o vídeo da conferência TED entenderá o que eu quero dizer. É impossível não simpatizar com este senhor: basta ouvi-lo a falar e fica-se com a clara sensação de que a Humanidade ficou mais pobre sem Denis Dutton.
Enquanto ouvia, pela primeira vez, a conferência A Darwinian theory of beauty, o meu pensamento vagueava constantemente, pois começava já a imaginar escrever este texto, apontando uma série de discordâncias e de protestos face à opinião de Dutton. Mas estava dividido: dividido entre uma simpatia instantânea para com um orador tão empático e uma repulsa visceral que sentia pelas ideias que tal orador estava a defender.
Essas ideias têm um eixo claro, que está patente no título da palestra: a beleza, a criação de beleza, a apreciação da beleza, quer natural quer artificial, segundo Dutton, são realidades que têm uma derradeira explicação darwinista. Temos que nos dar conta do que está aqui em jogo: segundo Denis Dutton, a beleza é uma realidade cuja causa última é puramente naturalista: mutação, cruzamento, selecção natural.
Por um lado, a teoria de Dutton, e sem menosprezar o mérito da sua fundamentação e formulação, é a consequência lógica de um darwinismo que é filosoficamente interpretado de forma materialista, ou naturalista. É verdade que o darwinismo, como teoria científica, tanto pode ser defendido por uma pessoa com uma visão filosófica materialista como por uma pessoa com uma visão diametralmente oposta ao materialismo, como a visão cristã. Assim, há que distinguir entre teoria científica darwinista e teoria filosófica materialista. Dutton, nesta palestra, não faz apenas uma defesa do darwinismo científico. Isso seria incontroverso, algo que transformaria a palestra num evento para especialistas de Biologia, e não em algo que realmente mexe com o comum dos mortais. Dutton faz uma defesa do darwinismo materialista, ou seja, da combinação da teoria científica do darwinismo com a teoria filosófica do materialismo.
Quando um orador apresenta o darwinismo materialista a uma plateia, desde que mantenha o tema no abstracto, a coisa até pode correr bem, ou seja, a percentagem de espectadores chocados pode ser muito baixa ou mesmo nula. Mas Dutton arriscou apresentar o seu darwinismo materialista sob o ponto de vista da beleza, o que dá à sua palestra uma amplitude tal que equivale a envolver toda a humanidade.
Será mesmo verdade? Será a beleza o produto final de um processo cem por cento natural de selecção natural darwiniana com genética mendeliana?
Uma repulsa instintiva
A razão da minha repulsa explica-se facilmente. A repulsa começou por ser instintiva, e só depois tentei articular uma repulsa mais racional. Instintivamente, lembrei-me de um dos inesgotáveis exemplos de beleza com os quais nos deparamos durante a nossa vida. Neste caso em concreto, lembrei-me do notável Concerto para Violino e Orquestra (Op. 47) em Ré Menor, de Jean Sibelius (1865-1957), e de uma execução magnífica do mesmo, que vi no Youtube, pelas mãos de Ida Haendel, sob a direcção do maestro Franz Paul Decker.
Todas as notas emanadas do violino de Ida Haendel refutam, na prática, a teoria da origem darwiniana da beleza, que é defendida por Dutton. Aliás, basta uma só nota para se obter esse efeito. Dutton dá-nos explicações darwinianas ("survival of the fittest") para o surgimento e para o aperfeiçoamento do sentido estético da Humanidade. Dutton explica-nos que quando gostamos de uma paisagem com o verde da vegetação e com o azul da água, ou com a presença de animais nas imediações, isso acontece porque há genes evoluídos que nos fazem apreciar esse tipo de paisagens. Segundo Dutton, nas paisagens que hoje apreciamos há um eco das savanas do Plistocénico. Alguns dos nossos genes evoluíram porque a procura da proximidade desses locais dava aos seres humanos vantagens competitivas. A beleza é reduzida a um produto de uma luta pela sobrevivência. Para que compôs Sibelius o seu Concerto para Violiono e Orquestra? Que savana do Plistocénico imaginava ele, ao escrever a cadenza do violino? Quando se tenta aplicar a teoria de Dutton a uma peça musical como esta, fica patente a insuficiência da teoria. Ida Haendel recebeu do próprio Sibelius estes elogios, após ouvi-la tocar o seu Concerto: "[Ida Haendel] played it masterfully in every respect. I congratulate myself that my concerto has found an interpreter of your rare standard". Ida comentou, acerca deste Concerto: "The Sibelius Violin Concerto is one of the most exciting, emotionally and technically, in the entire repertoire for my instrument". Deveras! Este Concerto é uma vertigem emocional e intelectual. É um feito notável do génio humano. Não pode ser produto apenas da matéria. E a beleza desta peça apresenta, como sucede em toda a música, uma simetria entre compositor e executante. A beleza da composição de Sibelius alinha-se com a beleza da execução de Ida Haendel. E tudo isto, todo este hino à beleza, receberia uma explicação naturalista? Evolucionista? Darwinista? Pergunta: serão as geniais faculdades musicais de Sibelius puramente genéticas? O Concerto é bom porque os genes são bons? Outra pergunta: será que essas faculdades musicais deram a Sibelius alguma vantagem darwiniana? Irão os descendentes de Sibelius presentear a Humanidade com mais peças destas? Era bom...
Veja-se ainda, no terceiro andamento, o momento (por volta dos 5'13'') em que Ida Haendel toca quatro compassos em trémolo, seguidos de uma belíssima linha melódica com harmónicos oitavados: é de se ir às lágrimas! Eu não sei explicar o que pretende Sibelius com este trecho: apenas sei que é fenomenal. Diz o materialista, em jeito de explicação: o cérebro humano adaptou-se à interpretação de estímulos sonoros como forma de diferenciar ameaças, ou como forma de comunicação com os da sua espécie, com vista à sobrevivência do grupo. E porque não? Mas isso explica este troço fenomenal de Sibelius? Explica a forma visceral como Ida Haendel se entrega à execução desta peça, como se empregasse toda a sua existência na execução deste Concerto? Aos 5 minutos e 20 segundos do primeiro andamento, Ida Haendel verte uma lágrima. É a intérprete musical no seu esplendor! Reflexo darwiniano? Ou não será antes essa lágrima o reflexo fisiológico de uma pessoa cuja alma está sublimada pela beleza? Cuja alma está de janelas abertas para a eternidade? Não será essa lágrima, discreta, um pequeno sinal exterior do turbilhão, da vertigem de beleza que se apoderou da sua alma?
Um tiro no pé?
O problema lógico de todo o darwinismo materialista, é que se trata de uma posição que se refuta a si mesma. É certo que Dutton, homem culto, apreciador de cultura, viveu toda a sua vida apaixonado pelas coisas de que gostava, de entre elas a beleza, o estudo e o ensino filosófico da beleza. Como académico, buscou a verdade acerca da beleza. Será que toda essa busca, de uma vida inteira, se reduz a um esforço pela sobrevivência? Por outras palavras, será que a explicação darwiniana da beleza não será, também ela, um fenómeno darwiniano? Ou seja, como pode haver um fundo de verdade em qualquer teoria que afirme que toda a actividade humana tem uma explicação derradeira que é cem por cento materialista? Essa teoria pisa o seu próprio pé. Morde a sua própria canela. Dutton defende que, em última análise, a beleza só existe por causa de um processo natural e material. Isso destrói, não a beleza (que manifestamente existe), mas o fim da beleza, o gozo último da beleza, a razão de ser da beleza. Afinal de contas, o belo é apenas o produto de um processo natural e material? Ora bolas...
Mas a ideia de Dutton insere-se no contexto auto-destrutivo de todas as teorias darwinistas materialistas. O darwinismo materialista destrói o próprio conceito de verdade, e não apenas o da verdade acerca da beleza. Num mundo em que as causas derradeiras de tudo são darwinistas, não há verdade. A própria defesa intelectual da verdade, a própria procura da verdade, seria o efeito de algo determinado pelo darwinismo. Seríamos ateus por razões darwinistas. Seriamos agnósticos por razões darwinistas. Seriamos cristãos por razões darwinistas. Gostaríamos de Sibelius por razões darwinistas. Gostaríamos de Metallica por razões darwinistas. O darwinismo, expandido para fora da fronteira da Ciência, e transformado em "weltanschauung" filosófica omnipotente, torna-se numa ideia que é auto-destrutiva, que é suicida. Numa vertente mais prática, apesar de Dutton nos dar exemplos, na sua palestra, de coisas manifestamente belas, a verdade é que ele poderia dar exemplos perfeitamente darwinistas de coisas manifestamente feias. Fotografias de Auschwitz tiradas aquando do seu uso para exterminar judeus seriam exemplos pertinentes de coisas horrorosas com pleno enquadramento num quadro darwinista: sobrevivência dos mais aptos: o ariano, o forte, sobrevive ao judeu, o fraco. É tão legítimo, em termos estritamente darwinianos, que o leão mate a gazela ou que o ariano mate o judeu. O nazismo representa um dos melhores exemplos dos perigos de transportar o darwinismo para fora da Ciência, transformando-o numa cosmovisão. Não se pode montar uma ética válida sobre o darwinismo: até Richard Dawkins o reconhece. Logo, é um beco sem saída, o caminho de justificar tudo no Homem pela via do darwinismo.
Dutton era um orador talentoso. A sua palestra TED é um magnífico exemplo de oratória e de eficácia comunicativa. Mas Dutton não deu à sua plateia nenhum exemplo de coisas feias que também podem ter boas explicações darwinistas. A lei da sobrevivência do mais forte, quando vivida à letra, pode dar origem a coisas muito feias, e no entanto, é perfeitamente darwinista.
Seria superficial dizer que a explicação darwinista da beleza, conforme defendida por Denis Dutton, é cem por cento falsa. Eu não acredito nisso, e não me atrevo a dizer que Dutton estava cem por cento errado. Não é fácil acreditar em afirmações cem por cento falsas. Desconfiamos delas. Se me dissessem: "ontem, na Gulbenkian, um chimpanzé evadido do Jardim Zoológico, munido de um Stradivarius, tocou o Concerto para Violino e Orquestra de Sibelius", eu mandava essa pessoa passear. Uma falsidade tão irreal, sem qualquer base de verdade, é literalmente inacreditável. Por isso, apesar de eu achar que a teoria de Dutton é falsa, no sentido em que falha em encontrar a explicação derradeira para a beleza, eu acho que a dita teoria tem qualquer coisa de verdadeiro.
As falsidades poderosas, as que sobrevivem mais tempo, são as que incorporam em si mesmas alguns ingredientes verdadeiros. Assim, há certamente algo de verdadeiro na teoria darwinista da beleza, conforme apresentada por Dutton. Afinal de contas, fazemos parte do mundo material, somos pessoas de corpo e alma, e o corpo é seguramente natural, material. Por isso, é de esperar que, do mesmo modo que reflexos como o do susto podem ter origem darwiniana e explicação genética, pois quem tem esses reflexos escapa melhor aos perigos e sobrevive para deixar descendência a quem passar esses genes eficazes, também certos aspectos acerca da nossa interpretação sensorial podem ter algum fundamento darwiniano e genético. Parte da nossa psique pode ter características em cujas causas concorre o darwinismo. Afinal de contas, os nossos sentidos estão profundamente adaptados à realidade natural. Também somos feitos de matéria. E da mesma matéria que o Universo.
Conclusão
Afinal, onde está a verdade?
O cristão vê-se, mais uma vez, obrigado a defender o bom senso, e a evitar dois erros opostos: por um lado, o cristão protesta contra os erros do materialismo, que quer reduzir o Homem ao corpo, à matéria. Por outro lado, o cristão protesta contra os erros do gnosticismo, que quer reduzir o Homem à alma, sem matéria. Vivemos tempos entusiasmantes, mas ao mesmo tempo, de extremos. Todos os dias deparamo-nos com dois tipos de louco: o louco que nos quer convencer que somos o nosso corpo, e o louco que nos quer convencer que o nosso corpo pode, em certos casos, não ter nada a ver connosco.
Dutton não era louco. Paz à sua alma: rezamos por ele a Deus, para que se converta e o Senhor lhe conceda a graça do perdão. Todo o Homem que procura a beleza procura a Deus, e mesmo que equivocado no caminho, tem uma sede de beleza que, em si mesma, tem valor. Dutton cometeu, a meu ver, o erro de desequilibrar a correcta visão do Homem num dado sentido, o do materialismo. Outros cometem o erro de desequilibrar essa visão no sentido oposto, o do gnosticismo. Por exemplo, os defensores da ideologia de género acreditam que o nosso corpo pode, em certos casos, não ter nada a ver connosco, e por isso defendem a ideia louca de que podemos ser homens em corpo de mulher, ou mulheres em corpo de homem. E, de forma mais frequente, os gnósticos modernos defendem a loucura de que não existe moral sexual. A loucura de que não há tal coisa como uma "ortopraxia" (uma prática correcta) da nossa sexualidade. Como se o corpo, não sendo parte constituinte do nosso ser, fosse apenas um instrumento que o nosso "eu" imaterial usaria para obter prazer. Como se o nosso corpo não fizesse parte do nosso "eu". Claro que faz. E toda a ética que não veja o corpo como parte integrante do ser humano é uma falsa ética. A ética não é uma coisa de almas imateriais: é uma coisa de seres humanos de corpo e alma.
O cristão sabe onde está a verdade acerca do ser humano. Está em ver o ser humano como feito de corpo e alma. Está em ver o ser humano como uma pessoa cujo corpo material é constituído pelos mesmos elementos que encontramos no Universo e cuja alma imaterial é criada directamente por Deus, uma alma que não pode ser reduzida ao material, uma alma livre, com capacidades racionais e artísticas, capacidades que não vêm da matéria. Finalmente, uma alma com capacidade de amar, porque a capacidade de amar também não vem da matéria.
A verdadeira origem da beleza está em Deus, fonte de toda a beleza. Origem e destino da beleza. Toda a beleza que podemos encontrar é um reflexo da beleza divina. O fim último do ser humano é o encontro com Deus, é o contemplar Deus na sua infinita beleza e bondade. Suprema aspiração e fim admirável da raça humana!
PS: A palestra de Dutton tem o mérito de procurar refutar as teorias modernas e pós-modernas de beleza. Mas troca-as por uma teoria igualmente falsa. A explicação verdadeira da beleza está na doutrina cristã. Não é necessário procurá-la mais longe.
PPS: Em jeito de corolário ao que acabei de escrever, veja-se Maxim Vengerov, numa "masterclass" do Concerto para Violino e Orquestra de Sibelius, a explicar na prática o que é a beleza... Veja-se, sobretudo, a partir do 1'40''. Aos 2'', Vengerov diz, com razão: "This is beauty!"
"Mas, no íntimo do vosso coração, confessai Cristo como Senhor, sempre dispostos a dar a razão da vossa esperança a todo aquele que vo-la peça" - Primeira Carta de São Pedro, cap. 3, vs. 15.
terça-feira, 15 de fevereiro de 2011
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
Ciência e Religião - Incompatíveis
Giovanni Paolo Lembo, Fases de Vénus, 1615
Estes Jesuítas eram mesmo uns obscurantistas, não eram?
Então os do Colégio de Santo Antão... uns analfabetos em Ciência!
Como se pode ver pelos exemplos do vídeo, Ciência e Religião são mesmo incompatíveis! Aliás, a Ciência só surgiu quando se livrou dos obscurantismos da religião, sobretudo quando se viu livre destes Jesuítas, que não percebiam mesmo nada de Ciência! Pelo menos é o que se ensina na escola...
Nota: O vídeo é um projecto do jornal Público, montado por Ana Machado e Sérgio Gomes.
É espantoso!
Que esta personagem ainda continue à frente dos destinos do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, é algo que brada aos céus!
Há pessoas que não têm um pingo de vergonha.
Há pessoas que não têm um pingo de vergonha.
Contra a mentira da morte...
A verdade da Vida!
A história por detrás deste vídeo fala por si. É um grito de verdade contra a mentira do aborto. Há quem insista, erradamente, em defender a antiga lei do aborto, a que vigorou em Portugal até à lei infame de 2007. Mas essa lei, seguramente melhor que a actual, previa a legalidade do aborto por malformações, uma situação que claramente não justifica matar uma criança. É compreensível que, anestesiados pelo asco de lei que temos hoje em dia, quase tenhamos saudades da lei anterior. É por isso que este vídeo serve de antídoto para recuperarmos a nossa humanidade, para darmos valor ao que é importante, para sermos melhores pessoas. Não há qualquer situação em que seja legítimo abortar. A única solução ética consiste na proibição total e completa do aborto.
Estes pais são um exemplo de vida. Mostram-nos o caminho certo. O caminho da verdade.
(descobri este vídeo no blogue Contra o Aborto)
A história por detrás deste vídeo fala por si. É um grito de verdade contra a mentira do aborto. Há quem insista, erradamente, em defender a antiga lei do aborto, a que vigorou em Portugal até à lei infame de 2007. Mas essa lei, seguramente melhor que a actual, previa a legalidade do aborto por malformações, uma situação que claramente não justifica matar uma criança. É compreensível que, anestesiados pelo asco de lei que temos hoje em dia, quase tenhamos saudades da lei anterior. É por isso que este vídeo serve de antídoto para recuperarmos a nossa humanidade, para darmos valor ao que é importante, para sermos melhores pessoas. Não há qualquer situação em que seja legítimo abortar. A única solução ética consiste na proibição total e completa do aborto.
Estes pais são um exemplo de vida. Mostram-nos o caminho certo. O caminho da verdade.
(descobri este vídeo no blogue Contra o Aborto)
sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011
Quatro anos de matança
Faz hoje quatro anos que se institucionalizou a matança de crianças em Portugal. Basta a mãe da criança querer. Desde 11 de Fevereiro de 2007 que o Estado diz que sim. E paga. Mas quando o Estado paga, pagamos todos nós. Pagamos pela matança. Matança de crianças. Somos todos cúmplices. Todos ajudámos a matar, todos ajudamos a matar, mesmo que involuntariamente, com o dinheiro dos nossos impostos. Todos temos uma parte da culpa. Cada dia das nossas vidas que é vivido sem combatermos esta ignomínia é um dia de omissão. Omissão colaborativa. Quatro anos de matança. Uma destas crianças mortas podia ser um de nós. Podia ser um dos nossos filhos. Dá que pensar...
quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011
Barrios - Julia Florida
O guitarrista Jason Vieaux toca a peça "Julia Florida" do compositor paraguaio Agustín Barrios. Local: Arkansas State University, 11 de Janeiro de 2007.
sexta-feira, 28 de janeiro de 2011
Ideologia de Género - O Caso Reimer
O documentário que se encontra no final deste texto é muito pedagógico: "Dr. Money and the boy with no penis" (Horizon, BBC TV, 2004), do qual tomei conhecimento via É o Carteiro!
O documentário mostra o trágico fracasso das experiências do psicólogo John Money (1921-2006), o "pai" da teoria pseudo-científica que dá pelo nome de "identidade de género", e que afirma que o género feminino e o género masculino são apenas culturais, e não características inatas do ser humano. Essa mesma teoria, hoje em dia, alimenta também uma parte importante da propaganda LGBT. Money promoveu a expressão "gender identity/role" como se a identidade de género e o desempenho social dese papel ("role"), fossem uma só coisa: algo que é adquirido culturalmente.
Para defender a sua teoria, Money conduziu durante anos várias experiências com os gémeos Bruce e Brian Reimer, dois rapazes norte-americanos. Bruce fora acidentalmente castrado aos oito meses, e em consequência, o Dr. Money sugeriu aos pais que a criança recebesse uma intervenção cirúrgica e tratamento com hormonas femininas, juntamente com uma educação que "alinhasse" o rapaz de acordo com o perfil feminino. Bruce tornou-se "Brenda".
Perante graves crises de identidade durante o início da sua adolescência, pois embora castrado, "Brenda" Reimer sentia-se rapaz (que era, na verdade), os pais decidiram revelar a verdade aos seus dois filhos. "Brenda" insistiu em voltar a ser submetido a cirurgia, desta vez para recuperar a sua masculinidade: escolheu o nome de David. Instalou-se uma crise entre os irmãos que durou anos, atravessando toda a adolescência até à idade adulta. Brian Reimer, muito provavelmente traumatizado com a descoberta, na adolescência, de que a sua "irmã" afinal era um rapaz, entrou numa escalada de problemas psicológicos que degenerou em esquizofrenia já na idade adulta: ele matou-se em 2002. David, deprimido pela perda do irmão, e pela separação da sua mulher, matou-se também, em 2004.
O Dr. Money, logo no início da adolescência dos gémeos, altura em que as suas experiências sinistras fracassaram por completo (Bruce/"Brenda", a certa altura, ameaçou que se matava se o obrigassem a mais sessões com Money), começou a publicitar a sua teoria como sendo verdadeira, e usando o caso Reimer como alegada prova.
Esta teoria pseudo-científica ainda hoje em dia é promovida. Em Portugal, o Governo socialista de José Sócrates tenta hoje em dia aplicá-la através, por exemplo, da Lei da Educação Sexual ou da legislação acerca da mudança de sexo em vias de ser promulgada. Outros governos "modernos" começam também a aplicá-la e a promovê-la. Está a tornar-se numa moda da engenharia social dos nossos tempos, apesar de esta moda ser baseada numa mentira pseudo-científica que destrói a vida das pessoas. Mas nada como ver o documentário...
PS: A John Money Collection inclui um espólio "científico" de pornografia, que está alojada no também muito "científico" Kinsey Institute. É curioso descobrir as interessantes teorias de Money acerca da pedofilia e do "amor" erótico entre crianças e adultos, o que o torna intelectualmente próximo de Kinsey, já que este era um pedófilo activo, com as suas teorias (e práticas) acerca do tema. Veja-se ainda, nos vídeos que se seguem, Brian Reimer a contar que o Dr. Money se entretinha a conduzir "experiências científicas" nas quais levava os dois irmãos, na altura com apenas sete anos, a entrarem em actos sexuais.
PPS: Na frase final, David Reimer lança o aviso acerca dos riscos desta ideologia de género, como premonição do seu suicídio, que viria a ocorrer pouco depois desta entrevista: "Is it gonna take somebody to end up killing themselves, shooting themselves in the head, for people to listen?"
O documentário mostra o trágico fracasso das experiências do psicólogo John Money (1921-2006), o "pai" da teoria pseudo-científica que dá pelo nome de "identidade de género", e que afirma que o género feminino e o género masculino são apenas culturais, e não características inatas do ser humano. Essa mesma teoria, hoje em dia, alimenta também uma parte importante da propaganda LGBT. Money promoveu a expressão "gender identity/role" como se a identidade de género e o desempenho social dese papel ("role"), fossem uma só coisa: algo que é adquirido culturalmente.
Para defender a sua teoria, Money conduziu durante anos várias experiências com os gémeos Bruce e Brian Reimer, dois rapazes norte-americanos. Bruce fora acidentalmente castrado aos oito meses, e em consequência, o Dr. Money sugeriu aos pais que a criança recebesse uma intervenção cirúrgica e tratamento com hormonas femininas, juntamente com uma educação que "alinhasse" o rapaz de acordo com o perfil feminino. Bruce tornou-se "Brenda".
Perante graves crises de identidade durante o início da sua adolescência, pois embora castrado, "Brenda" Reimer sentia-se rapaz (que era, na verdade), os pais decidiram revelar a verdade aos seus dois filhos. "Brenda" insistiu em voltar a ser submetido a cirurgia, desta vez para recuperar a sua masculinidade: escolheu o nome de David. Instalou-se uma crise entre os irmãos que durou anos, atravessando toda a adolescência até à idade adulta. Brian Reimer, muito provavelmente traumatizado com a descoberta, na adolescência, de que a sua "irmã" afinal era um rapaz, entrou numa escalada de problemas psicológicos que degenerou em esquizofrenia já na idade adulta: ele matou-se em 2002. David, deprimido pela perda do irmão, e pela separação da sua mulher, matou-se também, em 2004.
O Dr. Money, logo no início da adolescência dos gémeos, altura em que as suas experiências sinistras fracassaram por completo (Bruce/"Brenda", a certa altura, ameaçou que se matava se o obrigassem a mais sessões com Money), começou a publicitar a sua teoria como sendo verdadeira, e usando o caso Reimer como alegada prova.
Esta teoria pseudo-científica ainda hoje em dia é promovida. Em Portugal, o Governo socialista de José Sócrates tenta hoje em dia aplicá-la através, por exemplo, da Lei da Educação Sexual ou da legislação acerca da mudança de sexo em vias de ser promulgada. Outros governos "modernos" começam também a aplicá-la e a promovê-la. Está a tornar-se numa moda da engenharia social dos nossos tempos, apesar de esta moda ser baseada numa mentira pseudo-científica que destrói a vida das pessoas. Mas nada como ver o documentário...
PS: A John Money Collection inclui um espólio "científico" de pornografia, que está alojada no também muito "científico" Kinsey Institute. É curioso descobrir as interessantes teorias de Money acerca da pedofilia e do "amor" erótico entre crianças e adultos, o que o torna intelectualmente próximo de Kinsey, já que este era um pedófilo activo, com as suas teorias (e práticas) acerca do tema. Veja-se ainda, nos vídeos que se seguem, Brian Reimer a contar que o Dr. Money se entretinha a conduzir "experiências científicas" nas quais levava os dois irmãos, na altura com apenas sete anos, a entrarem em actos sexuais.
PPS: Na frase final, David Reimer lança o aviso acerca dos riscos desta ideologia de género, como premonição do seu suicídio, que viria a ocorrer pouco depois desta entrevista: "Is it gonna take somebody to end up killing themselves, shooting themselves in the head, for people to listen?"
sexta-feira, 21 de janeiro de 2011
Razões para não votar Cavaco Silva - Parte VI
Casamento civil entre pessoas do mesmo sexo
(Lei n.º 9/2010, de 31 de Maio).
Esta Lei é curtinha. Vá lá... É mais rápida de analisar.
Mas não deixa, por isso, de ser uma monumental estupidez.
Esta estupidez de Lei, por ser tão curta, reparte-se apenas em dois aspectos que urge criticar:
A redefinição do casamento
Na nova redacção do Artigo 1577.º do Código Civil, lê-se agora a seguinte definição de casamento:
«Casamento é o contrato celebrado entre duas pessoas que pretendem constituir família mediante uma plena comunhão de vida, nos termos das disposições deste Código.»
Antes da promulgação da Lei n.º 9/2010, este Artigo 1577.º continha a seguinte definição de casamento:
«Casamento é o contrato celebrado entre duas pessoas de sexo diferente que pretendem constituir família mediante uma plena comunhão de vida, nos termos das disposições deste Código.» (negrito meu)
Constata-se então uma redefinição legislativa do conceito de casamento. Essa redefinição materializa-se na remoção, pura e simples, do trecho "entre duas pessoas de sexo diferente". Dir-se-ia que o âmbito da definição foi alargado... Mas há alargamentos que, de tão largos, destroem a realidade pretensamente alargada.
Ora, antes de mais, urge afirmar o óbvio: a realidade precede as definições jurídicas. Ou seja, se uma definição jurídica pretende retratar fielmente uma realidade, ela deve procurar ser coerente com essa realidade. A definição jurídica não cria, ou recria, uma realidade pré-existente. E afirme-se, antes de mais, que o casamento é uma realidade pré-existente face à Lei e ao Direito em geral.
Assim, e previamente a qualquer consideração jurídica, que será sempre secundária, importa ver se a realidade do casamento, realidade essa de âmbito humano e social, é uma realidade cuja natureza é ou não destruída com a remoção do trecho "entre duas pessoas de sexo diferente".
É evidente que essa remoção destrói o conceito de casamento.
Uma união entre pessoas do mesmo sexo nunca poderá ser um casamento. Qualquer lei que o diga é uma farsa, pois afirma, em linguagem jurídica, uma impossibilidade.
A explicação pode ser mais ou menos complexa. É certamente um tema que permite exposições e explicações bastante sofisticadas e profundas. Mas parece-me que não falho o alvo se me focar na explicação seguinte, que é uma das muitas possíveis.
O que é um casal humano?
Os termos "casar", "casal", "casamento", trazem consigo o sentido de união.
Mas que tipo de união é esta?
Desde os primórdios da Humanidade que esta união se refere à união entre um homem e uma mulher, união essa que se distingue de outros tipos de união entre seres humanos, não só pelo seu carácter de estabilidade e exclusividade, mas também pela componente da sexualidade.
Então, o que é que o sexo heterossexual tem que o homossexual não tem?
Que característica é essa que faz com que o sexo heterossexual seja a condição "sine qua non" de um casamento humano real e genuíno?
É simples: a complementaridade biológica. Na união entre homem e mulher estão reunidas, em simultâneo, as duas finalidades da sexualidade humana: a unitiva e a procriativa.
O ser humano tem, na sua constituição biológica, várias funções distintas. Na sua esmagadora maioria, essas funções são exercidas individualmente: a função digestiva, a função circulatória, a função respiratória, a função motora, entre outras. No entanto, há uma função que não pode ser exercida individualmente: a função sexual. A função sexual é a única função biológica do ser humano que só pode ser exercida por dois seres humanos, um do sexo masculino e outro do sexo feminino.
A função sexual, unitiva e potencialmente reprodutora (essa função não desaparece quando o casal é infértil), só é cumprida, completada, realizada, por um homem e por uma mulher. Desta forma, a união de homem e mulher materializa, de forma única, o ser humano "Homo Sapiens", espécie de ser vivo que só com um casal heterossexual está plenamente representada.
Deste modo, o casamento entre um homem e uma mulher reflecte a totalidade do que é ser humano. Uma parelha de dois homens homossexuais, ou de duas mulheres homossexuais, não tem essa complementaridade sexual que constitui o ser humano completo e uno. Logo, esse tipo de parelhas com vida em comum não pode representar, mesmo que o tente desesperadamente, a tal "plena comunhão de vida". Como se vê, ao remover o contexto da heterossexualidade, a nova redacção do Artigo 1577.º passa a afirmar uma impossibilidade lógica e física: um par de seres humanos do mesmo sexo não é fisicamente capaz de efectivar uma "plena comunhão de vida", pela sua manifesta incompatibilidade sexual e fisiológica. Não só tais parelhas são anatomicamente incompatíveis no que diz respeito ao exercício da sua sexualidade, como o sexo homossexual não poderá nunca gerar nova vida humana, uma das evidentes funções da sexualidade humana, e consequência típica de um real e genuíno casamento.
O Estado, como garante da coesão e governo da sociedade, deveria ter em atenção que é insensato ter leis como estas, que afirmam impossibilidades. Leis mentirosas. Leis que distorcem a realidade, a pretexto de pressões por parte dos agentes da propaganda LGBT, ou a reboque de uma reengenharia social pretensamente "moderna".
Em suma, só há casamento onde há, efectivamente, complementaridade biológica e exercício conjunto da sexualidade humana no seu pleno, no contexto de uma "plena comunhão de vida". Isso é que é casamento. E isso, dê-se as voltas que se der, só é possível com um homem e com uma mulher.
Poderia ter discutido a fundo a questão da imoralidade: é certo que os actos homossexuais são imorais, e que o Estado não deveria promover essa imoralidade. Também afirmo de forma clara que o Estado não deveria punir essa imoralidade, pois acredito que há claros limites acerca do âmbito de actuação estatal em matéria de moral. É, assim, defensável que o Estado não puna a imoralidade privada, mas é certo que o Estado não pode promover a imoralidade privada, e muito menos promover a imoralidade pública. Visto que o novo "casamento homossexual", essa mentira feita lei, configura um acto público de protecção estatal à imoralidade, a situação torna-se ainda mais grave. Mas insisto: antes da discussão moral, que é certamente mais polémica, penso que basta olhar para a nova redacção do Artigo 1577.º, e ver que ela materializa uma impossibilidade: ver a união de duas pessoas do mesmo sexo como um casamento é uma contradição nos termos, como espero ter demonstrado cabalmente.
A questão da adopção
Na ânsia de evitar correr o risco de um protesto público a larga escala, Sócrates e a sua equipa meteram, mesmo a jeito, este Artigo 3.º na nova lei:
«1 — As alterações introduzidas pela presente lei não implicam a admissibilidade legal da adopção, em qualquer das suas modalidades, por pessoas casadas com cônjuge do mesmo sexo.
2 — Nenhuma disposição legal em matéria de adopção pode ser interpretada em sentido contrário ao disposto no número anterior.»
Na altura foi afirmado à saciedade o óbvio: este Artigo 3.º está em manifesta contradição com a nova definição de casamento. Se, a partir de agora, o Legislador entende que a união contratual de duas pessoas do mesmo sexo com um projecto de vida em comum também constitui um casamento, e até com "plena comunhão de vida", sendo ainda usada a expressão "constituir família" para este tipo de parelhas, é bizarro negar a essa pretensa "família", reconhecida legalmente como tal pela nova redacção do Artigo 1577.º, a possibilidade de adoptar, que não é negada a nenhuma família baseada numa união heterossexual!
Isto parece-me claro como a água: o Artigo 3.º tem os dias contados. Foi usado como mera táctica política, e não terá grande futuro. Agora que a contradição está na lei, há que começar a trabalhar politicamente para acabar com ela, e inevitavelmente, no actual contexto social, o Artigo 3.º acabará por cair. Quem perde com isso? As crianças, claro está, que assim que cair este Artigo que, por ora, veda a adopção, passarão a ser expostas ao risco de serem adoptadas por uma parelha homossexual e, dessa forma, serem expostas a um estilo de vida imoral.
Cavaco Silva assinou esta lei injusta e imoral a 17 de Maio de 2010. Está lá o nome dele. Só por esta razão, uma pessoa de bem não pode voltar a votar em Cavaco Silva.
Com esta sexta e última parte, termino a série de textos com razões para não se votar em Cavaco Silva nas eleições de 23 de Janeiro próximo. Sei que não esgotei as críticas possíveis à actuação presidencial de Cavaco Silva, mas procurei focar-me nos temas que são realmente mais importantes: as questões de índole ética e moral devem prevalecer, sempre, mas sempre, sobre questões de índole político-partidária, questões de índole económica, ou outras questões manifestamente menores.
Termino como principiei: nada de pessoal tenho contra Cavaco Silva, e a minha central crítica à sua actuação política prende-se com a total incapacidade que o actual Presidente manifestou em ser capaz de agir de acordo com princípios éticos e morais que ele diz professar. Não vejo, nos restantes candidatos presidenciais, mais nenhum que dê garantias de, nesta matéria essencial, vir a ter uma actuação superior à de Cavaco Silva. Pelo que, obviamente, as minhas críticas a Cavaco Silva não implicam qualquer aprovação dos restantes candidatos, muitos dos quais nem sequer professam os valores que Cavaco Silva professa, pelo que está garantida à partida a sua actuação política à revelia de princípios éticos e morais sólidos e verdadeiros.
(Lei n.º 9/2010, de 31 de Maio).
Esta Lei é curtinha. Vá lá... É mais rápida de analisar.
Mas não deixa, por isso, de ser uma monumental estupidez.
Esta estupidez de Lei, por ser tão curta, reparte-se apenas em dois aspectos que urge criticar:
A redefinição do casamento
Na nova redacção do Artigo 1577.º do Código Civil, lê-se agora a seguinte definição de casamento:
«Casamento é o contrato celebrado entre duas pessoas que pretendem constituir família mediante uma plena comunhão de vida, nos termos das disposições deste Código.»
Antes da promulgação da Lei n.º 9/2010, este Artigo 1577.º continha a seguinte definição de casamento:
«Casamento é o contrato celebrado entre duas pessoas de sexo diferente que pretendem constituir família mediante uma plena comunhão de vida, nos termos das disposições deste Código.» (negrito meu)
Constata-se então uma redefinição legislativa do conceito de casamento. Essa redefinição materializa-se na remoção, pura e simples, do trecho "entre duas pessoas de sexo diferente". Dir-se-ia que o âmbito da definição foi alargado... Mas há alargamentos que, de tão largos, destroem a realidade pretensamente alargada.
Ora, antes de mais, urge afirmar o óbvio: a realidade precede as definições jurídicas. Ou seja, se uma definição jurídica pretende retratar fielmente uma realidade, ela deve procurar ser coerente com essa realidade. A definição jurídica não cria, ou recria, uma realidade pré-existente. E afirme-se, antes de mais, que o casamento é uma realidade pré-existente face à Lei e ao Direito em geral.
Assim, e previamente a qualquer consideração jurídica, que será sempre secundária, importa ver se a realidade do casamento, realidade essa de âmbito humano e social, é uma realidade cuja natureza é ou não destruída com a remoção do trecho "entre duas pessoas de sexo diferente".
É evidente que essa remoção destrói o conceito de casamento.
Uma união entre pessoas do mesmo sexo nunca poderá ser um casamento. Qualquer lei que o diga é uma farsa, pois afirma, em linguagem jurídica, uma impossibilidade.
A explicação pode ser mais ou menos complexa. É certamente um tema que permite exposições e explicações bastante sofisticadas e profundas. Mas parece-me que não falho o alvo se me focar na explicação seguinte, que é uma das muitas possíveis.
O que é um casal humano?
Os termos "casar", "casal", "casamento", trazem consigo o sentido de união.
Mas que tipo de união é esta?
Desde os primórdios da Humanidade que esta união se refere à união entre um homem e uma mulher, união essa que se distingue de outros tipos de união entre seres humanos, não só pelo seu carácter de estabilidade e exclusividade, mas também pela componente da sexualidade.
Então, o que é que o sexo heterossexual tem que o homossexual não tem?
Que característica é essa que faz com que o sexo heterossexual seja a condição "sine qua non" de um casamento humano real e genuíno?
É simples: a complementaridade biológica. Na união entre homem e mulher estão reunidas, em simultâneo, as duas finalidades da sexualidade humana: a unitiva e a procriativa.
O ser humano tem, na sua constituição biológica, várias funções distintas. Na sua esmagadora maioria, essas funções são exercidas individualmente: a função digestiva, a função circulatória, a função respiratória, a função motora, entre outras. No entanto, há uma função que não pode ser exercida individualmente: a função sexual. A função sexual é a única função biológica do ser humano que só pode ser exercida por dois seres humanos, um do sexo masculino e outro do sexo feminino.
A função sexual, unitiva e potencialmente reprodutora (essa função não desaparece quando o casal é infértil), só é cumprida, completada, realizada, por um homem e por uma mulher. Desta forma, a união de homem e mulher materializa, de forma única, o ser humano "Homo Sapiens", espécie de ser vivo que só com um casal heterossexual está plenamente representada.
Deste modo, o casamento entre um homem e uma mulher reflecte a totalidade do que é ser humano. Uma parelha de dois homens homossexuais, ou de duas mulheres homossexuais, não tem essa complementaridade sexual que constitui o ser humano completo e uno. Logo, esse tipo de parelhas com vida em comum não pode representar, mesmo que o tente desesperadamente, a tal "plena comunhão de vida". Como se vê, ao remover o contexto da heterossexualidade, a nova redacção do Artigo 1577.º passa a afirmar uma impossibilidade lógica e física: um par de seres humanos do mesmo sexo não é fisicamente capaz de efectivar uma "plena comunhão de vida", pela sua manifesta incompatibilidade sexual e fisiológica. Não só tais parelhas são anatomicamente incompatíveis no que diz respeito ao exercício da sua sexualidade, como o sexo homossexual não poderá nunca gerar nova vida humana, uma das evidentes funções da sexualidade humana, e consequência típica de um real e genuíno casamento.
O Estado, como garante da coesão e governo da sociedade, deveria ter em atenção que é insensato ter leis como estas, que afirmam impossibilidades. Leis mentirosas. Leis que distorcem a realidade, a pretexto de pressões por parte dos agentes da propaganda LGBT, ou a reboque de uma reengenharia social pretensamente "moderna".
Em suma, só há casamento onde há, efectivamente, complementaridade biológica e exercício conjunto da sexualidade humana no seu pleno, no contexto de uma "plena comunhão de vida". Isso é que é casamento. E isso, dê-se as voltas que se der, só é possível com um homem e com uma mulher.
Poderia ter discutido a fundo a questão da imoralidade: é certo que os actos homossexuais são imorais, e que o Estado não deveria promover essa imoralidade. Também afirmo de forma clara que o Estado não deveria punir essa imoralidade, pois acredito que há claros limites acerca do âmbito de actuação estatal em matéria de moral. É, assim, defensável que o Estado não puna a imoralidade privada, mas é certo que o Estado não pode promover a imoralidade privada, e muito menos promover a imoralidade pública. Visto que o novo "casamento homossexual", essa mentira feita lei, configura um acto público de protecção estatal à imoralidade, a situação torna-se ainda mais grave. Mas insisto: antes da discussão moral, que é certamente mais polémica, penso que basta olhar para a nova redacção do Artigo 1577.º, e ver que ela materializa uma impossibilidade: ver a união de duas pessoas do mesmo sexo como um casamento é uma contradição nos termos, como espero ter demonstrado cabalmente.
A questão da adopção
Na ânsia de evitar correr o risco de um protesto público a larga escala, Sócrates e a sua equipa meteram, mesmo a jeito, este Artigo 3.º na nova lei:
«1 — As alterações introduzidas pela presente lei não implicam a admissibilidade legal da adopção, em qualquer das suas modalidades, por pessoas casadas com cônjuge do mesmo sexo.
2 — Nenhuma disposição legal em matéria de adopção pode ser interpretada em sentido contrário ao disposto no número anterior.»
Na altura foi afirmado à saciedade o óbvio: este Artigo 3.º está em manifesta contradição com a nova definição de casamento. Se, a partir de agora, o Legislador entende que a união contratual de duas pessoas do mesmo sexo com um projecto de vida em comum também constitui um casamento, e até com "plena comunhão de vida", sendo ainda usada a expressão "constituir família" para este tipo de parelhas, é bizarro negar a essa pretensa "família", reconhecida legalmente como tal pela nova redacção do Artigo 1577.º, a possibilidade de adoptar, que não é negada a nenhuma família baseada numa união heterossexual!
Isto parece-me claro como a água: o Artigo 3.º tem os dias contados. Foi usado como mera táctica política, e não terá grande futuro. Agora que a contradição está na lei, há que começar a trabalhar politicamente para acabar com ela, e inevitavelmente, no actual contexto social, o Artigo 3.º acabará por cair. Quem perde com isso? As crianças, claro está, que assim que cair este Artigo que, por ora, veda a adopção, passarão a ser expostas ao risco de serem adoptadas por uma parelha homossexual e, dessa forma, serem expostas a um estilo de vida imoral.
Cavaco Silva assinou esta lei injusta e imoral a 17 de Maio de 2010. Está lá o nome dele. Só por esta razão, uma pessoa de bem não pode voltar a votar em Cavaco Silva.
Com esta sexta e última parte, termino a série de textos com razões para não se votar em Cavaco Silva nas eleições de 23 de Janeiro próximo. Sei que não esgotei as críticas possíveis à actuação presidencial de Cavaco Silva, mas procurei focar-me nos temas que são realmente mais importantes: as questões de índole ética e moral devem prevalecer, sempre, mas sempre, sobre questões de índole político-partidária, questões de índole económica, ou outras questões manifestamente menores.
Termino como principiei: nada de pessoal tenho contra Cavaco Silva, e a minha central crítica à sua actuação política prende-se com a total incapacidade que o actual Presidente manifestou em ser capaz de agir de acordo com princípios éticos e morais que ele diz professar. Não vejo, nos restantes candidatos presidenciais, mais nenhum que dê garantias de, nesta matéria essencial, vir a ter uma actuação superior à de Cavaco Silva. Pelo que, obviamente, as minhas críticas a Cavaco Silva não implicam qualquer aprovação dos restantes candidatos, muitos dos quais nem sequer professam os valores que Cavaco Silva professa, pelo que está garantida à partida a sua actuação política à revelia de princípios éticos e morais sólidos e verdadeiros.
Subscrever:
Mensagens (Atom)




