quinta-feira, 26 de julho de 2012

Sobre o argumento teleológico ("fine tuning")...


O filósofo e físico Robin Collins é um dos mais competentes defensores do argumento do "fine tuning" para a existência de Deus (o conceito teísta de Deus). Eu ando a seguir este argumento há alguns anos, e cada vez mais me convenço de que o argumento é um dos melhores argumentos para levar até uma pessoa pouco razoável a reconhecer a existência de Deus. Um dos números mais impressionantes em defesa do "fine tuning" vem do físico Roger Penrose (ele mesmo um agnóstico), que em 1989 apresentou o problema do baixíssimo nível de entropia (ou altíssimo nível de ordem) do Universo nos seus instantes iniciais. Segundo Penrose (1), de forma a termos um universo que permita a vida, foi preciso que as condições iniciais da distribuição de massa-energia estivessem numa região tão "afinada" e tão específica que a sua probabilidade é de uma parte sobre 10 levantado a 10 levantado a 123. Trocado por miúdos, 10 levantado a 23 é o número 10000.... (com 123 zeros). Agora suponha-se o número cujo número de zeros é o anterior. É absurdamente baixa a probabilidade de o nosso universo ter tido, por acaso, a entropia que teve nos seus instantes iniciais.

Como é que daqui se deduz que a causa do universo é inteligente (é Deus)? Basta considerar as hipóteses alternativas:

  1. Facto bruto: o universo simplesmente partiu de um estado estupidamente improvável (uma parte em 10 levantado a 10 levantado a 123), e é assim que as coisas são; esta é a opção do "não faças perguntas complicadas, pá"
  2. Multiverso: o nosso universo é apenas um de muitos (infinitos?) universos; bom... à parte do facto de que é filosoficamente absurda a existência de infinitas coisas (surgem contradições se o admitirmos), não há uma só evidência científica a favor da existência de outros universos, pelo facto de que se tivéssemos forma de chegar a eles, eles fariam parte do nosso universo

A tese do multiverso é uma tese "ad hoc", de especulação científica, feita para evitar a espantosa probabilidade de o universo ter uma causa inteligente para a sua existência. Para evitar a espantosa probabilidade de um ser inteligente e dotado de espantosos recursos ser a causa do nosso Universo.


Vivemos tempos espantos.

Nunca foi tão fácil a uma pessoa razoável e informada acreditar na existência do Deus teísta, e no caso dos cristãos, esse é o Deus de Jesus Cristo, o nazareno, que morreu crucificado, foi sepultado, e três dias depois ressuscitou.


(1) "This now tells how precise the Creator's aim must have been, namely to an accuracy of one part in 10 to the 10^123rd power. This is an extraordinary figure. One could not possibly even write the number down in full in the ordinary denary notation: it would be 1 followed by 10^123 successive 0's." Roger Penrose, The Emperor's New Mind, 1989.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Resposta às críticas do Ludwig ao meu Curso Ciência e Fé


Caro Ludwig,

Obrigado pelo teu tempo, pelos teus comentários e pelo destaque dado ao meu trabalho!

Em primeiro lugar, leste (do que percebi) apenas o resumo do Curso. Esse resumo não é apenas uma síntese de todos os temas que tratei. É uma síntese de uma selecção dos temas que tratei. Ou seja, esse resumo deixa muitos temas de fora. O Curso faz um todo (que me parece) coerente, e é preciso tomá-lo como um todo. Senão, há ideias afloradas superficialmente no Resumo que ficam sem o aprofundamento necessário, por falta de leitura do(s) módulo(s) onde elas são aprofundadas.

"Em primeiro lugar, não há “o conceito de Deus”. Há uma carrada. Cada religião – diria até cada religioso – tem um, diferente dos restantes."

Há coisas que me pasmam. Não és o primeiro, e não serás o último, a pedir a um cristão que defenda TODOS os conceitos de Deus. Será que tu tens que defender TODOS os conceitos de ateísmo?
Eu não estou em defesa da "religião" (seja lá o que isso for). Estou em defesa do cristianismo, e de um Deus concreto. O Deus de Jesus Cristo.

"Alguns são inconsistentes, é verdade. Por exemplo, o de ser omnipotente e omnisciente. Se já sabe tudo o que irá acontecer não pode fazer mais do que assistir, impotente, ao desenrolar do destino."

Entendo que a Teologia não seja o teu forte, e eu diria que isso sucede apenas por falta de leitura e estudo da tua parte. Mas todos temos que tomar opções, dado que o nosso tempo de vida é limitada, certo?
O Cristianismo não defende um fatalismo, no qual o futuro está todo decidido. Se achas isso, gostava de perceber de onde te vem essa ideia.
Imagina o futuro como uma complexa árvore com todas as ramificações de todas as possibilidades, quer das decisões de agentes livres, quer do desenrolar de processos naturais. Deus conhece essas ramificações todas, sabe o que irá acontecer se agente A fizer B, ou se agente C deixar de fazer D. Deus conhece, como se diz em Filosofia, todos os contrafactuais. É assim que se deve entender o conhecimento de Deus. Esse conhecimento em nada interfere com a omnipotência ou com a liberdade dos agentes realmente livres, como os seres humanos. Deus não decide por mim. Senão, eu não teria livre arbítrio.

Tens que te esforçar mais por apontar as tais alegadas contradições e inconsistências!

"E se pode fazer tudo o que entender então não há nada para saber. Vai chover no Sábado? A Terra é redonda? Será como quiser e pronto. Em vez de sabedoria só terá caprichos. Quanto aos conceitos de deuses que não são inconsistentes, são tão pouco plausíveis que também não se justifica acreditar neles."

Não só tens que ser mais rigoroso e profundo nas tuas tentativas de refutação, como há coisas que não convém deixar vagas. Falas em conceitos de "deuses" que não são inconsistentes? Quais? E porque são pouco plausíveis?

"Segundo o Bernardo, «Só se pode dizer que [a crença na existência de Deus] é irracional se se mostrar que é impossível que Deus exista». Não é verdade. Por exemplo, é possível que o Bernardo seja um extraterrestre e que a Alexandra Solnado escreva o que Jesus lhe dita, mas ainda assim é irracional acreditar em tais coisas."

Não entendo este exemplo. Eu concordo que ambas as teses que escreves são teses erradas. Mas são irracionais? Se há extraterrestres (eu acho que não há), é pelo menos metafisicamente possível que eu fosse um deles (caso eu conseguisse disfarçar a minha aparência). E se Deus existe (eu acho que sim), é metafisicamente possível que Ele fale com a Alexandra Solnado. O que queres dizer, julgo eu, é que não podemos dar crédito a essas teses, e não que elas são irracionais. Uma coisa irracional é uma coisa que viola a razão. Essas teses não são más por violarem a razão, mas simplesmente por não terem qualidade epistémica. Não são credíveis pela sua falta de indícios, pela falta de evidências que reforcem a sua verosimilhança.

"Porque o irracional está logo em dar mais crédito a uma hipótese do que se justifica pelo peso das evidências."

Em primeiro lugar, não trataste sequer das evidências. Deste de borla que aquelas duas teses atrás não tinham crédito. Eu acho que não têm, mas tu não mostraste isso. Afirmaste numa de "magister dixit". E, quando dizes que é irracional dar mais crédito a uma hipótese do que se justifica pelo peso das evidências, estás a usar a palavra "irracional" num segundo sentido, e não no sentido literal e etimológico. De certa forma, porque a nossa razão deve estar guiada pelas evidências, é irracional fazer o que dizes tu, e concordo contigo, mas quando encontras a palavra "irracional" nos meus slides, estou a usá-la correctamente, no sentido etimológico original, no primeiro sentido da palavra.

Tu usas a palavra "irracional" no sentido de falhar nas boas práticas do uso da razão. Eu uso a palavra "irracional" no sentido literal, de violar a razão, de defender ou acreditar numa contradição ou numa ideia inconsistente.

"Por isso, é irracional crer que o criador do universo engravidou uma palestiniana para nascer dela e depois morrer torturado como requisito para nos perdoar os pecados dos nossos antepassados já defuntos. Não é que seja impossível, mas não é uma hipótese favorecida pelo peso das evidências."

Dizes tu. Sem o explicar.
Devemos acreditar em ti com base em que credenciais? Já que não apresentas fundamentos para as tuas afirmações, como as devemos tratar? Qual a base epistémica das tuas afirmações?

"Seguidamente, o Bernardo apresenta o cristianismo como «berço da Ciência» pela sua visão judaico-cristã de um universo inteligível, um criador separado da criação, o «enorme valor dado à Criação e ao Homem», o «Fim do Cosmos pagão» e assim por diante. Isto não encaixa na história."

Se calhar não. Vamos supor que tens razão (não tens)... Mais uma vez, era bom mostrares porquê.

"O primeiro grande passo em direcção à ciência foi a filosofia grega, que pôs a análise metódica, a discussão aberta e a argumentação racional à frente do misticismo e da prepotência religiosa."

Qual é o título do segundo módulo do meu Curso?
Eu dou uma ajuda: Filosofia Grega.
E o módulo seguinte chama-se Cosmologia Grega.

"O cristianismo veio depois, recuando meio passo pelo menos."

Enquanto não estudares, quer a filosofia grega, quer a filosofia cristã, não entenderás um facto histórico cabal. A sabedoria grega, fenómeno socialmente minúsculo e longe de afectar a sociedade grega como a intelectualidade cristã afectou a sociedade cristã, teria morrido sem os cristãos. De um ponto de vista estritamente histórico, o saber dos gregos iria à fava sem sábios cristãos como Agostinho, Boécio ou Cassiodoro. Isto é um facto histórico. Mas há muito mais... Os cristãos purificaram os erros dos gregos. Um São Tomás defendeu a verdade do Cosmos criado (como início temporal) contra o cosmos eterno de Aristóteles. E um Etienne, Bispo de Paris, em 1277, condenando as ideias peripatéticas, abriu as portas da física moderna, ao forçar o mundo académico de então a procurar uma nova física não aristotélica, o que permitiu o desenvolver das ideias antigas de João Filopono até à maturação da física do ímpeto, trabalhada pelos Doutores de Paris (Buridan, Oresme) e pelos "calculadores" de Merton College (Oxford), como Dumbleton, Swineshead, Heytesbury, Grosseteste, etc.

"E o segundo grande passo foi a tecnologia dos instrumentos de medição e observação, a partir do século XV, que deu à filosofia uma base empírica sólida e a tornou no que agora chamamos ciência. O cristianismo limitou-se a atolar o primeiro passo na teologia e depois a ameaçar com prisão ou fogueira os que começaram a dar o segundo."

É uma pena este teu parágrafo.
É uma pena porque simplesmente perdeste uma boa oportunidade para evitar dizer tretas.
E bastaria teres lido os módulos seguintes do meu curso. Não por causa da minha sabedoria (que é escassa e amadora), mas porque lá encontrarias a mais recente informação em termos do estado-da-arte em história de Ciência.

Por favor, procura os detalhes nestes módulos:
Filosofia Medieval
Ciência Medieval
São Tomás de Aquino
Inquisição e Ciência
O Caso Galileu, parte 1
O Caso Galileu, parte 2
A revolução científica

Está hoje demonstrado, sobretudo com o trabalho seminal de William A. Wallace, que o método experimental desenvolvido por Galileu, só para ir buscar um exemplo bem conhecido, remonta às aulas dos jesuítas do Collegio Romano, e que estes, por sua vez, pegaram numa longa e antiga tradição de prova científica e de método científico que remonta a Aristóteles, tendo sido esse método amplamente trabalhado e fortalecido por São Tomás de Aquino. Não basta falar de experiências e instrumentos (apesar de termos inúmeros exemplos medievais disso mesmo, como os notáveis trabalhos de Pierre de Maricourt com o íman), é preciso também falar das bases filosóficas do método científico, de como os medievais amadureceram os conceitos de prova, demonstração, certeza científica, e assim por diante.

Estás totalmente desligado do "mainstream" académico de História da Ciência.
É urgente que leias Drake, Kraghe, Wallace, Westfall, Baldini, Artigas, Wallace, e essa gente toda, os investigadores "top" sobre estes temas, em vez de te ficares por estereótipos do século XIX acerca do mítico "conflito" entre cristianismo e ciência, porque a tese do conflito foi abandonada há quase um século, apesar de ainda não te teres dado conta disso.

"O Bernardo alega também haver «certos princípios que aceitamos como verdadeiros, mesmo sem provas empíricas», mas depois dá exemplos do mais empírico que há, como «Existo […] Sou distinto do que me rodeia […] Há uma realidade objectiva […] Os meus sentidos reflectem, de certo modo, a realidade» e assim por diante. Estas conclusões não são deduzidas de axiomas abstractos."

Nem eu digo que são. Usas a falácia do espantalho, atacando uma posição que não é a minha.
Aliás, isso seria bizarro, dado que eu sou tomista, e São Tomás diz que todo o conhecimento vem através dos sentidos, pelo que Tomás é , em certo sentido, um empiricista em termos da sua epistemologia. O que eu pretendo, com esse "slide", é explicar que há inúmero conhecimento verdadeiro que aceitamos sem PROVA empírica. Claro que nem sequer formaríamos essas frases sem os sentidos, porque em primeiro lugar, não saberíamos falar nem escrever nem ler. Não teríamos vocabulário, sem os sentidos. O que quero dizer é que aceitamos tais ideias com bases filosóficas, e não com provas empíricas.
Como sabes, poderíamos viver num mundo "matrix", alimentados artificialmente com ideias erradas através de sentidos enganadores, e se rejeitamos essa visão "matrix", é por uma convicção sem provas. Uma convicção perfeitamente racional e justificada, mas sem provas. Isto é bem conhecido: falo do "génio" de Descartes, que poderia existir e enganar-nos acerca de tudo o que recebemos pelos sentidos.

"São fruto da nossa experiência."

São fruto dela, mas não estão provados por ela. Como referi, a mesma experiência poderia ser fruto de uma imensa estrutura sofisticada, tipo "matrix", que nos enganaria.

"Outra confusão é achar que a ciência e o conhecimento exigem pressupor «um Cosmos racional e inteligível». Nada disso. Para procurar conhecimento basta ter curiosidade. Não é preciso pressupor essas coisas."

Que disparate. Qual é o cientista que não se socorre da matemática? A matemática, o próprio uso da matemática em Ciência, pressupõe que a realidade natural é analisável matematicamente.

"Hoje até sabemos que o universo está longe de ser inteligível. Não conseguimos imaginar um angstrom, um ano luz, um picosegundo ou um milhão de anos."

Confundes inteligibilidade com imaginação. São coisas diferentes. Não consigo imaginar um picosegundo, mas consigo inteligir o conceito.

"Não conseguimos perceber os detalhes dos modelos do clima, de reacções nucleares ou de dinâmica molecular que, sem computadores, nunca conseguiríamos implementar."

Confundes complexidade com inteligibilidade. São coisas diferentes. Não consigo perceber os detalhes ínfimos de um modelo complexo, mas consigo inteligir o modelo como um todo, na sua estrutura.

"Graças a sistemas formais como a matemática conseguimos criar modelos rigorosos de processos sub-atómicos, mas não temos forma de os transpor para a nossa experiência subjectiva de forma a que a mecânica quântica seja inteligível."

A mecânica quântica pode ser inteligível. Este teu parágrafo é preocupantemente obscurantista. O facto de existirem uma dúzia de diferentes, e complexas, interpretações da mecânica quântica não nos deve desanimar de procurar uma interpretação que seja inteligível e que faça sentido. Os paradoxos da interpretação de Copenhaga deviam levar-nos a rejeitar (ou procurar melhorar) essa interpretação, e não a apelar, como tu fazes, à ininteligibilidade da mecânica quântica.

Aquela bezerrice do físico que, virado para um leigo estupefacto, lhe diz que a mecânica quântica é bizarra e paradoxal "porque sim", enquanto que o físico permanece pateta com um sorriso na cara, de quem acha que acabou de dizer uma coisa muito sofisticada, e enquanto o leigo permanece estupefacto porque não aceita que a realidade seja paradoxal ou bizarra, fala toneladas sobre o valioso senso comum do leigo e sobre a parvoíce tonta do físico que sacrificou a sua racionalidade em favor de má filosofia da natureza.

Os paradoxos da mecânica quântica são má filosofia da natureza, um estágio ainda imperfeito do nosso conhecimento, porque caminhamos para uma sólida e correcta filosofia da natureza, que nos vai ajudar a compreender cada vez melhor a realidade.

"O universo é muito mais do que qualquer um de nós consegue compreender e, colectivamente, até a ciência já ultrapassou os limites do cérebro humano."

Confundes inteligibilidade com infinitude do conhecimento. Nunca disse que o nosso conhecimento era infinito. Defender a inteligibilidade do Cosmos não implica defender a infinitude do nosso conhecimento. Acho também piada ao que dizes sobre a ciência ter ultrapassado os limites do cérebro humano. Que queres dizer com isso?

"O Bernardo tenta também demonstrar que se pode obter conhecimento sem um fundamento empírico apelando para os axiomas “da Lógica” (2). Isto presume que a origem da lógica está na formalização e nas regras de manipulação sintática que definem, por exemplo, que de P e P→Q se deduz Q."

Não, não presume. Alerta espantalho! Estás a criticar um espantalho. Eu não disse que podemos obter conhecimento sem fundamento empírico, e já o escrevi ali atrás. Disse que podemos ter conhecimento verdadeiro que não foi provado empiricamente, o que é bem diferente. Para mais, na origem da Lógica não está a formalização, mas sim a natureza do intelecto. A Lógica está intimamente relacionada com a natureza da intelecção. A formalização (até onde ela é possível) vem depois.

"Mas isto é ver a coisa ao contrário. As lógicas formais pretendem automatizar processos de inferência abstraindo-se do significado das proposições."

Sim, concordo, e então? Eu disse o contrário?

"Nesse contexto abstracto parece que o conhecimento surge magicamente pela aplicação das regras, mas isso é uma representação simplificada do nosso raciocínio."

Eu nunca disse tal coisa. Eu não acho que possamos provar os axiomas da Lógica (identidade, não contradição e exclusão do terceiro termo) aplicando regras, pela razão óbvia de que eles são axiomas, logo, não são demonstráveis através de regras. Como sabemos, pelo menos desde Aristóteles (talvez os hindus já o soubessem antes), os axiomas da Lógica são aceites porque se os tentamos negar, chegamos a resultados contraditórios ou inconsistentes. Eles parecem estar na base do que é a natureza do pensar e do inteligir.

"Na prática, lidamos com símbolos que têm significado, em vez de apenas Ps e Qs, e o nosso raciocínio, que tentamos modelar com lógicas formais, é fundamentalmente empírico, quer na determinação do significado dos termos quer na escolha dos axiomas que melhor o representem."

E então? Não entendo o que estás a criticar acerca da minha posição. Concordo com o que escreves, mas não vejo em que é que isso refuta o que eu escrevi. Acho também curioso que venhas defender a semântica (significado). Concordo contigo, mas gostava de saber como um ateu materialista como tu consegue fazer uma defesa não nominalista da realidade da semântica. Isso choca de frente com uma visão materialista da mente humana. Se a nossa mente é inteiramente material, só vejo duas hipóteses: ou não existe semântica (ela é ilusória), ou então a semântica que existe é puramente convencional (não é verdadeira nem falsa, é uma invenção humana), e então caímos no nominalismo.

"Há conflito entre fé e ciência porque cada fé dá muito mais crédito a algumas hipóteses, arbitrariamente escolhidas conforme a religião, do que aquilo que se justifica sem essa fé ou com uma fé diferente."

Isto é uma frase vaga, imprecisa e generalista. Repito: eu não sei, nem quero, defender "fés" ou "religiões". Procuro saber defender o cristianismo e a ciência.

"Isto é contrário ao método da ciência, que visa convergir para conclusões independes de preferências pessoais ou preconceitos, procurando indícios objectivos que favoreçam uma hipótese em detrimento das restantes. A ciência serve para descobrir como as coisas são e não para maiorem Dei gloriam."

Descobrir como as coisas são é chegar à Razão criadora que tudo fez, e que tudo dispôs "segundo medida, número e peso" (como diz o Livro da Sabedoria). Uma das formas de servir à maior glória de Deus é fazer ciência, procurar a verdade sobre o Mundo, sobre a Criação, sobre a realidade natural. Procurar a verdade é procurar Cristo, Aquele que é "o caminho, a verdade e a vida".

Um abraço,

Bernardo

sábado, 16 de junho de 2012

Fatal e precário?


É com estes epítetos que Pedro Mexia se refere ao casamento, no seu artigo de opinião da revista Atual  (sic) de hoje (jornal Expresso). Mexia baseia-se num ensaio de Eduardo Lourenço, ensaio esse que eu não li e por isso não irei comentar. No entanto, o texto de Pedro Mexia merece uma série de críticas...
Diz Pedro Mexia que "não há nada de 'natural' no casamento, trata-se de ritualizar e institucionalizar uma troca e uma realidade biológica que, essa sim, é estritamente animal.". Em primeiro lugar, há uma patente contradição aqui: se, como diz Mexia, não há nada de natural no casamento, como é que se apoiaria numa realidade biológica (animal), e portanto, natural?
Evidentemente, o casamento, antes de ser um ritual, antes de ser uma instituição social, é uma realidade biológica, e portanto natural. Quando nos referimos à espécie humana sabemos que, sendo a nossa espécie uma das que se reproduzem de forma sexuada, ela só está totalmente representada pelos dois sexos, o masculino e o feminino. Antes de mais nada, há o facto biológico de que o ser humano é homem e mulher. O casamento representa, antes de mais nada, antes de qualquer ritual ou instituição, um facto biológico inegável.
Pedro Mexia diz que o casamento assenta numa realidade biológica que, segundo ele, "é estritamente animal". Ora se é verdade que no que diz respeito à sexualidade, o acto conjugal humano é análogo ao dos restantes animais, dado que o ser humano possui faculdades intelectuais e psicológicas (emotivas, afectivas) superiores e únicas quando comparadas com as dos restantes animais, torna-se evidente que o casamento entre seres humanos é um facto que transcende o aspecto puramente animal do acto conjugal. Incorpora-o, mas contém ainda a união entre um intelecto masculino e um intelecto feminino, entre uma psique feminina e uma masculina, a mesma união de realidades complementares que vemos no acto conjugal. E só desta forma, vemos o casamento humano, antes de qualquer ritual ou instituição, como uma realidade multi-camada (física, psicológica, intelectual) que, na união dos opostos complementares do masculino e do feminino, representa de forma completa o que é o ser humano.
Por tudo isto, e a um nível ainda pré-social, vemos que a ideia que Pedro Mexia tem do casamento humano é uma ideia errada e amputada.
Mas a parte mais espantosa é a que se segue: Pedro Mexia diz que o casamento indissolúvel "é uma formulação antiga, mas que entretanto deixou de ser efectiva como crença", dizendo ainda a temeridade de que "as pessoas, mesmo as crentes, mesmo as que casam 'pela Igreja', não acreditam em casamentos indissolúveis, e dedicam à 'indissolubilidade' uma indiferença vaga e calada".
Mas Pedro Mexia pretende mesmo que não existem no Mundo pessoas que acreditam no casamento indissolúvel? Bom, permita-me, Pedro, dizer-lhe que eu acredito. E tenho a leve impressão de que não estou sozinho.E tenho ainda a impressão de que haverá uma pessoa ou outra, mesmo não crente, que também acredita nesse conceito, que antes de ser religioso, antes de ser social, é um conceito antropológico. Antes da teologia (cristã ou outra) do casamento, está a antropologia da coisa, e não há como negar a verdade de que o conceito de indissolubilidade, antes de qualquer teorização teológica, está ligado à estabilidade familiar. Não só à estabilidade do homem e da mulher, casal, que vêem o seu cônjugue como a outra metade de uma coisa só, que se entregam um ao outro e se realizam na plenitude do que a sua essência humana, masculina e feminina, lhes diz. Mas também à estabilidade da família no sentido em que tal indissolubilidade proporciona o meio ideal, e mesmo natural, para a protecção e a educação dos filhos. E mesmo quando estes se emancipam, o matrimónio dos seus pais, quando perdura (e muitas vezes perdura) permanece como uma realidade agregadora, como a realidade sobre a qual as suas vidas estão construídas. Tudo isto é o casamento.
Depois, Pedro Mexia mostra desconhecer alguns aspectos elementares da teologia cristã acerca do matrimónio: Mexia alvitra que o cristão "precisa de uma instituição 'idealmente eterna'", mas porque razão equipara ele a indissolubilidade à eternidade? Nunca o cristianismo pretendeu que o casamento, sendo indissolúvel nesta vida como é, teria que ser eterno. Em primeiro lugar, como é sabido, o cristianismo nunca considerou imoral que uma viúva ou um viúvo se voltasse a casar, o que imediatamente destrói a ideia errada de Pedro Mexia acerca do casamento cristão ser uma institução "idealmente eterna". Mas o erro de Mexia vai mais fundo: é que o próprio Cristo deixou bem claro que nenhum casamento perdurará para a vida eterna:
"Na ressurreição, nem os homens terão mulheres nem as mulheres, maridos; mas serão como anjos no Céu.", São Mateus, 22, 30.
E, espantosamenete, Pedro Mexia sugere a enormidade de que o casamento, para os cristãos, seria como que um "mal menor". E, para isso, socorre-se de São Paulo. Ora, isso é de pasmar, sobretudo quando o casamento humano é a imagem que a teologia cristã, e também São Paulo, utiliza para explicar a união mística entre Cristo e a Sua Igreja:
"Por isso, o homem deixará o pai e a mãe, unir-se-á à sua mulher e serão os dois uma só carne. Grande é este mistério; mas eu interpreto-o em relação a Cristo e à Igreja.", Carta de São Paulo aos Efésios, 5, 31-32.
Será que tal união mística entre Cristo e a Igreja é explicada com base num "mal menor"? Seria absurdo que o cristianismo considerasse a união entre homem e mulher como "um mal menor", e isso significaria nada mais e nada menos do que a queda na heresia gnóstica, que a Igreja sempre rejeitou, porque considerava a Criação como maléfica, obra de um demiurgo maligno, considerando portanto que a sexualidade era imoral e repulsiva.
Quando São Paulo diz que "mais vale casar-se do que abrasar-se", ele está, obviamente, a dizer que mais vale tomar a opção pelo casamento, para aqueles que não são capazes de uma vida celibatária de consagração a Deus. Que tal opção, nesses casos, é melhor do que, não se casando, viverem uma vida de concupiscência. Nunca São Paulo pretende considerar o casamento como um mal menor, pela simples razão lógica de que São Paulo não considera o casamento como um mal. E se São Paulo louva as virtudes do ideal celibatário que ele mesmo escolheu, é em vista do que Cristo disse (São Mateus, 19, 12) acerca daqueles que, por amor a Deus, vivem o celibato, e não como uma crítica ao casamento.
Se o cristianismo tivesse imposto o celibato como ideal cristão, no sentido de regra moral para toda a humanidade, as consequências sociais dessa recomendação seriam ruinosas, as mesmas que teríamos sofrido se a heresia cátara (gnóstica) tivesse vingado na Europa medieval, com a sua condenação da reprodução como acto imoral: a extinção de populações inteiras por falta de descendência. O cristianismo não é gnóstico: é, aliás, o oposto disso.
O cristianismo vê o casamento como uma união mística, como uma realidade querida e desejada por Deus, e mais ainda, como uma espécie de imagem do próprio Deus:
"Deus criou o ser humano à sua imagem, criou-o à imagem de Deus; Ele os criou homem e mulher.", Génesis, 1, 27.
Em justiça, devo dizer que concordo com o que Pedro Mexia escreve acerca do facto de que o cristianismo não entendeu nunca o casamento como algo fundado exclusivamente na paixão ou no amor. Sem dúvida que uma realidade tão importante como a do casamento não poderia estar estruturada sobre emoções ou paixões voláteis ou temporárias, e se o cristianismo assim o entendeu, isso só soma pontos à maturidade da sua visão antropológica e social.


sábado, 26 de maio de 2012

Alvin Plantinga - Ciência e religião teísta



Alvin Plantinga é um dos mais competentes filósofos analíticos da actualidade. E é a principal figura por detrás do regresso da filosofia cristã às universidades anglo-saxónicas (na Europa continuamos atolados, em boa parte, num pós-modernismo decadente). Mas ele é bem mais do que isso: é uma pessoa impecável, um excelente comunicador. Nesta palestra, Plantinga apresenta o seu mais recente livro sobre a relação entre ciência e religião: "Science and religion - where the conflict really lies". Nesse livro, Plantinga não defende apenas que o conflito entre cristianismo e ciência é ilusório ou superficial: ele defende que o conflito está entre ateísmo (o naturalismo materialista) e ciência. Nesta palestra, Plantinga apresenta o seu principal argumento: quando conjugadas, as teses do ateísmo materialista e do evolucionismo destroem a nossa confiança nas nossas capacidades cognitivas. Se tudo o que existe é matéria e se o evolucionismo é um processo não guiado, então as nossas faculdades cognitivas não são minimamente fiáveis. E por isso, a eventual crença de um ateísmo evolucionista e materialista auto-refuta-se. Vale a pena ver o vídeo várias vezes, com a calma e o tempo que ele merece.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

A Igreja Católica e a Maçonaria

No passado Sábado fiz uma palestra intitulada A Igreja Católica e a Maçonaria, na qual expus as origens históricas da Maçonaria moderna (especulativa, simbólica) e alguns detalhes acerca da primeira condenação papal e das suas razões. Historicamente, cingi-me apenas ao século XVIII, pelo que esta apresentação, necessariamente, nada contém acerca da maçonaria irregular ou da fase anticlerical de certas correntes maçónicas. Creio que, demonstrando de que forma a Maçonaria, na sua génese cristã (protestante) e inglesa, já é incompatível com a doutrina católica, será ainda mais evidente a sua incompatibilidade em ulteriores épocas históricas quando certos elementos e correntes da Maçonaria trabalharam contra a Igreja Católica e contra o cristianismo.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

O baixo nível da revista Sábado

Quem compra a revista Sábado e a lê com dois dedos de testa, já se deu conta de que essa revista está a querer conquistar mercado de leitores à TV Guia e à revista Maria. Os temas de capa oscilam, "grosso modo", entre quatro categorias: sexo, Igreja Católica (normalmente nos sub-temas Opus Dei, evangelhos secretos, revelação de segredos que a Igreja ocultou, códigos secretos, negócios ocultos, etc.), destinos de férias ou restaurantes, e finalmente, sexo (que inclui a sub-categoria "vida sexual dos padres e das freiras". Este tipo de literatura faz lembrar os bons velhos tempos panfletários da Primeira República e dos "papa-padres". Hoje em dia, os "media" são o pelourinho ideal para supliciar a Igreja Católica ao abrigo do último preconceito que a nossa sociedade tolera: o anticatolicismo. O Opus Dei, nos nossos tempos, cumpre a função outrora a cargo da Companhia de Jesus: ser o alvo das teorias da conspiração e de todo o tipo de traulitadas anticatólicas. O comunicado de imprensa emitido hoje pelo Opus Dei em Portugal é um documento muito educado, civilizado, e de uma elevação tal que chega a chocar quando contrastado com a falta de seriedade e o populismo rasca da revista Sábado.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Maçon e católico?

Maçon e católico? Impossível. Uma contradição. Aqui fica alguma documentação, que peca certamente por omissão, acerca da incompatibilidade entre catolicismo e Maçonaria. A pertença de um católico à Maçonaria está vedada desde 28 de Abril de 1738, data da bula "In eminenti" de Clemente XII, o primeiro documento do Magistério a declarar a incompatibilidade e a condenar a Maçonaria de forma clara. Para se ter uma ideia das datas em questão, a Maçonaria moderna data de 1717, ano da fundação da Grande Loja de Inglaterra, a loja mãe da Maçonaria, que é o resultado da fusão de quatro pequenas lojas londrinas que se reuniam em tabernas. O projecto de fundação tem como figuras de proa o pastor protestante escocês (presbiteriano) James Anderson (1680-1739) e o cientista Téophile Desaguliers, oriundo de uma família calvinista francesa, e membro da Royal Society. Dado que o projecto da Maçonaria moderna nasceu em solo protestante, e pela mão de protestantes, nunca fez grande sentido ser-se católico e maçon, apesar de terem existido lojas quase exclusivamente compostas por católicos, como é um caso paradigmático a Casa Real dos Pedreiros Livres da Lusitânia, um órgão independente da maçonaria andersoniana, composta maioritariamente por católicos irlandeses, e estabelecida em Lisboa por volta de 1733-34, mas que se dissolveu voluntariamente aquando da bula de Clemente XII.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Lully - "Marcha para a cerimónia turca"

A "Marcha para a cerimónia turca" do francês Jean-Baptiste Lully (1632-1687), compositor da corte de Luís XIV de França. Esta marcha faz parte da comédia-ballet em cinco actos, "Le bourgeois Gentilhomme" (1670). A orquestra é a do "Concert des Nations", dirigida por Jordi Savall.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Os "Protocolos dos Sábios de Sião" e "O Avante!"

Um artigo de Jorge Messias publicado recentemente no "Avante!" vem defender a factualidade da infame farsa dos "Protocolos dos Sábios de Sião", um documento forjado pelo antisemita Sergei Nilus na Rússia czarista entre 1902 e 1903, e que dava conta de uma suposta conspiração judaica internacional para o controlo dos destinos do Mundo.
Está hoje amplamente provado que este documento forjado provém da adulteração e combinação de dois textos diferentes, um da autoria do anti-bonapartista Maurice Joly (1829-1879), escrito em 1864, "Dialogue aux Enfers entre Machiavel et Montesquieu, ou la politique de Machiavel au XIXe siècle", onde Joly dava conta de uma suposta conspiração dos descendentes de Napoleão I para controlar o Mundo; e um outro texto retirado da novela escrita em 1868 por Retcliffe, pseudónimo de Hermann Goedsche (1815-1878), "Biarritz. Auf dem Judenfriedhof von Prag", na qual um rabi ficcional pronuncia um discurso de conteúdo semelhante ao encontrado nos Protocolos. Sabe-se que Joly, por sua vez, plagiou Eugène Sue (1804-1857) mais concretamente, a sua obra "Les mistères du peuple".
O carácter perigoso desta falsificação, usada amplamente por Hitler como forma de justificação para a perseguição e extermínio dos judeus europeus, ainda hoje se faz sentir, seja através da perigosa associação dos Protocolos ao mito do Priorado de Sião estabelecida por Lincoln, Baigent e Leigh ("O Sangue de Cristo e o Santo Graal", pp. 234-240), seja nos movimentos extremistas que ainda hoje reproduzem e divulgam este documento espúrio um pouco por todo o mundo islâmico como forma de propaganda anti-Israel, ou ainda em certos tipos de propaganda neonazi.
Nada disto é novo: o que espanta é que o Jorge Messias e os editores do "Avante!" ainda não saibam nada disto. Mas a suprema ironia é termos um documento forjado na Rússia czarista pelo antisemita Sergei Nilus, um documento composto com o fito de propaganda czarista e anti-revolucionária, a ser usado como uma referência verídica pelo periódico revolucionário e comunista "O Avante!".

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Curso "Ciência e Fé"

No próximo semestre, vou leccionar um Curso "Ciência e Fé", para a Escola de Leigos do Instituto Diocesano da Formação Cristã. O curso terá quinze sessões, e decorrerá todas as segundas-feiras das 21h30 às 23h na Igreja de Miraflores (Algés), a partir de 17 de Outubro inclusive, até 6 de Fevereiro. Só não haverá curso nas segundas-feiras de 26 de Dezembro e 2 de Janeiro. A inscrição no curso custa 35€.

Agradeço muito a vossa ajuda na divulgação, uma vez que só se fará o curso se existirem pelo menos 30 pessoas inscritas. O formulário para a inscrição encontra-se aqui.

O curso será composto por vários módulos. Os módulos (ainda não definitivos) serão estes:

I- Introdução: o alegado "conflito" entre a Igreja Católica e a Ciência
II- Filosofia grega e cosmologia grega
III- Filosofia medieval e ciência medieval
IV- Inquisição e Ciência
V e VI - O caso Galileu
VII- A revolução científica
VIII- Darwin e a Igreja Católica
IX- Os Argumentos Cosmológico e Teleológico para a existência de Deus
X- Filosofia da Mente e Inteligência Artificial
XI- Milagres e Ciência
XII- Desafios ao diálogo entre Fé e Ciência