quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Há ateus que não se enxergam

Face à crescente onda de violência anticristã, há ateus que reagem assim:

SOS chrétiens !

E outros que reagem assim:

Totalitarismos e vitimização: a invenção da cristofobia

No primeiro caso, o ateu francês Bernard-Henry Lévy conclui:

«Permis de tuer quand il s’agit des fidèles du « pape allemand » ? Permis, au nom d’une autre guerre des civilisations non moins odieuse que la première, d’opprimer, humilier, supplicier ? Eh bien, non. Il faut, aujourd’hui, défendre les chrétiens.»

Que faz ele?
Simples: defender a ética. Bernard-Henry Lévy considera que matar seres humanos inocentes está mal. E tem razão. Mesmo se esses seres humanos inocentes forem fiéis seguidores do "papa alemão".

No segundo caso, a ateia Palmira Silva dispara:

«Esta nova onda de cristianovitimização que invade o espaço etéreo cristão (...) foi amplificada recentemente quer pela condenação à morte por blasfémia de Asia Bibi no Paquistão quer pelo ataque da al-Qaeda à Catedral de Nossa Senhora da Salvação em Bagdad, que vitimou 70 crentes.»

O massacre de 31 de Outubro é, aos olhos desta ateia militante, um factor ampliador da tal "onda de cristianovitimização", essa mania cristã de inventar mártires. Nojento.

Para mais, a autora nem se dá conta da "matemática" perversa que, de forma subliminar, está a defender:

«Ou que, numa guerra que já matou pelo menos um milhão de pessoas, de acordo com os únicos estudos peer-reviewed, dizer «Our people in Iraq today are persecuted, threatened and suffer martyrdom. Since 2005, 900 Christians have been killed, among them five priests and the archbishop of Mosul» é um insulto à memória das centenas de milhares que morreram nesta guerra abominável.»

É evidente que uma só morte de um inocente é uma morte horrorosa e injusta. É evidente que gritar bem alto uma só injustiça destas não ofende coisíssima nenhuma a memória de outras vítimas de injustiça. Será que os seres humanos se medem ao quilo? Raio de moral...

Juntamente com pontapés na moral, surge ainda este pontapé na razão:

«Claro que é completamente irrelevante que seja exactamente a religião a causa de ambas as barbáries»

É, obviamente, um disparate dizer que a religião, sequer a islâmica, foi a causa do massacre dos católicos siríacos na igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, em Badgade, no passado dia 31 de Outubro. A causa desse massacre está bem identificada: uma matilha de assassinos da al-Qaeda, que dificilmente será classificada por alguém racional como sendo uma organização religiosa.

Mas desçamos à suposição, para facilitar a desmontagem da anti-lógica da Palmira. Suponhamos que, em vez de sequazes da al-Qaeda, tínhamos a entrar pela igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, em Badgade, um séquito de monges beneditinos armados até aos dentes. Assim, em vez de os cristãos de Bagdade serem massacrados por terroristas da al-Qaeda, sê-lo-iam por monges beneditinos.

Diria a Palmira que a causa do crime era a religião? Causa por via das vítimas, ou causa por via dos atacantes? Qual seria a religião causadora da barbárie? O cristianismo dos que assistiam à missa (mais valia estarem em casa, se fossem ateus), ou o cristianismo dos atacantes? Seria uma eventual divergência teológica uma "causa religiosa" na anti-lógica da Palmira? Que pessoa mentalmente sã carrega num gatilho com base numa divergência teológica? Há contradição mais gritante?

Na verdade, não é assim que se usa o cérebro.
A barbárie de 31 de Outubro não se explica pela (suposta) religião islâmica dos terroristas que invadiram aquela igreja de Bagdade. A barbárie explica-se pelo facto de que aqueles terroristas eram bárbaros, muito, mas muito antes de pretenderem ser muçulmanos. Assim, a causa da barbárie está na barbaridade dos assassinos. Na sua crueldade. E aí, sociologicamente, encontraríamos o fio condutor que nos levaria a uma longa cadeia causal. Se há muçulmanos que não matam pessoas, e eles existem, então o Islão não é a causa das barbáries que alguns cometem em seu nome.

Um frade franciscano ficou conhecido, na Segunda Guerra Mundial, pela sua requintada crueldade nos campos de concentração da Croácia. Será que a Palmira Silva considera que a formação fransciscana deste frade foi a causa para os seus actos cruéis?

Quando um cristão mata um inocente, e isso é fenómeno raro (estatisticamente mais raro do que o fenómeno de um ateu matar um inocente), fá-lo em traição aos princípios cristãos, e não numa relação de causa-efeito entre os princípios cristãos e o gesto criminoso.

Isso toda a gente sabe. Os honestos, como Bernard-Henry Lévy tiram daí as devidas ilações para os gestos e as atitudes do dia-a-dia. Mesmo que, em nome da coerência e dos princípios éticos, um ateu tenha que se ver conduzido, pela sua consciência, a agir em defesa de cristãos perseguidos. Como fez Lévy.

A defesa do ateísmo pode ser feita de forma civilizada, cordata, com base em princípios éticos. Não é o "vale tudo". A guerrilha anticristã não deve falar mais alto do que a defesa dos direitos humanos. Qualquer cristão digno desse nome deveria ter vergonha de si mesmo se não colocasse em segundo plano o debate fé-ateísmo para vir em defesa de um ateu inocente vítima de um assassinato bárbaro e cruel.

PS: Aqui fica uma vénia ao nosso caro Jairo, que nos alertou para o "post" inacreditável da Palmira Silva.

4 comentários:

Jairo Entrecosto disse...

Sobre este assunto, outro artigo importante:

http://quebrandooencantodoneoateismo.wordpress.com/2010/12/07/olavo-de-carvalho-a-capa-e-a-espada/

Espectadores disse...

Jairo,

Quando puderes, manda-me um mail, por favor. Acho que não tenho o teu mail.

abraço,

Bernardo

Jairo Entrecosto disse...

Bernardo, precisas do meu mail?

É este:

jairoentrecosto@gmail.com

Cumprimentos.

Francisco disse...

http://nadadistoenovo.blogspot.com