sábado, 26 de maio de 2012

Alvin Plantinga - Ciência e religião teísta



Alvin Plantinga é um dos mais competentes filósofos analíticos da actualidade. E é a principal figura por detrás do regresso da filosofia cristã às universidades anglo-saxónicas (na Europa continuamos atolados, em boa parte, num pós-modernismo decadente). Mas ele é bem mais do que isso: é uma pessoa impecável, um excelente comunicador. Nesta palestra, Plantinga apresenta o seu mais recente livro sobre a relação entre ciência e religião: "Science and religion - where the conflict really lies". Nesse livro, Plantinga não defende apenas que o conflito entre cristianismo e ciência é ilusório ou superficial: ele defende que o conflito está entre ateísmo (o naturalismo materialista) e ciência. Nesta palestra, Plantinga apresenta o seu principal argumento: quando conjugadas, as teses do ateísmo materialista e do evolucionismo destroem a nossa confiança nas nossas capacidades cognitivas. Se tudo o que existe é matéria e se o evolucionismo é um processo não guiado, então as nossas faculdades cognitivas não são minimamente fiáveis. E por isso, a eventual crença de um ateísmo evolucionista e materialista auto-refuta-se. Vale a pena ver o vídeo várias vezes, com a calma e o tempo que ele merece.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

A Igreja Católica e a Maçonaria

No passado Sábado fiz uma palestra intitulada A Igreja Católica e a Maçonaria, na qual expus as origens históricas da Maçonaria moderna (especulativa, simbólica) e alguns detalhes acerca da primeira condenação papal e das suas razões. Historicamente, cingi-me apenas ao século XVIII, pelo que esta apresentação, necessariamente, nada contém acerca da maçonaria irregular ou da fase anticlerical de certas correntes maçónicas. Creio que, demonstrando de que forma a Maçonaria, na sua génese cristã (protestante) e inglesa, já é incompatível com a doutrina católica, será ainda mais evidente a sua incompatibilidade em ulteriores épocas históricas quando certos elementos e correntes da Maçonaria trabalharam contra a Igreja Católica e contra o cristianismo.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

O baixo nível da revista Sábado

Quem compra a revista Sábado e a lê com dois dedos de testa, já se deu conta de que essa revista está a querer conquistar mercado de leitores à TV Guia e à revista Maria. Os temas de capa oscilam, "grosso modo", entre quatro categorias: sexo, Igreja Católica (normalmente nos sub-temas Opus Dei, evangelhos secretos, revelação de segredos que a Igreja ocultou, códigos secretos, negócios ocultos, etc.), destinos de férias ou restaurantes, e finalmente, sexo (que inclui a sub-categoria "vida sexual dos padres e das freiras". Este tipo de literatura faz lembrar os bons velhos tempos panfletários da Primeira República e dos "papa-padres". Hoje em dia, os "media" são o pelourinho ideal para supliciar a Igreja Católica ao abrigo do último preconceito que a nossa sociedade tolera: o anticatolicismo. O Opus Dei, nos nossos tempos, cumpre a função outrora a cargo da Companhia de Jesus: ser o alvo das teorias da conspiração e de todo o tipo de traulitadas anticatólicas. O comunicado de imprensa emitido hoje pelo Opus Dei em Portugal é um documento muito educado, civilizado, e de uma elevação tal que chega a chocar quando contrastado com a falta de seriedade e o populismo rasca da revista Sábado.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Maçon e católico?

Maçon e católico? Impossível. Uma contradição. Aqui fica alguma documentação, que peca certamente por omissão, acerca da incompatibilidade entre catolicismo e Maçonaria. A pertença de um católico à Maçonaria está vedada desde 28 de Abril de 1738, data da bula "In eminenti" de Clemente XII, o primeiro documento do Magistério a declarar a incompatibilidade e a condenar a Maçonaria de forma clara. Para se ter uma ideia das datas em questão, a Maçonaria moderna data de 1717, ano da fundação da Grande Loja de Inglaterra, a loja mãe da Maçonaria, que é o resultado da fusão de quatro pequenas lojas londrinas que se reuniam em tabernas. O projecto de fundação tem como figuras de proa o pastor protestante escocês (presbiteriano) James Anderson (1680-1739) e o cientista Téophile Desaguliers, oriundo de uma família calvinista francesa, e membro da Royal Society. Dado que o projecto da Maçonaria moderna nasceu em solo protestante, e pela mão de protestantes, nunca fez grande sentido ser-se católico e maçon, apesar de terem existido lojas quase exclusivamente compostas por católicos, como é um caso paradigmático a Casa Real dos Pedreiros Livres da Lusitânia, um órgão independente da maçonaria andersoniana, composta maioritariamente por católicos irlandeses, e estabelecida em Lisboa por volta de 1733-34, mas que se dissolveu voluntariamente aquando da bula de Clemente XII.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Lully - "Marcha para a cerimónia turca"

A "Marcha para a cerimónia turca" do francês Jean-Baptiste Lully (1632-1687), compositor da corte de Luís XIV de França. Esta marcha faz parte da comédia-ballet em cinco actos, "Le bourgeois Gentilhomme" (1670). A orquestra é a do "Concert des Nations", dirigida por Jordi Savall.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Os "Protocolos dos Sábios de Sião" e "O Avante!"

Um artigo de Jorge Messias publicado recentemente no "Avante!" vem defender a factualidade da infame farsa dos "Protocolos dos Sábios de Sião", um documento forjado pelo antisemita Sergei Nilus na Rússia czarista entre 1902 e 1903, e que dava conta de uma suposta conspiração judaica internacional para o controlo dos destinos do Mundo.
Está hoje amplamente provado que este documento forjado provém da adulteração e combinação de dois textos diferentes, um da autoria do anti-bonapartista Maurice Joly (1829-1879), escrito em 1864, "Dialogue aux Enfers entre Machiavel et Montesquieu, ou la politique de Machiavel au XIXe siècle", onde Joly dava conta de uma suposta conspiração dos descendentes de Napoleão I para controlar o Mundo; e um outro texto retirado da novela escrita em 1868 por Retcliffe, pseudónimo de Hermann Goedsche (1815-1878), "Biarritz. Auf dem Judenfriedhof von Prag", na qual um rabi ficcional pronuncia um discurso de conteúdo semelhante ao encontrado nos Protocolos. Sabe-se que Joly, por sua vez, plagiou Eugène Sue (1804-1857) mais concretamente, a sua obra "Les mistères du peuple".
O carácter perigoso desta falsificação, usada amplamente por Hitler como forma de justificação para a perseguição e extermínio dos judeus europeus, ainda hoje se faz sentir, seja através da perigosa associação dos Protocolos ao mito do Priorado de Sião estabelecida por Lincoln, Baigent e Leigh ("O Sangue de Cristo e o Santo Graal", pp. 234-240), seja nos movimentos extremistas que ainda hoje reproduzem e divulgam este documento espúrio um pouco por todo o mundo islâmico como forma de propaganda anti-Israel, ou ainda em certos tipos de propaganda neonazi.
Nada disto é novo: o que espanta é que o Jorge Messias e os editores do "Avante!" ainda não saibam nada disto. Mas a suprema ironia é termos um documento forjado na Rússia czarista pelo antisemita Sergei Nilus, um documento composto com o fito de propaganda czarista e anti-revolucionária, a ser usado como uma referência verídica pelo periódico revolucionário e comunista "O Avante!".

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Curso "Ciência e Fé"

No próximo semestre, vou leccionar um Curso "Ciência e Fé", para a Escola de Leigos do Instituto Diocesano da Formação Cristã. O curso terá quinze sessões, e decorrerá todas as segundas-feiras das 21h30 às 23h na Igreja de Miraflores (Algés), a partir de 17 de Outubro inclusive, até 6 de Fevereiro. Só não haverá curso nas segundas-feiras de 26 de Dezembro e 2 de Janeiro. A inscrição no curso custa 35€.

Agradeço muito a vossa ajuda na divulgação, uma vez que só se fará o curso se existirem pelo menos 30 pessoas inscritas. O formulário para a inscrição encontra-se aqui.

O curso será composto por vários módulos. Os módulos (ainda não definitivos) serão estes:

I- Introdução: o alegado "conflito" entre a Igreja Católica e a Ciência
II- Filosofia grega e cosmologia grega
III- Filosofia medieval e ciência medieval
IV- Inquisição e Ciência
V e VI - O caso Galileu
VII- A revolução científica
VIII- Darwin e a Igreja Católica
IX- Os Argumentos Cosmológico e Teleológico para a existência de Deus
X- Filosofia da Mente e Inteligência Artificial
XI- Milagres e Ciência
XII- Desafios ao diálogo entre Fé e Ciência

terça-feira, 7 de junho de 2011

Ben Shapiro - Autor de "Primetime Propaganda"



Para os mais distraídos, a actriz que faz de "ministro" do "casamento" lésbico no famoso episódio da série "Friends" é a Candace Gingrich, a activista LGBT, irmã do republicano Newt Gingrich, que se converteu ao catolicismo em 2009. Se o "casting" de Candace para esse papel não é propaganda, então nada é propaganda!

segunda-feira, 6 de junho de 2011

O riso n'"O Nome da Rosa"

(Cristo sorridente, na Abadia Cisterciense de Lérins)

No último "post", um comentador anónimo perguntava:

«Já conheci muitas abordagens sobre o riso, nunca vi nenhuma caricatura ou retrato de deus ou jesus a rir, jesus riu?"

Quando leio perguntas destas, pasmo-me. Pelo seguinte: como será possível uma pessoa viver mergulhada numa cultura como a nossa, de profundas raízes cristãs, e colocar, sequer, a remota possibilidade de Jesus Cristo nunca ter sorrido. É sinal de um quase total alheamento face à cultura cristã que o rodeia. Não é tarefa difícil elencar, a partir do Novo Testamento, as inúmeras situações nas quais Jesus recorre a trocadilhos, alegorias e situações anedóticas. Também não é difícil montar, através de séculos de arte cristã, a iconografia cristã do riso.

Mais à frente no seu comentário, o comentador anónimo alude ao romance de Umberto Eco, O Nome da Rosa, e mais especificamente à personagem do bibliotecário Jorge de Burgos. Para melhor nos situramos no romance de Eco, eis o troço em questão, no filme de Jean-Jacques Annaud (1986):


Esta cena mostra-nos o confronto entre a personagem Guilherme de Baskerville (Sean Connery) e a personagem Jorge de Burgos (Feodor Chaliapin, Jr.). Guilherme quer ler uma obra de Aristóteles sobre comédia, enquanto que Jorge de Burgos, claramente incomodado com a presença de tal obra no "corpus aristotelicum", condena o riso como incompatível com a piedade cristã. Antes de Jorge de Burgos entrar em cena, enquanto Guilherme de Baskerville e Adso de Melk analisam a obra incompleta dos monges misteriosamente assassinados, um monge sobe para um banco de madeira, assustado com um rato. Os restantes monges riem-se da cena. Mas Jorge de Burgos interrompe o momento lúdico, com a tempestiva frase: "verba vana aut risui apta non loqui" ("não pronuncieis palavras vãs, aptas a provocar o riso").

Quem constrói a sua cultura com base em romances e novelas acaba por ter uma visão algo indirecta, na melhor das hipóteses, ou mesmo errada, na pior das hipóteses, acerca da História. Sem querer tirar valor ao romance como género literário, e Umberto Eco é o meu romancista favorito, é arriscadíssimo fundamentar conhecimentos históricos em romances. Se tomamos a ficção de Eco por retrato fiel da realidade medieval, corremos o risco de pegar em Jorge de Burgos e fazer dele o paradigma do escriba medieval. Para além do facto de que Eco não escreve romances de realismo histórico, preferindo estruturar histórias nas quais a verdade se mistura com a ficção de forma por vezes quase imperceptível, no caso particular da personagem Jorge de Burgos e da sua vontade férrea em manter escondido o livro de Aristóteles dedicado à comédia, o retrato de Eco contrasta fortemente com a verdade histórica, como bem explica o Prof. Jean Lauand:

«Deus brinca. Deus cria, brincando. E o homem deve brincar para levar uma vida humana, como também é no brincar que encontra a razão mais profunda do mistério da realidade, que é porque é “brincada” por Deus. Bastaria enunciar essas teses - como veremos, fundamentalíssimas na filosofia do principal pensador medieval, Tomás de Aquino - para reparar imediatamente que entre os diferentes preconceitos que ainda há contra a Idade Média, um dos mais injustos é aquele que a concebe como uma época que teria ignorado (ou mesmo combatido...) - o riso e o brincar.
Naturalmente, não se trata só de Tomás de Aquino; a verdade é que o “homem da época” [2] é muito sensível ao lúdico, convive com o riso, e cultiva a piada e o brincar [3] . Tomás, por sua vez, situa o lúdico nos próprios fundamentos da realidade e no ato criador da Sabedoria divina.
Assim, diante do panegírico do brincar feito por Tomás - e diante da prática do lúdico em toda a educação medieval - torna-se difícil compreender como um erudito do porte de Umberto Eco [4] possa ter querido situar no centro da trama de seu O Nome da Rosa [5] , o impedimento “medieval” da leitura de um tratado de Aristóteles sobre o riso (e no romance S. Tomás é citado como autoridade respeitada não só pelo abade - p. 48 -, mas também pelo fanático bibliotecário Jorge - p. 158 - , para quem o riso é o pior dos males e está disposto a matar para obstruir o acesso a um livro de Aristóteles sobre o tema - pp. 529 e ss.) [6] . É difícil compreender o empenho de proibir essa leitura de Aristóteles, quando o próprio Aquinate - já solenemente canonizado antes de 1327, ano em que se dá a ação do romance - vai muito mais longe do que o Estagirita [7] no elogio do lúdico...», in Deus Ludens - O Lúdico no Pensamento de Tomás de Aquino e na Pedagogia Medieval

Deste modo, a manobra arriscada (para o leitor incauto) de Eco está em retratar a bizarra personagem de Jorge de Burgos como, ao mesmo tempo, um admirador da obra de um São Tomás de Aquino já canonizado, e um defensor da incompatibilidade do riso com a vida cristã. Atrevo-me a sugerir uma resposta à interrogação do Prof. Lauand, pois parece-me que Umberto Eco faz do bibliotecário Jorge de Burgos uma espécie de tomista imaturo, alguém que admirando a obra de São Tomás, não chegou a compreendê-la a fundo, nomeadamente rejeitando a parte em que o Aquinate faz o elogio do riso. Mas Jorge de Burgos não é um defensor da ignorância, abominando o Estagirita, o Pai dos Filósofos, como quem abominasse toda a cultura pagã ou não cristã, uma leitura que poderia ser feita à luz da propaganda anti-medieval dos nossos tempos. A personagem é bem mais rica do que esses estereótipos superficiais, como costumam ser ricas todas as personagens de Eco: Jorge de Burgos admira Aristóteles, e não pode deixar de admirar o já então (a ficção passa-se em 1327) canonizado São Tomás de Aquino. A desilusão de Jorge de Burgos é para com Aristóteles (e talvez também para com a defesa tomista do riso), a quem o bibliotecário não perdoa a impiedade de ter escrito um livro dedicado ao enaltecer da comédia. Jorge de Burgos, que já tinha construído uma ideia "perfeita" de Aristóteles, não aceita nem tolera que o seu autor favorito tenha dedicado o seu génio e tempo ao estudo da "vã" comédia. Jorge de Burgos dá, assim, um excelente exemplo daquele triste estado da mente, que consiste na negação da realidade, quando esta choca com os nossos preconceitos, estado esse tão bem descrito pelo padre Bossuet: "Le plus grand dérèglement de l’esprit, c’est de croire les choses parce qu’on veut qu’elles soient, et non parce qu’on a vu qu’elles sont en effet." (Traité de la connaissance de Dieu et de soi-même, 1670).
A sofisticação da cultura e da escrita de Umberto Eco não permitem leituras simplistas, como a que o comentador anónimo pretendeu fazer, lendo errada e inadvertidamente, nos pensamentos da personagem Jorge de Burgos, a mente do típico escriba medieval.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

São Tomás de Aquino sobre o lúdico

(Nossa Senhora jogando às cartas com o Menino Jesus - painel de azulejos na nave da Sé Catedral de Beja)

É frequente a crítica que se faz à Igreja Católica por esta ser, alegadamente, uma força de bloqueio às coisas boas da vida e ao divertimento. Essa crítica é absurda, sobretudo no contexto da verdadeira revolução que o cristianismo operou durante a Idade Média, e que lançou as bases para a melhor parte do nosso legado cultural. O humor é um legado medieval. Uma das melhores defesas das virtudes do humor, da brincadeira e dos jogos vem do maior teólogo cristão do período, São Tomás de Aquino.

Eis um excerto do segundo artigo da Questão 168 da parte II-II, no qual São Tomás responde à questão de se não haverá alguma virtude nas actividades lúdicas, "Videtur quod in ludis non possit esse aliqua virtus" (a tradução completa deste artigo encontra-se aqui):

«RESPONDO. Assim como o homem precisa de repouso para refazer as forças do corpo, que não pode trabalhar sem parar, pois tem resistência limitada, proporcional a determinadas tarefas, assim também a alma, cuja capacidade também é limitada e proporcional a determinadas operações. Portanto, quando realiza certas atividades superiores à sua capacidade, ela se desgasta e se cansa, sobretudo porque nessas atividades o corpo se consome juntamente, pois a própria alma intelectiva se serve de potências que operam por meio dos órgãos corporais. Ora, os bens sensíveis são conaturais ao homem. Por isso, quando a alma se eleva sobre o sensível para se dedicar a atividades racionais, gera-se aí certa fadiga psíquica, seja nas atividades da razão prática, seja nas da razão especulativa. Mas a fadiga é maior quando o homem se entrega à atividade contemplativa, porque é assim que ele se eleva ainda mais sobre as coisas sensíveis, embora em certas ações exteriores da razão prática possa haver, talvez, um cansaço físico maior. Em ambos os casos, porém, ocorre o cansaço da alma, tanto maior quanto mais se entrega às atividades da razão. Ora, assim como a fadiga corporal desaparece pelo repouso do corpo, assim também é preciso que o cansaço mental se dissipe pelo repouso mental. O repouso da mente é o prazer, como acima se explanou ao se falar das paixões (I-II, q. 25, a. 2; q. 31, a. 1, ad 2). Daí a necessidade de buscar remédio à fadiga da alma em algum prazer, afrouxando o esforço do labor mental. Nesse sentido, lê-se nas “Conferências dos Padres”, que João Evangelista, quando alguém se escandalizou de o ver jogando com os discípulos, mandou um deles de arco na mão que disparasse uma seta. Depois que ele repetiu isso muitas vezes, perguntou-lhe se poderia fazê-lo sem parar, ao que o outro respondeu que, se assim procedesse, o arco se quebraria. Então, o santo observou que, da mesma forma, a alma se romperia se permanecesse sempre tensa.
Essas palavras e ações nas quais não se busca senão o prazer da alma chamam-se divertimentos ou recreações. Lançar mão delas, de quando em quando, é uma necessidade para o descanso da alma. E é o que diz o Filósofo, quando afirma que “em nosso dia-a-dia, é com os jogos que gozamos de algum repouso”. Por isso, é preciso praticá-los de vez em quando.» (o negrito é meu)

Há algo de elementar que os adversários da Igreja Católica, na sua maioria, ainda não entenderam. A Igreja Católica, propondo um credo exigente (como o são todas as coisas verdadeiras), não poderia manter, durante mais de dois mil anos, o seu imenso apelo se esse credo não respondesse às aspirações mais genuínas do ser humano. Se o divertimento, os jogos, o sentido de humor, são características excelentes do ser humano, a Igreja Católica não teria sobrevivido todo este tempo se não fosse compatível com elas, e se não as encorajasse...
Se Chesterton ainda fosse vivo, e perante o colapso do Comunismo do final dos anos oitenta, ele provavelmente diria que essa ideologia morreu por falta de humor. Os comunistas, ao contrário dos cristãos, eram demasiado sérios. Morreram de tédio, e por essa razão (e por outras) desapareceram da face da Terra.

Tárrega - Capricho Árabe

O norte-americano Jason Vieaux, numa interpretação incrível do "Capricho Árabe", uma peça do espanhol Francisco Tárrega (1852-1909). Vieaux usa toda a gama dinâmica da guitarra, aplicando todos os artifícios expressivos nos sítios certos, nos momentos certos. Quando eu for grande, gostava de tocar assim...

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Patiño - Nevando Está

O guitarrista sueco Göran Söllscher interpreta a peça Nevando Está, do compositor boliviano Adrian Patiño Carpio (1895-1951).

De notar que a peça, em ritmo "fox trot", não foi escrita por Patiño para guitarra. Söllscher interpreta uma adaptação para guitarra da autoria do guitarrista e compositor argentino Eduardo Falú (1923-). Este arranjo de Falú tornou a peça Nevando Está numa das peças favoritas para guitarra clássica. Na minha opinião, a interpretação de Söllscher é uma das mais bem sucedidas. É uma peça riquíssima, quer melódica, quer harmónica, quer ritmicamente. Note-se, no final da execução, o uso da tâmbora, que consiste em percutir o tampo da guitarra, mais especificamente a ponte, usando-se a ressonância do instrumento para acrescentar uma camada de percussão à peça.

A peça original


A interpretação de Falú, autor do arranjo para guitarra

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Barrios - Un Sueño en la floresta

O paraguaio Agustín Pío Barrios (1885-1944), que se auto-intitulava "Agustín Barrios Mangoré" (em honra da cultura Guarani), é um dos mais geniais compositores para guitarra. Há quem o chame o Bach das Américas, mas o estilo de Barrios é suficientemente único e brilhante para não precisar de comparações. Barrios não era apenas um grande guitarrista, era também um grande homem, com uma grande alma. "Un sueño en la floresta", aqui executada pela sua conterrânea Berta Rojas, é uma das suas obras mais notáveis, sobretudo pela beleza das frases em trémolo.

sábado, 28 de maio de 2011

15 de Maio de 2011: o rito antigo de volta a São Pedro!


Quando foi eleito para a cátedra de São Pedro, Bento XVI foi considerado por muitos como um papa de transição. Com seis anos de papado concluídos, Bento XVI não pára de surpreender, refutando os que o viam como um Papa meramente transitório entre João Paulo II e um futuro Papa mais novo (Joseph Ratzinger foi eleito Papa com 78 anos de idade).

No dia 7 de Julho de 2007, Bento XVI encerrou um capítulo doloroso para a Igreja, e escancarou as portas do futuro da liturgia romana, com a promulgação da Carta Apostólica Summorum Pontificum, na qual liberou o uso do rito antigo, agora chamado de "forma extraordinária" da liturgia romana, cuja última edição datava de 1962, durante o Papado de João XXIII. Digo doloroso, porque na esteira de reforma litúrgica que culminou com a publicação do novo missal (agora chamado de "forma ordinária" da liturgia romana) de Paulo VI, não foram poucas as pessoas que quiseram, desde então, manter a prática do rito antigo, enquanto este era abandonado um pouco por toda a parte. E, tragicamente, alguns grupos de católicos, por vezes chamados de "tradicionalistas", associaram a manutenção da prática desse rito à rejeição do Concílio Vaticano II. Alguns mais extremistas, rejeitando não só a reforma litúrgica e o Vaticano II, chegaram ao ponto de dizer que a Sé de Pedro estava vaga desde Pio XII, considerando hereges todos os papas posteriores (são os "sedevacantistas"). Estes movimentos, cuja desobediência a Roma varia em maior ou menor grau, afastaram-se da Igreja Católica, e o seu afastamento gerou feridas. Por outro lado, outros movimentos dentro da Igreja, cuja heresia modernista varia em maior ou menor grau, promovendo consciente ou inconscientemente uma erosão da liturgia (aliás, em contraste com as decisões do Concílio), geraram feridas de sinal oposto. Bento XVI está a colocar um ponto final em tudo isto, dando uma lição, quer aos "tradicionalistas" que desobedecem ao Santo Padre, quer aos hereges "modernistas" que têm promovido, no último meio século, a dissolução da tradição católica, nomeadamente da liturgia.

Bento XVI, em 2007, com a Summorum Pontificum, sarou essas feridas. Bento XVI não iniciou este processo, uma vez que João Paulo II já tinha dado passos importantes no sentido do que veio a ser a Summorum Pontificum (por exemplo, a Carta Apostólica Ecclesia Dei, de 1998). Mas Bento XVI levou o processo até ao fim.

Porque é que tudo isto é importante?
Alguns católicos julgam que isto não passa de saudosismos inúteis. Outros julgam que isto implica o regresso do latim à liturgia. Os equívocos são imensos. O missal de Paulo VI era em latim, e o rito ordinário previa o uso do vernáculo como excepção. Infelizmente, o vernáculo tornou-se regra, a tal ponto que hoje em dia o comum dos fiéis tem enormes dificuldades em pronunciar as mais simples expressões litúrgicas em latim. No espaço de meio século, os católicos praticamente perderam um património litúrgico multissecular, quer simbólico, quer pictórico, quer arquitectónico, quer musical, quer textual, quer gestual.

A depredação litúrgica que se seguiu ao Vaticano II não consistiu numa obediência a esse grande concílio, mas sim numa traição ao mesmo. Hoje em dia, as nossas liturgias estão marcadas pela banalização de gestos espúrios à tradição católica, confusões infindáveis acerca do papel dos leigos e do sacerdote na liturgia, e emprego de formas musicais de tão má qualidade, e de origem tão pouco sacra, que se tornou impossível reconhecê-las como música litúrgica. Deitámos fora um tesouro.

Bento XVI está a recuperar esse tesouro, que todos nós deitamos na lixeira há meio século atrás. Esta recuperação ficará na História como uma das marcas mais indeléveis do seu papado. Mantendo a fidelidade ao Concílio Vaticano II, e à reforma litúrgica que culminou no Missal de Paulo VI (afinal de contas, o rito ordinário, ou seja, principal da liturgia romana), o actual Papa trouxe de volta o usus antiquior, e com ele voltou todo o esplendor litúrgico dessa tradição. Como o Papa explica, a forma ordinária da liturgia romana pode ser enriquecida com a prática da forma extraordinária, e vice-versa. É precisamente a mesma hermenêutica da "reforma na continuidade", aplicada agora à liturgia, que Bento XVI tem aplicado de forma incansável em defesa da correcta leitura do Vaticano II.

Os velhos do Restelo dirão que a forma extraordinária é antiquada. Mas, um pouco como dizia o Chesterton, há algo de curioso acerca das coisas consideradas antiquadas pelos que se acham "modernos". Se uma coisa sobrevive tempo suficiente para ser considerada antiquada pelos "modernos", é porque tem certamente mais valor do que outras coisas que nem sequer sobreviveram para receber esse epíteto dos bem-pensantes do nosso tempo.

Aqui em Portugal, não tem faltado resistência à Summorum Pontificum. Dizem-nos que é porque os portugueses não estão interessados na forma extraordinária, ou porque já se esqueceram do latim. Uma curiosa ironia, visto que, como referi atrás, o rito ordinário, o de Paulo VI, prescreve o latim como norma. Ou seja, os guardiães do rito ordinário não o têm aplicado bem, o que teve com consequência a óbvia erosão da cultura litúrgica dos fiéis. No entanto, cresce de dia para dia o número de católicos desejosos de conhecer e de viver essa experiência litúrgica multissecular que é a forma extraordinária do rito romano.

Na Summorum Pontificum, Bento XVI propôs um período de três anos para se avaliar a eficácia da sua aplicação e para se debaterem eventuais dificuldades. Passado esse período, e depois de realizados três Congressos dedicados ao tema, a Comissão Pontifícia Ecclesia Dei assinou, no passado dia 30 de Abril, a instrução Universae Ecclesiae, tornada pública a 13 de Maio, uma data que certamente não é uma coincidência.

Este documento torna definitiva a liberalização do rito antigo para todos os fiéis que o pretenderem, esclarecendo certos termos e expressões da Summorum Pontificum que tinham recebido interpretações erradamente restritivas. Aguardo com grande expectativa a primeira missa segundo o usus antiquior aqui em Lisboa. Será certamente algo de admirável e memorável!

No passado dia 15 de Maio, quase meio século depois, a forma extraordinária do rito romano regressou à Basílica de São Pedro. Uma data histórica! Foi celebrada Missa Pontifícia no Faldistório, no altar da Cátedra, pelo Cardeal Walter Brandmüller. O facto de ter sido o Cardeal Brandmüller a celebrá-la enche-me de imensa satisfação. Trata-se de um grande historiador, um dos maiores especialistas em história conciliar, e um dos braços direitos de Bento XVI na defesa da interpretação do Concílio Vaticano II segundo a hermenêutica da continuidade, e contra a hermenêutica da ruptura, que pretende fazer do Vaticano II um Concílio contra todos os anteriores. Brandmüller é um dos mais recentes cardeais do Colégio Cardinalício (20 de Novembro de 2010), mas a sua obra publicada é há muito conhecida dos que se interessam por certos temas importantes da História da Igreja, como sejam o caso Galileu, o papel da Igreja Católica na Segunda Guerra Mundial, ou a história dos Concílios.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

A moral viscosa de Passos Coelho

É de se pasmar...
Passos Coelho, aquando da promulgação da Lei do Aborto, manifestou publicamente o seu apoio à dita. Agora, em entrevista dada recentemente à Rádio Renascença, mostra uma posição mais ambígua...

«O presidente do PSD recorda que esteve “há muitos anos do lado daqueles que achavam que era preciso legalizar o aborto - não era liberalizar o aborto, era legalizar a interrupção voluntária da gravidez -, porque há condições excepcionais que devem ser tidas em conta” e não se deve “empurrar as pessoas que são vítimas dessas circunstâncias para o aborto clandestino”.»

Está à vista a estratégia: Passos Coelho quer puxar para o PSD alguns votos do CDS. Mas os eleitores dotados de valores morais que estejam indecisos entre PSD e CDS não se podem deixar enganar. Passos Coelho, procurando passar a imagem de preocupação pela manifesta generalização ("liberalização") do aborto, pelos vistos insiste na sua legalização. Ou seja, insiste na ideia insana de quem um crime pode ser legal. Já para não falar nas famigeradas "condições excepcionais", pois se matar um ser humano inocente é um acto claramente imoral, não se vê onde estão as ditas condições de excepção, ou seja, não se entende quais são as circunstâncias que tornam legítimo matar um ser humano inocente.

Os eleitores não se podem deixar enganar. A moral de Passos Coelho é a mesma de José Sócrates. São políticos profissionais, relativistas, que consideram que a moral se define por consensos alargados e por referendos. Refugiam-se em chavões ambíguos, procuram ao mesmo tempo parecer modernos e responsáveis, e acabam por não ser nem uma coisa nem outra.

E, finalmente, fazem-nos de parvos. Ao que parece, segundo Passos Coelho, algumas mulheres, antes da famigerada lei de 11 de Fevereiro de 2007, eram "empurradas" para o aborto clandestino. Ou seja, não viam outra alternativa para as suas gravidezes senão a de as destruir, matando os seus filhos. E o Estado, que deve fazer, segundo Passos Coelho? Ora é claro: ajudá-las a matar os seus filhos. Isso sim, é serviço público. Não um aborto clandestino, um aborto sem o preenchimento do formulário DS-1845, um aborto sem a assinatura de uma junta médica, sem o carimbo da clínica da Yolanda. Um aborto decente tem todas essas formalidades e mais algumas. Isso é que é um aborto decente.

Assim, que deve o Estado fazer às mulheres que se sentem "empurradas" para o aborto? Ora, deve "empurrá-las" para o aborto legal! Está fora de questão prestar apoio à gravidez e à maternidade! Está fora de questão ajudá-las em questões jurídicas (quando são ameçadas por namorados, familiares ou patrões), ou dar-lhes fraldas e papa para o bebé. Isso não é moderno. Essas tarefas de apoio à maternidade ficam para aqueles grupos de extremistas católicos, para os "talibans da vida".

O Estado presta um nobre serviço: o aborto legal! A destruição legal de seres humanos inocentes, em ambiente hospitalar controlado, e tudo pago pelos contribuintes. Isso é que é modernidade! Mas Passos Coelho, o pós-moderno, para além de querer esse aborto moderno, quer regulamentá-lo mais um bocadinho. Torná-lo um bocadinho menos chocante para os eleitores mais sensíveis, talvez trocando alguns abortos à oitava semana com Mifepristone (RU-485) por abortos à primeira ou segunda semana com Levonorgestrel (vulgo, "pílula do dia seguinte")... Mas sobretudo, o que Passos Coelho quis, com esta entrevista calculista na Rádio Renascença, foi enganar uns quantos potenciais eleitores do CDS, levando-os a votar, de forma incauta, no PSD. Apesar de as sondagens o sugerirem, nem todos os eleitores são parvos.

Adenda (30 de Maio) : Após ler os comentários que foram feitos a este "post", sinto-me obrigado a clarificar o seguinte: este "post" visava criticar o oportunismo político de Passos Coelho, que está claramente a querer ir buscar mais uns quantos votos à direita do PSD, dando na entrevista à RR um ar de "conservador" que choca com o ar de "progressista" que ele quis dar há uns tempos, quando pela primeira vez se pronunciou sobre o tema do aborto. No entanto, este meu "post" não deve ser interpretado como um apelo ao voto no CDS, e vejo que alguns leitores assim o interpretaram (o meu texto permitia essa interpretação). Não critico as pessoas que, de boa consciência católica, queiram votar CDS por causa das várias posições pró-vida desse partido, mas eu não estou em condições de recomendar o voto no CDS, uma vez que não tenho a minha decisão ainda tomada nessa matéria. É sabido que há posições dentro do CDS que não são compatíveis com a Doutrina da Igreja, pelo que a questão não é fácil.

terça-feira, 24 de maio de 2011

IST - 100 anos


Foi ontem! Gostei especialmente dos discursos do Presidente do IST, Prof. António Cruz Serra (por ter dito coisas politicamente incorrectas mas muito verdadeiras), e do discurso do Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Prof. Mariano Gago (pela eficácia de um discurso sintético mas cheio de conteúdo cultural). Os restantes discursos tiveram pouco brilho...
Fez-se também a justa homenagem ao fundador do IST, o Prof. Alfredo Bensaude (1856-1941).

quinta-feira, 19 de maio de 2011

David Gilmour - Marooned


Esta incrível exibição do David Gilmour teve lugar em 2004, por ocasião do 50º aniversário da guitarra Fender Stratocaster. A música Marooned é do álbum dos Pink Floyd, The Division Bell (1994).

domingo, 15 de maio de 2011

Halos e milagres

Fotografia: Agência Lusa

A notícia tem dado que falar. Na passada sexta-feira, no Santuário de Fátima, no momento em que se exibia um filme sobre o Beato João Paulo II, surgiu no céu um halo em torno do Sol. Trata-se de um fenómeno meteorológico bem conhecido, causado pela refracção dos raios solares em partículas de gelo, normalmente pertencentes a nuvens do tipo cirro. O fenómeno da passada sexta-feira causou comoção em vários peregrinos que estavam no Santuário, tendo alguns exclamado espontaneamente: "milagre!"
Assim que os "media" começaram a divulgar o sucedido, logo surgiram os corifeus do materialismo dito "científico", que se apressaram a soterrar as exclamações populares sob pilhas de suposta erudição científica. Falou-se, de forma arrogante e elitista, contra o "povo ignorante" que não saberia o que é um halo ou o que causa um halo. Ora, o mais elementar bom senso obriga-me a distinguir as coisas: até acredito que uma parte do povo não soubesse explicar o mecanismo que provoca o fenómeno meteorológico em discussão. Mas já não acredito que a maioria das pessoas presentes em Fátima nunca tivesse visto um halo, dado que sendo um fenómeno relativamente raro, não é assim tão raro que uma pessoa possa viver uma vida inteira sem o ver.
Eu, que não tenho formação universitária em Meteorologia, quando vi as fotografias não hesitei nem por um instante de que se tratasse de um halo solar. Não me recordo se alguma vez vi um "ao vivo", mas certamente que já tinha visto fotografias de halos, pelo que reconheci logo o fenómeno.
Assim, do grupo de pessoas que em Fátima gritaram "milagre!", será que nenhuma delas tinha visto antes um halo solar? Duvido. E no entanto, essas pessoas gritaram "milagre!". Estarão erradas?
Os auto-proclamados sábios do nosso tempo dizem que sim. Eles pontificam que, havendo uma explicação científica, então não podemos estar perante um milagre. E aqui é que se espalham ao comprido, revelando simultaneamente uma crassa ignorância, quer filosófica quer teológica.

Em primeiro lugar, vamos às definições: a palavra "milagre" vem do latim "miraculum", cuja raiz etimológica remete para o verbo latino "miror", que significa contemplar algo de maravilhoso, de deslumbrante, algo "admirável" (palavra com a mesma raiz que "milagre"). Assim, como se vê, o povo que gritou "milagre", eventualmente desconhecendo a raiz etimológica da palavra, não a aplicou mal, pois a beleza do fenómeno de um halo solar merece ser admirada, e é de facto deslumbrante. Vê-se então o primeiro erro dos opinadores anticristãos, que pelos vistos dominam mal o latim e não sabem de onde vêm as palavras que usam no dia-a-dia. Ora é sabido que a amnésia etimológica faz mal ao raciocínio: não conhecer a raiz e o significado de uma palavra é meio caminho andado para pensar mal, ou pelo menos para não se ser capaz de transmitir correctamente uma ideia. 

Em segundo lugar, vamos à tal objecção dos opinadores anticristãos, que pretendem que um dado fenómeno com explicação científica não pode ser milagroso. Teologicamente, um milagre é entendido como um fenómeno de efeito natural (sensorial, empírico, apreensível pelos sentidos) cuja causa primeira é sobrenatural. Ora se é certo que um fenómeno sem explicação científica pode (escrevi "pode" e não "deve") ter uma causa sobrenatural, e desse modo ser realmente milagroso, já não é verdade o oposto, ou seja, que um fenómeno com explicação científica não pode ter causa sobrenatural.
Defender que a presença de uma explicação científica elimina a presença de causas sobrenaturais implica dois erros filosóficos graves, a saber:
  1. Confundir "explicação" com "causa": nem sempre são a mesma coisa; por exemplo, um médico pode explicar ao seu paciente, através de sintomas e de resultados de exames, que ele padece de cancro, sem no entanto ser necessário, para essa explicação ser eficaz, que o médico explique a causa (ou causas) que geraram o cancro;
  2. Confundir "explicação natural (ou científica)" com "explicação pessoal": o filósofo Richard Swinburne (The Existence of God, 1979) distingue-as deste modo: enquanto que uma explicação natural (ou científica) deduz (como sugeriram Hempel e Oppenheim) um determinado estado (E) a partir de certas condições iniciais (C), e de uma ou mais leis naturais (L), uma explicação pessoal resulta, segundo Swinburne, da "acção intencional de um agente racional".
Enquanto que o primeiro erro é inegável, porque é facílimo encontrar inúmeros exemplos de explicações de fenómenos que não contêm, ou não esgotam, as suas causas, sendo no entanto explicações bastante boas desse fenómeno, já o segundo erro é mais subtil...
Penso que é útil recorrer a um exemplo do dia-a-dia: se eu, depois do almoço, vou ao quiosque da Olá buscar um Magnum Sandwich (algo que, comigo, acontece com uma regularidade quase científica), e se nesse dia me apetecer filosofar enquanto como o gelado, posso chegar aos dois tipos de explicação:
  • Explicação científica: o agregado biológico da espécie "Homo Sapiens", civilmente identificado como "Bernardo Motta", efectuou uma determinada trajectória com origem no assento do local onde almoçou e com destino no local exacto de determinado quiosque da Olá; chegado ao local, o agregado emitiu padrões sonoros que foram interpretados de certa maneira pelo outro agregado da espécie "Homo Sapiens" que estava dentro do quiosque, e na sequência, esse agregado movimentou um agregado feito de farinha, chocolate, leite, aroma de baunilha, e outros aditivos, à temperatura de cerca de -6 ºC, da arca frigorífica na qual se encontrava para a depositar na mão do primeiro agregado biológico, que por sua vez movimentou da sua carteira um conjunto de chapas metálicas (moedas) em direcção às mãos do segundo agregado; nota: não quis enjoar o leitor, mas esta explicação científica poderia ter muitíssimo mais detalhe, e estar repleta de sistemas de equações diferenciais; desse modo, os meus movimentos, os movimentos do vendedor de gelados, e os movimentos de todos os objectos inanimados envolvidos na cena, seriam descritos com adequado rigor físico e matemático;
  • Explicação pessoal: depois de meditar por breves instantes no tamanho da minha barriga, e começando a visualizar mentalmente um Magnum Sandwich fresquinho, levantei-me do local onde almocei e dirigi-me, com confiança e sem vergonha, na direcção do quiosque da Olá, e comprei o gelado; e sim: comi-o sem arrependimento (o arrependimento vem mais tarde, e requer uma balança, ou um cinto que estranhamente ficou pequeno).
O que é preciso compreender, com este simples exemplo, é que isto se aplica a todas as acções efectuadas por agentes livres e racionais. Assim, tais acções, mesmo que puramente mentais, têm uma explicação científica que se pode construir com base em modelos matemáticos. No entanto, essa explicação não é suficiente para justificar a acção humana de forma completa, e a explicação pessoal entra então em campo, a par da explicação científica, e frequentemente é bem mais útil que esta!
O que também é preciso compreender é que mesmo que eu tivesse a melhor e mais precisa das explicações científicas, eu não teria nada para explicar se o meu fito último não fosse o de comer o gelado, e se eu não tivesse decidido pôr em marcha o meu plano gastronómico. A causa última do fenómeno é a minha decisão, que eu vos garanto que é tomada livremente. Outras causas segundas entram no fenómeno, e então temos toda uma panóplia de leis físicas, pois como qualquer ser humano, sou um agente dotado de um corpo físico que está sujeito às restrições e às leis que regem os sistemas físicos.
Está claro que a existência de livre arbítrio, ou seja, da faculdade que todos temos de tomar decisões livres sem estarmos preocupados com o violar de leis da Natureza, é um facto inegável (a não ser pelos loucos dos materialistas), e que nos levaria, entre outras conclusões, à necessidade da existência da alma (ou mente), ou seja, de algo de imaterial em nós, sob pena de não termos real livre arbítrio. Tem que haver algo em nós que, sendo imaterial (e desse modo, fora do âmbito das leis da Natureza), nos permita agir livremente.
Está também claro que o louco do materialista, para negar a todo o custo a existência de coisas imateriais, ou a realidade do sobrenatural, está disposto a vender o seu livre arbítrio se isso for preciso. Para escapar à evidente capacidade que todos temos de tomar decisões livres, e de o fazer a toda a hora sem violar quaisquer leis da Natureza, o materialista vê-se obrigado ao supremo tiro no pé: negar que toma decisões livres, ou afirmar que o livre arbítrio que tomamos como real é uma mera ilusão. Necessariamente, nesse triste estado intelectual, o materialista deve, em coerência, afirmar que o seu próprio materialismo deve ser explicado pelas leis da Natureza, e que portanto, ele não tem qualquer razão para pretender ter razão.

Regressemos ao dito milagre do halo, da passada Sexta-feira, em Fátima. Foi um milagre? Em sentido lato, e de acordo com a etimologia do termo, sim, foi um fenómeno admirável, de rara beleza, e portanto, "miraculoso". No entanto, no sentido teológico estrito, só haverá milagre se Deus, através da Sua permanente soberania sobre toda a Criação, incluindo as "causas segundas", ou seja, as leis da Natureza por Ele criada, decidiu que tal fenómeno meteorológico deveria ter lugar no preciso momento em que se visionava um filme sobre o Beato João Paulo II. Como sabê-lo? Como saber se Deus quis deliberadamente fazer surgir um halo solar na passada sexta-feira àquela hora? Eu julgo que não temos forma de o saber com certeza...
Mas se, no caso de agentes humanos, certamente livres e racionais (uns mais que outros), uma explicação pessoal (da intencionalidade do agente) pode coexistir com uma explicação científica, então, por analogia, não poderia dar-se o caso de um determinado fenómeno, como por exemplo este halo, ter em simultâneo uma explicação pessoal (da intencionalidade de Deus) e uma explicação científica?
Claro que pode. E é esta conclusão filosófica que, em simultâneo, coloca em cautela aqueles que afirmam com total certeza a origem divina do fenómeno, e ao mesmo tempo, refuta os que negam dogmaticamente qualquer causalidade divina por detrás de fenómenos naturais.
O envolvimento do Sol e de cristais de gelo num fenómeno visível na Cova da Iria e arredores faz-nos recordar o muito mais espantoso e feérico fenómeno do 13 de Outubro de 1917. Também esse raríssimo fenómeno tem, julgo eu, uma explicação científica, como fenómeno meteorológico que tudo indica ter sido. No entanto, só mesmo um ateu para, perante a precisão espantosa da previsão (data, hora e local: veja-se que o fenómeno começou no exacto momento em que Lúcia pediu aos presentes para fecharem os chapéus de chuva), afirmar de forma irracional: "coincidência!" É típica a tentação em recorrer à palavra "coincidência" quando não se consegue encontrar, dentro de determinada visão amputada da realidade, uma explicação plenamente naturalista para determinado fenómeno extraordinário.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

13 de Maio de 1917 - Cova da Iria

Na fotografia: Os pastorinhos Jacinta Marto, Lúcia de Jesus e Francisco Marto (Fonte

Testemunho da Irmã Lúcia do Coração Imaculado, nascida Lúcia de Jesus dos Santos (Fátima, 28 de Março de 1907 - Coimbra, 13 de Fevereiro de 2005), acerca dos acontecimentos de 13 de Maio de 1917, na Cova da Iria, por ela vividos, juntamente com os seus primos Jacinta e Francisco Marto:

Andando a brincar com a Jacinta e o Francisco, no cimo da encosta da Cova da Iria a fazer uma paredezita em volta de uma moita, vimos de repente como que um relâmpago.
– É melhor irmos embora para casa. Disse a meus primos:
– Estão a fazer relâmpagos e pode vir trovoada.
E começamos a descer a encosta, tocando as ovelhas em direcção à estrada. Ao chegar mais ou menos a meio da encosta quase junto de uma azinheira grande que aí havia, vimos outro relâmpago e dados alguns passos mais adiante vimos sobre uma carrasqueira uma Senhora vestida toda de branco mais brilhante que o Sol, espargindo luz mais clara e intensa que um copo de cristal, cheio de água cristalina atravessado pelos raios do sol mais ardente. 
Parámos surpreendidos pela aparição. Estávamos tão perto que ficávamos dentro da luz que a cercava ou que Ela espargia, talvez a metro e meio de distância, mais ou menos.
Então Nossa Senhora disse-nos:
– Não tenhais medo, Eu não vos faço mal.
– De onde é Vossemecê? - lhe perguntei.
– Sou do Céu!
– E que é que Vossemecê me quer?
– Vim para vos pedir que venhais aqui seis meses seguidos, no dia 13, a esta mesma hora. Depois vos direi Quem sou e o que quero. Depois voltarei aqui ainda uma sétima vez.
– E eu também vou para o Céu?
– Sim, vais!
– E a Jacinta?
– Também.
– E o Francisco?
– Também, mas tem que rezar muitos terços...
Lembrei-me então de perguntar por duas raparigas que tinham morrido há pouco. Eram minhas amigas e estavam em minha casa a aprender a tecedeiras com a minha irmã mais velha.
- A Maria das Neves já está no Céu?
- Sim está. (Parece-me que devia ter uns 16 anos).
- E a Amélia?
- Estará no Purgatório até ao fim do mundo. (Parece-me que devia ter 18 a 20 anos). 
Quereis oferecer-vos a Deus para suportar todos os sofrimentos que Ele quiser enviar-vos, em acto de reparação pelos pecados com que Ele é ofendido, e de súplica pela conversão dos pecadores?
– Sim, queremos.
– Ides, pois, ter muito que sofrer, mas a graça de Deus será o vosso conforto.
Foi ao pronunciar estas últimas palavras «a graça de Deus, etc.» que abriu, pela primeira vez, as mãos comunicando-nos uma luz tão íntima, como que reflexo que delas expedia que, penetrando-nos no peito e no mais íntimo da alma, fazendo-nos ver a nós mesmos em Deus. Que era essa luz; mais claramente que nos vemos no melhor dos espelhos.
Então, por um impulso íntimo também comunicado, caímos de joelhos e repetimos intimamente: «Ó Santíssima Trindade eu Vos adoro; meu Deus, meu Deus, eu Vos amo no Santíssimo Sacramento». Passados os primeiros momentos, Nossa Senhora acrescentou:
- Rezem o terço todos os dias, para alcançarem a paz para o mundo e o fim da guerra.
Em seguida, começou-se a elevar, serenamente subindo em direcção ao nascente, até desaparecer na imensidade da distância. A luz que A circundava ia como que abrindo um caminho no cerrado dos astros, motivo por que alguma vez dissemos que vimos abrir-se o Céu.»,
in Fátima - Altar do Mundo, 2.º volume, Ocidental Editora, Porto, 1954, pp. 63-64.

Este é o testemunho verdadeiro dos acontecimentos daquele dia. Digo verdadeiro, pois dado o que se sabe acerca dos pastorinhos, não é plausível supor que eles mentiram ou alucinaram. Dado o inferno ao qual foram sujeitos, da parte de quase toda a gente, pois queriam à viva força que eles confessassem terem inventado tudo, e dada a sua tenacidade e coragem em manterem o relato fiel do sucedido, o seu testemunho torna-se muito credível. E depois há, claro, a comprovação de que falaram verdade: o milagre de 13 de Outubro de 1917.
Também há quem ache que os pastorinhos mentiram ou alucinaram. Quase sempre, esses cépticos sabem pouco do sucedido na Cova da Iria, não estudaram a personalidade das testemunhas, nem as diatribes às quais foram sujeitos. Dizem esses cépticos que a Igreja é que montou estas fantasias, quando alguns dos primeiros cépticos faziam parte do clero, e tentaram à viva força levar as crianças a negar o sucedido. No entanto, faltam coisas essenciais à tese da aldrabice: motivo (relatar as aparições só trouxe o inferno à vida dos videntes), hábito (na vida dos pastorinhos, deveríamos encontrar outras mentiras ou uma propensão para a fantasia) e cultura (três pastores analfabetos não poderiam ter inventado certos detalhes das aparições, nomeadamente os de teor político).
Os pastorinhos, claramente, falaram a verdade. Nossa Senhora apareceu-lhes repetidas vezes na Cova da Iria. Foram aparições pessoais, apenas vividas por eles, experiências acerca das quais se poderia especular em termos do seu carácter mais ou menos sensorial, mais ou menos interior, mas não menos reais por causa disso. No entanto, para os cépticos, isso não chega. Eles dão mais credibilidade à sua crença céptica (por eles ironicamente considerada como "racional") do que ao testemunho convicto de pessoas mentalmente sãs e sem razões para mentir. Pessoas essas, pelo contrário, com inúmeras razões para não inventar algo semelhante. Em nome desta suposta "mentira", que não lhes trazia qualquer vantagem, correram real risco de vida e foram maltratados várias vezes. Mas testemunhos como este não chegam para certas pessoas convictas da racionalidade do seu cepticismo irracional. Não chega nem o fenómeno de 13 de Outubro de 1917, esse sim público, sensorial, testemunhado por milhares de pessoas de todos os estratos sociais, e previsto pelos pastorinhos para aquela data, hora e local. O fenómeno milagroso desse dia, como cumprimento por parte de Nossa Senhora de uma promessa por Ela feita aos pastorinhos, atesta de forma clara a realidade e a verdade das aparições marianas na Cova da Iria, assim como a verdade dos testemunhos dos pastorinhos.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Te lucis ante terminum

O cântico "Te lucis ante terminum" para as Completas (Liturgia das Horas), cantado pelo coro dos monges cistercientes da Abadia de Stift Heiligencreuz (Áustria):



Te lucis ante terminum,
rerum Creator, poscimus,
ut solita clementia,
sis praesul ad custodiam.

Te corda nostra somnient,
te per soporem sentiant
tuamque semper gloriam
vicina luce concinant.

Vitam salubrem tribue
nostrum calorem refice
taetram noctis caliginem
tua collustret claritas.

Praesta, Pater omnipotens
per Iesum Christum Dominum
qui tecum in perpetuum
regnat cum Sancto Spirito.

Amen.


PS: Esta versão do Te lucis ante terminum é a que é cantada na Quaresma. Ver todas as versões aqui.