terça-feira, 11 de maio de 2010

Quase ninguém leu isto, pois não?

No programa "Prós e Contras" terminado há poucas horas atrás, a apresentadora lançou a pergunta: "Qual é o legado que este Papa vai deixar?". Bom... Para além de se achar erradamente que Bento XVI já deu tudo o que tinha para dar, há que ver que ele já nos deixou toneladas de coisas boas.

Com o Papa Bento XVI quase a aterrar em Lisboa, achei que era interessante ir ao baú de Joseph Ratzinger buscar uma coisa boa, que está mesmo no topo, pois não é muito antiga. Trata-se do seu esplêndido discurso na Aula Magna da Universidade de Regensburgo, a 12 de Setembro de 2006.

Cada vez tenho menos dúvidas de que este discurso foi distorcido e manipulado precisamente porque era bom demais para ser conhecido no original. É que era um contributo importante e decisivo para a questão da fé racional e racionalmente consistente. A "catequese" novo-laicista pretende que a fé é uma coisa privada e supersticiosa, incompatível com a razão. Bento XVI estragou-lhes o arranjinho, pelo que as suas palavras teriam que ser mediaticamente distorcidas, para que quase ninguém as recebesse na forma original.

Então, pro memoria, e contra o esquecimento, e contra a distorção mediática, cá vai... Bento XVI no seu melhor!

No sétimo colóquio (διάλεξις – controvérsia) publicado pelo Prof. Khoury, o imperador aborda o tema da jihād, da guerra santa. O imperador sabia seguramente que, na sura 2, 256, lê-se: «Nenhuma coacção nas coisas de fé». Esta é provavelmente uma das suras do período inicial – segundo uma parte dos peritos – quando o próprio Maomé se encontrava ainda sem poder e ameaçado. Naturalmente, sobre a guerra santa, o imperador conhecia também as disposições que se foram desenvolvendo posteriormente e se fixaram no Alcorão. Sem se deter em pormenores como a diferença de tratamento entre os que possuem o «Livro» e os «incrédulos», ele, de modo surpreendentemente brusco – tão brusco que para nós é inaceitável –, dirige-se ao seu interlocutor simplesmente com a pergunta central sobre a relação entre religião e violência em geral, dizendo: «Mostra-me também o que trouxe de novo Maomé, e encontrarás apenas coisas más e desumanas tais como a sua norma de propagar, através da espada, a fé que pregava». O imperador, depois de se ter pronunciado de modo tão ríspido, passa a explicar minuciosamente os motivos pelos quais não é razoável a difusão da fé mediante a violência. Esta está em contraste com a natureza de Deus e a natureza da alma. Diz ele: «Deus não se compraz com o sangue; não agir segundo a razão – «σὺν λόγω» – é contrário à natureza de Deus. A fé é fruto da alma, não do corpo. Por conseguinte, quem desejar conduzir alguém à fé tem necessidade da capacidade de falar bem e de raciocinar correctamente, e não da violência nem da ameaça... Para convencer uma alma racional não é necessário dispor do próprio braço, nem de instrumentos para ferir ou de qualquer outro meio com que se possa ameaçar de morte uma pessoa...».

Nesta argumentação contra a conversão através da violência, a afirmação decisiva está aqui: não agir segundo a razão é contrário à natureza de Deus. E o editor, Theodore Khoury, comenta: para o imperador, como bizantino que cresceu na filosofia grega, esta afirmação é evidente; mas não o é para a doutrina muçulmana, porque Deus é absolutamente transcendente. A sua vontade não está vinculada a nenhuma das nossas categorias, incluindo a da razoabilidade. Neste contexto, Khoury cita uma obra do conhecido islamita francês R. Arnaldez, onde este assinala que Ibn Hazm chega a declarar que Deus nem sequer estaria vinculado à sua própria palavra e que nada O obrigaria a revelar-nos a verdade. Se fosse a sua vontade, o homem deveria inclusive praticar a idolatria.

Aqui gera-se um dilema, na compreensão de Deus e consequentemente na realização concreta da religião, que nos desafia hoje de maneira muito directa: a convicção de que o agir contra a razão estaria em contradição com a natureza de Deus, faz parte apenas do pensamento grego ou é válida sempre e por si mesma? Penso que, neste ponto, se manifesta a profunda concordância entre o que é grego na sua parte melhor e o que é a fé em Deus baseada na Bíblia. Modificando o primeiro versículo do livro do Génesis, o primeiro versículo de toda a Sagrada Escritura, João iniciou o prólogo do seu Evangelho com estas palavras: «No princípio era o λόγος». Ora, é precisamente esta a palavra que usa o imperador: Deus age «σὺν λόγω», com logos. Logos significa conjuntamente razão e palavra – uma razão que é criadora e capaz de se comunicar, mas precisamente enquanto razão. Com este termo, João ofereceu-nos a palavra conclusiva para o conceito bíblico de Deus, uma palavra na qual todos os caminhos, muitas vezes cansativos e sinuosos, da fé bíblica alcançam a sua meta, encontram a sua síntese. No princípio era o logos, e o logos é Deus: diz-nos o evangelista. Este encontro entre a mensagem bíblica e o pensamento grego não era simples coincidência. A visão de São Paulo – quando diante dele se estavam fechando os caminhos da Ásia e, em sonho, viu um macedónio que lhe suplicava: «Passa à Macedónia e vem ajudar-nos!» (cf. Act 16, 6-10) – esta visão pode ser interpretada como a «condensação» da necessidade intrínseca de aproximação entre a fé bíblica e a indagação grega.

12 comentários:

Jairo Entrecosto disse...

Também foi curiosa a pergunta feita a um teólogo sobre a postura de Ratzinger, enquanto homem da Razão, sobre o o problema da adaptação da Igreja à Ciência.

Não gostei da resposta no sentido em que não foi clara. Antes de tudo, convinha dizer que esse problema é um mito.

Cumprimentos.

O Sousa da Ponte disse...

Vai ser recordado como o Papa que teve lidar com o problema dos abusos da Igreja.

Penso que será isso que vai ficar.

Até agora ninguém se atrevia a falar disso agora está a cair o Carmo e a Trindade.

Irá salvar a honra do convento ?

O futuro o dirá.

Vamos lá a ver se tem dinheiro que chegue para resolver os problemas e se consegue que os clientes continuem a pagar.

É um desafio complicado.

Não me parece, pela idade que tem, que perceba o problema que tem em mãos e a forma de o resolver.

Se calhar até nem tem noção do tamanho do problema.

Ele que arranje é acessores que entendam que os miúdos agora tem telemóveis com câmaras e que as preces à Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, com os monges de Singeverga como coro à la grega, nõ ajudam.

Só pioram.

Cautelas e caldos de galinha.

Agora são muitas negociações, campanhas de imprensa e de midia.

Cortar nos pecados da carne o mais que se possa e low profile....

O Sousa da Ponte disse...

O problema de Bento XVI é interessante:

Toda a gente sabia o que se passava. Dento da Igreja e os anti-clericais sabiam o que se passava nos seminários, mosteiros, e nas instituições controladas pela igreja.

Bastava ter-se tido aulas de religião e moral para se ser apalpado pelo sacristas de serviço.

A coisa, como a casa Pia, andou a funcionar no limbo, durante anos e ninguém se chateou muito com isso.

A padralhada não abusava de meninos e meninas família e bastavam-se com os pobrezinhos.

Com esses e essas nem os anti-clericais se importavam

Agora as coisas são diferentes. O pessoal anda reivindicativo e já não tem medo do padre.

Agora qual a solução ?

Pagar pelo silêncio ?

isso abre um precedente e todo o cão e gato, mesmo quem nunca talamou com padre ou mosnsenhor, vê a hipótese se sacar umas guitas.

Não pagar e negar tudo também não é boa politica até porque os tribunais são independentes e levam as coisas até ao fim.

E há os telemóveis e outras provas que nem a Santa Rita de Cássia, advogada dos impossíveis, conseguem apagar.

Isto, a meu ver, passa por uma limpeza geral. Não de um ou outro mas de quase todos. Mandam-se os actuais para países mais tolerantes.

África, Tailândia e Cuba são boas opções.

Recrutar outro tipo de pessoal, melhores condições de trabalho, e - last but not least - pessoal com vidas sexuais activas que não olhem para as criancinhas como alternativa.

Mesmo castos e cautos, garantido-lhes umas festas com adultas - ou adultos - a coisa passa despercebida e anda tudo na paz do Senhor.

E isto de apoiar apenas as minorias - os católicos que vão agora à igreja - não dá grande resultado.

Vejam o caso Casa Pia:

era tudo inocente mas agora já nem se importam de penas suspensas....

O mundo mudou e é preciso é malta no Vaticano mais nova. Senão ficam como o partido comunista que reforça a ideologia mas estão tão velhos que nem vêem o que se passa.

Olho !

Que o Espírito Santo só por si não abafa, salvo seja, tudo!

Espectadores disse...

Caro Jairo,

Recorda-se do nome do teólogo?
Realmente, a questão de "crise" entre Fé católica e Ciência não se coloca, sobretudo porque foi a Igreja Católica a mãe da ciência ocidental. Toda a base epistemológica da ciência repousa em conceitos filosóficos cristãos, como por exemplo:

- o conceito de "lei" científica (que deriva da tradição judaica do Deus como garante da Lei), que pressupõe um mundo estruturado de acordo com princípios imutáveis

- o conceito de um Cosmos totalmente distinto de Deus: a profunda rejeição que a tradição judaico-cristã faz do panteísmo é crucial para se entender como essa tradição libertou o Cosmos dos fantasmas do paganismo, das "forças ocultas" que a cultura pagã pressupunha por detrás dos fenómenos, e que impediram o progresso científico

Bento XVI recorda, neste discurso de Regensburgo, a uma Europa amnésica, que a fusão entre a tradição judaico-cristã (Bíblia) e a tradição filosófica grega foi de tal modo profícua que gerou a cultura Europeia conforme a conhecemos e valorizamos. Nessa cultura está a Ciência, mas também está a Filosofia, as Artes, os Direitos Humanos, e muitas outras coisas.

Os pais da Ciência ocidental eram quase todos cristãos. Pretender que o seu legado científico não tem nada a ver com a sua fé em Cristo é uma tolice.

Um abraço!

Espectadores disse...

Caro Sousa da Ponte,

«Não me parece, pela idade que tem, que perceba o problema que tem em mãos e a forma de o resolver.»

É típico de uma pseudo-intelectualidade moderna o desprezo pela sabedoria e pela experiência da terceira idade, a atitude irracional de se pensar que a idade é um entrave à acção. Não se espera que Bento XVI dê uma tareia (no sentido físico do termo) aos abusadores de menores.

Não entendo o seu raciocínio marado: em que sentido é que a idade de Bento XVI não o ajuda?

Por outro lado, é espantoso como tanta gente fala com uma arrogância e uma presunção sem limites.
A sua frase começa com a trágica expressão "não me parece".

Não lhe parece?
Que interessa isso?
Qual é a sua experiência, qual é a sua formação, qual é o seu treino, para que nós tenhamos que levar em conta o que "lhe parece"?

Bento XVI está a lidar com este problema há pelo menos duas décadas, mas é possível que seja há três.

A reforma processual que ele liderou ficará para a história da Igreja.

Basta olhar para os números dos Estados Unidos. Não acha estranha a queda a pique nos casos de abuso a partir de meados dos anos 80?

A que se deve essa queda abrupta?
Já sei: não sabe do que falo, pois não? Não leu o relatório do John Jay College of Criminal Justice, pois não?

É normal: não vem em nenhum jornal.

Cumprimentos

PS: É tentador, para os novo-laicistas, tentar esconder a mensagem racional de Bento XVI atrás dos escândalos perpetrados por uma minoria de padres hereges e infiéis e escondidos por outra minoria de bispos dissidentes. Eu e você estaremos a fazer tijolo no cemitério e ainda se estudará, daqui por 200 anos, o discurso de Bento XVI em Regensburgo. É que a verdade tende a resistir ao tempo. As chicanas mediáticas em torno dos abusos de menores passarão depressa. Até porque Bento XVI já fez a limpeza há algum tempo (muito antes dos gritos e dos impropérios dos jornalistas), e os efeitos da limpeza já se vêem (basta olhar para o relatório dos EUA).

Já leu?
Aqui vai o "link", para sua comodidade: http://www.usccb.org/nrb/johnjaystudy

Espectadores disse...

Sousa da Ponte,

«Toda a gente sabia o que se passava. Dento da Igreja e os anti-clericais sabiam o que se passava nos seminários, mosteiros, e nas instituições controladas pela igreja.»

É tentador fazer este tipo de discurso, não é? O discurso da generalização?
Pedia-lhe um favor simples e singelo: visto que os EUA são o país mais afectado pelo fenómeno do abuso de menores na Igreja Católica, mostre-nos, usando o rigor inabalável dos números, que o fenómeno se pode generalizar como você pretende. Não consegue, pois não?
Os números são coisas lixadas: não mentem.

«Bastava ter-se tido aulas de religião e moral para se ser apalpado pelo sacristas de serviço.»

Aqui entramos na mentira e na porcaria pura e dura. Aqui entramos na irracionalidade do discurso de ódio.

«A padralhada não abusava de meninos e meninas família e bastavam-se com os pobrezinhos.»

A maneira como você explora os dramas de seres humanos reais e concretos para as suas campanhas de ódio repugna-me, e repugna qualquer pessoa decente.

Acha bem manipular histórias reais de sofrimento? O seu ódio à Igreja justifica esse seu segundo abuso às vítimas de abuso?

«Não pagar e negar tudo também não é boa politica até porque os tribunais são independentes e levam as coisas até ao fim.»

Levam, levam. Os tribunais estão a fazer um excelente trabalho. Aliás, vê-se em todos os casos reportados à Justiça, então em Portugal, uma exemplaridade inegável.

«Isto, a meu ver, passa por uma limpeza geral.»

Obrigado pela sua douta sugestão. Mas veio tarde. A limpeza geral começou há décadas.

«Recrutar outro tipo de pessoal, melhores condições de trabalho, e - last but not least - pessoal com vidas sexuais activas que não olhem para as criancinhas como alternativa.»

Por favor: ligue o cérebro. Um padre celibatário não tem vida sexual activa. Ora você pretende que a solução para acabar com o abuso de menores é meter "pessoal com vidas sexuais activas"?

«Mesmo castos e cautos, garantido-lhes umas festas com adultas - ou adultos - a coisa passa despercebida e anda tudo na paz do Senhor.»

É: é isso mesmo, Dr. Sousa. A sua formação em psicologia é que lhe diz que um abusador de menores é apenas uma pessoa que não tem tido sexo?
Se você fosse privado de sexo abusaria de menores?
Santa paciência: é só usar o cérebro. Custa assim tanto?

«O mundo mudou e é preciso é malta no Vaticano mais nova.»

Inscreva-se!

Rezo por si, para que faça um esforço por ser mais honesto, e para que aprenda a debater ideias de modo racional e sério.

Anónimo disse...

http://www.elmundo.es/elmundo/2010/05/11/internacional/1273573371.html

Jairo Entrecosto disse...

Bernardo, a pergunta foi feita ao Padre Tolentino Mendonça. Transcrevo:

"Até que ponto Bento XVI está a levar esse diálogo? Porque é uma das partes mais complicadas da doutrina católica, da religião católica, é justamente essa relação com a Ciência"

A partir de 31:50

http://www.rtp.pt/icmblogs/rtp/pros-contras/

A resposta do teólogo iniciou-se assim:

"É uma relação despida de qualquer agressividade, em que a Igreja se reconhece, juntamente com a Ciência, na procura da Verdade."

É uma resposta correcta(que se prolongou) mas pareceu-me pouco clara. Pode ter dado a ideia a algumas pessoas que é um dado adquirido que existe a tal grande complicação, mas que está a ser resolvida sem "agressividade".
Poderia ter sido bastante mais assertivo em relação à pergunta, baseada na tal suposta grande "complicação" da doutrina católica com a Ciência, que, antes de tudo, importava dizer que é falsa,inexistente, um mito.

Nesse sentido, ontem gostei muito de ouvir Marcelo Rebelo de Sousa, que a cada gaffe da apresentadora "não perdoou"... ;)

Bem, aproveito para dizer que estou a acompanhar com muito interesse esta visita e até agora o que me surpreendeu mais foi o excelente discurso de Cavaco Silva à chegada do Papa.

Cumprimentos

O Sousa da Ponte disse...

He-la

Eu não tenho nada contra a Igreja Católica.

Até penso que das igrejas que temos é do melhor que há.

Sem hipocrisia ou ironia.

O que penso, francamente, é que estão um pouco desfasados da realidade.

Só isso.

E até como só consumo em casamentos, funerais e baptizados não me resta muito mais que racha lenha.

Recordo é que há uns anos a Coca-cola mudou o sabor à bebida e os consumidores obrigaram-nos - e bem - a voltar atrás.

O que eu digo e reafirmo é que me parece que a ICAR está num caminho complicado.

E a concorrência agora é grande e aguerrida.

E eu até prefiro a Igreja católica às outras.

Pago o óbulo, e de boa vontade, à minha paróquia.

Se tenho algum tique anti-clerical, é porque sou português muito lido em Camilo e Eça, não sou anti Igreja Católica.

Agora que a fizeram mal feita fizeram.

Não foi ?

E comportamentos trazem consequências.

Espectadores disse...

Jairo,

Conheço relativamente bem o Padre Tolentino e posso atestar a bondade da sua pessoa e das suas intenções.

Ele é padre, mas também é poeta. Por isso, sendo eu engenheiro, tenho uma forma de me exprimir muito diferente da dele. Eu responderia à questão de forma muito mais assertiva, mas parece-me mais uma questão de forma do que de conteúdo.

É pouco conhecido o facto histórico de que a História da Ciência no Ocidente está ligada de forma umbilical ao catolicismo.

As pessoas normalmente conhecem apenas o que a propaganda diz acerca do caso Galileu (o único caso conhecido de um cientista atacado pela Igreja, mas que cuirosamente não foi atacado por razões científicas), e ficam-se por aí.

Até pode parecer temerário a muitos católicos a afirmação de que o contexto judaico-cristão foi decisivo para que a aventura da ciência singrasse no Ocidente, e daqui se espalhasse ao mundo todo.

É que a ciência moderna, hoje global, espalhou-se pelas quatro partes do mundo, mas provém daqui da Europa, e da Europa cristã.

Há trabalho académico notável que prova de forma irrefutável a ligação umbilical entre cultura cristã e ciência, e um bom exemplo é a obra de Pierre Duhem. Mas estas coisas dificilmente saem dos debates de especialistas, e dificilmente conseguem afectar a opinião pública.

Também tenho apreciado as palavras e a atitude do Marcelo Rebelo de Sousa, que noutros debates e noutras questões teve, na minha opinião, palavras e atitudes discutíveis e criticáveis. Por exemplo, no que diz respeito à moral sexual, ele tem tido posições por vezes ambíguas, de uma ambiguidade criticável no seu caso, porque ele tem a capacidade de ser mais claro e mais objectivo nas suas alocuções.

Regressei agora do CCB, e tenho que arranjar algum tempo para escrever algo sobre o discurso do Papa no CCB, que foi curto mas incisivo.

Um abraço!

Espectadores disse...

Caro Sousa da Ponte,

«Eu não tenho nada contra a Igreja Católica.»

Pois olhe que finge bem!

«Até penso que das igrejas que temos é do melhor que há. Sem hipocrisia ou ironia.»

Bom: terei isso em consideração neste meu comentário.

«O que penso, francamente, é que estão um pouco desfasados da realidade. Só isso.»

Tem o direito a pensar isso, como eu tenho o direito a dizer o que penso, e de forma clara. Até porque a sua expressão "desfasada da realidade" é ambígua, e devemos todos evitar linguagem ambígua e falar de modo mais claro.

1) Se por "desfasada da realidade", pretende que a Igreja Católica está desfasada da cultura moderna de base hedonista e relativista, então está certo, e é uma das fortes razões pelas quais eu sou católico; sobretudo no campo da moral, a Igreja é das poucas a dizer a verdade sobre o Homem, e nesse sentido, a mensagem da Igreja, que é a de Cristo, é uma mensagem que choca com a ideia errada que certa cultura moderna tem acerca do Homem

2) Se por "desfasada da realidade", pretende que a mensagem da Igreja Católica não se adequa à realidade, então está, na minha opinião, em erro total.

Cristo é o Caminho, a Verdade e a Vida, e na Igreja Católica subsiste a Igreja de Cristo, corpo místico do Salvador. Pela boca do Papa, nosso Sumo Pontífice, sai doutrina cristã genuína e não adulterada, e doutrina verdadeira que devemos acolher enquanto tal, doutrina essa que, pela sua verdade, se sobrepõe às opiniões mais ou menos superficiais que poderemos ter.

«E até como só consumo em casamentos, funerais e baptizados não me resta muito mais que racha lenha.»

Está a afirmar que tem, então, um contacto pouco próximo com a realidade cristã? Então isso faz com que as suas palavras agressivas acerca do comportamento do clero sejam ainda mais despropositadas.

«O que eu digo e reafirmo é que me parece que a ICAR está num caminho complicado. E a concorrência agora é grande e aguerrida.»

A Igreja Católica não é como a Coca-Cola. Não tem uma lógica empresarial, nem vive do "marketing" como hoje em dia quase tudo vive (desde as empresas aos partidos políticos e aos Governos das nações).

Em nome da Verdade, a Igreja está disposta a sacrificar as audiências e o apoio das massas.

«Se tenho algum tique anti-clerical, é porque sou português muito lido em Camilo e Eça, não sou anti Igreja Católica.»

Eu sei ver essa diferença. No entanto, é fácil mostrar que gente com alguma categoria, como o Eça ou o Ortigão, não deixaram de meter a pata na poça nas suas críticas à Igreja de então. Algumas críticas eram muito justas, outras eram muito injustas.

«Agora que a fizeram mal feita fizeram. Não foi?»

Vejo que continua a generalizar. Pergunta-me se acho que os padres que abusaram de menores fizeram mal? Claro que fizeram mal. Pergunta-me se acho que os bispos que os protegeram fizeram mail? Claro que fizeram mal.

As questões centrais, para as quais peço a sua resposta, são estas:

1) Tais crimes são representativos da maioria do clero, ou até de uma minoria considerável?

2) Tais crimes são motivados, ou são potenciados, pelo estado clerical? Ou seja, é o padre que tende a se tornar pedófilo ou o pedófilo que se tenta tornar padre?

3) Tais crimes são compatíveis com a doutrina cristã?

Responda a estas questões, e verá a insensatez de muita da campanha mediática contra a Igreja e contra o Papa.

«E comportamentos trazem consequências.»

Pelo menos devem trazer. Como o Santo Padre disse, de forma muito clara, ainda no avião, antes de aterrar em Portugal.

Cumprimentos

Jairo Entrecosto disse...

Bernardo,

"Conheço relativamente bem o Padre Tolentino e posso atestar a bondade da sua pessoa e das suas intenções."

Sim, parece ser uma pessoa bastante simpática. Eu não nunca poderia em causa a bondade das intenções de uma pessoa que não conheço. Talvez a expressão "um teólogo" tenha dado a entender algum desprezo da minha parte, mas apenas não tinha retido o nome do padre Tolentino Mendonça.

"Ele é padre, mas também é poeta. Por isso, sendo eu engenheiro, tenho uma forma de me exprimir muito diferente da dele."

Sim, isso é verdade. Há várias formas de explicar a mesma coisa.

Cumprimentos.