"Mas, no íntimo do vosso coração, confessai Cristo como Senhor, sempre dispostos a dar a razão da vossa esperança a todo aquele que vo-la peça" - Primeira Carta de São Pedro, cap. 3, vs. 15.
segunda-feira, 14 de março de 2011
Debate Craig vs. Hitchens
Este debate entre o filósofo evangélico norte-americano William Lane Craig e o jornalista ateu britânico Christopher Hitchens, que versou sobre o tema "Does God Exist?", encheu a 4 de Abril de 2009 um enorme auditório na Universidade de Biola, em Los Angeles, nos Estados Unidos, e foi seguido por milhares de pessoas. É um debate imperdível. Apesar do evidente charme e retórica de Hitchens, que periodicamente arrancava mais umas gargalhadas da plateia, fica patente a incapacidade deste ateu em conseguir debater argumentos filosóficos.
Craig avança com os seguintes argumentos filosóficos, sem recorrer a qualquer fundamentação religiosa ou teológica: Argumento Cosmológico, Argumento Teleológico, Argumento pela Moral e Argumento pelas evidências da ressurreição de Cristo. Logo na abertura do debate, Craig baliza a sua intervenção: argumentos filosóficos para defender que a tese da existência de Deus é mais forte e mais provável que a tese da inexistência de Deus. Mas Hitchens não só não mantém o debate em torno deste tópico central, que afinal correspondia na íntegra ao tema do debate, como não parece conseguir lidar com os argumentos de Craig.
Veja-se a leitura deste debate, feita pelo ateu Luke Muehlhauser, do blogue Common-sense Atheism:
«The debate went exactly as I expected. Craig was flawless and unstoppable. Hitchens was rambling and incoherent, with the occasional rhetorical jab. Frankly, Craig spanked Hitchens like a foolish child. Perhaps Hitchens realized how bad things were for him after Craig’s opening speech, as even Hitchens’ rhetorical flourishes were not as confident as usual. Hitchens wasted his cross-examination time with questions like, “If a baby was born in Palestine, would you rather it be a Muslim baby or an atheist baby?” He did not even bother to give his concluding remarks, ceding the time instead to Q&A.»
Num daqueles raros momentos em que Hitchens contestava, realmente, alguma das premissas dos argumentos avançados por Craig, o resultado era desanimador. Acerca do argumento cosmológico, Hitchens lançou a velha falácia de Dawkins: "Who designed the designer". Assim, o debate foi canja para Craig, que já confidenciou várias vezes que não gosta de debater argumentos filosóficos com pessoas sem trabalho académico na área. Do ponto de vista filosófico, o debate não chegou a existir, pois Hitchens não conseguia interagir nesse registo. Do ponto de vista mediático, o evento demonstrou a superficialidade deste representante do "novo ateísmo", e mostrou de forma cabal que autores como Dawkins, Harris, Hitchens e Dennett, apesar de venderem muitos milhares de livros, baseiam a sua argumentação em chistes e falácias superficiais, sem consistência, argumentação essa que não resiste ao embate com um filósofo profissional como Craig.
Fica então a questão: porque razão obras tão fracas e superficiais se tornam "best-sellers"? A questão é semelhante há que tantos fizeram aquando do romance mediático "The Da Vinci Code", do iletrado Dan Brown. E a resposta dada então parece-me permanecer válida. Juntem-se os seguintes ingredientes: vontade de fazer mega-dólares por parte dos editores e distribuidores, mega-investimentos na promoção destes produtos, tema apelativo (religião), escrita incendiária e falta de cultura e formação por parte dos consumidores deste tipo de produto.
PS: Por ser um marco em matéria de apologética, este vídeo fica disponível na nova secção "Debates", na barra lateral direita do blogue.
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quarta-feira, 9 de março de 2011
O Salmo de hoje, Quarta-Feira de Cinzas
Permitam-me a repetição de um "post" anterior. É que é especialmente apropriado ao dia de hoje, Quarta-Feira de Cinzas, início da Quaresma. Hoje, na missa, escutámos o Salmo 51:
«Miserere mei, Deus: secundum magnam misericordiam tuam.
Et secundum multitudinem miserationum tuarum, dele iniquitatem meam.
Amplius lava me ab iniquitate mea: et a peccato meo munda me.
Quoniam iniquitatem meam ego cognosco: et peccatum meum contra me est semper.
Tibi soli peccavi, et malum coram te feci: ut iustificeris in sermonibus tuis, et vincas cum iudicaris.
Ecce enim in inquitatibus conceptus sum: et in peccatis concepit me mater mea.
Ecce enim veritatem dilexisti: incerta et occulta sapientiae tuae manifestasti mihi.
Asperges me, hyssopo, et mundabor: lavabis me, et super nivem dealbabor.
Auditui meo dabis gaudium et laetitiam: et exsultabunt ossa humiliata.
Averte faciem tuam a peccatis meis: et omnes iniquitates meas dele.
Cor mundum crea in me, Deus: et spiritum rectum innova in visceribus meis.
Ne proiicias me a facie tua: et spiritum sanctum tuum ne auferas a me.
Redde mihi laetitiam salutaris tui: et spiritu principali confirma me.
Docebo iniquos vias tuas: et impii ad te convertentur.
Libera me de sanguinibus, Deus, Deus salutis meae: et exsultabit lingua mea iustitiam tuam. Domine, labia mea aperies: et os meum annuntiabit laudem tuam.
Quoniam si voluisses sacrificium, dedissem utique: holocaustis non delectaberis.
Sacrificium Deo spiritus contribulatus: cor contritum, et humiliatum, Deus, non despicies.
Benigne fac, Domine, in bona voluntate tua Sion: ut aedificentur muri Ierusalem.
Tunc acceptabis sacrificium iustitiae, oblationes, et holocausta: tunc imponent super altare tuum vitulos.»
«Tem compaixão de mim, ó Deus, pela tua bondade; pela tua grande misericórdia, apaga o meu pecado.
Lava-me de toda a iniquidade; purifica-me dos meus delitos.
Reconheço as minhas culpas e tenho sempre diante de mim os meus pecados.
Contra ti pequei, só contra ti, fiz o mal diante dos teus olhos;
por isso é justa a tua sentença e recto o teu julgamento.
Eis que nasci na culpa e a minha mãe concebeu-me em pecado.
Tu aprecias a verdade no íntimo do ser e ensinas-me a sabedoria no íntimo da alma.
Purifica-me com o hissope e ficarei puro, lava-me e ficarei mais branco do que a neve.
Faz-me ouvir palavras de gozo e alegria e exultem estes ossos que trituraste.
Desvia o teu rosto dos meus pecados e apaga todas as minhas culpas.
Cria em mim, ó Deus, um coração puro; renova e dá firmeza ao meu espírito.
Não me afastes da tua presença, nem me prives do teu santo espírito!
Dá-me de novo a alegria da tua salvação e sustenta-me com um espírito generoso.
Então ensinarei aos transgressores os teus caminhos e os pecadores hão-de voltar para ti.
Ó Deus, meu salvador, livra-me do crime de sangue, e a minha língua anunciará a tua justiça.
Abre, Senhor, os meus lábios, para que a minha boca possa anunciar o teu louvor.
Não te comprazes nos sacrifícios nem te agrada qualquer holocausto que eu te ofereça.
O sacrifício agradável a Deus é o espírito contrito; ó Deus, não desprezes um coração contrito e arrependido.
Pela tua bondade, trata bem a Sião; reconstrói os muros de Jerusalém.
Então aceitarás com agrado os sacrifícios devidos, os holocaustos e as ofertas; então serão oferecidos novilhos no teu altar.»
[Partitura]
«Miserere mei, Deus: secundum magnam misericordiam tuam.
Et secundum multitudinem miserationum tuarum, dele iniquitatem meam.
Amplius lava me ab iniquitate mea: et a peccato meo munda me.
Quoniam iniquitatem meam ego cognosco: et peccatum meum contra me est semper.
Tibi soli peccavi, et malum coram te feci: ut iustificeris in sermonibus tuis, et vincas cum iudicaris.
Ecce enim in inquitatibus conceptus sum: et in peccatis concepit me mater mea.
Ecce enim veritatem dilexisti: incerta et occulta sapientiae tuae manifestasti mihi.
Asperges me, hyssopo, et mundabor: lavabis me, et super nivem dealbabor.
Auditui meo dabis gaudium et laetitiam: et exsultabunt ossa humiliata.
Averte faciem tuam a peccatis meis: et omnes iniquitates meas dele.
Cor mundum crea in me, Deus: et spiritum rectum innova in visceribus meis.
Ne proiicias me a facie tua: et spiritum sanctum tuum ne auferas a me.
Redde mihi laetitiam salutaris tui: et spiritu principali confirma me.
Docebo iniquos vias tuas: et impii ad te convertentur.
Libera me de sanguinibus, Deus, Deus salutis meae: et exsultabit lingua mea iustitiam tuam. Domine, labia mea aperies: et os meum annuntiabit laudem tuam.
Quoniam si voluisses sacrificium, dedissem utique: holocaustis non delectaberis.
Sacrificium Deo spiritus contribulatus: cor contritum, et humiliatum, Deus, non despicies.
Benigne fac, Domine, in bona voluntate tua Sion: ut aedificentur muri Ierusalem.
Tunc acceptabis sacrificium iustitiae, oblationes, et holocausta: tunc imponent super altare tuum vitulos.»
«Tem compaixão de mim, ó Deus, pela tua bondade; pela tua grande misericórdia, apaga o meu pecado.
Lava-me de toda a iniquidade; purifica-me dos meus delitos.
Reconheço as minhas culpas e tenho sempre diante de mim os meus pecados.
Contra ti pequei, só contra ti, fiz o mal diante dos teus olhos;
por isso é justa a tua sentença e recto o teu julgamento.
Eis que nasci na culpa e a minha mãe concebeu-me em pecado.
Tu aprecias a verdade no íntimo do ser e ensinas-me a sabedoria no íntimo da alma.
Purifica-me com o hissope e ficarei puro, lava-me e ficarei mais branco do que a neve.
Faz-me ouvir palavras de gozo e alegria e exultem estes ossos que trituraste.
Desvia o teu rosto dos meus pecados e apaga todas as minhas culpas.
Cria em mim, ó Deus, um coração puro; renova e dá firmeza ao meu espírito.
Não me afastes da tua presença, nem me prives do teu santo espírito!
Dá-me de novo a alegria da tua salvação e sustenta-me com um espírito generoso.
Então ensinarei aos transgressores os teus caminhos e os pecadores hão-de voltar para ti.
Ó Deus, meu salvador, livra-me do crime de sangue, e a minha língua anunciará a tua justiça.
Abre, Senhor, os meus lábios, para que a minha boca possa anunciar o teu louvor.
Não te comprazes nos sacrifícios nem te agrada qualquer holocausto que eu te ofereça.
O sacrifício agradável a Deus é o espírito contrito; ó Deus, não desprezes um coração contrito e arrependido.
Pela tua bondade, trata bem a Sião; reconstrói os muros de Jerusalém.
Então aceitarás com agrado os sacrifícios devidos, os holocaustos e as ofertas; então serão oferecidos novilhos no teu altar.»
[Partitura]
Ateísmo - homeopatia para o intelecto
É possível ser-se naturalista sem se ser darwinista? É, claro que sim. Aliás, todos os naturalistas, antes de Darwin, forçosamente não eram darwinistas. Mas nos dias que correm é difícil encontrar um naturalista, ou seja, uma pessoa que negue a existência de uma parte sobrenatural (transcendente, imaterial, metafísica, etc.) da realidade, que não seja darwinista.
O sumo-sacerdote do naturalismo darwinista, Richard Dawkins, disse-o de forma contundente: "Although atheism migh have been logically tenable before Darwin, Darwin made it possible to be an intellectually fulfilled atheist" - The Blind Watchmaker (1986), p. 6.
Assim, Dawkins parece concordar que um naturalista contemporâneo é, para todos os efeitos, e salvo algumas excepções pontuais, um darwinista.
No entanto, o naturalismo darwinista é falso. Não por culpa do darwinismo, mas por culpa do naturalismo. O naturalismo é falso. Ponto final.
(Nota: algum leitor mais distraído poderia pensar que estou a atacar a teoria científica darwinista, ou neodarwinista. Não é, de todo, o caso. Considero que, apesar das fragilidades inerentes a uma teoria científica ainda em construção, a explicação neodarwinista é a melhor explicação científica que temos hoje em dia para a evolução das espécies. O que estou a criticar é o naturalismo darwinista, que é uma filosofia de vida que defende o naturalismo filosófico tentando suportar-se no darwinismo científico)
Porque razão se pode dizer, com confiança, que o naturalismo é falso? Noutros textos apresentei vários exemplos: o naturalismo é auto-refutatório por destruir qualquer conceito consistente de verdade, o naturalismo destrói o conceito de livre arbítrio (torna-o numa ilusão, o que destrói a responsabilização dos actos livres), o naturalismo não sustenta adequadamente a capacidade humana de raciocinar e de compreender a realidade, e assim por diante.
Visto do ponto de vista do naturalismo darwinista, pode-se fazer a seguinte refutação:
(1) Se o naturalismo darwinista é verdadeiro, então a moralidade humana é um produto do neodarwinismo (mutação, cruzamento, selecção natural)
(2) Se a moralidade humana é um produto do neodarwinismo, então não existem factos morais objectivos (verdades morais objectivas)
(3) Existem factos morais objectivos
(4) Logo, o naturalismo darwinista é falso
(Adaptado do capítulo "The Moral Argument", de Mark D. Linville, em "The Blackwell Companion to Natural Theology", p. 394)
Claro que isto é um argumento para refutar o naturalismo darwinista, e não um argumento para refutar o naturalismo como um todo; mas ateus como Dawkins seriam os primeiros a dizer-nos que isto refuta o naturalismo contemporâneo, uma vez que este é, maioritariamente, darwinista.
O naturalista pode contestar. Vai tentá-lo, certamente. Normalmente, procura atacar (3). Mas como o ateu contemporâneo, felizmente, acaba por ser moralista (é contra a homofobia, é contra o terrorismo, é contra o abuso de menores, etc.), ele repudia os relativismos morais "vividos" coerentemente, ou seja numa lógica do "vale tudo". O ateu contemporâneo indigna-se perante a certas injustiças e defende certos direitos humanos. Ele repudia a aplicação do darwinismo à moral humana, ou seja, rejeita a aplicação da lei do mais forte às sociedades humanas. O próprio Dawkins já rejeitou, várias vezes, a aplicação do darwinismo à moral.
Segue-se então o rol de tentativas de construção de uma moral naturalista, pois se é certo que temos que nos comportar de forma moral, a gigantesca tarefa é, para o naturalista que rejeita a vontade de Deus como normativa moral, explicar-nos porque é que nos devemos comportar moralmente. Porque razão, num universo material sujeito ao darwinismo, existiriam "deves" e "haveres"? Surgem então vias de escape para o naturalista: o utilitarismo ou pragmatismo, no qual o bem moral é o que resulta da maximização das vantagens do colectivo, ou o "overlapping consensus" de John Rawls, que pugna por uma ponderação alternada de certos bens morais em conflito, e assim por diante. Tudo formas de procurar defender um "comportamento moral", mesmo na completa ausência de fundamento filosófico para esse comportamento.
A atitude clássica teísta face à moral sempre foi algo do género:
(1) Se existirem verdades morais objectivas, o ser humano deve segui-las
(2) Existem verdades morais objectivas, fundamentadas nos mandamentos de Deus
(3) Logo, o ser humano deve segui-las
Assim, o naturalista tem que encontrar formas de justificar, para o ser humano, um comportamento moral sem correr o risco de entrar nas vielas escuras das verdades morais objectivas, que cheiram sempre a divino. É que, de facto, é complicado explicar que existam deveres morais num universo naturalista, sujeito exclusivamente às leis inexoráveis da matéria.
Uma das atitudes naturalistas mais bizarras consiste na defesa da ideia de "mentira nobre" ("noble lie"), proposta pelo filósofo norte-americano Loyal Rue. No texto de apresentação do seu livro "By the grace of guile" (Oxford University Press, 1994) encontramos isto:
«The nihilists are right, admits philosopher Loyal Rue. The universe is blind and aimless, indifferent to us and void of meaning. There are no absolute truths and no objective values. There is no right or wrong way to live, only alternative ways. There is no correct reading of a text or a picture or a dance. God is dead, nihilism reigns. But, Rue adds, nihilism is a truth inconsistent with personal happiness and social coherence. What we need instead is a new myth, a noble lie. Only a noble lie can save us from the psychological and social chaos now threatened by the spread of skepticism about the meaning of life and the universe.»
Com todo o respeito pela carreira filosófica do Prof. Rue, esta proposta é patética!
No fundo, Rue advoga que, perante a impossibilidade de sustentar verdades morais objectivas no naturalismo, e perante a necessidade premente de convencer os seres humanos a se comportarem moralmente em sociedade (para evitar a anarquia e o colapso), o melhor que há a fazer é promover a "nobre mentira": apesar de não existirem verdades morais objectivas, vivamos como se estas existissem!
De certa forma, como diz William Lane Craig (a quem devo esta dica acerca da proposta de Loyal Rue), a "nobre mentira" funcionaria como uma espécie de placebo do intelecto: a "nobre mentira" dá a motivação psicológica de que o naturalista precisa para justificar o seu comportamento moral. Ao escutar isto, pensei imediatamente na louvável iniciativa anti-homeopática de alguns ateus. Algumas das recentes críticas anti-homeopáticas, como o texto da química Palmira Silva que desmonta a burla do Oscillococcinum, são verdadeiro serviço público. No entanto, não pude deixar de pensar que atitudes desesperadas como as de Loyal Rue acabam por ser uma espécie de homeopatia intelectual.
E, vendo bem, apesar de o caso de Rue ser mais gritante, todas as tentativas ateias ou naturalistas de localizar o fundamento filosófico para o comportamento moral do ser humano são tentativas baseadas em "nobres mentiras", mesmo que os seus defensores nem sempre o admitam. A razão é simples: o conceito de "dever" não tem sustento na cosmovisão naturalista. Bem podem procurá-lo no naturalismo. É bizarro falar dos "deveres" de uma máquina biológica evoluída, que é como o naturalista vê o ser humano. A alternativa para o naturalista, face à impossibilidade de sustentar verdades morais objectivas na sua visão redutora da realidade, consiste em adoptar "nobres mentiras".
É viver na ilusão de que existiriam verdades morais objectivas. A necessidade premente de viver em sociedade força-nos a procurar viver moralmente. Mas, à falta de verdades morais objectivas, cai-se num utilitarismo moral. O certo já não existe em si mesmo, como verdade moral objectiva. O errado também não. Tudo depende do contexto, da maximização da felicidade, ou dos interesses, do colectivo. Isso leva a coisas bizarras como a defesa do direito a matar crianças não nascidas, que como sabemos, no nosso país, surgiu pela aplicação prática das teorias de John Rawls no acórdão do Tribunal Constitucional que legitimou o referendo de 7 de Fevereiro de 2007. Essa é uma das conclusões lógicas de quem já não acredita em verdades morais objectivas. O colectivo vota o direito ao aborto, numa tentativa de conciliar os interesses da mãe (prioritários até certa fase de gestação) com os interesses da criança (prioritários depois de certa fase da gestação) e isso cria a "nobre mentira" de que é moral abortar até certa fase da gestação. É o Rawls em acção.
Tal como a opção pelos produtos homeopáticos, em detrimento dos medicamentos reais, pode colocar a saúde das pessoas em risco, também a opção pelo naturalismo pode ser vista como homeopática: está fundamentada no vazio moral (na ausência de verdades morais objectivas) e coloca riscos reais para a saúde das pessoas. Que o digam as crianças abortadas!
PS: Antecipando as críticas que aí vêm, afirmo desde já:
Não afirmei, de modo algum, que o ateu ou o naturalista não se comportam moralmente: aliás, fiz questão de dizer que muitos ateus ou naturalistas promovem certos comportamentos morais, e defendem certos direitos e deveres morais; por isso, é verdade que um ateu ou um naturalista podem viver vidas morais; a questão que critico é: no quadro do naturalismo, qual é o fundamento filosófico para esse comportamento?
O sumo-sacerdote do naturalismo darwinista, Richard Dawkins, disse-o de forma contundente: "Although atheism migh have been logically tenable before Darwin, Darwin made it possible to be an intellectually fulfilled atheist" - The Blind Watchmaker (1986), p. 6.
Assim, Dawkins parece concordar que um naturalista contemporâneo é, para todos os efeitos, e salvo algumas excepções pontuais, um darwinista.
No entanto, o naturalismo darwinista é falso. Não por culpa do darwinismo, mas por culpa do naturalismo. O naturalismo é falso. Ponto final.
(Nota: algum leitor mais distraído poderia pensar que estou a atacar a teoria científica darwinista, ou neodarwinista. Não é, de todo, o caso. Considero que, apesar das fragilidades inerentes a uma teoria científica ainda em construção, a explicação neodarwinista é a melhor explicação científica que temos hoje em dia para a evolução das espécies. O que estou a criticar é o naturalismo darwinista, que é uma filosofia de vida que defende o naturalismo filosófico tentando suportar-se no darwinismo científico)
Porque razão se pode dizer, com confiança, que o naturalismo é falso? Noutros textos apresentei vários exemplos: o naturalismo é auto-refutatório por destruir qualquer conceito consistente de verdade, o naturalismo destrói o conceito de livre arbítrio (torna-o numa ilusão, o que destrói a responsabilização dos actos livres), o naturalismo não sustenta adequadamente a capacidade humana de raciocinar e de compreender a realidade, e assim por diante.
Visto do ponto de vista do naturalismo darwinista, pode-se fazer a seguinte refutação:
(1) Se o naturalismo darwinista é verdadeiro, então a moralidade humana é um produto do neodarwinismo (mutação, cruzamento, selecção natural)
(2) Se a moralidade humana é um produto do neodarwinismo, então não existem factos morais objectivos (verdades morais objectivas)
(3) Existem factos morais objectivos
(4) Logo, o naturalismo darwinista é falso
(Adaptado do capítulo "The Moral Argument", de Mark D. Linville, em "The Blackwell Companion to Natural Theology", p. 394)
Claro que isto é um argumento para refutar o naturalismo darwinista, e não um argumento para refutar o naturalismo como um todo; mas ateus como Dawkins seriam os primeiros a dizer-nos que isto refuta o naturalismo contemporâneo, uma vez que este é, maioritariamente, darwinista.
O naturalista pode contestar. Vai tentá-lo, certamente. Normalmente, procura atacar (3). Mas como o ateu contemporâneo, felizmente, acaba por ser moralista (é contra a homofobia, é contra o terrorismo, é contra o abuso de menores, etc.), ele repudia os relativismos morais "vividos" coerentemente, ou seja numa lógica do "vale tudo". O ateu contemporâneo indigna-se perante a certas injustiças e defende certos direitos humanos. Ele repudia a aplicação do darwinismo à moral humana, ou seja, rejeita a aplicação da lei do mais forte às sociedades humanas. O próprio Dawkins já rejeitou, várias vezes, a aplicação do darwinismo à moral.
Segue-se então o rol de tentativas de construção de uma moral naturalista, pois se é certo que temos que nos comportar de forma moral, a gigantesca tarefa é, para o naturalista que rejeita a vontade de Deus como normativa moral, explicar-nos porque é que nos devemos comportar moralmente. Porque razão, num universo material sujeito ao darwinismo, existiriam "deves" e "haveres"? Surgem então vias de escape para o naturalista: o utilitarismo ou pragmatismo, no qual o bem moral é o que resulta da maximização das vantagens do colectivo, ou o "overlapping consensus" de John Rawls, que pugna por uma ponderação alternada de certos bens morais em conflito, e assim por diante. Tudo formas de procurar defender um "comportamento moral", mesmo na completa ausência de fundamento filosófico para esse comportamento.
A atitude clássica teísta face à moral sempre foi algo do género:
(1) Se existirem verdades morais objectivas, o ser humano deve segui-las
(2) Existem verdades morais objectivas, fundamentadas nos mandamentos de Deus
(3) Logo, o ser humano deve segui-las
Assim, o naturalista tem que encontrar formas de justificar, para o ser humano, um comportamento moral sem correr o risco de entrar nas vielas escuras das verdades morais objectivas, que cheiram sempre a divino. É que, de facto, é complicado explicar que existam deveres morais num universo naturalista, sujeito exclusivamente às leis inexoráveis da matéria.
Uma das atitudes naturalistas mais bizarras consiste na defesa da ideia de "mentira nobre" ("noble lie"), proposta pelo filósofo norte-americano Loyal Rue. No texto de apresentação do seu livro "By the grace of guile" (Oxford University Press, 1994) encontramos isto:
«The nihilists are right, admits philosopher Loyal Rue. The universe is blind and aimless, indifferent to us and void of meaning. There are no absolute truths and no objective values. There is no right or wrong way to live, only alternative ways. There is no correct reading of a text or a picture or a dance. God is dead, nihilism reigns. But, Rue adds, nihilism is a truth inconsistent with personal happiness and social coherence. What we need instead is a new myth, a noble lie. Only a noble lie can save us from the psychological and social chaos now threatened by the spread of skepticism about the meaning of life and the universe.»
Com todo o respeito pela carreira filosófica do Prof. Rue, esta proposta é patética!
No fundo, Rue advoga que, perante a impossibilidade de sustentar verdades morais objectivas no naturalismo, e perante a necessidade premente de convencer os seres humanos a se comportarem moralmente em sociedade (para evitar a anarquia e o colapso), o melhor que há a fazer é promover a "nobre mentira": apesar de não existirem verdades morais objectivas, vivamos como se estas existissem!
De certa forma, como diz William Lane Craig (a quem devo esta dica acerca da proposta de Loyal Rue), a "nobre mentira" funcionaria como uma espécie de placebo do intelecto: a "nobre mentira" dá a motivação psicológica de que o naturalista precisa para justificar o seu comportamento moral. Ao escutar isto, pensei imediatamente na louvável iniciativa anti-homeopática de alguns ateus. Algumas das recentes críticas anti-homeopáticas, como o texto da química Palmira Silva que desmonta a burla do Oscillococcinum, são verdadeiro serviço público. No entanto, não pude deixar de pensar que atitudes desesperadas como as de Loyal Rue acabam por ser uma espécie de homeopatia intelectual.
E, vendo bem, apesar de o caso de Rue ser mais gritante, todas as tentativas ateias ou naturalistas de localizar o fundamento filosófico para o comportamento moral do ser humano são tentativas baseadas em "nobres mentiras", mesmo que os seus defensores nem sempre o admitam. A razão é simples: o conceito de "dever" não tem sustento na cosmovisão naturalista. Bem podem procurá-lo no naturalismo. É bizarro falar dos "deveres" de uma máquina biológica evoluída, que é como o naturalista vê o ser humano. A alternativa para o naturalista, face à impossibilidade de sustentar verdades morais objectivas na sua visão redutora da realidade, consiste em adoptar "nobres mentiras".
É viver na ilusão de que existiriam verdades morais objectivas. A necessidade premente de viver em sociedade força-nos a procurar viver moralmente. Mas, à falta de verdades morais objectivas, cai-se num utilitarismo moral. O certo já não existe em si mesmo, como verdade moral objectiva. O errado também não. Tudo depende do contexto, da maximização da felicidade, ou dos interesses, do colectivo. Isso leva a coisas bizarras como a defesa do direito a matar crianças não nascidas, que como sabemos, no nosso país, surgiu pela aplicação prática das teorias de John Rawls no acórdão do Tribunal Constitucional que legitimou o referendo de 7 de Fevereiro de 2007. Essa é uma das conclusões lógicas de quem já não acredita em verdades morais objectivas. O colectivo vota o direito ao aborto, numa tentativa de conciliar os interesses da mãe (prioritários até certa fase de gestação) com os interesses da criança (prioritários depois de certa fase da gestação) e isso cria a "nobre mentira" de que é moral abortar até certa fase da gestação. É o Rawls em acção.
Tal como a opção pelos produtos homeopáticos, em detrimento dos medicamentos reais, pode colocar a saúde das pessoas em risco, também a opção pelo naturalismo pode ser vista como homeopática: está fundamentada no vazio moral (na ausência de verdades morais objectivas) e coloca riscos reais para a saúde das pessoas. Que o digam as crianças abortadas!
PS: Antecipando as críticas que aí vêm, afirmo desde já:
Não afirmei, de modo algum, que o ateu ou o naturalista não se comportam moralmente: aliás, fiz questão de dizer que muitos ateus ou naturalistas promovem certos comportamentos morais, e defendem certos direitos e deveres morais; por isso, é verdade que um ateu ou um naturalista podem viver vidas morais; a questão que critico é: no quadro do naturalismo, qual é o fundamento filosófico para esse comportamento?
quinta-feira, 3 de março de 2011
Humanos vs. Chimpanzés: apenas mais neurónios?
O Ludwig gostou deste vídeo do Robert Sapolsky:
Diz o Luwdig:
«Finalmente descobri o que é a alma. Aquilo que nós temos e que os outros animais não têm.
É mais neurónios. Nem é melhores neurónios nem nada de especial nos neurónios. É simplesmente mais.»
Sapolsky refere o bem estabelecido facto científico de que o 98,9% do genoma humano é comum ao genoma do chimpanzé. Os materialistas adoram isto, pois parece adaptar-se perfeitamente à sua filosofia infantil. Sapolsky aponta um facto científico importante: o cérebro humano, na fase de desenvolvimento fetal, desenvolve aproximadamente o triplo de células neuronais do chimpanzé. É verdade! E depois, que brilhante conclusão é que o Sapolsky retira?
«...Take a chimp brain, fetally, and let it go through two or three more rounds of division, and you get a human brain instead, and out come symphonies, and ideology, and hopscotch and everything else there, what that tells you is: with enough quantity you invent quality.»
Estes materialistas, que estão a braços com a humilhante impotência dos seus actuais argumentos filosóficos, face à óbvia força dos argumentos filosóficos dos teístas, em vez de se meterem a trabalhar em bons argumentos materialistas e na refutação dos argumentos teístas, preferem brincar com palavras.
Este Sapolsky, obviamente ignorante da burrada filosófica que acabou de proferir, nem se dá conta do ridículo:
1) Por um lado, confunde uma condição necessária para a inteligência humana (o número de neurónios) com uma condição suficiente para a inteligência humana; quem nega que o ser humano precisa do triplo dos neurónios do chimpanzé? A questão é: isso é suficiente, ter o triplo dos neurónios, ou é apenas uma condição necessária?
2) Em vez de tirar conclusões falaciosas, derivadas da sua confusão entre condição necessária e condição suficiente, ele deveria focar-se na resolução dos problemas fatais do seu materialismo filosófico: nenhuma filosofia materialista pode ter a pretensão de ser verdadeira, uma vez que todas as filosofias materialistas são obrigadas a adoptar, ou uma explicação determinista para os fenómenos mentais, ou uma explicação estocástica para os mesmos, ou um "mix" de ambas
Para o materialista, ou o intelecto humano é o epifenómeno de processos determinísticos no interior dos neurónios, ou de processos estocásticos, ou de um "mix" de ambos os tipos. Em qualquer dos casos, ou temos um intelecto "zombie", ou um intelecto "caótico", ou uma triste mistura de ambas as coisas.
Ter mais neurónios implica montes de coisas impressionantes para o cérebro humano: mais memória, maior capacidade de relacionar informação, e assim por diante. Mas não chega para explicar a racionalidade humana. Filosoficamente falando, a actividade intelectiva pressupõe, no ser humano, algo de imaterial. Em filosofia, nunca houve grande pudor em usar a palavra "alma", mas hoje em dia, fala-se em "mente" ou "intelecto".
Os filósofos profissionais conhecem bem os problemas do materialismo, problemas relacionados com a sua completa impotência para explicar a racionalidade, a capacidade de abstracção, o livre arbítrio que os seres humanos demonstram possuir. Infelizmente, há muitos cientistas materialistas, grupo do qual Sapolsky pelos vistos faz parte, que são filosoficamente analfabetos. Não se sentem obrigados a, sequer, considerar os problemas filosóficos do materialismo. Provavelmente, Sapolsky nem sequer sabe que o materialismo tem problemas graves por resolver. Quanto mais estar preparado para lidar com eles...
«With enough quantity, you invent quality»
Este cientista reagirá certamente com justificado horror e repúdio a manifestações de pseudo-ciência. Mas, pelos vistos, convive bem com a sua pseudo-filosofia de pacotilha.
Diz o Luwdig:
«Finalmente descobri o que é a alma. Aquilo que nós temos e que os outros animais não têm.
É mais neurónios. Nem é melhores neurónios nem nada de especial nos neurónios. É simplesmente mais.»
Sapolsky refere o bem estabelecido facto científico de que o 98,9% do genoma humano é comum ao genoma do chimpanzé. Os materialistas adoram isto, pois parece adaptar-se perfeitamente à sua filosofia infantil. Sapolsky aponta um facto científico importante: o cérebro humano, na fase de desenvolvimento fetal, desenvolve aproximadamente o triplo de células neuronais do chimpanzé. É verdade! E depois, que brilhante conclusão é que o Sapolsky retira?
«...Take a chimp brain, fetally, and let it go through two or three more rounds of division, and you get a human brain instead, and out come symphonies, and ideology, and hopscotch and everything else there, what that tells you is: with enough quantity you invent quality.»
Estes materialistas, que estão a braços com a humilhante impotência dos seus actuais argumentos filosóficos, face à óbvia força dos argumentos filosóficos dos teístas, em vez de se meterem a trabalhar em bons argumentos materialistas e na refutação dos argumentos teístas, preferem brincar com palavras.
Este Sapolsky, obviamente ignorante da burrada filosófica que acabou de proferir, nem se dá conta do ridículo:
1) Por um lado, confunde uma condição necessária para a inteligência humana (o número de neurónios) com uma condição suficiente para a inteligência humana; quem nega que o ser humano precisa do triplo dos neurónios do chimpanzé? A questão é: isso é suficiente, ter o triplo dos neurónios, ou é apenas uma condição necessária?
2) Em vez de tirar conclusões falaciosas, derivadas da sua confusão entre condição necessária e condição suficiente, ele deveria focar-se na resolução dos problemas fatais do seu materialismo filosófico: nenhuma filosofia materialista pode ter a pretensão de ser verdadeira, uma vez que todas as filosofias materialistas são obrigadas a adoptar, ou uma explicação determinista para os fenómenos mentais, ou uma explicação estocástica para os mesmos, ou um "mix" de ambas
Para o materialista, ou o intelecto humano é o epifenómeno de processos determinísticos no interior dos neurónios, ou de processos estocásticos, ou de um "mix" de ambos os tipos. Em qualquer dos casos, ou temos um intelecto "zombie", ou um intelecto "caótico", ou uma triste mistura de ambas as coisas.
Ter mais neurónios implica montes de coisas impressionantes para o cérebro humano: mais memória, maior capacidade de relacionar informação, e assim por diante. Mas não chega para explicar a racionalidade humana. Filosoficamente falando, a actividade intelectiva pressupõe, no ser humano, algo de imaterial. Em filosofia, nunca houve grande pudor em usar a palavra "alma", mas hoje em dia, fala-se em "mente" ou "intelecto".
Os filósofos profissionais conhecem bem os problemas do materialismo, problemas relacionados com a sua completa impotência para explicar a racionalidade, a capacidade de abstracção, o livre arbítrio que os seres humanos demonstram possuir. Infelizmente, há muitos cientistas materialistas, grupo do qual Sapolsky pelos vistos faz parte, que são filosoficamente analfabetos. Não se sentem obrigados a, sequer, considerar os problemas filosóficos do materialismo. Provavelmente, Sapolsky nem sequer sabe que o materialismo tem problemas graves por resolver. Quanto mais estar preparado para lidar com eles...
«With enough quantity, you invent quality»
Este cientista reagirá certamente com justificado horror e repúdio a manifestações de pseudo-ciência. Mas, pelos vistos, convive bem com a sua pseudo-filosofia de pacotilha.
quarta-feira, 2 de março de 2011
Um verdadeiro mártir
Shahbaz Bhatti, Ministro paquistanês para as Minorias, foi hoje assassinado em Islamabad. Bhatti era um dos mais notórios críticos da infame Lei da Blasfémia, que pune com a pena de morte o insulto ao Islão. Bhatti, um católico, fora recebido em Setembro do ano passado por Bento XVI. No local do crime, a polícia encontrou panfletos, supostamente da autoria de um grupo paquistanês com ligações à Al-Qaeda, nos quais se ameaça de morte os críticos da Lei da Blasfémia.
Este é um exemplo de um verdadeiro mártir. Devido ao terrorismo, vemos muitas vezes a palavra "mártir" surgir nos "media" em contextos totalmente desadequados. O mártir não é um tarado que mata em nome de Deus. É o exacto oposto. O mártir é aquele que não teme perder a sua vida por amor a Deus, para ser coerente e fiel a Cristo e à verdade de Cristo até ao fim, até ao dom da sua própria vida, se necessário. O martírio não é suicídio, nem é homicídio. O martírio é o gesto último e derradeiro de amor a Deus e ao próximo.
Vítima de uma morte cruenta, por causa das suas convicções cristãs e por causa da sua batalha por leis mais justas e pelos direitos humanos, Shahbaz Bhatti merece ser contado entre os justos de Deus. Sobre estes justos, falou Cristo nestes termos: "O Rei dirá, então, aos da sua direita: 'Vinde, benditos de meu Pai! Recebei em herança o Reino que vos está preparado desde a criação do mundo'» (São Mateus, 25:34).

Que os anjos te conduzam ao Paraíso,
Que os mártires te acolham à tua chegada
E te introduzam na cidade santa de Jerusalém.
Que o coro dos anjos te receba,
E com Lázaro, outrora pobre,
tenhas o eterno descanso.
(coro cisterciense da abadia de Heiligenkreuz, na Áustria)
terça-feira, 1 de março de 2011
O falso "padre" Humberto Gama
Diocese de Leiria-Fátima - Declaração sobre as actividades de exorcismo por parte de Humberto Gama
(declaração recebida via "newsletter" É o Carteiro!)
(declaração recebida via "newsletter" É o Carteiro!)
Os sofistas do aborto mentem sobre a saúde mental da mulher
A Ana Matos Pires apresentou recentemente um estudo do New England Journal of Medical Science intitulado Induced First-Trimester Abortion and Risk of Mental Disorder. Esse estudo, publicado a 27 de Janeiro de 2011, apresenta conclusões muito cautelosas:
«The finding that the incidence rate of psychiatric contact was similar before and after a first-trimester abortion does not support the hypothesis that there is an increased risk of mental disorders after a first-trimester induced abortion.»
A metodologia seguida foi esta:
«We conducted a population-based cohort study that involved linking information from the Danish Civil Registration system to the Danish Psychiatric Central Register and the Danish National Register of Patients. The information consisted of data for girls and women with no record of mental disorders during the 1995–2007 period who had a first-trimester induced abortion or a first childbirth during that period. We estimated the rates of first-time psychiatric contact (an inpatient admission or outpatient visit) for any type of mental disorder within the 12 months after the abortion or childbirth as compared with the 9-month period preceding the event.»
Em suma: procurou-se verificar se existia correlação entre um abortamento de primeiro trimestre em mulheres sem registo prévio de problemas mentais, e um subsequente contacto entre essas mulheres e um psiquiatra.
Não me parece que o estudo tenha sido mal conduzido. O problema é que a conclusão do estudo é falaciosa. Segundo os autores do estudo, os resultados do mesmo "não sustentam a hipótese de que há um incremento no risco de problemas mentais após um aborto de primeiro trimestre". No entanto, usando lógica elementar, vê-se que os resultados do mesmo também não sustentam a hipótese contrária.
A conclusão do estudo poderia ser interpretada por algumas pessoas na forma de argumento "modus tollens":
1. Se o aborto de primeiro trimestre causar problemas mentais, as mulheres que se submetem a tal aborto tenderão a procurar ajuda psiquiátrica
2. As mulheres que fizeram parte do conjunto-alvo do estudo não manifestaram uma clara procura de ajuda psiquiátrica após o aborto de primeiro trimestre
Conclusão: O aborto de primeiro trimestre não parece causar problemas mentais
Este argumento é logicamente válido, mas a premissa 1 é muito discutível. Uma mulher que aborta mais depressa procura a ajuda de uma amiga ou de um familiar do que ajuda psiquiátrica. É que os efeitos psíquicos do aborto não são comparáveis com os de outros problemas mentais. O profundo sentimento de culpa da mulher que abortou (uma reacção, diga-se de passagem, perfeitamente normal e mentalmente salutar) leva-a, frequentemente, a preferir a privacidade ou a procurar apoio junto de pessoas do seu círculo próximo de confiança. Se uma pessoa que sofre problemas de depressão pode, naturalmente, procurar ajuda psiquiátrica ou psicológica, o mesmo não é linear com uma pessoa que sente um profundo sentimento de culpa e de remorso. Se uma mulher se sente culpada do aborto que procurou, é muito pouco provável que se vá apresentar a um psiquiatra. O peso da responsabilidade moral faz com que, instintivamente, a pessoa não confunda essa situação com a situação de uma doença ou perturbação mental, pois nestes últimos casos não faz sentido discutir culpas. Ninguém sente culpa por ter uma doença, física ou mental. Mas a situação psicológica de uma mulher que procurou um aborto pode ser radicalmente diferente pela presença da culpa.
A conclusão do estudo está redigida de forma a evitar o argumento "modus tollens": note-se como os autores dizem apenas que o estudo "não sustenta a hipótese de que há um incremento no risco de problemas mentais após um aborto de primeiro trimestre". Eles sabem bem que a premissa 1, na forma atrás apresentada, não é sustentável. Se tal premissa fosse sustentável, eles poderiam ter sido mais arrojados no estudo, declarando ter provado não existir correlação entre aborto provocado no primeiro trimestre e sequelas mentais: o argumento "modus tollens" seria perfeitamente válido.
Está aqui a fragilidade do estudo. Pela falta de consistência da suposta relação causal entre aborto provocado e procura de ajuda psicológica ou psiquiátrica, o estudo sai coxo e de pouco serve. Não é que seja impossível que uma mulher procure apoio psicológico após um aborto: isso pode acontecer. O que é inverosímil é que haja uma relação causal clara entre ter sequelas psicológicas derivada de um aborto e procurar, consequentemente, apoio profissional.
De forma análoga, seria um pouco como conduzir um estudo para medir quantas pessoas com problemas de alcoolismo procurariam ajuda profissional na sequência de recaídas graves. É de esperar que nem todas as pessoas com problemas de alcoolismo procurem tal ajuda. A sensação de culpa e de vergonha que assola uma pessoa com problemas de alcoolismo serve como bloqueio a que muitas pessoas nessa situação cheguem a procurar ajuda.
Questões técnicas à parte, o que me choca é a atitude de pessoas como a Ana Matos Pires. Aqui temos uma mulher que tem uma visão brutalmente errada acerca da dignidade de uma mulher grávida, e que aparentemente não se importa de sofismar para proteger a sua insustentável defesa do pretenso "direito" ao aborto. Num texto da sua autoria, ela chega ao ponto de apresentar efeitos psicológicos benéficos decorrentes de um aborto:
«Mas também não minto se afirmar que é, em simultâneo e para muitas mulheres, fonte de alívio, de eutimia e de normalização da reactividade emocional.»
É claro que mente. Que tal sensação de "alívio" e de "eutimia" (ah, nada como usar termos técnicos para esconder erros argumentativos) seja sentida por algumas mulheres logo após o aborto até não surpreende. No instante imediato, é provável que algumas delas se sintam livres dos receios que tinham, receios esses derivados da gravidez (abandono do namorado, perda de emprego, problemas financeiros, etc.). O que interessa é o resto da vida dessas mulheres. O que é relevante, e que a Ana Matos Pires simplesmente descarta, não é a imediata "eutimia" mas sim o choque psicológico que vai acompanhar qualquer mulher mentalmente sã para toda a sua vida: "matei o meu filho!". Por isso, o aborto nunca pode ser "fonte de normalização da reactividade emocional". Que o aborto proporcione, no imediato, um sensação de alívio e de "eutimia" é algo que se espera: é sabido que as mulheres abortam, frequentemente, em situação de medo, de desespero, de pânico perante o futuro. Agora, dizer que o aborto é "fonte" de uma espécie de bem-estar normalizador é uma bruta mentira. Como se pode ignorar, de forma tão descarada, o facto óbvio de que o aborto é um acto de desespero? O facto óbvio de que, se lhes derem ajuda financeira e emocional, se lhes derem encorajamento, se elas não se sentirem ameaçadas com a perda iminente de emprego, com o abandono dos namorados, e outras ameaças do género, a esmagadora maioria das mulheres leva a gravidez para a frente?
Perante a brutalidade do aborto, que poucas mulheres conseguem ignorar durante muito tempo, qualquer mulher normal acaba, mais cedo ou mais tarde, por se dar conta do horror desse acto que pediu para lhe cometerem: filicídio. É de filicídio que estamos a falar! Qualquer pai ou mãe só pode ficar profundamente afectado quando se dá conta de que cometeu filicídio, e se isso acontece em filicídio acidental, quando um pai ou uma mãe mata o seu filho por acidente, quanto mais em situações como a do aborto, em que a vontade da mulher (nem sempre livre, porque muitas vezes é socialmente pressionada para abortar) foi decisiva na morte do seu filho ou filha.
E, perante o horror óbvio do filicídio, e perante a chaga, a marca psicológica indelével que tal mulher portará toda a vida, a Ana Matos Pires entrega-se ao exercício de sofismar. É espantoso! Como mulher que é, pois não sei se também será mãe, mas como mulher que é, ela deveria ter um bocadinho mais de consideração pela saúde mental das mulheres.
Que a causa do pretenso "direito" ao aborto é uma causa irracional, desumana e sustentada em argumentação falaciosa e anti-científica, já se sabe. Mas que uma mulher chegue ao cúmulo de negar o óbvio sofrimento de outras mulheres, invocando pseudo-argumentos e estudos científicos de conclusões tendenciosas, para fazer a desesperada defesa do indefensável, é algo que me parece espantoso e cruel.
«The finding that the incidence rate of psychiatric contact was similar before and after a first-trimester abortion does not support the hypothesis that there is an increased risk of mental disorders after a first-trimester induced abortion.»
A metodologia seguida foi esta:
«We conducted a population-based cohort study that involved linking information from the Danish Civil Registration system to the Danish Psychiatric Central Register and the Danish National Register of Patients. The information consisted of data for girls and women with no record of mental disorders during the 1995–2007 period who had a first-trimester induced abortion or a first childbirth during that period. We estimated the rates of first-time psychiatric contact (an inpatient admission or outpatient visit) for any type of mental disorder within the 12 months after the abortion or childbirth as compared with the 9-month period preceding the event.»
Em suma: procurou-se verificar se existia correlação entre um abortamento de primeiro trimestre em mulheres sem registo prévio de problemas mentais, e um subsequente contacto entre essas mulheres e um psiquiatra.
Não me parece que o estudo tenha sido mal conduzido. O problema é que a conclusão do estudo é falaciosa. Segundo os autores do estudo, os resultados do mesmo "não sustentam a hipótese de que há um incremento no risco de problemas mentais após um aborto de primeiro trimestre". No entanto, usando lógica elementar, vê-se que os resultados do mesmo também não sustentam a hipótese contrária.
A conclusão do estudo poderia ser interpretada por algumas pessoas na forma de argumento "modus tollens":
1. Se o aborto de primeiro trimestre causar problemas mentais, as mulheres que se submetem a tal aborto tenderão a procurar ajuda psiquiátrica
2. As mulheres que fizeram parte do conjunto-alvo do estudo não manifestaram uma clara procura de ajuda psiquiátrica após o aborto de primeiro trimestre
Conclusão: O aborto de primeiro trimestre não parece causar problemas mentais
Este argumento é logicamente válido, mas a premissa 1 é muito discutível. Uma mulher que aborta mais depressa procura a ajuda de uma amiga ou de um familiar do que ajuda psiquiátrica. É que os efeitos psíquicos do aborto não são comparáveis com os de outros problemas mentais. O profundo sentimento de culpa da mulher que abortou (uma reacção, diga-se de passagem, perfeitamente normal e mentalmente salutar) leva-a, frequentemente, a preferir a privacidade ou a procurar apoio junto de pessoas do seu círculo próximo de confiança. Se uma pessoa que sofre problemas de depressão pode, naturalmente, procurar ajuda psiquiátrica ou psicológica, o mesmo não é linear com uma pessoa que sente um profundo sentimento de culpa e de remorso. Se uma mulher se sente culpada do aborto que procurou, é muito pouco provável que se vá apresentar a um psiquiatra. O peso da responsabilidade moral faz com que, instintivamente, a pessoa não confunda essa situação com a situação de uma doença ou perturbação mental, pois nestes últimos casos não faz sentido discutir culpas. Ninguém sente culpa por ter uma doença, física ou mental. Mas a situação psicológica de uma mulher que procurou um aborto pode ser radicalmente diferente pela presença da culpa.
A conclusão do estudo está redigida de forma a evitar o argumento "modus tollens": note-se como os autores dizem apenas que o estudo "não sustenta a hipótese de que há um incremento no risco de problemas mentais após um aborto de primeiro trimestre". Eles sabem bem que a premissa 1, na forma atrás apresentada, não é sustentável. Se tal premissa fosse sustentável, eles poderiam ter sido mais arrojados no estudo, declarando ter provado não existir correlação entre aborto provocado no primeiro trimestre e sequelas mentais: o argumento "modus tollens" seria perfeitamente válido.
Está aqui a fragilidade do estudo. Pela falta de consistência da suposta relação causal entre aborto provocado e procura de ajuda psicológica ou psiquiátrica, o estudo sai coxo e de pouco serve. Não é que seja impossível que uma mulher procure apoio psicológico após um aborto: isso pode acontecer. O que é inverosímil é que haja uma relação causal clara entre ter sequelas psicológicas derivada de um aborto e procurar, consequentemente, apoio profissional.
De forma análoga, seria um pouco como conduzir um estudo para medir quantas pessoas com problemas de alcoolismo procurariam ajuda profissional na sequência de recaídas graves. É de esperar que nem todas as pessoas com problemas de alcoolismo procurem tal ajuda. A sensação de culpa e de vergonha que assola uma pessoa com problemas de alcoolismo serve como bloqueio a que muitas pessoas nessa situação cheguem a procurar ajuda.
Questões técnicas à parte, o que me choca é a atitude de pessoas como a Ana Matos Pires. Aqui temos uma mulher que tem uma visão brutalmente errada acerca da dignidade de uma mulher grávida, e que aparentemente não se importa de sofismar para proteger a sua insustentável defesa do pretenso "direito" ao aborto. Num texto da sua autoria, ela chega ao ponto de apresentar efeitos psicológicos benéficos decorrentes de um aborto:
«Mas também não minto se afirmar que é, em simultâneo e para muitas mulheres, fonte de alívio, de eutimia e de normalização da reactividade emocional.»
É claro que mente. Que tal sensação de "alívio" e de "eutimia" (ah, nada como usar termos técnicos para esconder erros argumentativos) seja sentida por algumas mulheres logo após o aborto até não surpreende. No instante imediato, é provável que algumas delas se sintam livres dos receios que tinham, receios esses derivados da gravidez (abandono do namorado, perda de emprego, problemas financeiros, etc.). O que interessa é o resto da vida dessas mulheres. O que é relevante, e que a Ana Matos Pires simplesmente descarta, não é a imediata "eutimia" mas sim o choque psicológico que vai acompanhar qualquer mulher mentalmente sã para toda a sua vida: "matei o meu filho!". Por isso, o aborto nunca pode ser "fonte de normalização da reactividade emocional". Que o aborto proporcione, no imediato, um sensação de alívio e de "eutimia" é algo que se espera: é sabido que as mulheres abortam, frequentemente, em situação de medo, de desespero, de pânico perante o futuro. Agora, dizer que o aborto é "fonte" de uma espécie de bem-estar normalizador é uma bruta mentira. Como se pode ignorar, de forma tão descarada, o facto óbvio de que o aborto é um acto de desespero? O facto óbvio de que, se lhes derem ajuda financeira e emocional, se lhes derem encorajamento, se elas não se sentirem ameaçadas com a perda iminente de emprego, com o abandono dos namorados, e outras ameaças do género, a esmagadora maioria das mulheres leva a gravidez para a frente?
Perante a brutalidade do aborto, que poucas mulheres conseguem ignorar durante muito tempo, qualquer mulher normal acaba, mais cedo ou mais tarde, por se dar conta do horror desse acto que pediu para lhe cometerem: filicídio. É de filicídio que estamos a falar! Qualquer pai ou mãe só pode ficar profundamente afectado quando se dá conta de que cometeu filicídio, e se isso acontece em filicídio acidental, quando um pai ou uma mãe mata o seu filho por acidente, quanto mais em situações como a do aborto, em que a vontade da mulher (nem sempre livre, porque muitas vezes é socialmente pressionada para abortar) foi decisiva na morte do seu filho ou filha.
E, perante o horror óbvio do filicídio, e perante a chaga, a marca psicológica indelével que tal mulher portará toda a vida, a Ana Matos Pires entrega-se ao exercício de sofismar. É espantoso! Como mulher que é, pois não sei se também será mãe, mas como mulher que é, ela deveria ter um bocadinho mais de consideração pela saúde mental das mulheres.
Que a causa do pretenso "direito" ao aborto é uma causa irracional, desumana e sustentada em argumentação falaciosa e anti-científica, já se sabe. Mas que uma mulher chegue ao cúmulo de negar o óbvio sofrimento de outras mulheres, invocando pseudo-argumentos e estudos científicos de conclusões tendenciosas, para fazer a desesperada defesa do indefensável, é algo que me parece espantoso e cruel.
sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011
Plano Inclinado - Não se pode dizer mal do avental!
O programa Plano Inclinado foi cancelado. A SIC Notícias procurou explicar, desde modo, o porquê:
“Estamos a ponderar uma nova estratégia para o programa, como já aconteceu noutras situações. Estamos a pensar o que queremos para o programa no futuro”, disse ao PÚBLICO António José Teixeira, director do canal. Para o responsável a suspensão do programa faz parte de "uma estratégia de renovação”. Teixeira não diz se o programa volta. “Mas não há nenhum programa novo para aquele lugar de grelha”, confirma.
Como se vê, a SIC Notícias não explicou nada. António José Teixeira diz que acabou com o Plano Inclinado como parte de "uma estratégia de renovação", ao mesmo tempo que diz que "não há nenhum programa novo para aquele lugar de grelha". Ou seja, "renovou" a grelha trocando o Plano inclinado pelo vazio. Mas há-de-se arranjar, num instante, qualquer coisinha boa para preencher o lugar do Crespo e do Medina!
À primeira vista, poder-se-ia pensar que o Governo teria decidido acabar com o programa, depois de se ver enxovalhado ao longo de quase todos os programas do Plano Inclinado, programas esses que desmascararam a podridão, a incompetência, a bandalheira da nossa classe política, sobretudo da pandilha que nos governa. Não seria a primeira vez que este Governo acabaria com um programa incómodo. Mas é estranho: porquê tanto tempo para o Governo acabar com o Plano Inclinado? Por masoquismo?
Curiosamente, e certamente por coincidência, por pura coincidência, o último programa que foi para o ar teve como convidado Henrique Neto, o engenheiro socialista que se tem atrevido a criticar a influência negativa de certa Maçonaria na classe política portuguesa:
E pronto. Acabou-se o único programa da televisão nacional que eu ainda via com gosto...
Era indispensável silenciar quem fala a verdade! O último programa ultrapassou o que certas pessoas eram capazes de tolerar, ao denunciar os escândalos dos financiamentos partidários. Mas a heresia da crítica das ligações da Maçonaria à política foi a sentença de morte do Plano Inclinado. Veja-se, em especial, a conversa após o instante 26'30, e o testemunho de Henrique Neto:
«E verifiquei, pouco a pouco, que havia como que... a Maçonaria era usada para proteger ou para potenciar as possibilidades de certas pessoas, de certos membros, quando eles tinham oportunidades de acesso a lugar qualquer: lugar na Economia, lugar na... bom, essa prática que eu verifiquei que era uma prática, a chamada "solidariedade" entre os maçónicos, que também já estava a ser utilizada por pessoas que nem sequer eram das irmandades...»
PS: Jorge Coelho foi o autor da célebre: "Quem se mete com o PS, leva!". Está na altura de actualizar, e precisar melhor, essa bela tirada: "Quem se mete com os aventais, leva!".
“Estamos a ponderar uma nova estratégia para o programa, como já aconteceu noutras situações. Estamos a pensar o que queremos para o programa no futuro”, disse ao PÚBLICO António José Teixeira, director do canal. Para o responsável a suspensão do programa faz parte de "uma estratégia de renovação”. Teixeira não diz se o programa volta. “Mas não há nenhum programa novo para aquele lugar de grelha”, confirma.
Como se vê, a SIC Notícias não explicou nada. António José Teixeira diz que acabou com o Plano Inclinado como parte de "uma estratégia de renovação", ao mesmo tempo que diz que "não há nenhum programa novo para aquele lugar de grelha". Ou seja, "renovou" a grelha trocando o Plano inclinado pelo vazio. Mas há-de-se arranjar, num instante, qualquer coisinha boa para preencher o lugar do Crespo e do Medina!
À primeira vista, poder-se-ia pensar que o Governo teria decidido acabar com o programa, depois de se ver enxovalhado ao longo de quase todos os programas do Plano Inclinado, programas esses que desmascararam a podridão, a incompetência, a bandalheira da nossa classe política, sobretudo da pandilha que nos governa. Não seria a primeira vez que este Governo acabaria com um programa incómodo. Mas é estranho: porquê tanto tempo para o Governo acabar com o Plano Inclinado? Por masoquismo?
Curiosamente, e certamente por coincidência, por pura coincidência, o último programa que foi para o ar teve como convidado Henrique Neto, o engenheiro socialista que se tem atrevido a criticar a influência negativa de certa Maçonaria na classe política portuguesa:
E pronto. Acabou-se o único programa da televisão nacional que eu ainda via com gosto...
Era indispensável silenciar quem fala a verdade! O último programa ultrapassou o que certas pessoas eram capazes de tolerar, ao denunciar os escândalos dos financiamentos partidários. Mas a heresia da crítica das ligações da Maçonaria à política foi a sentença de morte do Plano Inclinado. Veja-se, em especial, a conversa após o instante 26'30, e o testemunho de Henrique Neto:
«E verifiquei, pouco a pouco, que havia como que... a Maçonaria era usada para proteger ou para potenciar as possibilidades de certas pessoas, de certos membros, quando eles tinham oportunidades de acesso a lugar qualquer: lugar na Economia, lugar na... bom, essa prática que eu verifiquei que era uma prática, a chamada "solidariedade" entre os maçónicos, que também já estava a ser utilizada por pessoas que nem sequer eram das irmandades...»
PS: Jorge Coelho foi o autor da célebre: "Quem se mete com o PS, leva!". Está na altura de actualizar, e precisar melhor, essa bela tirada: "Quem se mete com os aventais, leva!".
Evangelho de hoje - Jesus e o Divórcio
Evangelho segundo S. Marcos 10,1-12.
Saindo dali, foi para a região da Judeia, para além do Jordão. As multidões agruparam-se outra vez à volta dele, e outra vez as ensinava, como era seu costume. Aproximaram-se uns fariseus e perguntaram-lhe, para o experimentar, se era lícito ao marido divorciar-se da mulher. Ele respondeu-lhes: «Que vos ordenou Moisés?» Disseram: «Moisés mandou escrever um documento de repúdio e divorciar-se dela.» Jesus retorquiu: «Devido à dureza do vosso coração é que ele vos deixou esse preceito. Mas, desde o princípio da criação, Deus fê-los homem e mulher. Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe para se unir à sua mulher, e serão os dois um só. Portanto, já não são dois, mas um só. Pois bem, o que Deus uniu não o separe o homem.» De regresso a casa, de novo os discípulos o interrogaram acerca disto. Jesus disse: «Quem se divorciar da sua mulher e casar com outra, comete adultério contra a primeira. E se a mulher se divorciar do seu marido e casar com outro, comete adultério.»
Saindo dali, foi para a região da Judeia, para além do Jordão. As multidões agruparam-se outra vez à volta dele, e outra vez as ensinava, como era seu costume. Aproximaram-se uns fariseus e perguntaram-lhe, para o experimentar, se era lícito ao marido divorciar-se da mulher. Ele respondeu-lhes: «Que vos ordenou Moisés?» Disseram: «Moisés mandou escrever um documento de repúdio e divorciar-se dela.» Jesus retorquiu: «Devido à dureza do vosso coração é que ele vos deixou esse preceito. Mas, desde o princípio da criação, Deus fê-los homem e mulher. Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe para se unir à sua mulher, e serão os dois um só. Portanto, já não são dois, mas um só. Pois bem, o que Deus uniu não o separe o homem.» De regresso a casa, de novo os discípulos o interrogaram acerca disto. Jesus disse: «Quem se divorciar da sua mulher e casar com outra, comete adultério contra a primeira. E se a mulher se divorciar do seu marido e casar com outro, comete adultério.»
quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011
Frei Bento - O incansável verdugo da Humanae Vitae
Frei Bento diz frequentemente coisas em contradição com o Magistério, e hoje em dia ninguém acha isso estranho. E, sobretudo, os "media" não se coíbem de lhe dar espaço, mesmo sendo evidente que se trata de um teólogo cuja doutrina não é ortodoxa. Não digo que os "media" devam evitar dar espaço de antena a católicos com ideias heterodoxas, mas que deveriam, em nome da neutralidade, dar espaço de antena, já agora, aos chatos dos católicos que gostam da coerência.
Diz a Lumen Gentium (Constituição Dogmática do Vaticano II):
«E os fiéis devem conformar-se ao parecer que o seu Bispo emite em nome de Cristo sobre matéria de fé ou costumes, aderindo a ele com religioso acatamento. Esta religiosa submissão da vontade e do entendimento é por especial razão devida ao magistério autêntico do Romano Pontífice, mesmo quando não fala ex cathedra; de maneira que o seu supremo magistério seja reverentemente reconhecido, se preste sincera adesão aos ensinamentos que dele emanam, segundo o seu sentir e vontade; estes manifestam-se sobretudo quer pela índole dos documentos, quer pelas frequentes repetições da mesma doutrina, quer pelo modo de falar.»
Religiosa submissão da vontade e do entendimento!
Espantoso! Haverá dúvidas sobre este trecho?
Vejamos agora o que Frei Bento escreveu recentemente, no contexto da sua eterna guerra contra a Humanae Vitae de Paulo VI:
«3. Mesmo nos temas que não eram considerados dogmas de fé nem palavra infalível dos Papas – creio que desde João XXIII nunca mais se ouviu falar de nenhuma – caiu-se na armadilha de considerar muitas declarações importantes, para a orientação pastoral da Igreja, como definitivas e irreformáveis.», in Não há teologias definitivas.
Comparemos com a Lumen Gentium:
«Desta mesma infalibilidade goza o Romano Pontífice em razão do seu ofício de cabeça do colégio episcopal, sempre que, como supremo pastor dos fiéis cristãos, que deve confirmar na fé os seus irmãos (cfr. Lc. 22,32), define alguma doutrina em matéria de fé ou costumes (78). As suas definições com razão se dizem irreformáveis por si mesmas e não pelo consenso da Igreja, pois foram pronunciadas sob a assistência do Espírito Santo, que lhe foi prometida na pessoa de S. Pedro. Não precisam, por isso, de qualquer alheia aprovação, nem são susceptíveis de apelação a outro juízo.»
É evidente que a Humanae Vitae de Paulo VI (repudiada e não aceite por Frei Bento) está dentro desta categoria, e o próprio Paulo VI deixa isso claro no texto da encíclica:
«Nenhum fiel quererá negar que compete ao Magistério da Igreja interpretar também a lei moral natural. É incontestável, na verdade, como declararam muitas vezes os nossos predecessores,(1) que Jesus Cristo, ao comunicar a Pedro e aos Apóstolos a sua autoridade divina e ao enviá-los a ensinar a todos os povos os seus mandamentos, (2) os constituía guardas e intérpretes autênticos de toda a lei moral, ou seja, não só da lei evangélica, como também da natural, dado que ela é igualmente expressão da vontade divina e que a sua observância é do mesmo modo necessária para a salvação.(3)»
Eu fico estupefacto com o atrevimento de Frei Bento, mas mais ainda fico com as pessoas que não vêem as gritantes contradições entre várias das ideias do Frei Bento e a doutrina católica ortodoxa. Este artigo foi publicado no jornal Público a 28 de Novembro de 2010. Um católico lê isto e interroga-se, com razão: "este senhor, teólogo e académico, continua a combater uma encíclica de um Papa, e ... não se passa nada!". Estamos perante um problema, como dizia o teólogo norte-americano Ralph McInerny, de um conflito entre dois magistérios: o Magistério autêntico da Igreja Católica, personificado no Papa e nos Bispos a ele unidos, e um magistério espúrio, falso e impostor, personificado em sacerdotes e teólogos que teimam em desobedecer ao Magistério, pretendendo constituir, para os fiéis leigos e para todo o Povo de Deus, como que um novo magistério, o magistério dos teólogos progressistas.
Senhor, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem...
Diz a Lumen Gentium (Constituição Dogmática do Vaticano II):
«E os fiéis devem conformar-se ao parecer que o seu Bispo emite em nome de Cristo sobre matéria de fé ou costumes, aderindo a ele com religioso acatamento. Esta religiosa submissão da vontade e do entendimento é por especial razão devida ao magistério autêntico do Romano Pontífice, mesmo quando não fala ex cathedra; de maneira que o seu supremo magistério seja reverentemente reconhecido, se preste sincera adesão aos ensinamentos que dele emanam, segundo o seu sentir e vontade; estes manifestam-se sobretudo quer pela índole dos documentos, quer pelas frequentes repetições da mesma doutrina, quer pelo modo de falar.»
Religiosa submissão da vontade e do entendimento!
Espantoso! Haverá dúvidas sobre este trecho?
Vejamos agora o que Frei Bento escreveu recentemente, no contexto da sua eterna guerra contra a Humanae Vitae de Paulo VI:
«3. Mesmo nos temas que não eram considerados dogmas de fé nem palavra infalível dos Papas – creio que desde João XXIII nunca mais se ouviu falar de nenhuma – caiu-se na armadilha de considerar muitas declarações importantes, para a orientação pastoral da Igreja, como definitivas e irreformáveis.», in Não há teologias definitivas.
Comparemos com a Lumen Gentium:
«Desta mesma infalibilidade goza o Romano Pontífice em razão do seu ofício de cabeça do colégio episcopal, sempre que, como supremo pastor dos fiéis cristãos, que deve confirmar na fé os seus irmãos (cfr. Lc. 22,32), define alguma doutrina em matéria de fé ou costumes (78). As suas definições com razão se dizem irreformáveis por si mesmas e não pelo consenso da Igreja, pois foram pronunciadas sob a assistência do Espírito Santo, que lhe foi prometida na pessoa de S. Pedro. Não precisam, por isso, de qualquer alheia aprovação, nem são susceptíveis de apelação a outro juízo.»
É evidente que a Humanae Vitae de Paulo VI (repudiada e não aceite por Frei Bento) está dentro desta categoria, e o próprio Paulo VI deixa isso claro no texto da encíclica:
«Nenhum fiel quererá negar que compete ao Magistério da Igreja interpretar também a lei moral natural. É incontestável, na verdade, como declararam muitas vezes os nossos predecessores,(1) que Jesus Cristo, ao comunicar a Pedro e aos Apóstolos a sua autoridade divina e ao enviá-los a ensinar a todos os povos os seus mandamentos, (2) os constituía guardas e intérpretes autênticos de toda a lei moral, ou seja, não só da lei evangélica, como também da natural, dado que ela é igualmente expressão da vontade divina e que a sua observância é do mesmo modo necessária para a salvação.(3)»
Eu fico estupefacto com o atrevimento de Frei Bento, mas mais ainda fico com as pessoas que não vêem as gritantes contradições entre várias das ideias do Frei Bento e a doutrina católica ortodoxa. Este artigo foi publicado no jornal Público a 28 de Novembro de 2010. Um católico lê isto e interroga-se, com razão: "este senhor, teólogo e académico, continua a combater uma encíclica de um Papa, e ... não se passa nada!". Estamos perante um problema, como dizia o teólogo norte-americano Ralph McInerny, de um conflito entre dois magistérios: o Magistério autêntico da Igreja Católica, personificado no Papa e nos Bispos a ele unidos, e um magistério espúrio, falso e impostor, personificado em sacerdotes e teólogos que teimam em desobedecer ao Magistério, pretendendo constituir, para os fiéis leigos e para todo o Povo de Deus, como que um novo magistério, o magistério dos teólogos progressistas.
Senhor, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem...
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