quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Debate "Deus (não) existe?"

O debate da passada Quinta-feira, 21 de Novembro, na Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa, colocou-me frente a frente com o Ricardo Silvestre. Eu defendi a existência de Deus usando argumentação científico-filosófica, enquanto que o Ricardo procurou defender a inexistência de Deus. Os meus "slides" podem ser encontrados aqui.
(este ficheiro PDF contém mais "slides" do que os que eu usei: na minha primeira parte, usei todos os "slides" até ao 19, mas saltei o slide 12; os restantes "slides" eram de reserva, e só mostrei alguns deles na minha segunda parte, quando foi necessário)

Na minha primeira intervenção, apresentei dois argumentos filosófico-científicos a favor da existência de Deus:

A1: Argumento Cosmológico (versão de Leibniz):
Demonstrei existir uma entidade:
  • Que tem em si mesma a sua razão de existir
  • Que não poderia não existir, e portanto é eterna (ou pelo menos perpétua)
  • Que é imaterial: não é feita de massa / energia

A2: Argumento Teleológico (versão de Robin Collins):
  • Apresentei diversos exemplos de que o nosso Universo está afinado para existir vida, e em alguns casos, está afinado para haver Química elementar (uma tabela de elementos suficientemente variada) e afinado para termos estabilidade atómica, essencial para toda a Química (e portanto, para a existência de qualquer forma de vida conhecida ou desconhecida):
    • Que as leis da Natureza estão afinadas
    • Que as constantes que figuram nas equações das leis da Natureza estão afinadas
    • Que as condições iniciais do nosso Universo estavam afinadas
  • Mostrei que a afinação do Universo é muitíssimo mais expectável dado o teísmo do que dado o ateísmo, e por isso, perante essa afinação, a atitude racional é acreditar que Deus existe
  • Expliquei que este argumento A2 aponta para a inteligência da entidade que o argumento A1 demonstrou existir, pela razão de que o nosso Universo está minuciosamente estruturado e afinado de forma inteligente
Perante estes argumentos, o Ricardo tinha que fazer duas coisas:
  1. Refutar os argumentos que apresentei em defesa da existência de Deus
  2. Apresentar argumentos seus em defesa da inexistência de Deus
Na sua primeira intervenção, o Ricardo colocou as seguintes objecções aos meus argumentos:

A1: Argumento Cosmológico de Leibniz: o Ricardo criticou a necessidade de terminar a regressão infinita de explicações / causas, alegando que era arbitrário fazer parar a regressão num primeiro ente, ou seja, numa "causa primeira".

A2: Argumento Teleológico: o Ricardo sugeriu o multiverso como a melhor explicação para a afinação do nosso Universo.

Na minha segunda intervenção, respondi da seguinte forma às objecções do Ricardo:

A1: Argumento Cosmológico de Leibniz
Este argumento parte de duas premissas:
  • Que é válido o Princípio da Razão Suficiente (PRS), que diz que toda a coisa C existente é explicada:
    • ou por algo já existente, e que explica a coisa C
    • ou pela própria coisa C, caso essa coisa C tenha em si mesma a sua razão de existir (C teria existência obrigatória)
  • Que o nosso Universo existe
Aceites as duas premissas, a conclusão segue-se inevitavelmente, se eu não tiver cometido erros de encadeamento lógico. O Ricardo não negou o PRS, nem negou que o nosso Universo existe. O Ricardo apontou para um eventual erro no meu raciocínio, dizendo que a regressão de explicações / causas poderia ser infinita, e que não é necessário parar numa explicação ou causa primeira.

Em resposta a esta objecção, regressei ao esquema do "slide" 8 e expliquei que, mesmo que existam várias coisas encadeadas entre o Universo e uma primeira coisa, uma primeira coisa tem que existir, e tem que ter em si mesma a explicação para a sua existência, ou seja, tem mesmo que ser uma "primeira" coisa, e não podemos ter uma regressão infinita de explicações / causas.

Aviso: o argumento de Leibniz também se aplica caso o Universo fosse eterno: as explicações para a existência do Universo fazem sempre falta, mesmo que o Universo seja eterno, porque se o Universo podia ser diferente do que é, então não tem existência obrigatória (não tem em si mesmo a sua razão de existir) e por isso requer uma explicação distinta dele mesmo. Por isso, quando digo "primeira coisa", falo em "primeira explicação", uma explicação fundamental que não requer mais explicações.

Vamos ver porquê, supondo que o Ricardo tinha razão. Vamos supor que há uma cadeia infinita de explicações das explicações das explicações, e assim por diante, cadeia essa que numa das direcções termina no Universo, mas que na outra direcção não tem fim: regride infinitamente. Se assim fosse, aplicaríamos o PRS a essa cadeia infinita para perguntar: porque é que existe esta cadeia infinita, em vez de nada? Porque é que esta cadeia infinita existe, e porque é que ela é como é? Como o Universo faz parte dessa cadeia, e o Universo podia ser diferente do que é, então a cadeia como um todo, mesmo sendo infinita, poderia ser diferente do que é. Então, a cadeia infinita não teria em si mesma a sua própria explicação para existir. Então, como vemos, a cadeia infinita necessitaria de uma explicação distinta dela mesma. Logo, caímos sempre na necessidade de uma primeira explicação, na necessidade de existir uma primeira coisa que tem em si mesma a sua razão de existir.

Sugerir uma cadeia infinita de explicações, como fez o Ricardo, é tentar fugir do PRS, para acabar por ter que voltar a recorrer ao PRS para confirmar que é forçoso existir uma "primeira coisa" de existência obrigatória. Uma primeira coisa distinta do Universo, que existe por si própria, que tem existência obrigatória, e que é imaterial, porque tudo o que é feito de matéria ou energia podia ser diferente do que é.

A2: Argumento Teleológico: o Ricardo sugeriu o multiverso como a melhor explicação para a afinação do nosso Universo. Contra esta resposta, argumentei:
  • Que o multiverso é ainda especulação sem suporte experimental
  • Que o multiverso não resolve a afinação das leis da natureza: apenas "transporta" o problema da afinação do nosso Universo para o patamar mais fundamental do multiverso
  • Que um eventual multiverso no qual são gerados os inúmeros universos teria que ser muito especial e afinado para produzir universos afinados para a existência de vida 
Em suma
  1. O Ricardo não conseguiu refutar os meus argumentos, pelo que eles permaneceram válidos durante todo o debate e até ao final da noite
  2. O Ricardo fez uma série de críticas à ideia de existir Deus, sobretudo à ideia de existir um Deus Bom, levantou várias questões, e eu apenas respondi a algumas delas
Uma das principais (e importantes) críticas que me fizeram, no rescaldo do debate, foi a de eu ter deixado sem resposta uma série de questões levantadas pelo Ricardo durante o debate. Na verdade, na fase de perguntas e respostas, pude interagir com algumas delas e refutá-las. Mas é verdade que várias questões do Ricardo ficaram sem resposta da minha parte. Na minha segunda intervenção da noite, optei por aprofundar a defesa dos dois argumentos que tinha levado, respondendo às objecções que o Ricardo levantou de forma pertinente contra esses argumentos. Poderia ter usado a minha segunda intervenção para responder às questões do Ricardo, mas optei por me manter no tema da noite: os melhores argumentos a favor da (ou contra a) existência de Deus.

Respostas às questões e objecções do Ricardo

Aproveito agora para deixar respostas resumidas e breves às questões e objecções importantes levantadas pelo Ricardo durante o debate, para as quais não dei resposta na altura, ou então respondi de forma incompleta por falta de tempo. Como se pode ver abaixo, a grande variedade de questões que o Ricardo levantou durante as suas comunicações mostra bem que, caso eu tivesse optado por responder ponto por ponto, o debate teria claramente descarrilado para fora do tema central.
  1. Há provas científicas de que Deus existe?
  2. O conhecimento científico de São Tomás de Aquino está ultrapassado.
  3. Porque não uma regressão infinita de explicações ou causas?
  4. Porque não uma regressão circular de explicações ou causas?
  5. Porque é que o multiverso não explica as evidências de afinação do nosso Universo?
  6. Porque é que o Universo é tão grande? Para quê?
  7. Porque é que há mal no Universo? Imperfeições? Doenças? Desastres naturais?
  8. Poderá Deus ser Bom? Paradoxo de Epicuro.
  9. Todas as alegações de milagres têm sido cientificamente refutadas.
  10. O livre-arbítrio é uma ilusão.
  11. A Igreja Católica limita a investigação científica com os seus dogmas morais.
  12. A alma é uma ficção.
  13. Uma pessoa de outra religião que teve o azar de não nascer na religião "certa" não se vai salvar?
  14. Se a mensagem do cristianismo é assim tão importante, porque é que Deus a não a torna mais óbvia? Porque é que Deus não se torna mais óbvio?
  15. Onde está a "assinatura" de Deus?
  16. Porque é que Deus deixou o Universo ao acaso?

12 comentários:

Vasco Gama disse...

Passei por aqui e respondi brevemente ao Ricardo

1- Nâo (e deveria haver? não me parece).
2- Provavelmente, e depois (os argumentos relevantes são metafísicos e não científicos).
3,4- Porque não é racional aceitar tal coisa.
5- O multiverso não explica coisa nenhuma. Porque é que devia explicar?
6- Porque é que o universo deveria ser pequeno, ou o que é que é ser grande ou pequeno, se calhar nós é que somos pequenos e o universo apenas parece grande (ou porque razão teria de haver universo algum)?
7- Porque há bem (porque também poderia não haver nada)
8- Sim, o paradoxo de Epicuro não faz sentido (presuncão de irracionalidade, como se Deus pudesse ser auto contraditório)
9- Não, nem por isso (se algum milagre for refutado, no máximo, deixaria de ser um milagre).
10- Porquê (isso é uma presunção infundada e irracional)?
11- Não.
12- Porquê (isso é uma presunção infundada, mas tem direito a ela)?
13- Não tenho tanta a certeza sobre isso.
14- Porque a relação com Deus se baseia no amor mútuo e não pode ser uma imposição. Deus é óbvio (mas não compulsivo).
15- Na existência.
16- O Universo não é aleatório, é bastante inteligível (e os seres humanos são capazes de o compreenderem)

Vasco Gama disse...

Gostava de deixar aqui um link para uma interessante palestra do Edward Feser, "An Aristotelian Proof of the Existence of God"

http://vimeo.com/60979789

espero que gostem

MT disse...

Li este post com muita atenção admirando o nível intelectual da discussão. Filosofia aristotélica, Epicuro, multi-universos..... Os meus conhecimentos de filosofia, teologia e física quântica são limitados e impedem qualquer contributo construtivo para a discussão pois não acrescentariam valor. Sou um agnóstico espiritual e cristão, entretanto descrente, poderei tentar conceber a ideia de Deus como sinónimo de uma força criadora universal , mas a concepção de um Deus antropomórfico é algo que a meu ver não faz hoje sentido, chocando assim frontalmente com todas as religiões abrâamicas. Muito resumidamente:
1: Conforme livro a evolução de Deus, de Robert Wright (fundamentalmente do Deus abaamico) que li recentemente, o autor demonstra brilhantemente a evolução que o conceito de Deus teve desde o politeísmo judaico ao islamismo. Todas as religiões são sincretismos de algo que já existia. Todas incorporam crenças e mitos de outras religiões, como, aliás, os estudiosos da bíblia referem quando associam determinadas histórias como a arca de Noé e a virgindade da Maria a outras histórias e crenças similares existentes noutros credos centenas de anos antes.
2: No que ao Cristianismo diz respeito, sendo este o ramal das religiões Abraâmicas com a qual tenho empatia e identificação cultural, assisto com interesse as revelações que os académicos não crentes que têm estudado com processos científicos a historicidade e a veracidade dos factos bíblicos têm dito sobre aquilo que se pode aferir com alguma certeza sobre Jesus Cristo. Não falo obviamente do patranheiro Dan Brown e o seu Código da Vinci, mas de E. P. Sanders e do seu magnífico “A verdadeira história de Jesus Cristo” entre outros. Aquilo que eu afiro é que a mensagem do cristianismo primitivo foi muito apelativa para um número significativo de pessoas já que era prometida para breve uma nova ordem mundial (que passados 2000 anos ainda não chegou) tendo penetrado progressivamente no império romano sabendo-se o desenlace. Jesus como Deus encarnado é uma ideia puramente humana. Os factos alusivos à sua vida, os seus milagres, as suas (belíssimas) lições de moral e o grande acontecimento da ressurreição carecem de sustentação história. Se isto se pode dizer sobre Jesus o que pensar sobre outros ícones do cristianismo? O que dizer de Fátima, no eu ver um dos maiores embustes da história de Portugal? E outros santos e crendices associadas? Estarão os católicos certos ou pelo contrário cometem o pecado da idolatria conforme os seus “irmãos” judeus e muçulmanos afirmam?
Para mim é facto que a ideia de Deus não está cientificamente provada nem negada sendo desde Laplace uma variável dispensável. É certo que para algumas das mais prodigiosas mentes, algumas católicas como Laurent Lafforgue, Maria Agnesi, George Lemaitre entre muitos outros, são crentes como tal continuo a refutar qualquer tipo de presunção intelectual que infelizmente muitos ateus, muitos com argumentos ignorantes, têm sobre os crentes. Eu penso que os crentes têm a necessidade de acreditar, têm a tal fé e moldam a informação que adquirem para que a mesma se ajuste à premissa inicial – Deus existe-. Resistentes, foram actualizando os textos “sagrados” face às evidências. Não, o mundo não tem 5000 anos, a terra não está no centro do universo, a evolução é uma evidência e por aí fora..... A física quântica e as suas idiossincrasias servem para todo o tipo de efabulações e porventura aproximam-nos de uma ideia de Deus, não o nego. Mas são os próprios factos, a própria história da religião que destroem, no meu ver, o conceito de Deus antropomórfico da Bíblia. E vejo-o com a evidência do menino da história do “rei vai nu”.

Bernardo Motta disse...

Caro MT,

Muito obrigado pelo seu comentário, cuja resposta requer da minha parte algum tempo para ser respondido com a qualidade que merece.

Todavia, tenho uma pergunta básica para lhe fazer: acha que os católicos defendem um Deus antropomórfico?

O que entende por antropomórfico?

Se entende um Deus com pernas, pés, olhos, cabeça, boca, ouvidos, e todos os demais atributos do Homo Sapiens, então tenho que discordar de si: esse não é o Deus que os católicos afirmam existir.

Se entende um Deus que tem intelecto, livre arbítrio, pensamento, etc., então sim, os católicos concordam que Deus tem esses atributos que também nós humanos temos, só que Deus os tem de forma eminente.

Dito de outra forma mais rigorosa, Deus é inteligente, e o Homo Sapiens também, mas a inteligência do Homo Sapiens é apenas análoga à de Deus (são ambos casos de "ser inteligente"), mas não se lhe assemelhando de forma alguma em capacidade intelectual.

Cumprimentos,

Bernardo

MT disse...

Não se trata de imaginar Deus como um velhinho de longas barbas brancas que vive algures no céu. Admite-se que o conceito será bem mais refinado. Resumidamente, o cristianismo tem em Jesus Cristo um Deus antropomórfico, encarnado. Com pernas, braços, cabeça e todos os demais atributos do Homo Sapiens. O Deus pai, transcendente poderá porventura ter uma forma não perceptível ou sequer inteligível. Mas não criou esse Deus dogmas, verdades impostas arbitrariamente e sem cuidados especiais na selecção do público alvo, quer no espaço, quer no tempo, não espelhou no homem as suas próprias características, más e boas conforme é patente no Velho testamento? Não se fez juiz de quem merece ou não a vida eterna, já no novo testamento? Não fará mais sentido o Deus de Espinoza que refere a falta de qualquer propósito ou finalidade no acto da criação ? Aguardarei a sua resposta, estando certo que terei a honra e o privilégio de aprender muito decerto.

Bernardo Motta disse...

Caro MT,

"Não se trata de imaginar Deus como um velhinho de longas barbas brancas que vive algures no céu. Admite-se que o conceito será bem mais refinado."

Não se trata, sequer, de imaginar Deus. Dado que imaginar Deus implica gerar "imagens mentais" de como deus será. Ora Deus, como os cristãos o ententem, não é um objecto. Não é um ente finito, fosse ele material ou imaterial.

Daí 2 milénios de tradição filosófica para amadurecer toda uma linguagem conceptual suficientemente clara para falar de um ente que é a "raiz" e fundamento de tudo o que existe. "Ipsum esse subsistens", "actus purus". Deus é a própria existência, ou seja, é a razão necessária da existência do que quer que seja. Ele é idêntico à sua existência, porque a essência de Deus é existir. É imutável, perfeito (nada lhe falta).

Dado que todo e qualquer ente, que não tenha em si mesmo a sua razão de existir, depende de Deus para existir (e para continuar a existir), então Deus não pode ser antropomorfizado, nem comparado a qualquer outro ente cuja existência seja derivada.
Deus é o único ente cuja existência é intrínseca, e não derivada. Ele é a fonte de toda a existência, porque ele mesmo é o acto puro de existir.

"Resumidamente, o cristianismo tem em Jesus Cristo um Deus antropomórfico, encarnado. Com pernas, braços, cabeça e todos os demais atributos do Homo Sapiens."

A doutrina é bem mais complexa do que isso. O cristianismo defende que em Jesus Cristo há duas naturezas ("physis"): uma natureza humana (de criatura) e uma natureza divina (de Criador). Por isso, na natureza humana de Cristo temos, obviamente, um ser humano pleno e completo. Essa natureza é humana, não é divina. Por isso, não há qualquer antropomorfização.

Precisamente para gerir esses equívocos tiveram lugar os primeiros concílios ecuménicos, e se solidificou uma sofisticada cristologia ao longo dos primeiros séculos.

"O Deus pai, transcendente poderá porventura ter uma forma não perceptível ou sequer inteligível."

Não é possível ser perceptível, porque isso implicaria que um ente que é O Ser, ou seja, a raiz de toda a existência, fosse algo sensorial, o que não faz sentido. Apenas coisas que têm existência derivada é que poderão (ou não) ser perceptíveis pelos sentidos.

Se Deus é inteligível, eu acredito que é, até certa medida, sempre que conseguimos dizer algo (mesmo que pouco), acerca do que Deus é e do que Deus não é:

a) Deus é perfeito

b) Deus é imutável

c) Deus não é finito

Etc...
Mas Deus não é inteligível no sentido em que toda a Sua essência caberia no nosso intelecto. Desse ponto de vista, Deus não é inteligível.

(continua)

Bernardo Motta disse...

"Mas não criou esse Deus dogmas, verdades impostas arbitrariamente e sem cuidados especiais na selecção do público alvo, quer no espaço, quer no tempo, não espelhou no homem as suas próprias características, más e boas conforme é patente no Velho testamento?"

Não. A palavra "dogma" designa apenas uma afirmação doutrinal tida como verdadeira, ou seja, tida como real, correspondente com a realidade.

Assim, Deus não "cria" dogmas. O dogma é um conhecimento verdadeiro sedimentado por séculos de esforço de compreensão por parte dos cristãos, esforço esse ajudado e protegido pela inspiração divina.

Não sei o que quer dizer com cuidados na selecção do público alvo.

"Não se fez juiz de quem merece ou não a vida eterna, já no novo testamento?"

Deus será sempre o juiz, dado que Ele é o criador de tudo o que existe. Nada existiria sem Deus o colocar em existência, e sem Deus o manter em existência.

"Não fará mais sentido o Deus de Espinoza que refere a falta de qualquer propósito ou finalidade no acto da criação?"

O Deus de Espinoza é um falso Deus, dado que consiste apenas em atribuir a palavra "Deus" a algo de abstracto e impessoal.

O acto criativo, o acto de colocar em existência as coisas que existem, implica duas coisas essenciais em Deus:

a) livre vontade

b) inteligência

O pseudo-Deus de Espinoza não tem estes atributos.

"Aguardarei a sua resposta, estando certo que terei a honra e o privilégio de aprender muito decerto."

Agradeço as suas palavras, mas não as mereço. Sou um mero aprendiz, muito ignorante ainda, e desejoso de aprender ainda muito.

Cumprimentos

Bernardo Motta disse...

Repescando algumas frases do seu primeiro comentário:

"Sou um agnóstico espiritual e cristão, entretanto descrente, poderei tentar conceber a ideia de Deus como sinónimo de uma força criadora universal"

Todavia, se existe tal força criadora universal (e eu não vejo como negar isto, dado que nada no Universo tem existência obrigatória, e portanto, deverá a sua existência algo de transcendente e pré-existente), essa "força" (palavra inadequada), teria que ser:

a) livre

b) inteligente (dado que criou um Universo racional e inteligível)

Daí eu discordar do uso da palavra "força". Por exemplo, a força da gravidade, ou a força electromagnética, não são coisas livres nem inteligentes (apesar de serem inteligíveis, claro).

É o carácter impessoal da palavra "força" que a torna desadequada. A colocação em existência de um Universo racional, ordenado e inteligível implica a pré-existência de um ente sumamente livre e inteligente.

Já para não falar que há muitas outras razões para defender que esse ente tem que existir. Por exemplo, é inexplicável que, de um Cosmos irracional, surjam seres racionais como nós. Mas já é perfeitamente expectável e explicável que existam no Cosmos entidades racionais como nós se, na origem de tudo, estiver um ente sumamente racional.

Do irracional não pode vir algo racional.
Mas se Deus é o fundamento, e é racional, e é livre, então podemos explicar facilmente a existência de entes livres e racionais.

"mas a concepção de um Deus antropomórfico é algo que a meu ver não faz hoje sentido, chocando assim frontalmente com todas as religiões abrâamicas."

Concordo que um Deus antropomórfico não faz sentido. Todavia, o Deus das religiões abraâmicas não é antropomórfico, como tentei explicar.

Bernardo Motta disse...

": Conforme livro a evolução de Deus, de Robert Wright (fundamentalmente do Deus abaamico) que li recentemente, o autor demonstra brilhantemente a evolução que o conceito de Deus teve desde o politeísmo judaico ao islamismo. Todas as religiões são sincretismos de algo que já existia. Todas incorporam crenças e mitos de outras religiões, como, aliás, os estudiosos da bíblia referem quando associam determinadas histórias como a arca de Noé e a virgindade da Maria a outras histórias e crenças similares existentes noutros credos centenas de anos antes."

Não conheço o livro nem o autor. Todavia, se ele afirma o que diz, então discordo. As raízes do Islão e do Cristianismo estão historicamente no Judaísmo. Pelo que as tradições abraâmicas derivam todas dessa religião radicalmente diferente que é o Judaísmo. Uma religião que, precisamente, contra um "background" politeísta, advoga um Deus transcendente, radicalmente distinto de qualquer ente material ou criatura.

Veja-se a célebre passagem do Êxodo, que os cristãos sempre interpretaram como se referindo precisamente a um ente que é O Ser, e não apenas mais uma coisa que existe:

http://www.paroquias.org/biblia/index.php?c=Ex+3

14*Deus disse a Moisés:
«EU SOU AQUELE QUE SOU.» Ele disse: «Assim dirás aos filhos de Israel: 'Eu sou' enviou-me a vós!»

Que há de sincrético nisto? Iavé apresenta-se como, não apenas mais uma divindade, mas sim como "Eu sou", ou seja, um ser com "aseidade", ou seja, com existência intrínseca e não derivada.

É certo que há aspectos sincréticos, por exemplo, na integração de tradições antigas acerca dos anjos, por exemplo, mas são aspectos secundários da doutrina (e não necessariamente falsos por isso).

"2: No que ao Cristianismo diz respeito, sendo este o ramal das religiões Abraâmicas com a qual tenho empatia e identificação cultural, assisto com interesse as revelações que os académicos não crentes que têm estudado com processos científicos a historicidade e a veracidade dos factos bíblicos têm dito sobre aquilo que se pode aferir com alguma certeza sobre Jesus Cristo. "

Das minhas leituras, a investigação académica mais recente só tem vindo atestar a fiabilidade dos textos do Novo Testamento. Veja-se o trabalho de Richard Bauckham, "Jesus and the Eyewitnesses", por exemplo.

"Não falo obviamente do patranheiro Dan Brown e o seu Código da Vinci, mas de E. P. Sanders e do seu magnífico “A verdadeira história de Jesus Cristo” entre outros."

Bernardo Motta disse...

"Não falo obviamente do patranheiro Dan Brown e o seu Código da Vinci, mas de E. P. Sanders e do seu magnífico “A verdadeira história de Jesus Cristo” entre outros."

Respeito o trabalho de Sanders, mas não me sinto competente para o comentar.

"Jesus como Deus encarnado é uma ideia puramente humana. Os factos alusivos à sua vida, os seus milagres, as suas (belíssimas) lições de moral e o grande acontecimento da ressurreição carecem de sustentação história."

Totalmente em desacordo. Os textos do Novo Testamento são ímpares na sua credibilidade histórica, dado que temos um número imenso de cópias que atestam o rigor do texto, e dado que inúmeros aspectos do texto vincam bem a sua consistência e credibilidade (toponímia, onomástica, geografia, factos históricos e políticos do Império Romano, etc.). Bauckham mostra isso à exaustão.

Por exemplo, as proporções dos nomes pessoais que surgem no Novo Testamento têm exactamente a mesma distribuição estatística que encontramos nos estudos feitos sobre os nomes pessoais em uso naquela época na Palestina. Se os textos fossem ficções, seria impossível fingir tamanha precisão estatística.

De resto... As distâncias entre as cidades e as aldeias estão bem descritas, a fauna e a flora correspondem ao que sabemos, a organização social também, e assim por diante.

A única razão para se negar a credibilidade histórica dos milagres de Cristo é uma razão filosófica: é a de alguém que acha que os milagres são impossíveis, ou que "violam" as leis da Natureza. Ora isso é um disparate. Uma vez admitida a possibilidade e a racionalidade dos milagres, os textos do Novo Testamento dão-nos um impressionante testemunho da sua plausibilidade e veracidade.

"Se isto se pode dizer sobre Jesus o que pensar sobre outros ícones do cristianismo? O que dizer de Fátima, no eu ver um dos maiores embustes da história de Portugal?"

Não há nada de embuste em Fátima. O único embuste que eu conheço é o embuste dos cépticos que fazem carreira à custa de negar as aparições de Fátima. Normalmente, quem nega as aparições tem ainda um conhecimento superficial do fenómeno.

Bernardo Motta disse...

"E outros santos e crendices associadas?"

Teríamos que ver caso a caso.

"Estarão os católicos certos ou pelo contrário cometem o pecado da idolatria conforme os seus “irmãos” judeus e muçulmanos afirmam?"

A doutrina dos santos não é idolatria. Pelo menos na forma como a Igreja a propõe e defende. Mas não nego que haja muito cristão com pouca formação doutrinal que tenha uma atitude idolátrica face a algum santo.

"Para mim é facto que a ideia de Deus não está cientificamente provada nem negada sendo desde Laplace uma variável dispensável."

Permita-me dizer que a frase de Laplace é uma tolice. Não fundamentada. Deus é tudo menos dispensável, dado que sem Deus, nada existe.
Não me parece que possamos sequer falar de algo mais indispensável do que Deus! :)

"É certo que para algumas das mais prodigiosas mentes, algumas católicas como Laurent Lafforgue, Maria Agnesi, George Lemaitre entre muitos outros, são crentes como tal continuo a refutar qualquer tipo de presunção intelectual que infelizmente muitos ateus, muitos com argumentos ignorantes, têm sobre os crentes."

Sim, é estimulante que grandes mentes sejam cristãos. Mas isso não chega para defender o cristianismo, claro. Não é só uma questão de contar espingardas, porque também há ateus muito inteligentes. Todavia, tipicamente, são ateus mais silenciosos, mais ponderados, e muito menos ruidosos do que os ateus que fazem carreira do seu ateísmo.

"Eu penso que os crentes têm a necessidade de acreditar, têm a tal fé e moldam a informação que adquirem para que a mesma se ajuste à premissa inicial – Deus existe-."

Até certo ponto isso é verdade. Os cristãos defendem que Deus imprime em todos os seres humanos um "sensus divinitatis", uma intuição de que Deus existe. E que depois, em virtude das imperfeições humanas, essa intuição pode ser silenciada ou ignorada.

"Resistentes, foram actualizando os textos “sagrados” face às evidências."

Discordo. Os textos sagrados permanecem os mesmos. O texto do Novo Testamento que usamos hoje apenas é mais preciso do que os textos mais antigos porque se conseguiu, graças à investigação, chegar mais perto do texto original.

"Não, o mundo não tem 5000 anos"

Essa tese nunca fez parte da doutrina cristã.

"a terra não está no centro do universo"

Essa tese era aristotélica, e não cristã.

"a evolução é uma evidência"

O catolicismo nunca negou a evolução, sem também nunca se comprometer fortemente com essa teoria científica, dado o carácter provisório dessa teoria.

"Mas são os próprios factos, a própria história da religião que destroem, no meu ver, o conceito de Deus antropomórfico da Bíblia."

Iavé não é antropomórfico, e não existe um conceito antropomórfico de Deus na Bíblia, a não ser quando se negam os deuses dos politeísmos das tribos vizinhas.

Cumprimentos

MT disse...

Bernardo, acabei de ler com a atenção devida as suas respostas. Alguns dos argumentos que utiliza para me contrapor são pertinentes e irão merecer da minha parte uma cuidada reflexão. Tendo uma mente inquiridora procuro sempre obter mais conhecimento, mantendo sempre uma postura céptica. Assumo que sofro de um certo cientificismo, ou seja continuo a achar ser possível utilizar o método científico para obter respostas sobre uma eventual transcendência. Porventura tal poderá ser inconsistente com a inefabilidade da fé.... Trata-se de uma procura constante, sabendo-se que a diferença entre os espertos e os ignorantes é mínima em relação a tido aquilo que ainda se desconhece.

Vou ler o livro que mencionou, Richard Bauckham, "Jesus and the Eyewitnesses".

Não posso contudo aproveitar a oportunidade para lhe colocar duas questões. A primeira prende-se com a ideia da arbitrariedade, que eu já mencionei, e que que de facto acho pouco sustentável racionalmente. Sucintamente, os judeus foram dos pioneiros na concepção do Deus único, apresentados como o povo eleito no Velho testamento, religião não prosélita, Cristo era ele próprio um judeu que se insurgiu contra os seus, surgiu o Cristianismo, que por vicissitudes várias acabaria por se tornar na religião oficial do Império Romano espalhando-se depois pelas américas e pelas áfricas. Sabemos que o islamismo bebe muitas das suas origens no judaísmo. Temos assim, duas grandes religiões mundiais com uma génese similar. Mas o que dizer da tradição oriental ? O que dizer do Hinduísmo, do Budismo, do Xintoísmo? Nos tempos medievais os cristão tiveram uma atitude persecutória perante os fiés destas religiões (não só mas também), que foram considerados heréticos. Os muçulmanos falavam nos povos que têm a "religião do livro", para se referirem aos cristão e judeus, e como tal a perseguição que lhes era movida em nada se assemelhava ao que sucedia com os hindus que eram igualmente acusados de heresia, com consequências terríveis. Inclusive os judeus e os cristãos podiam viver em terras muçulmanas e eram livres de manter as suas religiões ao abrigo de certas limitações e imposições. A existir um Deus único, porquê a diversidade. Se as religiões abraâmicas têm um eixo comum, o que dizer das tradições orientais, ou das religiões primitivas que desapareceram? Para um católico é possível um hindu ter a vida eterna? Como poderá ver Deus a diversidade? A uns disse que era único e impede inclusive a sua representação, promete a vida eterna, a outros fala de reencarnação e karma? Esta entropia foi criada propositadamente pelo único Deus criador ou existirá face ao conjunto de ideias que dele se foram fazendo uma representação impressa no subconsciente colectivo da humanidade, que desaparecerá quando o último homem morrer? (Por simplificação omiti todas as subdivisões existente assim como referências a religiões primitivas e tribais que ainda existem).

A segunda questão prende-se com Fátima. Não quero tomar o seu tempo, mas pedia-lhe que me fornecesse algum recurso (livro, site) onde Fátima esteja bem explicada ao abrigo da perspectiva de um crente e onde a defesa do fenómeno esteja devidamente fundamentada.

Grato pela oportunidade, agradeço a sua paciência e tempo despendido.