"Mas, no íntimo do vosso coração, confessai Cristo como Senhor, sempre dispostos a dar a razão da vossa esperança a todo aquele que vo-la peça" - Primeira Carta de São Pedro, cap. 3, vs. 15.
quinta-feira, 28 de outubro de 2010
quarta-feira, 20 de outubro de 2010
Adão e Eva
Num "post" do Ludwig, intitulado Treta da semana: o que a ciência não responde, vai um debate aceso acerca de um tema sem sentido: lá, a certa altura, discute-se se a Igreja Católica defende ou não defende a existência histórica de Adão e Eva.
Surpreende-me que, nesta era da Internet, se ande a discutir o sexo dos anjos horas e dias a fio, e ninguém se dê ao trabalho de uma simples pesquisa. É muito fácil encontrar a afirmação categórica do Magistério da Igreja acerca da existência histórica de Adão e Eva. O papa Pio XII, juntando-se a 2.000 anos de Magistério, voltou a reforçar esse ponto CENTRAL da doutrina cristã na sua encíclica Humanis Generis:
«37. Mas, tratando-se de outra hipótese, isto é, a do poligenismo, os filhos da Igreja não gozam da mesma liberdade, pois os fiéis cristãos não podem abraçar a teoria de que depois de Adão tenha havido na terra verdadeiros homens não procedentes do mesmo protoparente por geração natural, ou, ainda, que Adão signifique o conjunto dos primeiros pais; já que não se vê claro de que modo tal afirmação pode harmonizar-se com o que as fontes da verdade revelada e os documentos do magistério da Igreja ensinam acerca do pecado original, que procede do pecado verdadeiramente cometido por um só Adão e que, transmitindo-se a todos os homens pela geração, é próprio de cada um deles.(11)»
Ver: Encíclica Humanis Generis, de Pio XII (12 de Agosto de 1950).
Por isso, é inútil e infértil estar a discutir se os católicos acham ou não que Adão existiu. É por demais evidente que o catolicismo afirma isso categoricamente.
Querer negar isto é querer negar um facto. E não é preciso que concordem com a Igreja. Já seria um progresso no debate público se as pessoas que discordam da Igreja começassem por se dar conta do que é que a Igreja realmente diz.
É ainda totalmente inútil discutir se há ou não cristãos que não acreditam na existência histórica de Adão. É evidente que há cristãos que não acreditam nessa existência. E daí? O cristianismo não é a soma das fés pessoais dos cristãos. O cristianismo é hierárquico, como o próprio Cristo quis que fosse. O Magistério ensina doutrina. Não doutrina que inventou, mas sim doutrina que recebeu de Cristo. Logo, o cristianismo não é uma "democracia doutrinária", no qual a doutrina de todos seria um meio termo (uma média) da soma das ideias de todos os cristãos.
Nestas coisas, o que interessa não é se padre A ou católico B negaram Adão. Haverá sempre gente assim, como há comunistas fervorosos, filiados no Partido e tudo, e que vivem toda a vida com propriedade privada. A incoerência não traz informação nova.
O que interessa é:
1) A Igreja é hierárquica, ou seja, propõe doutrina de forma hierárquica? A resposta é SIM, e o proponente da doutrina é o Papa, e os Bispos unidos a ele
2) A Igreja, como mestra de doutrina, encabeçada pelo Papa e pelos seus Bispos, ensina que Adão e Eva têm existência histórica real? A resposta é SIM
O resto é conversa inútil. Só poderemos começar a debater a sério, católicos com não católicos, se todos soubermos de que é que estamos a falar.
Uma última nota, de teor racional... Visto que Cristo veio resgatar a Humanidade do pecado, pecado esse que a Igreja defende como sendo herdado de Adão e Eva, os primeiros seres humanos a pecar, é estranha a lógica que pretende que, sem Adão e Eva para pecar, ou seja, sem primeiro pecado, e portanto, sem pecado herdado (Pecado Original), que pecado viria Cristo resgatar?
É inconsistente ser cristão e negar o Pecado Original. Se sem Adão e Eva não há Pecado Original, então o cristão não pode negar Adão e Eva. Trocado por miúdos, é o que Pio XII diz no trecho que citei.
Surpreende-me que, nesta era da Internet, se ande a discutir o sexo dos anjos horas e dias a fio, e ninguém se dê ao trabalho de uma simples pesquisa. É muito fácil encontrar a afirmação categórica do Magistério da Igreja acerca da existência histórica de Adão e Eva. O papa Pio XII, juntando-se a 2.000 anos de Magistério, voltou a reforçar esse ponto CENTRAL da doutrina cristã na sua encíclica Humanis Generis:
«37. Mas, tratando-se de outra hipótese, isto é, a do poligenismo, os filhos da Igreja não gozam da mesma liberdade, pois os fiéis cristãos não podem abraçar a teoria de que depois de Adão tenha havido na terra verdadeiros homens não procedentes do mesmo protoparente por geração natural, ou, ainda, que Adão signifique o conjunto dos primeiros pais; já que não se vê claro de que modo tal afirmação pode harmonizar-se com o que as fontes da verdade revelada e os documentos do magistério da Igreja ensinam acerca do pecado original, que procede do pecado verdadeiramente cometido por um só Adão e que, transmitindo-se a todos os homens pela geração, é próprio de cada um deles.(11)»
Ver: Encíclica Humanis Generis, de Pio XII (12 de Agosto de 1950).
Por isso, é inútil e infértil estar a discutir se os católicos acham ou não que Adão existiu. É por demais evidente que o catolicismo afirma isso categoricamente.
Querer negar isto é querer negar um facto. E não é preciso que concordem com a Igreja. Já seria um progresso no debate público se as pessoas que discordam da Igreja começassem por se dar conta do que é que a Igreja realmente diz.
É ainda totalmente inútil discutir se há ou não cristãos que não acreditam na existência histórica de Adão. É evidente que há cristãos que não acreditam nessa existência. E daí? O cristianismo não é a soma das fés pessoais dos cristãos. O cristianismo é hierárquico, como o próprio Cristo quis que fosse. O Magistério ensina doutrina. Não doutrina que inventou, mas sim doutrina que recebeu de Cristo. Logo, o cristianismo não é uma "democracia doutrinária", no qual a doutrina de todos seria um meio termo (uma média) da soma das ideias de todos os cristãos.
Nestas coisas, o que interessa não é se padre A ou católico B negaram Adão. Haverá sempre gente assim, como há comunistas fervorosos, filiados no Partido e tudo, e que vivem toda a vida com propriedade privada. A incoerência não traz informação nova.
O que interessa é:
1) A Igreja é hierárquica, ou seja, propõe doutrina de forma hierárquica? A resposta é SIM, e o proponente da doutrina é o Papa, e os Bispos unidos a ele
2) A Igreja, como mestra de doutrina, encabeçada pelo Papa e pelos seus Bispos, ensina que Adão e Eva têm existência histórica real? A resposta é SIM
O resto é conversa inútil. Só poderemos começar a debater a sério, católicos com não católicos, se todos soubermos de que é que estamos a falar.
Uma última nota, de teor racional... Visto que Cristo veio resgatar a Humanidade do pecado, pecado esse que a Igreja defende como sendo herdado de Adão e Eva, os primeiros seres humanos a pecar, é estranha a lógica que pretende que, sem Adão e Eva para pecar, ou seja, sem primeiro pecado, e portanto, sem pecado herdado (Pecado Original), que pecado viria Cristo resgatar?
É inconsistente ser cristão e negar o Pecado Original. Se sem Adão e Eva não há Pecado Original, então o cristão não pode negar Adão e Eva. Trocado por miúdos, é o que Pio XII diz no trecho que citei.
terça-feira, 19 de outubro de 2010
quarta-feira, 6 de outubro de 2010
Contra o branqueamento do 5 de Outubro
Contra o branqueamento do 5 de Outubro, entrevista do jornal Destak (Isabel Stilwell) ao historiador Rui Ramos, por ocasião dos festejos do Centenário da República.
É sempre refrescante ler Rui Ramos, sobretudo nestes dias em que somos sufocados pela omnipresença televisiva do Fernando Rosas, e do resto dos corifeus do revisionismo.
É sempre refrescante ler Rui Ramos, sobretudo nestes dias em que somos sufocados pela omnipresença televisiva do Fernando Rosas, e do resto dos corifeus do revisionismo.
sábado, 2 de outubro de 2010
Textos novos
Numa nova secção intitulada "O que ler?" há uma lista de livros recomendados, mesmo a tempo de pensar em livros para oferecer no Natal! A lista é um trabalho conjunto de várias pessoas.
Na secção "Artigos em PDF" há ainda um texto muito valioso e importante do Juiz Pedro Vaz Patto, intitulado A Lei de Identidade de Género e os Limites da Omnipotência do Legislador.
Na secção "Artigos em PDF" há ainda um texto muito valioso e importante do Juiz Pedro Vaz Patto, intitulado A Lei de Identidade de Género e os Limites da Omnipotência do Legislador.
terça-feira, 28 de setembro de 2010
O Papa e os ateístas
Mesmo comentadores ateus moderados e ponderados com o Ludwig caem, frequentemente, numa situação de falta de objectividade quando se trata de criticar a Igreja Católica.
Há um pressuposto, um "parti pris" anticatólico, que tolda a visão mesmo do ateu mais esclarecido e ponderado.
No seu blogue, o Ludwig criticou recentemente as palavras do Papa Bento XVI na sua visita ao Reino Unido. E é espantoso verificar como, num texto que o Ludwig intitulou de Treta da semana: papal disparatismo, o Ludwig se entala em várias tretas e disparates. Sem dúvida, todos não desejados. Não se trata de questionar a honestidade do Ludwig, mas sim a sua falta de objectividade quanto se trata de comentar este tipo de temas.
Vejamos disparate a disparate.
Ou se preferirmos, vejamos treta a treta...
1. Bento XVI teria classificado o nazismo de ateu
Este é, claramente, um problema de leitura. Ou se quisermos, de interpretação do texto lido. Diz o Ludwig:
«Criticando o que chama de “secularismo agressivo”, o Papa recordou aos britânicos a sua luta corajosa «contra uma tirania Nazi que queria erradicar Deus da sociedade»(3). Isto porque, de outra forma, os britânicos só se recordariam dos bombardeamentos e das invasões, esquecendo que o maior perigo da segunda grande guerra foi o ateísmo»
Ora isto é totalmente um tiro ao lado. Bento XVI, homem culto, não está a chamar Hitler de ateu nem está a classificar o Terceiro Reich de projecto ateísta. Eis as palavras do Papa, que raramente são lidas na fonte pelos seus críticos (Ludwig faz o típico: cita jornais):
«Também na nossa época podemos recordar como a Grã-Bretanha e os seus chefes se opuseram a uma tirania nazista que tinha no ânimo desenraizar Deus da sociedade e negava a muitos a nossa comum humanidade, sobretudo aos judeus, que eram considerados como não dignos de viver.»
O que quer o Papa dizer com o objectivo nazi de "desenraizar Deus da sociedade"? Estará o Papa a culpar o ateísmo pelos crimes nazis? Não se vê como... O Papa refere-se ao objectivo nazi de descristianizar a sociedade alemã, e por arrasto, a Europa. O plano nazi passava por remover a doutrina e a moral cristã da "weltanschauung" do comum dos mortais. E substituí-la pela cosmovisão nazi. Era ateia, essa cosmovisão? Não: era de tipo pagão, apesar de também ter o ateísmo como um dos seus ingredientes. Era uma mistura de mitos nórdico-germânicos com esoterismo "à la carte" (teosofista, neognóstico, neotemplário, ocultista, etc.) e com o ateísmo de Nietzsche. A doutrina nazi era uma mistura algo indigesta, mas seria pouco rigoroso classificá-la de ateísta.
Bento XVI está a afirmar algo que é bem sabido: Hitler queria desalojar Cristo, o Deus dos Cristãos, da cultura. Há aliás inúmeras citações de Hitler, de Himmler, ou de Goebbels a dizer precisamente isso. Basta aliás ler o "Mein Kampf" para se ver todo o programa de descristianização da sociedade.
Diz ainda o Ludwig sobre esta questão:
«Além das incorrecções históricas, a ligação entre o ateísmo e o nazismo é falaciosa. Mesmo que Hitler tivesse sido ateu, coisa que estava longe de ser, não se podia inferir daí que o problema do nazismo era o ateísmo.»
É caso para perguntar: e o Papa diz isso? Diz que Hitler era ateu, ou que o problema do nazismo era o ateísmo? É caso para recomendar ao Ludwig: "Lê o texto do Papa!". Não seria mais interessante criticar as palavras do Papa em vez de criticar a leitura que um jornalista da BBC fez sobre essas palavras?
Depois, segue-se a segunda argolada do Ludwig:
2. O nacional-socialismo teria uma base cristã
Diz o Ludwig: «Ratzinger esqueceu, no entanto, a base cristã do nacional socialismo.». Isto dá vontade de rir, mas o melhor era chorar.
O Ludwig não explica como é que o nazismo, essa ideologia do ariano nórdico montada sobre mitos e ideias de força, de supremacia do poder, se concilia com a doutrina cristã do pobre, manso e humilde Cristo. De tal forma o nazismo não pega com o cristianismo que Hitler se viu obrigado a inventar uma pseudo-igreja alemã intitulada "Deutsche Christen", sustentada numa patética deturpação do cristianismo, na qual Cristo seria ariano e não judeu.
Mas por detrás da confusão do Ludwig, há uma verdade. Hitler, realmente, capitalizou sobre os sentimentos antisemitas dos alemães e dos austríacos. Hitler, aliás, esteve mergulhado desde novo nesses sentimentos. E é sabido que esses sentimentos, alguns velhos de séculos, antes de serem racistas foram teológicos, inspirando-se naqueles que diziam que os Judeus eram os assassinos de Cristo. Só que uma coisa é má teologia, e outra coisa é a doutrina racista que se constrói em cima dessa má teologia, e sobretudo quando essa construção se faz noutro século e noutro contexto. O teólogo que, com fins de "propaganda fide", diz que o Judeu é pérfido porque não reconhece Cristo tem um problema teológico com o Judeu. Obviamente, essa não é a mesma pessoa que, séculos mais tarde, por causa da crise económica e da inveja, vai desenterrar velhos ódios antijudaicos para os transformar numa doutrina de ódio racial, suportada em ideias eugénicas e estruturada sobre a aplicação ilícita do darwinismo ao melhoramento da raça humana.
Agora a terceira treta...
3. A Igreja Católica apoiou Hitler
Enterra-se o Ludwig com esta frase: "E Ratzinger omitiu também o apoio da Igreja Católica a Hitler". A frase está sustentada na nota de rodapé número (5). Entusiasmado, salto para a nota, à procura de uma citação de um Harold Deutsch, de um Rhodes, de um Gilbert, ou mesmo de uma erudita adversária da Igreja como uma Susan Zuccotti. Teria sido muito simples ir buscar frases a mais historiadores críticos da atitude da Santa Sé durante a Guerra: haveria um Carlo Falconi ou um Saul Friedlander, ou ainda um Guenter Lewi para socorrerem à causa anticatólica. Mas em vez destes investigadores com obra feita, que encontro? Está isto na nota (5): "Por exemplo, o Ricado Alves...", e já nem é preciso ler mais... O Ludwig, na sua cabal acusação à Igreja Católica, a forte acusação de colaboração com os nazis, sustenta-se na propaganda anticatólica do Ricardo Alves, cujos pseudo-argumentos não têm o menor vislumbre de suporte documental, e que se apoiam, fragilmente e de forma auto-contraditória em vários locais, sobre uma leitura deturpada e multiplamente equivocada dos dados históricos.
Evito aprofundar mais uma óbvia treta, mas não queria deixar de a referir "en passant": a dos preservativos em África, pois sai do tema. O Ludwig preferiu misturar preservativos e SIDA ao nacional-socialismo. Entende-se, quando o objectivo é atirar lama à Igreja Católica. Aliás, faz parte da cartilha, e o Ludwig, com algum esforço e não pouco talento, seria capaz de lá meter o Galileu. E um Torquemada. Mas já debati a questão da SIDA com ele várias vezes, e infelizmente o diálogo não progride perante o preconceito.
Deixo apenas uma pergunta, perante a tese que pretende que a Igreja Católica é a responsável pela não eficácia do combate à SIDA. Um africano infiel à sua mulher usa, evidentemente, preservativo para evitar as consequências óbvias da sua infidelidade. Logo, o preservativo sustenta o seu comportamento infiel e é fundamental para um estilo de vida promíscuo e para o aumento de situações de risco de contágio. Isto é evidente, mas o Ludwig nega. Mas pergunto: faz sentido supor que o africano médio obedece à Igreja na questão do preservativo e desobedece na questão da fidelidade? Está para nascer o anticatólico que me explique esta contradição na simplista teoria que liga a Igreja à proliferação da SIDA.
Há um pressuposto, um "parti pris" anticatólico, que tolda a visão mesmo do ateu mais esclarecido e ponderado.
No seu blogue, o Ludwig criticou recentemente as palavras do Papa Bento XVI na sua visita ao Reino Unido. E é espantoso verificar como, num texto que o Ludwig intitulou de Treta da semana: papal disparatismo, o Ludwig se entala em várias tretas e disparates. Sem dúvida, todos não desejados. Não se trata de questionar a honestidade do Ludwig, mas sim a sua falta de objectividade quanto se trata de comentar este tipo de temas.
Vejamos disparate a disparate.
Ou se preferirmos, vejamos treta a treta...
1. Bento XVI teria classificado o nazismo de ateu
Este é, claramente, um problema de leitura. Ou se quisermos, de interpretação do texto lido. Diz o Ludwig:
«Criticando o que chama de “secularismo agressivo”, o Papa recordou aos britânicos a sua luta corajosa «contra uma tirania Nazi que queria erradicar Deus da sociedade»(3). Isto porque, de outra forma, os britânicos só se recordariam dos bombardeamentos e das invasões, esquecendo que o maior perigo da segunda grande guerra foi o ateísmo»
Ora isto é totalmente um tiro ao lado. Bento XVI, homem culto, não está a chamar Hitler de ateu nem está a classificar o Terceiro Reich de projecto ateísta. Eis as palavras do Papa, que raramente são lidas na fonte pelos seus críticos (Ludwig faz o típico: cita jornais):
«Também na nossa época podemos recordar como a Grã-Bretanha e os seus chefes se opuseram a uma tirania nazista que tinha no ânimo desenraizar Deus da sociedade e negava a muitos a nossa comum humanidade, sobretudo aos judeus, que eram considerados como não dignos de viver.»
O que quer o Papa dizer com o objectivo nazi de "desenraizar Deus da sociedade"? Estará o Papa a culpar o ateísmo pelos crimes nazis? Não se vê como... O Papa refere-se ao objectivo nazi de descristianizar a sociedade alemã, e por arrasto, a Europa. O plano nazi passava por remover a doutrina e a moral cristã da "weltanschauung" do comum dos mortais. E substituí-la pela cosmovisão nazi. Era ateia, essa cosmovisão? Não: era de tipo pagão, apesar de também ter o ateísmo como um dos seus ingredientes. Era uma mistura de mitos nórdico-germânicos com esoterismo "à la carte" (teosofista, neognóstico, neotemplário, ocultista, etc.) e com o ateísmo de Nietzsche. A doutrina nazi era uma mistura algo indigesta, mas seria pouco rigoroso classificá-la de ateísta.
Bento XVI está a afirmar algo que é bem sabido: Hitler queria desalojar Cristo, o Deus dos Cristãos, da cultura. Há aliás inúmeras citações de Hitler, de Himmler, ou de Goebbels a dizer precisamente isso. Basta aliás ler o "Mein Kampf" para se ver todo o programa de descristianização da sociedade.
Diz ainda o Ludwig sobre esta questão:
«Além das incorrecções históricas, a ligação entre o ateísmo e o nazismo é falaciosa. Mesmo que Hitler tivesse sido ateu, coisa que estava longe de ser, não se podia inferir daí que o problema do nazismo era o ateísmo.»
É caso para perguntar: e o Papa diz isso? Diz que Hitler era ateu, ou que o problema do nazismo era o ateísmo? É caso para recomendar ao Ludwig: "Lê o texto do Papa!". Não seria mais interessante criticar as palavras do Papa em vez de criticar a leitura que um jornalista da BBC fez sobre essas palavras?
Depois, segue-se a segunda argolada do Ludwig:
2. O nacional-socialismo teria uma base cristã
Diz o Ludwig: «Ratzinger esqueceu, no entanto, a base cristã do nacional socialismo.». Isto dá vontade de rir, mas o melhor era chorar.
O Ludwig não explica como é que o nazismo, essa ideologia do ariano nórdico montada sobre mitos e ideias de força, de supremacia do poder, se concilia com a doutrina cristã do pobre, manso e humilde Cristo. De tal forma o nazismo não pega com o cristianismo que Hitler se viu obrigado a inventar uma pseudo-igreja alemã intitulada "Deutsche Christen", sustentada numa patética deturpação do cristianismo, na qual Cristo seria ariano e não judeu.
Mas por detrás da confusão do Ludwig, há uma verdade. Hitler, realmente, capitalizou sobre os sentimentos antisemitas dos alemães e dos austríacos. Hitler, aliás, esteve mergulhado desde novo nesses sentimentos. E é sabido que esses sentimentos, alguns velhos de séculos, antes de serem racistas foram teológicos, inspirando-se naqueles que diziam que os Judeus eram os assassinos de Cristo. Só que uma coisa é má teologia, e outra coisa é a doutrina racista que se constrói em cima dessa má teologia, e sobretudo quando essa construção se faz noutro século e noutro contexto. O teólogo que, com fins de "propaganda fide", diz que o Judeu é pérfido porque não reconhece Cristo tem um problema teológico com o Judeu. Obviamente, essa não é a mesma pessoa que, séculos mais tarde, por causa da crise económica e da inveja, vai desenterrar velhos ódios antijudaicos para os transformar numa doutrina de ódio racial, suportada em ideias eugénicas e estruturada sobre a aplicação ilícita do darwinismo ao melhoramento da raça humana.
Agora a terceira treta...
3. A Igreja Católica apoiou Hitler
Enterra-se o Ludwig com esta frase: "E Ratzinger omitiu também o apoio da Igreja Católica a Hitler". A frase está sustentada na nota de rodapé número (5). Entusiasmado, salto para a nota, à procura de uma citação de um Harold Deutsch, de um Rhodes, de um Gilbert, ou mesmo de uma erudita adversária da Igreja como uma Susan Zuccotti. Teria sido muito simples ir buscar frases a mais historiadores críticos da atitude da Santa Sé durante a Guerra: haveria um Carlo Falconi ou um Saul Friedlander, ou ainda um Guenter Lewi para socorrerem à causa anticatólica. Mas em vez destes investigadores com obra feita, que encontro? Está isto na nota (5): "Por exemplo, o Ricado Alves...", e já nem é preciso ler mais... O Ludwig, na sua cabal acusação à Igreja Católica, a forte acusação de colaboração com os nazis, sustenta-se na propaganda anticatólica do Ricardo Alves, cujos pseudo-argumentos não têm o menor vislumbre de suporte documental, e que se apoiam, fragilmente e de forma auto-contraditória em vários locais, sobre uma leitura deturpada e multiplamente equivocada dos dados históricos.
Evito aprofundar mais uma óbvia treta, mas não queria deixar de a referir "en passant": a dos preservativos em África, pois sai do tema. O Ludwig preferiu misturar preservativos e SIDA ao nacional-socialismo. Entende-se, quando o objectivo é atirar lama à Igreja Católica. Aliás, faz parte da cartilha, e o Ludwig, com algum esforço e não pouco talento, seria capaz de lá meter o Galileu. E um Torquemada. Mas já debati a questão da SIDA com ele várias vezes, e infelizmente o diálogo não progride perante o preconceito.
Deixo apenas uma pergunta, perante a tese que pretende que a Igreja Católica é a responsável pela não eficácia do combate à SIDA. Um africano infiel à sua mulher usa, evidentemente, preservativo para evitar as consequências óbvias da sua infidelidade. Logo, o preservativo sustenta o seu comportamento infiel e é fundamental para um estilo de vida promíscuo e para o aumento de situações de risco de contágio. Isto é evidente, mas o Ludwig nega. Mas pergunto: faz sentido supor que o africano médio obedece à Igreja na questão do preservativo e desobedece na questão da fidelidade? Está para nascer o anticatólico que me explique esta contradição na simplista teoria que liga a Igreja à proliferação da SIDA.
sexta-feira, 24 de setembro de 2010
terça-feira, 14 de setembro de 2010
Cristianismo e Maçonaria
Placa comemorativa da primeira reunião da Grande Loja de Londres, em 1717, afixada na entrada da taberna "Goose and Gridiron" (créditos da fotografia: JaneMT)
No último Sábado, deu entrada um comentário assinado "José" no meu texto já antigo, de Outubro do ano passado, intitulado Dan Brown e a Maçonaria.
O comentário é muito importante, pois é escrito, ao que tudo indica, por um cristão que também pertence à Maçonaria. Não é pequeno o número de cristãos membros de filiações maçónicas, alguns inconscientes da incompatibilidade entre ambas as pertenças, outros conscientes mas displicentes em relação a essa incompatibilidade, e outros ainda defensores categóricos da compatibilidade (e mesmo complementaridade) entre Cristianismo e Maçonaria. O comentador José pertence a este último grupo.
Antes de refutar o comentário do José, queria deixar bem claro um ponto: tenho o maior fascínio pelo fenómeno da Maçonaria, cuja história estudo, informalmente, há vários anos. Por essa razão, e como sucede com todos os que procuram seriamente compreender a Maçonaria, eu não adiro a teorias demonizadoras da Maçonaria, que fazem dela a grande conspiradora, e a causa de todos os males sociais e de todas as revoluções e desestabilizações.
O antimaçonismo católico tem uma longa história, e tem coisas boas e coisas más. Acerca das coisas más, podemos dizer que não poucos católicos antimaçónicos deixaram para a posteridade uma mole de obras cujo fio condutor foi, em grande medida, o de "desvendar a grande conspiração". Muitas obras não eram escritas por historiadores, e frequentemente, o autor não estava muito preocupado com o rigor histórico, mas sim com a eficácia da guerra em questão.
Mas o antimaçonismo católico também teve, e tem, coisas muito boas. Talvez a coisa mais valiosa que se possa retirar do legado católico antimaçónico é o demonstrar a clara e insolúvel incompatibilidade entre cristianismo e Maçonaria. Todo o cristão que se filia na Maçonaria, seja qual for o seu ramo, regular ou irregular, está em contradição. Mesmo que se trate de uma filiação que exige uma prática religiosa aos seus membros, como sucederá em correntes maçónicas regulares, a contradição não desaparece. É essa contradição que passo agora a explicar, com base no comentário aqui deixado pelo comentador José, e que aproveitarei para melhor elucidar os erros da sua posição.
Começa o José:
«Considero completamente infundada a alegada incompatibilidade entre a Maçonaria e a doutrina católica. Se ela existe é certamente por confusão de quem a estabeleceu.»
A incompatibilidade entre Maçonaria e Igreja Católica é um facto, ainda mais fácil de estabelecer que a incompatibilidade entre a Maçonaria e o cristianismo "lato sensu". A constatação mais evidente é a de que o Magistério da Igreja tem longa tradição nesse sentido. É, talvez, uma das áreas onde a condenação da Igreja foi mais clara. Mesmo pegando apenas nos documentos papais mais importantes, ou seja, deixando de parte discursos papais menos solenes e documentos e discursos de outros Bispos da Igreja, o rol é impressionante. Condenaram a Maçonaria de forma clara Clemente XII (uma Bula), Bento XIV (uma Constituição Apostólica), Pio VII (uma Bula), Leão XII (uma Constituição Apostólica), Pio VIII (uma Encíclica e uma Carta), Gregório XIV (uma Encíclica), Pio IX (três Encíclicas e duas Alocuções), Leão XIII (sete Encíclicas e uma Carta Apostólica), Bento XV (na sua revisão do Código de Direito Canónico, cânone 2335 que instaura uma proibição explícita de pertença à Maçonaria), João Paulo II (na sua revisão do Código de Direito Canónico, cânone 1374 que mantém uma proibição, mas não explícita). A listagem e descrição das condenações papais à Maçonaria encontra-se aqui.
A quem, confrontado com estes factos, alegar que a Igreja abandonou a antiga condenação da Maçonaria e que agora, sobretudo após o Vaticano II, toleraria a pertença do cristão a uma filiação maçónica, nada como apresentar este trecho da Declaração sobre a Maçonaria, da Congregação para a Doutrina da Fé, publicado a 26 de Novembro de 1983 e assinado pelo actual Papa, o então Cardeal Ratzinger:
«Permanece portanto imutável o parecer negativo da Igreja a respeito das associações maçónicas, pois os seus princípios foram sempre considerados inconciliáveis com a doutrina da Igreja e por isso permanece proibida a inscrição nelas. Os fiéis que pertencem às associações maçónicas estão em estado de pecado grave e não podem aproximar-se da Sagrada Comunhão.»
O comentador José nem uma só palavra diz acerca destes factos, que chocam de frente com as suas "certezas" de que não há incompatibilidade.
«Desde logo, não existe tal coisa como um ideário filosófico da Maçonaria. Existem princípios,regras e rituais. Mas não existe doutrina. A Maçonaria não é uma religião nem visa usurpar o papel das religiões.»
É, certamente, uma questão semântica a distinção algo subtil entre "doutrina" e "princípios, regras e rituais". Que "rituais" é algo que possa ficar de fora da "doutrina", ainda se entende. Mas se os princípios e regras de que fala o José não são "doutrinais", que serão? Não falamos, certamente, de doutrina religiosa, mas acho discutível a afirmação de que não há uma doutrina filosófica por detrás da Maçonaria.
Mas, concedendo-lhe este ponto, pergunto: o facto de a Maçonaria não se ver a ela mesma como uma religião deve levar-nos, "ipso facto", a afirmar que não há problemas de compatibilidade com o cristianismo? Basta um contra-exemplo: tanto o nazismo como o comunismo não são religiões, e no entanto, são incompatíveis com o cristianismo.
Prossegue o José:
«A Maçonaria é apenas (e isso já é muito) uma Via Iniciática.»
Esta afirmação é muito problemática. Pois toda a via iniciática pressupõe uma cadeia de transmissão. E a questão que o historiador coloca é esta: onde nos leva a cadeia de transmissão das correntes maçónicas modernas? Leva-nos às quatro tabernas londrinas, onde se reuniam os fundadores da maçonaria moderna, que a 24 de Junho de 1717 instituíram a Grande Loja de Londres, loja-mãe de todas as filiações modernas:
Loja 1: A cervejaria (“ale house”) “Goose and Gridiron”, no pátio de St. Paul’s; hoje em dia chamada “Antiquity Lodge n.º 2”; dataria de 1691, de acordo com a “List of Lodges” de 1729;
Loja 2: A cervejaria “Crown”, em Parker’s Lane, Lincoln’s Inn Field, perto de Drury Lane; em 1724, esta Loja muda o local das reuniões para o “Queen’s Head”, em Turnstile; desaparece em 1736; dataria de 1712, de acordo com a “List of Lodges” de 1729;
Loja 3: A taberna (“tavern”) “Apple Tree”, em Charles Street, Covent Garden; em 1724, esta Loja muda o local das reuniões para o “Queen’s Head”, em Knave’s Acre; hoje em dia chamada “Lodge of Fortitude and Old Cumberland n.º 12”; desconhece-se a data de fundação;
Loja 4: A taberna “Rummer and Grapes”, em Channel Row, Westminster; em 1724, esta Loja muda o local das reuniões para o “Horne” em Westminster; hoje em dia chamada “Royal Somerset House and Inverness Lodge n.º 4”; desconhece-se a data de fundação.
A questão da "via iniciática" parece encontrar um obstáculo neste acto fundador da maçonaria moderna. James Anderson e Téophile Desaguliers, figuras de proa da instituição da Grande Loja de Londres, e co-redactores dos seus estatutos, partiram do zero? Quase ninguém o afirma. Então partiram de quê? Entra em cena a questão central das "old charges", ou seja, dos estatutos maçónicos medievais, em uso pelas confrarias de pedreiros. É escusado afirmar que, antes de Henrique VIII, estamos perante confrarias católicas de profissionais do ofício de pedreiro. Porque razão, então, Anderson e Desaguliers vão "reformular" de tal forma as "old charges" que desaparecem referências como "to be true to God and the Holy Church"?
Diz o José:
«Por isso, a Maçonaria não tem doutrina e é adogmática.»
1) Primeiro, vê-se que a questão das raízes ideológicas da Maçonaria moderna é complexa, e tem o seu berço numa manobra de "reorganização" documental, na qual Anderson e Desaguliers distorcem as "old charges" e fundam uma nova maçonaria, que já nada tem a ver com a maçonaria operativa medieval; isto fragiliza a sua afirmação acerca da "via iniciática"
2) Segundo, com a sua afirmação de que a Maçonaria é "adogmática", perguntamos: antes ou depois da fundação da Grande Loja de Londres? É que a maçonaria medieval especificava a obrigatoriedade de ser verdadeiro para com Deus e para com a Santa Igreja
Continua o José...
«Enquanto tal, através de símbolos e rituais, propõe-se conferir aos seus membros ferramentas simbólicas que estes devem utilizar interiormente, de modo a aceder a um Conhecimento de natureza diferente, insusceptível de ser adquirido pela mera leitura de livros ou por via doutrinária, o Conhecimento esotérico.»
E ainda não vê contradição?
Com esta sua frase, que reflecte correctamente a visão que a maioria dos maçons têm da própria Maçonaria, você acabou de me dar razão. É que a sua frase postula que a Maçonaria é a fonte de conhecimentos e de metodologias e progresso espiritual que estão acima da doutrina da Igreja. Logo, o cristão que é maçon coloca a Maçonaria acima da Igreja. Logo, coloca a Maçonaria acima de Cristo, pois para todo o cristão, Cristo é o "esposo" e a Igreja é a "esposa". Um não vem sem o outro. Um dos grandes problemas da Maçonaria, ou de qualquer outra via "esotérica" desgarrada de uma ortodoxia religiosa, é o problema das hierarquias: a Maçonaria, como caminho e como via, coloca-se acima do caminho traçado pela Igreja.
Cristo disse: "Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida". E disse ainda a Pedro: "E sobre esta Pedra edificarei a Minha Igreja". Não vejo como conciliar isto, na cabeça do cristão sério e coerente, com a pertença a uma organização que pretende estar acima disto.
«E apesar de ter uma matriz histórica cristã, a Maçonaria utiliza o conceito de Grande Arquitecto do Universo, para se referir ao Princípio Criador Universal, de modo tão suficientemente genérico, que permite receber no seu seio, membros de todos os credos religiosos.»
E o José volta a dar-me razão. Este é outro dos problemas que provocam a incompatibilidade entre cristianismo e Maçonaria. Não se pode servir vários mestres. O cristão segue Cristo, pois acredita que Cristo é o Caminho, a Verdade e a Vida para TODOS os seres humanos. O relativismo que a Maçonaria institui como "credo" choca com a doutrina cristã acerca da salvação através de Cristo. Só nos salvamos por Cristo. Logo, é bizarro pretendermos que, acima de Cristo, Deus e Filho de Deus, há uma divindade "genérica" (usando a sua palavra) feita para acomodar várias religiões diferentes. A Maçonaria dinamita o preceito de Cristo: "Ide e anunciai a Boa Nova". Nas reuniões maçónicas, onde o cristão segura no Evangelho de São João, o judeu segura na Torah e o muçulmano segura no Corão, onde está o mandamento de Cristo? Para onde vai a evangelização? Para debaixo do avental?
«A Maçonaria regular pressupõe a crença em Deus, enquanto Princípio Criador (que cada um, interiormente, representa de acordo com a sua confissão ou crença religiosa).»
Isto é sempre a mesma coisa: trata-se de uma posição filosófica relativista, que não pretende afirmar o cristianismo como verdadeiro e como religião verdadeira. Nenhum cristão pode concordar com isto.
«Neste sentido, não sendo uma religião ou seita, a Maçonaria é conciliadora entre os homens de boa vontade e, talvez por isso, consiga ser, mais eficazmente diga-se, ecuménica.»
Duas notas:
1) O ecumenismo dá-se entre cristãos; a relação entre o cristianismo e as restantes religiões tem o nome de "diálogo interreligioso"
2) O ecumenismo não tem nada a ver com relativismo: tem a ver com diálogo com o outro, para o conhecermos melhor e para ele nos conhecer melhor: tem a ver com respeito da diferença; não implica, de forma nenhuma, abdicarmos da verdade da nossa posição e da superioridade da nossa posição
«Do ponto de vista institucional, enquanto organização que é, a Maçonaria é marcada por princípios e valores morais, como a Paz entre os homens, a Tolerância, o respeito pela dignidade humana, a Liberdade,a Igualdade e a Fraternidade.»
Nada a opor, neste aspecto. Mas a Maçonaria, como vimos, tem vários aspectos problemáticos.
«Nada disto é incompatível com a doutrina católica em particular nem com o Cristianismo em geral.»
Acabei de demonstrar porque razão o José está errado. E dei várias razões sólidas.
«Por isso insisto que só por ignorância ou confusão se pode estabelecer uma relação de incompatibilidade entre a Maçonaria (regular)e a doutrina católica.»
Não vale a pena insistir, já que se viu que não tem razão. Cabe a si tentar refutar as claras incompatibilidades que apresentei. Creio que não terá sucesso.
«Não se pode generalizar o passado (ou o presente) de algumas Potências maçónicas irregulares, de modo a qualificar o que é a Maçonaria (regular), como não é a Inquisição, o comportamento pedófilo de alguns sacerdotes ou a recente iniciativa de um Pastor de queimar o Corão, que nos permite afirmar que a Religião e as Igrejas em geral são incompatíveis com a Moral e os Bons Costumes.»
Como vê, as incompatibilidades que apresentei também se constatam na Maçonaria regular. É inegável que qualquer cristão pode ter maior simpatia pelo maçon regular, que vive num quadro mental mais aproximado do seu do que um maçon irregular. No entanto, essa maior proximidade de ideias não é suficiente para eliminar as graves incompatibilidades que indiquei atrás.
Termino com umas palavras finais para o José: em primeiro lugar, agradeço a sua visita a este blogue e o seu comentário. Em segundo lugar, como cristão, e em nome da mesma fé em Cristo que partilhamos, peço-lhe que reconsidere a sua pertença à Maçonaria. Nunca é tarde demais para desfazer um erro. Não há razão para que o cristão que abandona a Maçonaria tenha que, por isso, quebrar amizades pessoais. E é perfeitamente possível a um cristão desenvolver estudos sobre Maçonaria, um tema fascinante, sem que o cristão caia no erro de aderir às ideias maçónicas, ou de pertencer a uma organização cujos princípios colidem com o cristianismo.
P.S.: Este meu texto é extremamente sintético, e deixa de fora outras razões para a manifesta incompatibilidade entre cristianismo e Maçonaria. Recomendo a leitura do artigo do padre Robert Bradley, S.J., Catholicism vs. Freemasonry — irreconcilable forever.
segunda-feira, 13 de setembro de 2010
In memoriam - António Telmo (1927-2010)
Ainda me lembro do espanto, quando há uma catrefada de anos eu perguntei à minha amiga Joana Vitorino: "O António Telmo é teu tio?!". Na altura, ignorantão, eu não conhecia a valiosa obra do próprio pai da Joana, o Orlando Vitorino (1922-2003). Mal refeito do espanto, pois na altura eu devorava os livros de António Telmo, disse à Joana: "E achas que eu poderia um dia falar com o teu tio?". Ela confirmou, claro, dizendo-me que o tio estava a viver em Estremoz, e que poderíamos combinar ir lá um dia. Eu respondi, sempre optimista: "Sim, vamos combinar isso!". Nunca combinei essa ida a Estremoz. Sou irremediavelmente estúpido. A notícia da sua morte a 21 de Agosto último, noticiada ontem na televisão, caiu ontem sobre mim como um balde de água gelada.
Para quem não conhece a obra destes irmãos, é difícil entender este meu fascínio. A dada altura, mergulhado nas páginas de um dos livros de António Telmo, dei comigo a pensar: "esta é uma das melhores mentes portuguesas vivas!". Era mesmo... Eram filósofos grandes. Grandes pelos seus conhecimentos e pela sua largueza de vistas. Grandes pela humildade. Grandes pelo seu amor a Portugal.
Na quinta-feira, pelas 18 horas, na Biblioteca Nacional, haverá uma homenagem ao António Telmo. Será apresentado o livro "O Portugal de António Telmo". Falará outro grande: o Pinharanda Gomes. Um evento imperdível.
Eis os dados biográficos básicos sobre António Telmo...
«António Telmo Carvalho Vitorino, nascido a 2 de Maio de 1927, em Almeida (Guarda) integrou aos 23 anos o grupo Filosofia Portuguesa depois de ter tido contacto com José Marinho (1904-1975) e Álvaro Ribeiro (1905-1981). A convite de Agostinho da Silva (1906-1994) e de Eudoro de Sousa (1911-1987), foi professor de Literatura Portuguesa durante três anos, na Univers 2 de Maio de 1927, em Almeida (Guarda) integrou aos 23 anos o grupo Filosofia Portuguesa depois de ter tido contacto com José Marinho (1904-1975) e Álvaro Ribeiro (1905-1981). A convite de Agostinho da Silva (1906-1994) e de Eudoro de Sousa (1911-1987), foi professor de Literatura Portuguesa durante três anos, na Universidade de Brasília. Leccionou ainda em Granada e, de regresso a Portugal, foi director da Biblioteca de Sesimbra, onde residira, e posteriormente radicou-se em Estremoz, onde foi professor de Português.»
Eis a sua obra escrita...
- Arte Poética, Lisboa, Guimarães, 1963.
- História Secreta de Portugal, Lisboa, Vega, 1977.
- Gramática secreta da língua portuguesa, Lisboa, Guimarães, 1981.
- Desembarque dos Maniqueus na Ilha de Camões, Lisboa, Guimarães, 1982.
- Filosofia e Kabbalah, Lisboa, Guimarães, 1989.
- O Bateleur, Lisboa, Átrio, 1992.
- Horóscopo de Portugal, Lisboa, Guimarães, 1997.
- Contos, Lisboa, Aríon, 1999.
- O Mistério de Portugal na História e n’ Os Lusíadas, Lisboa, Ésquilo, 2004.
- Viagem a Granada, Lisboa, Fundação Lusíada, 2005.
- Contos Secretos, Chaves, Tartaruga, 2007.
- A Verdade do Amor, seguido de Adoração: Cânticos de amor, de Leonardo Coimbra, Lisboa, Zéfiro, 2008.
- Congeminações de um neopitagórico, Vale de Lázaro, Al-Barzakh, 2006/ Lisboa, Zéfiro, 2009.
- A Aventura Maçónica, Lisboa, Zéfiro, 2010.
- Luís de Camões, Estremoz, Al-Barzakh, 2010.
- O Portugal de António Telmo, Lisboa, Guimarães, 2010.
PS: Ler este magnífico À conversa com António Telmo. É uma forma de tocarmos ao de leve no intelecto deste pensador de vulto.
Porque razão está Bento XVI a reintroduzir a comunhão de joelhos
Um interessantíssimo artigo de Sandro Magister explica as razões de Bento XVI para a recuperação do bom hábito da genuflexão. O artigo traz, no final, um valioso e surpreendente texto de Monsenhor Marco Agostini, que explica que a beleza dos pavimentos de muitas das igrejas mais antigas tinha como destinatários principais os fiéis ajoelhados.
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