sábado, 23 de outubro de 2004

"a última pessoa interessada em prejudicar o PS"

(publicado em simultâneo no Afixe)



«Quanto ao alegado envolvimento de figuras do Partido Socialista no processo, entre as quais o ex-líder Ferro Rodrigues, Souto de Moura salienta ter sido escolhido para PGR por este partido, pelo que seria "a última pessoa interessada em prejudicar o PS", embora "acima de simpatias pessoais estejam as obrigações inerentes ao cargo".» - in Público.

Não. Não gostei nada desta frase do Procurador-Geral. Entende-se a intenção, perfeitamente inocente, mas é uma frase esquisita. Infelizmente, apesar de ser uma pessoa extremamente honesta e determinada, o actual Procurador, na minha opinião, nem sempre se sai bem com a imprensa. E a imprensa aproveita.

Mas a questão na base deste artigo que retirei do Público era outra. E era estúpida: deveria o Procurador-Geral abandonar o cargo se o Ministério Público fosse derrotado no processo "Casa Pia"? Faz algum sentido colocar esta questão? Para os media, neste caso o Expresso, fez.

Claro que os media querem polémica, e procuram grandes tiragens e elevadas vendas. Mas o que está por detrás desta pergunta? No fundo, qual é a ideia? Porque haveria Souto de Moura de sair do cargo? Afinal, o processo "Casa Pia" é um de muitos processos nos quais o Ministério Público está a trabalhar. Tudo isto faz parte do trabalho do dia-a-dia de um Procurador-Geral. Perder casos e ganhar casos.

Haverá uma intenção mais grave por detrás das interrogações dos media? Nestes tempos em que informar já não é a intenção do "circo" mediático (sem desprestígio para a nobre profissão circense), poderíamos apenas pensar que estamos perante mais uma polémica que os media querem lançar. Afinal, já se tornou banal, entre os media (e consequentemente na maleável opinião pública) a ideia imbecil de que as pessoas envolvidas em cargos políticos devem ser sempre despedidas quando surgem revezes nas suas actividades diárias.

Mas será só isto? A intenção do Expresso com aquela pergunta provocatória seria apenas a polémica?

Isto faz-me pensar que deve haver gente com saudades dos tempos de Cunha Rodrigues. Fala-se muito na fraqueza do Procurador-Geral Souto de Moura. Nas suas declarações, que por vezes são pouco cautelosas. Mas, decididamente vivem-se melhores dias na Procuradoria, no que toca a despachar processos! Quem quer regressar aos tempos de Cunha Rodrigues? Infelizmente, muita gente que gosta de gavetas com chaves...

Bernardo

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