quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

O Homo Sapiens Gay

Um texto magnífico do blogue O Inimputável, que assim dá mais um contributo nesta luta quotidiana, e desproporcionada em termos de forças, contra a hegemonia da cultura "LGBT":

Criou-se a ideia errada de que existe um segunda espécie humana. Não se trata de homens e mulheres, dignos representantes do Homo sapiens, mas de uma outra forma humana que esteve olvidada e injustamente ostracizada pela sociedade ao longo dos tempos. Esta “espécie humana” distingue-se das outras, não pelo tamanho do crânio, cor dos olhos, cor da pele, da forma como se reproduz, ou de qualquer outra característica morfológica, mas pelo modo como decidiu viver na intimidade a sua sexualidade.

O Homo sapiens gay habitualmente reage com agressividade e violência à opinião contrária, vendo nela sempre um sinal persecutório. Neste caso, esta espécie sobrevaloriza a sua própria importância, entendendo que as suas ideias são as únicas correctas e as opiniões por si expressadas não podem ser contestadas. Presentemente o Homo sapiens gay deseja ardentemente casar entre si, reclamando um estatuto igual ao Homo Sapiens para uma condição intrinsecamente diferente. Mas quando se procura debater a necessidade de lhe conferir direitos especiais, o Homo sapiens gay adopta habitualmente o papel de vítima, remetendo o interlocutor para o papel de agressor. Portanto, o Homo sapiens gay é desconfiado relativamente ao Homo sapiens, mas não se coíbe de o doutrinar, manipular − a pretexto da sã convivência entre as duas espécies − e de o recrutar desde tenra idade nas escolas, usando para o efeito a educação sexual.

O Homo sapiens gay é invasivo porque infiltrou e tomou conta da comunicação social com o propósito de preparar o caminho para a sua missão envangelizadora: espalhar a doutrina gay. Simultaneamente, o Homo sapiens gay é inflexível e intolerante porque não aceita o diálogo e não admite uma opinião contrária à sua. Exige de forma inabalável que o Homo sapiens lhe reconheça especiais direitos, entre os quais o direito a ter aquilo que a natureza da sua escolha lhe negou: a reprodução. Atendendo a esta reivindicação, os filhos do Homo sapiens serão adoptados pelo Homo sapiens gay, numa espécie de oferenda e reconhecimento à sua superior capacidade de amar.

O Homo sapiens gay tem a crença de estar a ser explorado ou prejudicado pelo Homo sapiens em diversas áreas da sociedade, aspirando por isso a um estatuto especial; aspirando com o tempo a obter quotas de representatividade da sua espécie. O Homo sapiens gay é ambicioso e quer tudo. Tem uma postura reivindicativa permanente, transformando-o facilmente num fanático disposto a qualquer coisa para fazer valer a suas ideias, até à vitória final: o reconhecimento, por parte do Homo sapiens, do seu estado superior de evolução.

O Homo sapiens gay é uma falácia e não existe, configurando a maior aldrabice dos tempos modernos. Esta é uma manipulação malévola que tem como único objectivo confundir e instigar o nosso regresso à escuridão; o regresso à escuridão da caverna.


Temos que aproveitar todas as oportunidades para denunciar a forte e insidiosa propaganda "LGBT", e fazê-lo agora, enquanto ainda é legal escrever estas coisas e tornar públicas estas opiniões e tomadas de posição.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Young Catholics For Choice

Cá está mais um exemplo de pessoas que brincam com palavras como "católico"...

Milwaukee Archbishop: You Can’t Call Yourself Catholic and Support Contraception

By John-Henry Westen
MILWAUKEE, December 15, 2009 (LifeSiteNews.com) - The incoming Archbishop of Milwaukee, Jerome Listecki, has responded to a campaign by "Young Catholics for Choice" to promote use of contraception and abortion among Catholic youth.

Using media advertising the group is, says the Archbishop-Designate, "attempting to convey the message that Catholics can disregard Church teaching regarding contraception, abortion and human sexuality in general and remain Catholics in good standing." However, "Nothing could be further from the truth."

"While people can call themselves whatever they want, it is my duty as a bishop to state clearly and unequivocally that by professing and disseminating views in grave contradiction to Catholic teaching, members of organizations like 'Young Catholics for Choice' in fact disown their Catholic heritage, tragically distancing themselves from that communion with the Church to which they are called," added the archbishop.

Using language first employed by Catholic dissenters to Humanae Vitae, YCFC calls on Catholics to use an "informed conscience" to decide to use birth control and the morning-after-pill, also called "emergency contraception."

Their ad campaign states: "Young Catholics are having sex. We are using contraception and condoms. We are having abortions. We are bisexual, gay, lesbian, straight and transgender. And none of this makes us any less Catholic than conservative Catholics who speak out against us.

"The truth is, they don't represent what the majority of Catholics - especially those of us in our 20s and 30s - think about sex. It comes down to Catholic teaching on conscience. Basically, every individual has the right and responsibility to follow his or her own conscience - and respect others' right to do the same. With conscience and respect, good Catholic sex is not only possible, it's already happening. "

The group, claiming to be a youth wing of "Catholics for Choice," admits that it's mandate is to "take action to counter the bishops' impact both in the United States and around the world. "

Archbishop Listecki concluded his statement calling for prayers for the YCFC members. "We pray that they may reconcile their position which is contrary to the Catholic Faith they claim to profess."

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

O Inferno

Do Padre Hugo de Azevedo:

«Quem não acredita no inferno não acredita no homem. Não acredita no homem como ser consciente e livre, pessoal, responsável. Capaz de escolher o seu destino. Não acredita em nada, afinal: assiste à existência, perplexo ou distraído. Não lhe vê sentido nenhum. Vive e movimenta-se como um galo sem cabeça, até cair dessangrado. Quem não acredita no inferno não acredita na dignidade humana, tal e tanta, que Deus a respeita escrupulosamente, até ao ponto de deixar perder-se um filho, depois de ter dado a vida do seu Unigénito por ele. Nenhuma pessoa nem sociedade manifesta maior respeito pela nossa liberdade, um respeito que chega a ser assustador, pela tremenda responsabilidade que nos confere, e à qual não podemos renunciar. E, se só de pensar na eterna separação de Deus nos afligimos, que será presenciar o inferno, como Nossa Senhora o mostrou aos três pastorinhos?

E por que o fez, senão para nos dar a todos, através deles, o sentido das realidades que estão em jogo na vida? «Viver é um negócio muito perigoso», diz sabiamente um personagem de Guimarães Rosa. Não faltaram hereges que, presumindo-se mais bondosos do que Deus, o contestaram a existência do inferno, ou a sua eternidade. De facto, «é horrendo cair nas mãos do Deus vivo» (Hebr 10, 31), exclamava o Apóstolo, assim como é maravilhoso «viver com Ele no amor» (Sab 3, 9). Embora devamos animar-nos com a esperança do Céu, é muito conveniente não esquecermos a horrível alternativa da perdição. Caso contrário, não entendemos a Encarnação, nem a Cruz, nem a instituição da Igreja, nem o valor dos Sacramentos, nem a necessidade da vigilância e da oração constantes, nem a luta ascética, nem a urgência do apostolado...

«As afirmações da Sagrada Escritura e os ensinamentos da Igreja a respeito do inferno são um apelo ao sentido de responsabilidade com que o homem deve usar da sua liberdade, tendo em vista o destino eterno. Constituem, ao mesmo tempo, um apelo urgente à conversão: 'Entrai pela porta estreita...'» (Catecismo da Igreja Católica, 1036).

Quando perguntavam aos militares destinados ao Iraque se não sentiam medo, a resposta sensata era a que davam: «Não ter medo seria irracional!» E, se é irracional não temer a morte violenta, quanto mais sensato será temer a morte eterna! «Não temais os que podem matar o corpo... Temei antes aquele que pode lançar a alma e o corpo na Geena!» (Mt 10, 28)

Mas não diz o Apóstolo que quem teme não é perfeito na caridade? (I Jo 4, 18) Temer o inferno não é temer Deus; é justamente o contrário: temer a separação d’Ele. Quanto a Ele não cabe o temor, mas só o amor. Nem sequer havemos de recear a nossa fragilidade, pois Ele bem sabe «de que barro somos feitos» (S 102, 14). O inferno não se destina aos pecadores, que todos somos; destina-se aos soberbos. Assim como o Céu não se destina aos «perfeitos», que nenhum de nós é; destina-se aos humildes, aos que amam a Deus e se arrependem... até do bem que fazem, por ser tão pouco!
A soberba é o caminho do inferno. Aquele que não se habituou a pedir desculpa, tanto a Deus como ao próximo; aquele que «tem sempre razão», que só erra «por culpa dos outros», que não encontra nada de que se arrepender, e foi sempre «perfeito» no seu comportamento, modelo e padrão da restante gente... esse está a caminho de se perder eternamente.

Por isso havemos de animar todos os cristãos ao Sacramento da Penitência. Quem frequenta a Confissão, está preparado para entrar na glória divina, ainda que a morte o colha de surpresa, porque nesse instante decisivo seguirá facilmente o exemplo do bom ladrão, e Deus o receberá com alegria. Rezemos, porém, pelos que perderam o costume de se confessarem: nem imaginam em que perigo estão! «Rezai, rezai muito e fazei sacrifícios pelos pecadores», pedia com tristeza, em Agosto de 1917, Nossa Senhora aos três meninos de Fátima, «que vão muitas almas para o inferno por não haver quem se sacrifique por elas!»
Muitos problemas pastorais preocupam a Igreja, mas este é o decisivo. E o espírito de penitência, a solução.»


Fonte: Site Celebração Litúrgica

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Dissidentes...

Nos comentários ao texto do Bispo Tobin que publiquei há umas semanas, o Sérgio defendeu o valor positivo de uma Igreja Católica que acolhe, como católicos, pessoas de ideias muito diferentes. À partida, a ideia parece boa. Mas claramente, qualquer pessoa entende que isso depende muito de que ideias e diferenças se está a falar! Por exemplo, tenho a certeza quase absoluta de que o Sérgio rejeitaria imediatamente como católico alguém que se afirmasse católico e firmemente defendesse a escravatura!

O Sérgio deu o exemplo de Frei Bento Dominges e do Padre Anselmo Borges para vincar, segundo ele, o valor positivo de uma Igreja que os acolhe como católicos em pé de igualdade com os outros. Aqui, o Sérgio dá um passo arriscado: o de supor que a ausência de punição ou admoestação a estes teólogos, por parte da hierarquia da Igreja, implica uma aceitação das suas posições. Eu não vejo como é que o Sérgio dá este passo. Será numa de "quem cala, consente"?

Evidentemente, estes exemplos dados pelo Sérgio têm significado: ele não escolheu estes nomes à toa. É que são os nomes de dois dos mais conhecidos teólogos dissidentes aqui em Portugal. Tenho a noção do peso enorme do que digo. Eu, o leigo ignorante, a acusar estes dois professores e teólogos de dissidência! No entanto, mais não faço que constatar um facto. E posso dar um exemplo concreto, sendo certo que conseguiria encontrar inúmeros outros exemplos… Aquando do último referendo acerca do aborto, estes dois teólogos vieram a público defender o voto “sim”: Frei Bento chegou ao ponto de invocar São Tomás para defender esse sentido de voto [1]. Sendo claríssimo que a Igreja sempre condenou o aborto como crime moral, pela razão evidente de que se trata da morte de uma vida humana inocente, não há quaisquer dúvidas de que qualquer católico (mesmo que protegido pela chancela de teólogo profissional) que não aceite este ponto, está em dissidência [2]. No caso especialmente grave do aborto, a dissidência assume contornos sinistros, fazendo dos defensores do “sim” e do pretenso “direito” ao aborto, colaboradores coniventes no crime do aborto. Nem mais, nem menos…

Quem me lê, discordando daquilo que escrevo, vai quase de certeza associar as minhas ideias ao meu “conservadorismo”, esse termo de significado vazio e ilegalmente importado da política, que se tira, qual “ás” do baralho, para acabar logo com a discussão. O Bernardo é um “conservador”, assunto arrumado. Os menos simpáticos chamar-me-ão “fanático” ou “fundamentalista”. Mas, para se ver porque razão essa apreciação é injusta, gostaria de contar algo sobre o meu percurso no catolicismo.

Nem sempre me dei conta do que era isso de ser católico, e do que implicava, sobretudo em termos morais, ser católico. Por volta dos vinte e poucos anos, recordo-me do entusiasmo que sentia quando lia os textos de Frei Bento Domingues no Público.

(Um parêntesis curioso: tanto Frei Bento Domingues como Anselmo Borges têm crónicas regulares em dois dos maiores jornais portugueses – porque será que os “media” dão tanto espaço à dissidência católica? Isso daria outro debate complexo, mas é evidente que a enorme exposição mediática destes dois teólogos coloca-os numa fortíssima posição de influência, e isso deveria acarretar uma responsabilidade, pois eles são vistos, por quem lê as suas crónicas, como representantes da Igreja Católica…)

Lia os textos de Frei Bento sempre ao Domingo, quando pegava no jornal comprado pelo meu avô. Recordo-me que, assim que pegava no jornal, eu começava sempre pelas palavras de Frei Bento. Lia-as com muita satisfação. O que eu sentia, então, era que aquele homem tinha um discurso arejado e positivo, moderno e entusiasmante. De vez em quando, Frei Bento criticava a hierarquia, mas também é verdade que nem sempre o tom era esse, e seria injusto dizê-lo. Por vezes, Frei Bento questionava o Magistério, sugeria mudanças profundas. Duas coisas ficaram-me para sempre na cabeça quando eu lia essas suas crónicas mais dissidentes: uma delas, já referi, era o enorme entusiasmo que tais crónicas me provocavam. A outra era o agrado com o qual eu constatava que Frei Bento referia constantemente, para suportar as suas posições, o Concílio Vaticano II. Era a chancela de que eu precisava para aceitar Frei Bento, incondicionalmente, como fonte de autoridade.

Aos olhos de um miúdo de vinte e poucos anos, quase totalmente ignorante em matéria de eclesiologia e doutrina católica, a coisa parecia feia no que tocava ao Magistério: ficava-se com a impressão de que a hierarquia estava a tentar sufocar ou pelo menos a tentar fazer esquecer pontos centrais do último grande concílio, e que teólogos como Frei Bento estavam, não só na vanguarda do pensamento, mas também na posição de defensores da verdade do ensinamento do próprio concílio. Curiosamente, foi neste período da minha vida que menos fui à missa: não me confessava há anos, não fazia qualquer juízo moral aos meus actos e pensamentos. Procurava justificar tudo o que fazia, e encaixar isso no catolicismo que criava à minha medida.

O meu percurso de mudança de admirador inicial incondicional de Frei Bento para o extremo diametralmente oposto, pois hoje em dia tenho uma péssima opinião sobre as suas posições doutrinais, não foi percorrido de uma só vez. Precisei de anos para me dar conta de que o catolicismo era uma coisa diferente da que era retratada pelos teólogos dissidentes. E o mais curioso é que eu poderia ter-me dado conta disso numa só assentada: isso só não aconteceu porque o ser humano é muito teimoso, e a minha teimosia e casmurrice é lendária. Tão arrogante era eu acerca da minha “autonomia intelectual” de católico progressista, que achava que podia ser católico e discordar de quase tudo, desde a homossexualidade, passando pelo aborto, pelo divórcio, pela ordenação das mulheres, pela contracepção artificial, pelo celibato sacerdotal, e pelas demais causas “liberais” da dissidência, que eu demorei anos a arrumar a casa. Não foi fácil dar-me conta da minha estupidez proverbial. Os factos eram evidentes, mas a falta de cultura católica era explosiva, quando estava misturada com um feitio orgulhoso como o meu.
Mas que factos eram esses? Que factos é que se me depararam, e fizeram com que, a pouco e pouco, eu rejeitasse a dissidência e reencontrasse a minha identidade católica?
Em primeiro lugar, que o Concílio Vaticano II tinha um conteúdo muito diferente do que os teólogos “progressistas” afirmavam. Aprendi a distinguir a “letra” do Concílio do dito “espírito” do Concílio, esse cheiro pestilento que normalmente se costuma colar aos textos conciliares, fazendo-os dizer à força coisas que não dizem.
Por exemplo, nunca, em texto algum do Frei Bento que eu tenha lido, eu pude aprender o facto claro e inegável de que o Vaticano II confirmava o papel central do Magistério como agente de preservação e ensinamento da doutrina, papel esse que recebera uma formulação forte de infalibilidade no Vaticano I. Sem nunca ter lido os textos do Concílio, e pela leitura assídua dos dissidentes, fiquei com a ideia de que o Vaticano II era um momento incontornável e decisivo de ruptura. Ora nada é mais contrário à verdade dos factos. O Vaticano II deixou claro quem ensina na Igreja. Nessa e noutras matérias, o Vaticano II, longe de ser ruptura, é um concílio de continuidade, que aprofunda questões que foram trabalhadas no Vaticano I. Por exemplo, um trecho como o seguinte, retirado da Constituição Dogmática Lumen Gentium, não deixa margens para dúvidas ou outras interpretações:

“22. Assim como, por instituição do Senhor, S. Pedro e os restantes Apóstolos formam um colégio apostólico, assim de igual modo estão unidos entre si o Romano Pontífice, sucessor de Pedro, e os Bispos, sucessores dos Apóstolos. A natureza colegial da ordem episcopal, claramente comprovada pelos Concílios ecuménicos celebrados no decurso dos séculos, manifesta-se já na disciplina. primitiva, segundo a qual os Bispos de todo o orbe comunicavam entre si e com o Bispo de Roma no vínculo da unidade, da caridade e da paz (59); e também na reunião de Concílios (60), nos quais se decidiram em comum coisas importantes (61), depois de ponderada a decisão pelo parecer de muitos (62); o mesmo é claramente demonstrado pelos Concílios Ecuménicos, celebrados no decurso dos séculos. E o uso já muito antigo de chamar vários Bispos a participarem na elevação do novo eleito ao ministério do sumo sacerdócio insinua-a já também. É, pois, em virtude da sagração episcopal e pela comunhão hierárquica com a cabeça e os membros do colégio que alguém é constituído membro do corpo episcopal.

Porém, o colégio ou corpo episcopal não tem autoridade a não ser em união com o Romano Pontífice, sucessor de Pedro, entendido com sua cabeça, permanecendo inteiro o poder do seu primado sobre todos, quer pastores quer fiéis. Pois o Romano Pontífice, em virtude do seu cargo de vigário de Cristo e pastor de toda a Igreja, tem nela pleno, supremo e universal poder que pode sempre exercer livremente. A Ordem dos Bispos, que sucede ao colégio dos Apóstolos no magistério e no governo pastoral, e, mais ainda, na qual o corpo apostólico se continua perpetuamente, é também juntamente com o Romano Pontífice, sua cabeça, e nunca sem a cabeça, sujeito do supremo e pleno poder sobre toda a Igreja (63), poder este que não se pode exercer senão com o consentimento do Romano Pontífice. Só a Simão colocou o Senhor como pedra e clavário da Igreja (cfr. Mt. 16, 18-19), e o constituiu pastor de todo o Seu rebanho (cfr. Jo. 21, 15 ss.); mas é sabido que o encargo de ligar e desligar conferido a Pedro (Mt. 16,19), foi também atribuído ao colégio dos Apóstolos unido à sua cabeça (Mt. 18,18; 28, 16-20) (64). Este colégio, enquanto composto por muitos, exprime a variedade e universalidade do Povo de Deus e, enquanto reunido sob uma só cabeça, revela a unidade do redil de Cristo. Neste colégio, os Bispos, respeitando fielmente o primado e chefia da sua cabeça, gozam de poder próprio para bem dos seus fiéis e de toda a Igreja, corroborando sem cessar o Espírito Santo a estrutura orgânica e a harmonia desta.

O supremo poder sobre a Igreja universal, que este colégio tem, exerce-se solenemente no Concílio Ecuménico. Nunca se dá um Concílio Ecuménico sem que seja como tal confirmado ou pelo menos aceite pelo sucessor de Pedro; e é prerrogativa do Romano Pontífice convocar estes Concílios, presidi-los e confirmá-los (65). O mesmo poder colegial pode ser exercido, juntamente com o Papa, pelos Bispos espalhados pelo mundo, contanto que a cabeça do colégio os chame a uma acção colegial ou, pelo menos, aprove ou aceite livremente a acção conjunta dos Bispos dispersos, de forma que haja verdadeiro acto colegial.”
[3] (negrito meu)


Se o ponto 22 da Constituição Dogmática deixa claro o papel do Papa e dos Bispos, vejamos agora o ponto 25, acerca do ministério episcopal de ensinar:

“25. Entre os principais encargos dos Bispos ocupa lugar preeminente a pregação do Evangelho (75). Os Bispos são os arautos da fé que para Deus conduzem novos discípulos. Dotados da autoridade de Cristo, são doutores autênticos, que pregam ao povo a eles confiado a fé que se deve crer e aplicar na vida prática; ilustrando-a sob a luz do Espírito Santo e tirando do tesoiro da revelação coisas novas e antigas (cfr. Mt. 13,52), fazem-no frutificar e solicitamente afastam os erros que ameaçam o seu rebanho (cfr. 2 Tim. 4, 1-4). Ensinando em comunhão com o Romano Pontífice, devem por todos ser venerados como testemunhas da verdade divina e católica. E os fiéis devem conformar-se ao parecer que o seu Bispo emite em nome de Cristo sobre matéria de fé ou costumes, aderindo a ele com religioso acatamento. Esta religiosa submissão da vontade e do entendimento é por especial razão devida ao magistério autêntico do Romano Pontífice, mesmo quando não fala ex cathedra; de maneira que o seu supremo magistério seja reverentemente reconhecido, se preste sincera adesão aos ensinamentos que dele emanam, segundo o seu sentir e vontade; estes manifestam-se sobretudo quer pela índole dos documentos, quer pelas frequentes repetições da mesma doutrina, quer pelo modo de falar.

Embora os Bispos, individualmente, não gozem da prerrogativa da infalibilidade, anunciam, porém, infalivelmente a doutrina de Cristo sempre que, embora dispersos pelo mundo mas unidos entre si e com o sucessor de Pedro, ensinam autenticamente matéria de fé ou costumes concordando em que uma doutrina deve ser tida por definida (76). O que se verifica ainda mais manifestamente quando, reunidos em Concílio Ecuménico, são doutores e juízes da fé e dos costumes para toda a Igreja, devendo-se aderir com fé às suas definições (77).

Mas esta infalibilidade com que o divino Redentor quis dotar a Sua igreja, na definição de doutrinas de fé ou costumes, estende-se tanto quanto se estende o depósito da divina Revelação, o qual se deve religiosamente guardar e fielmente expor. Desta mesma infalibilidade goza o Romano Pontífice em razão do seu ofício de cabeça do colégio episcopal, sempre que, como supremo pastor dos fiéis cristãos, que deve confirmar na fé os seus irmãos (cfr. Lc. 22,32), define alguma doutrina em matéria de fé ou costumes (78). As suas definições com razão se dizem irreformáveis por si mesmas e não pelo consenso da Igreja, pois foram pronunciadas sob a assistência do Espírito Santo, que lhe foi prometida na pessoa de S. Pedro. Não precisam, por isso, de qualquer alheia aprovação, nem são susceptíveis de apelação a outro juízo. Pois, nesse caso, o Romano Pontífice não fala como pessoa privada, mas expõe ou defende a doutrina da fé católica como mestre supremo da Igreja universal, no qual reside de modo singular o carisma da infalibilidade da mesma Igreja (79). A infalibilidade prometida à Igreja reside também no colégio episcopal, quando este exerce o supremo magistério em união com o sucessor de Pedro. A estas definições nunca pode faltar o assentimento da Igreja, graças à acção do Espírito Santo, que conserva e faz progredir na unidade da fé todo o rebanho de Cristo (80).

Porém, quando o Romano Pontífice, ou o corpo episcopal com ele, define alguma verdade, propõe-na segundo a Revelação, à qual todos se devem conformar. Esta transmite-se integralmente, por escrito ou por tradição, através da legítima sucessão dos Bispos e, antes de mais, graças à solicitude do mesmo Romano Pontífice; e, sob a iluminação do Espírito de verdade, é santamente conservada e fielmente exposta na Igreja (81). Para a investigar como convém e enunciar aptamente, o Romano Pontífice e os Bispos, segundo o próprio ofício e a gravidade do assunto, trabalham diligentemente, recorrendo aos meios adequados (82); não recebem, porém, nenhuma nova revelação pública que pertença ao depósito divino da fé (83).”
[4] (negrito meu)



Como se pode constatar, a Lumen Gentium é límpida e clara, como o próprio título deixa transparecer. Como tão bem sintetizou Ralph McInerny:

“(…) while anyone is, of course, free to be Catholic or not, he is not free as a Catholic to reject what the Church teaches. To do so is to cease to be a Catholic” [5]


Ou ainda, como explica o professor de filosofia Germain Grisez:

“The thing peculiar to Catholics is that we are papists. I think that the decision is undoubtedly a very hard one, and many people will have to decide whether they want to be papists, that is, Catholic or not. If one is a Catholic, one is a papist. And if one is a papist, then one cannot say, “Rome has spoken, but the cause goes on.” One has to say, “Rome has spoken; the cause is finished.” [6]


Se eu tivesse tido acesso a esta informação valiosa, e também abertura para a receber, poderia ter “regressado a casa” mais cedo, ou seja, poderia ter reencontrado a minha identidade católica mais cedo… Citações como estas, de Ralph McInerny ou de Germain Grisez podem chocar muita gente, mesmo católicos, sobretudo os que ainda vivem sob a alçada da teologia liberal. Mas é inegável que reflectem o verdadeiro espírito do Concílio.

Mas será, realmente, chocante a ideia de que um católico é, por definição, um papista? Só chocará se alguém defender que o Papa não é uma fonte fiável em matéria de doutrina. É esse pressuposto não demonstrado e irrazoável que assumem os não papistas: eles assumem que o Papa não é fiável em matéria de moral e doutrina. E então, seria evidentemente um abuso para a boa formação da consciência ter que aquiescer a uma fonte de moral errada, ou no melhor caso, falível. No entanto, é claro que se o Papa não se engana em matéria de doutrina e de moral, então a aquiescência da nossa consciência, o nosso sim filial e incondicional, é para nós garantia segura de inerrância. Ao estarmos com Pedro, e sob Pedro, estamos na melhor situação possível. E isso é algo claro e transparente para qualquer católico que entendeu o que é ser católico. E é por isso que qualquer católico não pode deixar de olhar para o Papa como quem olha para um real e presente “alter Christus”, como um ícone e reflexo da mesma verdade de sempre que nos foi legada por Jesus Cristo Senhor Nosso, não para nossa ilustração intelectual, não para os nossos debates filosóficos, mas para a nossa salvação. Isto não resulta, é óbvio, de um “endeusamento” da figura do Papa: é apenas conclusão lógica e racional da promessa de Cristo descrita em Mateus 16, 18: “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do abismo nada poderão contra ela”.

Mas então, de onde vem esta esquizofrenia pretensamente católica que consiste em querer defender a posição indefensável de que se pode ser católico e ao mesmo tempo, divergir dos ensinamentos do Magistério?

O ponto histórico central que marca esta ruptura dos teólogos liberais com o ensinamento de sempre da Igreja pode definir-se de forma clara na reacção destes à encíclica Humanae Vitae, de Paulo VI. Os teólogos liberais ficaram duplamente “ofendidos” com esta encíclica: por um lado, durante as décadas que precederam a encíclica, eles ensinavam aos casais que a contracepção artificial era tolerável, ou mesmo louvável, no casamento católico. Por outro lado, uma comissão teológica instituída pelo Papa João XXIII, e cujos trabalhos se prolongaram até ao papado de Paulo VI, concluiu que não havia objecções à contracepção artificial, desde que usada dentro do casamento. Quando o Papa Paulo VI publica a Humanae Vitae a 25 de Julho de 1968, indo no sentido contrário da conclusão da comissão teológica, compreende-se a situação delicada na qual o Papa deixara estes teólogos, ou melhor, a situação delicada na qual os teólogos, eles mesmos, se haviam colocado. O que já não se compreende é a reacção intempestiva destes últimos. Frei Charles Curran, professor de teologia na Catholic University of America e vice-presidente da American Theological Association, lançou um abaixo-assinado que chegou às páginas do New York Times a 30 de Julho, apenas 5 dias após a publicação da encíclica. O abaixo-assinado trazia as assinaturas de mais de duzentos teólogos (note-se a ausência de bispos). Surgia então, em 1968, este “novo magistério” alternativo e não oficial! Nos anos que se seguiram, este “novo magistério” iria ganhar aderentes e espalhar-se por todo o mundo católico, entrando em seminários, em universidades, nas catequeses, nas paróquias, em casas de retiro, e nos jornais e publicações católicas. Aos fiéis, cabia-lhes escolher de que lado ficariam. Os teólogos dissidentes deixavam os fiéis numa situação horrível…

O que isto deixa claro, nesse ano já remoto de 1968, era que se estava perante um problema novo, criado pelos teólogos liberais: estes procuravam promover uma nova visão do que era a Igreja Católica, e mais do que isso, queriam ser vistos como dotados de uma real vocação para o ensino de doutrina e moral em pé de igualdade com o Magistério. Claramente, estavam contra os ensinamentos de sempre, incluindo evidentemente o Concílio Vaticano II, que não mudou, nem podia mudar, a natureza da Igreja Católica. Veja-se, a título de exemplo da inicial “solidão” destes teólogos dissidentes, a posição clara tomada pelos bispos norte-americanos, que no dia 31 de Julho de 1968, pela voz do presidente da Conferência Episcopal dos Estados Unidos, o Arcebispo John Dearden de Detroit, tornou pública a posição oficial dos bispos norte-americanos, totalmente alinhada com Paulo VI.

Surge a questão central: então, como é que a posição isolada dos teólogos dissidentes se massificou nas décadas seguintes? A resposta não é fácil de dar. Certamente, inúmeras razões podem e devem ser apontadas para esta disseminação generalizada, que fez de uma posição extremista de teólogos a posição assumida por um enorme número de fiéis nos anos seguintes. É inegável que uma das razões está na maior facilidade em aceitar esta nova “moralidade” dos teólogos dissidentes. É agradável para o ouvido humano a defesa da “maturidade” dos fiéis católicos modernos, a defesa da irrelevância do sacramento da confissão, a promoção da prática de um “juízo interior” no qual o crente “maduro” avalia sozinho a sua consciência. Para mais, a “nova moral” proposta pelos teólogos dissidentes rivalizava com a moral católica de sempre com uma força desequilibrada. Não só esta “nova moral”, muito menos exigente, era mais apelativa e fácil de ser aceite, como evidentemente, caiu em cheio na mentalidade moderna da altura.

Em 1968, o mundo recebeu de braços abertos a nova teologia dissidente. Os inimigos da Igreja regozijaram-se com esta nova fissura na muralha. Os que, não sendo inimigos da Igreja, não a conheciam nem a compreendiam, ficaram satisfeitos com esta nova “adaptação” da doutrina da Igreja à cultura moderna. Na sociedade moderna, a fronteira entre católico e não católico diluiu-se: afinal, podia-se ser católico e ter uma moral muito mais relaxada e ao gosto da época. Esta atitude fracturante abriu caminho para o surgimento de pequenas facções dissidentes, como o movimento We Are Church (em Portugal, Nós somos Igreja), cuja visão da Igreja Católica está totalmente em contra-ciclo com o Vaticano II (apesar de os seus líderes dizerem precisamente o contrário). Estas facções, que passados vários da sua fundação continuam marginais e sem bases de apoio, culpam a hierarquia pelo insucesso das suas iniciativas revolucionárias, em vez de verem as coisas como elas são: o tal "povo de Deus", dos quais estes movimentos se julgaram porta-vozes, não ligou nenhuma a este convite à dissidência.

Os teólogos dissidentes tornaram-se, hoje em dia, figuras do passado. A teologia dissidente está a definhar. É que, quatro décadas de teologia dissidente deixaram claras quais são as consequências de seguir esse caminho da asneira: seminários vazios, igrejas a esvaziar de forma sistemática, desenraizamento das novas gerações da cultura e da doutrina católicas, desorientação e desânimo dos fiéis, e sensação permanente de desunião.

Olhando para o papado de João Paulo II e de Bento XVI, fica evidente, para qualquer observador atento, que o tempo da dissidência já lá vai. A Igreja recupera, de novo, a sua identidade, enquanto tenta sarar as feridas da dissidência. Muitos teólogos dissidentes ainda estão vivos e falantes. Ainda dão palestras, ainda dirigem cursos de teologia, ainda influenciam as novas gerações. Mas é uma questão de tempo: eles defendem uma ideologia “datada” dessa década de sessenta, uma ideologia que quis promover um catolicismo de ruptura. A Igreja existe há 2.000 anos. Irá, certamente, sobreviver aos teólogos dissidentes que montaram o “Maio de 68” (para usar uma expressão de Massimo Introvigne) da Igreja Católica…

Ainda há poucos anos, enquanto me dava conta dos meus erros de juventude, e da imoralidade que lhes estava associada, cheguei a sentir genuína antipatia por estes teólogos dissidentes, que foram os meus ídolos do catolicismo da minha juventude. Via-os como os únicos culpados: responsabilizava os seus escritos por me terem enganado, a mim e a muitos, acerca do real significado da Igreja, e por me terem mantido longe do verdadeiro catolicismo durante muito tempo. Mas a verdade é que eu próprio fui conivente, preferindo lê-los e ouvi-los como “progressistas” e ignorando os muitos que, realmente dentro do espírito católico, diziam o contrário. É que abandonar o “catolicismo liberal” em favor do catolicismo de sempre não é uma decisão fácil: obriga a mudar toda a nossa vida, a começar pelos nossos actos, pela nossa moral.

O tempo passou, e se ainda sinto repulsa intelectual pelas posições dos teólogos dissidentes, hoje olho para eles com outros olhos. De certa forma, é complicado para a maioria das pessoas escapar ao “espírito dos tempos”, sobretudo àquele final da década de sessenta, que foi tudo menos tranquilo. Não movo nenhuma guerra pessoal contra Frei Bento ou contra outros teólogos liberais. Tal atitude não seria cristã, e hoje tenho a certeza de que não se deve mover tal guerra no plano pessoal. No entanto, algumas das suas ideias erradas continuam vivas e espalhadas por aí. E essas ideias devem ser combatidas. Penso que, como em tudo, o tempo será um valioso ajudante, à medida que progredimos e ultrapassamos a atitude adolescente de dissidência (e o espírito de “Maio de 68” que tanto marcou as últimas décadas do catolicismo) e entramos na maturidade da fé católica.

[1] "Por opção da mulher", jornal Público, Fevereiro de 2007. Ver artigo aqui.
[2] Para que não restem dúvidas de que votar "sim" no referendo ao aborto implicava dissidência, bastaria ter-se consultado o documento da Congregação para a Doutrina da Fé, de 24 de Novembro de 2002, que deixava a questão bem esclarecida: «Neste contexto, há que acrescentar que a consciência cristã bem formada não permite a ninguém favorecer, com o próprio voto, a actuação de um programa político ou de uma só lei, onde os conteúdos fundamentais da fé e da moral sejam subvertidos com a apresentação de propostas alternativas ou contrárias aos mesmos.», Nota doutrinal sobre algumas questões relativas à participação e comportamento dos católicos na vida política.
[3] Constituição Dogmática Lumen Gentium, ponto 22.
[4] Constituição Dogmática Lumen Gentium, ponto 25.
[5] McInerny, Ralph, What went wrong with Vatican II - The Catholic Crisis explained, Sophia Institute Press, 1998, p. 81.
[6] Ibidem, pp. 81-82.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Diagrama - Heresias cristãs



(fonte: http://en.wikipedia.org/wiki/Christology)

Durante muito tempo, procurei um esquema que explicasse bem as primeiras heresias, e como se foi definindo a doutrina cristã ao longo dos vários concílios. Este esquema, que afinal estava à mão de semear, está excelente.

No final do esquema, onde esta "chalcedonianism", leia-se "doutrina católica". A última ponta da ramificação (a mais no fundo) representa o credo católico definitivo e aceite no Concílio de Calcedónia (451). O diagrama ilustra bem como a Igreja foi formulando, com base na razão e no testemunho apostólico e escriturístico, uma ideia correcta acerca de Cristo, deixando as heresias para trás.

Já agora, vejamos as características de Cristo que foram definidas como credo cristão, e as respectivas heresias que foram rejeitadas em consequência da formulação da doutrina:

- verdadeiro Homem
(contra os docetistas)

- verdadeiro Deus
(contra os ebionitas)

- consubstancial ao Pai
(contra os arianos; o termo "homoousion", "consubstancial" é o único termo de jargão filosófico que surge no Credo)

- uma só hipóstase (um só indivíduo)
(contra os nestorianos)

- diofisita (dotado de de naturezas distintas: a humana e a divina)
(contra os monofisitas em geral, contra os eutiquianos, os apolinarianos e os miafisitas)

- diotelita (dotado de duas vontades distintas: a humana e a divina)
(contra os monotelitas)

Um ponto importante a reter é que a Igreja cristã não ia "criando" doutrina, mas sim "formulando" doutrina, ou seja, procurando a linguagem precisa necessária para se poder definir com a melhor precisão possível a doutrina deixada por Cristo.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Um Bispo colossal

A 29 de Outubro de 2009, o congressista Patrick Kennedy fez a seguinte afirmação:

“The fact that I disagree with the hierarchy on some issues does not make me any less of a Catholic.”

Teve a resposta que merecia do Bispo de Providence, Monsenhor Thomas Tobin:

«Since our recent correspondence has been rather public, I hope you don’t mind if I share a few reflections about your practice of the faith in this public forum. I usually wouldn’t do that – that is speak about someone’s faith in a public setting – but in our well-documented exchange of letters about health care and abortion, it has emerged as an issue. I also share these words publicly with the thought that they might be instructive to other Catholics, including those in prominent positions of leadership.

For the moment I’d like to set aside the discussion of health care reform, as important and relevant as it is, and focus on one statement contained in your letter of October 29, 2009, in which you write, “The fact that I disagree with the hierarchy on some issues does not make me any less of a Catholic.” That sentence certainly caught my attention and deserves a public response, lest it go unchallenged and lead others to believe it’s true. And it raises an important question: What does it mean to be a Catholic?

“The fact that I disagree with the hierarchy on some issues does not make me any less of a Catholic.” Well, in fact, Congressman, in a way it does. Although I wouldn’t choose those particular words, when someone rejects the teachings of the Church, especially on a grave matter, a life-and-death issue like abortion, it certainly does diminish their ecclesial communion, their unity with the Church. This principle is based on the Sacred Scripture and Tradition of the Church and is made more explicit in recent documents.

For example, the “Code of Canon Law” says, “Lay persons are bound by an obligation and possess the right to acquire a knowledge of Christian doctrine adapted to their capacity and condition so that they can live in accord with that doctrine.” (Canon 229, #1)

The “Catechism of the Catholic Church” says this: “Mindful of Christ’s words to his apostles, ‘He who hears you, hears me,’ the faithful receive with docility the teaching and directives that their pastors give them in different forms.” (#87)

Or consider this statement of the Church: “It would be a mistake to confuse the proper autonomy exercised by Catholics in political life with the claim of a principle that prescinds from the moral and social teaching of the Church.” (Congregation for the Doctrine of the Faith, 2002)

There’s lots of canonical and theological verbiage there, Congressman, but what it means is that if you don’t accept the teachings of the Church your communion with the Church is flawed, or in your own words, makes you “less of a Catholic.”

But let’s get down to a more practical question; let’s approach it this way: What does it mean, really, to be a Catholic? After all, being a Catholic has to mean something, right?

Well, in simple terms – and here I refer only to those more visible, structural elements of Church membership – being a Catholic means that you’re part of a faith community that possesses a clearly defined authority and doctrine, obligations and expectations. It means that you believe and accept the teachings of the Church, especially on essential matters of faith and morals; that you belong to a local Catholic community, a parish; that you attend Mass on Sundays and receive the sacraments regularly; that you support the Church, personally, publicly, spiritually and financially.

Congressman, I’m not sure whether or not you fulfill the basic requirements of being a Catholic, so let me ask: Do you accept the teachings of the Church on essential matters of faith and morals, including our stance on abortion? Do you belong to a local Catholic community, a parish? Do you attend Mass on Sundays and receive the sacraments regularly? Do you support the Church, personally, publicly, spiritually and financially?

In your letter you say that you “embrace your faith.” Terrific. But if you don’t fulfill the basic requirements of membership, what is it exactly that makes you a Catholic? Your baptism as an infant? Your family ties? Your cultural heritage?

Your letter also says that your faith “acknowledges the existence of an imperfect humanity.” Absolutely true. But in confronting your rejection of the Church’s teaching, we’re not dealing just with “an imperfect humanity” – as we do when we wrestle with sins such as anger, pride, greed, impurity or dishonesty. We all struggle with those things, and often fail.

Your rejection of the Church’s teaching on abortion falls into a different category – it’s a deliberate and obstinate act of the will; a conscious decision that you’ve re-affirmed on many occasions. Sorry, you can’t chalk it up to an “imperfect humanity.” Your position is unacceptable to the Church and scandalous to many of our members. It absolutely diminishes your communion with the Church.

Congressman Kennedy, I write these words not to embarrass you or to judge the state of your conscience or soul. That’s ultimately between you and God. But your description of your relationship with the Church is now a matter of public record, and it needs to be challenged. I invite you, as your bishop and brother in Christ, to enter into a sincere process of discernment, conversion and repentance. It’s not too late for you to repair your relationship with the Church, redeem your public image, and emerge as an authentic “profile in courage,” especially by defending the sanctity of human life for all people, including unborn children. And if I can ever be of assistance as you travel the road of faith, I would be honored and happy to do so.

Sincerely yours,

Thomas J. Tobin

Bishop of Providence»

- Bishop Tobin's Public Letter to Rep. Kennedy

Quem fala assim não é gago.
Em Portugal, há muito político "católico" a precisar de ouvir coisas destas...

terça-feira, 3 de novembro de 2009

José Manuel Pureza, o católico

Da entrevista publicada pelo Sol ao líder do grupo parlamentar do Bloco de Esquerda:

«É católico, vai à missa?
Vou, claro.
Estas questões, o aborto, como as resolve?
Muito bem, não vejo nenhuma dificuldade. Sei que há diferenças entre o que penso e o que pensa essa outra gente que é católica, também sei que não estou isolado: viu-se o que aconteceu no referendo na IVG. Mas compreendo que estamos habituados a uma matriz ideológica de comportamento de católicos que é predominantemente conservadora.
No aborto, há a questão quando é concebida a vida…
Pois há. Mas baseio-me não num conhecimento do séc. XVI, mas num conhecimento do ponto de vista das ciências da vida do séc. XXI, que me mostra, tanto quanto me é possível mostrar, que o que alguns chamam vida absoluta desde o momento da concepção é muito discutível. Há pessoas que ainda acham que eliminar espermatozóides é um crime que lesa a vida. Essa coisa de pôr os católicos em matéria de bioética, no séc. XVI é o pior que se pode fazer para a Igreja Católica.»


Pede-se aos nossos leitores católicos a amabilidade de localizarem alguém que conheça José Manuel Pureza e saiba a que missa ele vai. É imperativo abordar este nosso irmão católico à saída da missa e explicar-lhe o catecismo por gestos. A única explicação que se vislumbra para as posições exóticas deste nosso irmão só poderá ser a de ele sofrer de graves problemas de leitura e de audição, uma vez que nunca se deparou com uma só frase dos quilómetros existentes acerca da impossibilidade em se ser católico e defender o direito ao aborto.

Por outro lado, só uma surdez intransponível pode explicar o facto aparentemente misterioso de ele nunca ter ouvido um só sacerdote ou leigo a explicar o porquê da dita incompatibilidade. Para além de tudo isto, é também notório o alheamento deste nosso irmão, uma vez que, em total contra-ciclo, no preciso momento histórico em que um grupo importante de anglicanos se junta à Igreja Católica precisamente para reagir à facção radical que quer casar e ordenar homossexuais, José Manuel Pureza está a defender essa ideia peregrina.

Pureza está de tal forma baralhado, que foi logo escolher ser membro do Bloco de Esquerda, acabando em líder parlamentar! Pasme-se... É verdade que é preciso escavar para encontrar, na Assembleia da República, um partido católico (esse partido está enterrado: são os monges de São Bento que lá viveram há uns quantos séculos). Mas Pureza foi logo escolher um dos partidos cuja doutrina está mais em choque com o catolicismo.

Alguém que acuda!

PS: Quem estiver nos próximos tempos com José Manuel Pureza faça a amabilidade de lhe explicar que católico algum defendeu o direito à vida de um espermatozóide.

PS2: De caminho, expliquem-lhe que os mecanismos complexos da fertilização foram descobertos no século XIX, aprofundados durante o século XX, e ainda em activo estudo no século XXI. Fenómenos importantes para a fertilização humana e para a marcação biológica do início da vida, como por exemplo o bloqueio rápido da polispermia, são descobertas recentes da ciência, e não datam do século XVI.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

"Casamento" homossexual - o triunfo da vontade

O problema não é de "timing", como afirmam os sofistas da praxe. Liga-se a rádio, a televisão, e lá estão eles: "há assuntos mais importantes... não é a altura certa... há que ver as prioridades...". É patético ver gente crescida a fugir ao cerne da questão: têm real repulsa por este tema, mas têm medo de serem vistos como retrógrados, e por isso optam pela fuga.

O problema não é de direitos fiscais ou sucessórios: a amnésia colectiva é o desporto nacional, mas ainda há quem se lembre de que essa questão foi resolvida aquando do vivo debate em torno das uniões de facto, que acabaram por ser metidas na lei. Na altura, não faltaram corifeus para bradar que a questão das uniões de facto não era o "casamento" homossexual encapotado, que era apenas uma questão de legítimos direitos de pessoas que vivem juntas independentemente da sua vida sexual. A quem dizia que a união de facto era o primeiro degrau dessa escadaria que levaria ao "casamento" homossexual é à adopção de crianças por homossexuais, gritou-se: falácia! Falácia!

O problema é de vontade. De pura, despótica e tirânica vontade. Daquela vontade que passa por cima das contingências biológicas, que pisa a razão e o bom senso, que atropela a lógica.

A propósito do triunfo da vontade, brevemente legislado num Diário da República perto de si, veja-se este trecho profético dos Monty Python, retirado do filme Life of Brian. O Stan quer ser uma mulher, e quer que o chamem de Loretta. E quer ter bebés...

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

O mito de Hipátia

"Agora" and Hypatia - Hollywood Strikes Again

Excelente leitura, recomendada pelo Pedro Gaspar, a quem agradeço profundamente. Só à conta desta dica valiosa, já acrescentei mais um livro à minha lista na Amazon.

Cá vai o "trailer" do filme "Agora", mais uma peça de propaganda anticristã primária, baseada em ignorância histórica, que certamente vai ter assistência e vai dar conforto aos preconceitos ignorantes de muita gente:



Como explica o Tim O'Neill no artigo acima referido, não é fácil encontrar cientistas "mártires" mortos pelo cristianismo por causa de um suposto conflito entre religião cristã e ciência. Fizeram do mago e bruxo Giordano Bruno um cientista. Já foi obra. O caso de Hipátia é um bocado diferente, como explica O'Neill: ela era uma verdadeira cientista (para evitar anacronismos, era uma verdadeira filósofa). Só que não foi morta por causa dos seus conhecimentos científicos. A causa da morte de Hipátia foi política, como explica O'Neill de forma magistral.

PS: No "trailer" do filme, gostei muito das cruzinhas que aquela maltosa toda transportava na mão, enquanto tomavam tudo de assalto. Dá imenso jeito ter as mãos ocupadas enquanto se massacra e se toma alguma coisa de assalto. E metendo-lhes umas cruzes na mão e no peito, garante-se que o espectador deste filme não perde a mensagem central: aquela cambada de assassinos do saber e do conhecimento científico era toda cristã.

Argumentum ad ignorantiam

(Que não se julgue que estou a embirrar com o Ludwig, só pelo facto de a minha escrita ser esporádica, e de ter dedicado vários textos recentes ao Ludwig...
Sucede que leio o blogue dele com frequência, e considero que a argumentação do Ludwig é bastante representativa daquilo que impede tanta gente inteligente de abraçar imediatamente o cristianismo, e deixar-se de tretas.)

«Pelos aspectos análogos das muitas religiões e pela dificuldade em apurar os detalhes acerca de acontecimentos tão antigos, o melhor é procurar explicações genéricas para as religiões em vez de focar uma só religião ignorando as outras, que é um erro de muitos crentes.»
, in Razões Históricas.

Isto é um bom exemplo de uma falácia que dá pelo nome clássico de "argumentum ad ignorantiam", ou em bom portugês, "apelo à ignorância".

Não é nada espantoso encontrá-lo na escrita do Ludwig, porque não é nada espantoso encontrar falácias na escrita de toda a gente. Todos as fazemos. Por isso é que é importante que, quando detectadas, elas sejam logo apontadas e preferencialmente corrigidas.

O Ludwig tem formação científica, e para além disso, tem um gosto e um talento natural para a argumentação estruturada. Logo, é pessoa para detestar falácias.

Mais uma razão para lhe dar esta achega: é incoerente que sejamos muito rigorosos no raciocínio científico, e depois deitemos às malvas, mesmo que inconscientemente, esse rigor quando tratamos de outros temas fora da esfera da ciência.

Ludwig: que fazes, homem?

Pela "dificuldade em apurar detalhes", desligas o cérebro?
Vê bem as tuas próprias palavras: estás a sugerir que, dada a dispersão de formas e credos religiosos, dada a distância temporal que nos separa dos acontecimentos "in illo tempore", vamos ficar-nos pela mediocridade? Vamos ficar-nos pelas "explicações genéricas"?

A mecânica quântica é muito complexa. Tem imensas ramificações. Tem imensas teorias epistémicas. É uma grande confusão. Mas quem se esforça por entrar nesse mundo esotérico, descobre a beleza matemática de uma teoria explicativa da realidade física que é espantosamente poderosa. Imaginemos que um aluno universitário de Física, lá pelo primeiro ano do curso, se assustava com a "dificuldade em apurar detalhes", e sugeria aos seus colegas de curso, e a si mesmo, que se procurassem "explicações genéricas"?

Já estou a ouvir o Ludwig: "Bernardo, é completamente diferente: em Física, posso fazer experiências, com o teu deus e com a tua doutrina não posso". Mas isso é mesmo assim? É certo que não podes fazer experiências com Deus, mas podes certamente usar o intelecto para procurar incoerências em certa doutrina religiosa, e assim, removê-la do baralho.

Por exemplo, eu posso olhar para a defesa teológica da irracionalidade, presente em muita teologia islâmica, e usar isso para dizer: "o Islão tem coisas fascinantes, mas não me convence". Posso olhar para a história fantástica do mormonismo, com a descoberta do Livro de Mórmon pelo Joseph Smith no século XIX, que alega que uma comunidade de judeus migrou há muitos séculos para a América do Norte, e ver que é uma tese inconsistente e sem bases históricas. Posso olhar para o hinduísmo, e ver que a intrínseca desconfiança hindú nos sentidos é muito incómoda para o gosto que tenho pela ciência empírica. Posso olhar para o Budismo, notável caminho espiritual para a libertação do sofrimento, e perguntar aos budistas: meus amigos, onde está a vossa ontologia? Para vós, há ou não há Deus? Será, caros amigos budistas, que o mundo material é assim tão mau? Desanimado, é assim que também descarto o budismo, porque gosto das coisas deste mundo.

Finalmente, olho para a religião do Nazareno. Vejo os frutos dessa religião, e como esses frutos estruturaram a melhor civilização que o mundo conheceu. Vejo como uma religião de escravos seduziu, no melhor sentido, o coração dos romanos. E como séculos depois, seduziu o coração dos bárbaros. E como hoje continua a seduzir corações.

Posso ir a Roma, à Basílica de São Pedro, e sob o baldaquino, encontrar e descer os degraus que levam à sepultura do apóstolo. Em volta dessa sepultura, distribuídas de forma radial, estão centenas de sepulturas modestas, os restos dos primeiros cristãos sepultados nas catacumbas, que quiseram que os seus ossos descansassem ao redor de São Pedro.

Pedro, o pescador da Galileia que abandonou as redes de peixes para ir pescar homens, e que se meteu a caminho de Roma para desafiar o Imperador. Este matou-o, achando que matando Pedro matava a Igreja. Como se sabe, em poucos séculos, deu-se a reviravolta. Teodósio fez do Império Romano, cuja essência era a adoração pagã de um ramalhete de deuses e deusas, o Império da Cruz de Cristo.

Não será, Ludwig, que a tua "dificuldade em apurar detalhes" resulta de um problema teu? Porque apontas essa dificuldade às coisas e não a ti? É espantoso ver como desistes desse apurar da verdade religiosa, sem sequer dedicares algum tempo que seja a estudar as raízes das várias religiões, sem sequer te meteres a olhar para os dados históricos que fazem determinado grupo de pessoas seguir determinada doutrina. Desistes à partida.

Eu não me atrevo a apontar o problema ao teu intelecto. Tenho a certeza de que ele funciona bem. Aponto o problema à tua vontade. A vontade é que é tramada. Enquanto não tiveres vontade de estudar a questão religiosa, enquanto achares que é tudo treta, não terás qualquer possibilidade de chegar ao fundo destas questões.

É má argumentação dizer o seguinte: "há várias religiões, todas dizem coisas diferentes, logo são todas falsas". Non sequitur!

É perfeitamente lógico supor, por hipótese:

a) que poderão ser todas falsas

b) que algumas delas poderão ser verdadeiras (desde que concordem entre si)

c) que apenas uma delas poderá ser verdadeira (caso discordem todas entre si)

O que não podes nunca supor é que são todas verdadeiras, é claro, visto que é sabido que dizem coisas diferentes.

Mas como é que saltas directamente para a certeza de que a) é o que corresponde à verdade? Como é que passas da suposição lógica de que todas poderão ser falsas, para a certeza epistémica de que todas são falsas?

Eu digo-te como dás esse salto: apoias-te no preconceito.

PS - Dizes:
«não me parece realista exigir uma explicação detalhada para ter sido aquela seita, e não outra das muitas da altura, a religião oficial do Império Romano»


Mais uma vez... Não te parece realista exigir uma explicação detalhada, ou não queres procurar uma explicação detalhada? De novo a maldita da vontade.
Antes do Édito de Milão (313), todas as religiões autorizadas do Império Romano tinham algo em comum, que lhes garantia a autorização legal: prestar culto ao Imperador como se presta a um Deus. Para as religiões autorizadas, e eram muitas, a "latria" ao Imperador era um dado adquirido. Quando Pedro entra em cena, chegando a Roma, e espalhando o cristianismo por todas as camadas sociais da complexa e robusta estrutura social romana, instala-se o caos. E a razão é simples: pela primeira vez, uma religião recusa-se a prestar a "latria" ao Imperador, pois os cristãos não reconhecem a divindade de César. É este o busílis da questão cristã.
Nunca te preocupaste em perceber porque é que o cristianismo "pegou", e é isso que é preocupante em ti, Ludwig: atreves-te a descartar uma coisa que nunca estudaste porque nunca quiseste.
É o carácter único e desafiador do cristianismo que, em última análise, está por detrás do seu retumbante sucesso. O cristão trazia algo de novo para contar. O cristão estava disposto a morrer na arena do circo romano por uma verdade superior. O cristão tinha saboreado, em Cristo, a eternidade. E essa eternidade é o único antídoto contra qualquer tipo de morte cruel ou violenta. Essa eternidade é o bálsamo da esperança cristã.

Todo aquele que não entendeu ainda o frémito social que provocou este fenómeno inédito do cristão a morrer corajosamente na arena por uma verdade superior, recusando tratar o Imperador como deus, não faz a mais pequena ideia do que foi a história primitiva da Igreja Católica, e do impacto que isso teve na nossa civilização.

O Ocidente nasce ali, nas areias do Circo Romano. O obelisco egípcio, trazido por Calígula e colocado como eixo da arena, está hoje triunfalmente no meio da Praça de São Pedro, no Vaticano, em Roma.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Dan Brown e a Maçonaria

Já há muito tempo que não se fala neste blogue sobre Dan Brown.
Há muito tempo que se especulava acerca do conteúdo do novo "pré-best-seller" do autor norte-americano. Quase na esteira imediata do "The Da Vinci Code", os "media" agitavam-se com a especulação de que o seu próximo livro seria também polémico porque seria sobre a Maçonaria.


(Foto: Andrew Medichini/Associated Press)

A especulação provou estar certa. Realmente, o novo livro de Dan Brown, "The Lost Symbol", versa sobre a Maçonaria. Esperava-se, evidentemente, um romance policial feito sobre uma base histórica muito deficiente, como n'O Código da Vinci. Se Dan Brown não se preparou (ou não se quis preparar) convenientemente para escrever sobre a temática já velhinha (de umas quantas décadas) do Priorado de Sião e das teses pseudo-históricas da "linhagem sagrada" de Cristo, não era de esperar que se preparasse grande coisa para escrever sobre a Maçonaria.

Logo, a questão do rigor histórico não se colocava, nem com as obras passadas de Dan Brown, nem com as futuras. No entanto, confesso que esperava, ingenuamente, que Dan Brown, desta vez, neste novo livro, abandalhasse a história da Maçonaria como fez com a da Igreja Católica. Sempre mostraria alguma imparcialidade da parte do autor!

Não foi isso que aconteceu.
O novo romance de Dan Brown é uma apologia da Maçonaria. Mais concretamente, é uma apologia (historicamente muito mal feita, é claro) da tese controversa das presumidas origens maçónicas dos E.U.A., e como bem apontou Massimo Introvigne, o real objectivo deste novo romance de Dan Brown (que se desiludam os ingénuos que pensam que a máquina de dinheiro por detrás de Brown apenas quer vender) é o de atacar a tese da fundação cristã dos E.U.A., trocando-a pela tese da fundação maçónica dos E.U.A.:

«Se i padri fondatori, senza troppo dirlo, volevano fondare l’esperimento americano su una sorta di naturalismo neo-pagano, gnostico, “massonico” nel senso di questo termine corrente oggi (ma si dimentica che la massoneria americana del Settecento non era quella europea del XIX secolo o di oggi), allora le pretese – care a Bush – di presentare gli Stati Uniti come una Christian nation con una missione religiosa da compiere crollano come un castello di carte.»


Lança-se a confusão na opinião pública: os E.U.A. como "christian nation" ou como "masonic nation"?

Dan Brown já escolheu!
Veja-se o que pensa o autor acerca da Maçonaria, numa entrevista à CBC News:

"I have enormous respect for the Masons," Brown said. "In the most fundamental terms, with different cultures killing each other over whose version of God is correct, here is a worldwide organization that essentially says, 'We don't care what you call God, or what you think about God, only that you believe in a god and let's all stand together as brothers and look in the same direction'."


Se se procurasse uma melhor explicação da profunda incompatibilidade entre cristianismo (mais especificamente, catolicismo) e Maçonaria, não seria fácil encontrá-la. Neste aspecto, Dan Brown fornece, com estas palavras, o melhor exemplo da incompatibilidade entre ser cristão e ser maçon.

Sem perceber nada da história da Maçonaria, Dan Brown conseguiu a proeza de captar um dos seus traços mais importantes, e que está na raiz da tal incompatibilidade: é que, de forma muito generalizada (há raríssimas excepções documentadas), os maçons são relativistas e anti-dogmáticos.

Há então na Maçonaria, em maior ou menor grau dependendo da filiação, uma generalizada atitude intelectual que é aversa à procura e à defesa de verdades doutrinais objectivas, sendo antes promovido um "espírito de clã", de irmandade, sacrificando-se a procura e a defesa intelectual da verdade de uma doutrina.

Entende-se, então, porque razão mais de uma dezena de Papas, desde o século XVIII, têm declarado a Maçonaria como uma organização vedada ao católico: o relativismo é a razão mais forte de todas, bem mais forte do que o anticlericalismo de algumas importantes filiações maçónicas.

Sem qualquer ironia, tem que se agradecer a Dan Brown por ter demonstrado, de forma tão concisa, esta incompatibilidade.

PS: Quando o autor deste artigo da CBC News tentou dar alguma informação histórica sobre a Maçonaria, só disse asneiras:

«Freemasonry is an old fraternity dating back to the Middle Ages, and at various periods in history it has come under suspicion because its rules and rituals are secret.»


A Maçonaria não data da Idade Média, mas sim de 1717, data da fundação da Grande Loja de Inglaterra, pelo pastor protestante James Anderson.

«It requires belief in a higher power, but members may be of any religious background.»


Esta frase é uma generalização errada. Nem todas as filiações maçónicas requerem a crença num "poder superior", e nem todas as filiações maçónicas permitem membros de qualquer "background" religioso. Várias filiações, algumas extintas outras não, têm ou tiveram condições restritivas de acesso, vedando, por exemplo, o acesso a não cristãos.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

O pseudo-ateu Saramago

(baseado numa notícia da qual tomei conhecimento através de um "post" do Rui Janeiro)

José Saramago acusa Papa Bento XVI de «cinismo»

O Saramago é mesmo ateu, ou é daqueles anti-católicos primários, que preferem ser conhecidos como “ateus” porque o termo “ateu” é mais sofisticado do que “anti-católico”?

Há pessoas que ficam muito bem impressionadas com as patacoadas que o senhor Saramago diz acerca da Igreja Católica, e até há quem ache que são corajosas. Porquê corajosas?

Ele nada tem de original. Toda a sua atitude anti-católica é repetição e plágio. Toda a verborreia anti-católica é já velha de mais de cem anos, e não há vislumbre, nos dislates de Saramago, do menor aspecto de novidade nos seus ataques anti-católicos, que continuam com o mesmo nível de sofisticação do discurso de um Afonso Costa, de há cem anos atrás. Se fosse político, Saramago seria um Émile Combes à portuguesa, cem anos atrasado…

Este senhor não percebe nada de catolicismo nem de Igreja Católica.
A soberba e a arrogância, pecados graves, são trágicos quando conjugados com a ignorância.

Saramago, por mero orgulho, gosta de fazer de paladino do anti-catolicismo, hoje politicamente correcto.

Há hoje em dia alguma novidade em ser anti-católico?
Há alguma réstia de coragem em fazê-lo?

Se ainda resta um preconceito socialmente tolerado, nesta velha e triste Europa, é o preconceito anti-católico.

Saramago é um triste….
Para Saramago, Bento XVI é um “cínico intelectual”?
É patético… Puros ataques “ad hominem” de alguém que sabe zero de filosofia.

Está na altura de Saramago retirar a máscara de ateu, que não é, porque a filosofia ateia não interessa uma grama a Saramago (a filosofia não interessa uma grama a Saramago, nem nada de realmente intelectual), e afirmar-se de uma vez por todas como um arruaceiro anti-cristão, que usa o seu Nobel (ideologicamente atribuído) como escudo para as patacoadas que dispara em todas as direcções, quais “pérolas” pseudo-intelectualóides atiradas para um público receptivo.

O sucesso de Saramago é simples de explicar: sob a égide e a protecção do Nobel, diz às pessoas com preconceitos anti-católicos exactamente aquilo que elas estão preparadas para receber e aceitar.

A Igreja Católica defende uma moral exigente.
A malta está-se nas tintas para viver uma vida moral. Dá trabalho. É mais fixe viver a vida sem regras morais. É mais fixe fingir que Deus não existe, que não há juízo final, que não há relações causa-efeito nas opções morais que tomamos, que a vida é apenas para ser usufruída como se fosse uma viagem de montanha russa numa feira.

O Saramago pinta a abolição da moralidade cristã como uma missão intelectualmente superior, até civilizacional.

É o que todos querem ouvir!
Não é o primeiro falso profeta da História, e não será o último.

Saramago, o pretenso ateu, não produziu uma única demonstração filosófica do ateísmo.
Também não produziu uma única refutação filosófica do cristianismo.

Como filósofo, como ateu, Saramago é uma fraude.

Daqui a uns séculos, o nome de Joseph Ratzinger, Papa Bento XVI, permanecerá nos anais pontifícios e na memória dos católicos. Ficará para a História.
Para os não católicos que se interessam por Filosofia, a obra filosófica de Ratzinger, vasta e profunda, ficará perpetuada no património intelectual da humanidade.

Que restará da memória de Saramago, quando o que resta da ideologia comunista que ele tanto venera desaparecer da face da Terra, como desaparecem todas as falsas ideologias?

Que restará da memória de Saramago, quando se extinguirem os "intelectuais" comunistas? Quando já não lhe restarem amigos e discípulos para lhe dedicarem odes hagiográficas e comoventes "in memoriam"?

Contra a vontade de Saramago, poderão sobreviver ao teste do tempo apenas os seus romances mais libertos de anti-catolicismo...

Quando já ninguém souber quem é José Saramago, exceptuando um ou outro professor obscuro de literatura do remoto século XX, como se chamará o Papa? Quantos milhões de católicos terá a Igreja Católica então? Quantos missionários? Quantas universidades e escolas? Quantos movimentos de acção social? Quantos jornais e editoras? Quantos canais de televisão e rádio? Quantas mais histórias de santidade para contar ao mundo?

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Sobre a resposta do Ludwig ao meu desafio

Ver texto original aqui:
O desafio do Bernardo

Ludwig...
Por simplicidade, os blocos de texto que aqui não forem citados são por mim considerados não problemáticos ou mesmo correctos.

«As religiões vão no sentido inverso. Cada religião define-se por um conjunto fixo de crenças, costumes e rituais.»

É totalmente falacioso escrever desta maneira. Insistes na expressão "as religiões", procurando em vão definir e contestar todas "as religiões" em bloco. E pelo menos a religião cristã não vai no sentido inverso do conhecimento científico, como é afirmado. Basta pegar numa questão qualquer, por exemplo, o heliocentrismo ou o evolucionismo, e analisar a reacção intelectual do cristianismo às novas ideias científicas, e entende-se que há uma constante reinterpretação da doutrina à luz de novos conhecimentos. Um outro exemplo: quando se dá o primeiro contacto da intelectualidade cristã com o aristotelismo, a reacção inicial é de desconfiança: que teria o filósofo pagão para ensinar aos cristãos? Nos séculos seguintes, o aristotelismo foi integrado numa visão filosófica cristã, sobretudo graças a São Tomás de Aquino. Após esta reacção cristã salutar ao que o aristotelismo tinha de bom, verificou-se no final da Idade Média uma crescente contestação às fragilidades da física aristotélica, que ao contrário do que se pensa, não começou com Galileu ou Newton (apesar de ambos serem cristãos convictos e praticantes), mas sim com Buridan e Oresme, uns séculos antes.

É sistemática e constante, não só a reacção da Igreja Católica ao conhecimento científico, mas também a produção de conhecimento científico. Foi o padre belga Lemaître quem pela primeira vez sugeriu a teoria do átomo primordial, que viria a ficar conhecida como teoria do "Big Bang".



Lemaître aparece nesta fotografia a dar uma aula de Física usando as vestes sacerdotais. Quem julga que essas vestes, símbolo exterior dos seus votos e da sua vocação, não têm nada a ver com o facto de este homem vir a dar aulas de Física, não faz ideia do que está a falar.

Seria preciso bastante tempo para te mostrar, Ludwig, inúmeros exemplos de pessoas concretas cuja vida e obra refutam totalmente a visão deturpada que tens acerca do cristianismo: Buridan, Oresme, Mersenne, Stensen, Mendel, Lemaître, são alguns dos nomes que me vêm à memória neste momento, em variadas áreas do saber científico.

«Enquanto a ciência visa escolher hipóteses segundo critérios objectivos de adequação à realidade, independentes do sujeito, as religiões são manifestações de subjectividade que projectam sobre a realidade o acto pessoal de crer.»

Tornas isto difícil pelo facto de que usas sistematicamente a expressão "as religiões", expressão essa que só poderias usar se realmente TODAS as religiões entrassem nesse padrão.

A religião cristã certamente não entra nesse padrão que traças e criticas.
Custa a entender a que é que te referes, num contexto cristão, quando falas em critérios objectivos de adequação à realidade... Será que te referes ao célebre adágio escolástico, "veritas est adaequatio rei et intellectus" (a verdade é a adequação do intelecto à realidade), explicada por exemplo por São Tomás de Aquino na sua questão disputada sobre a verdade?

É que é difícil dizer que um cristão está contra essa concepção "realista" do conhecimento, quando o maior doutor da Igreja, e longe de estar sozinho, o afirma de forma tão categórica...

Se, pela frase "veritas est adaequatio rei et intellectus", a filosofia escolástica quer precisamente erradicar a subjectividade para fora do conceito de verdade (ao dizer que o intelecto se tem que adequar ao real para atingir a verdade, considerada independente do sujeito), a que é que te referes quando falas em "manifestações de subjectividade, que projectam sobre a realidade" o que quer que seja? Se há alguém que critica essas irreais projecções subjectivas do intelecto para a realidade, esse alguém é o cristão, que sempre defendeu que o intelecto é que se deve adequar ao real, e não o inverso!

«Filósofos gregos especularam que o universo seria feito de água, fogo, ar ou terra. Os alquimistas elaboraram a especulação e, eventualmente, nasceu a química e a moderna teoria dos átomos.»

Ludwig: porque é que passas um rolo compressor por cima de questões tão complexas? Achas que estás a fazer uma boa síntese desses conceitos? Achas que tens uma ideia precisa acerca da alquimia? Eu também aprendi no ensino secundário que a alquimia era uma química primitiva. Mas isso tem uma explicação simples: ignorância dos professores que me ensinaram essas baboseiras. A alquimia não é uma proto-ciência experimental. Tem certamente uma componente experimental, mas é altamente dependente de uma cultura hermética, que a fez surgir e que a protegeu. Aliás, uma interpretação hermética da alquimia, que é transversal a toda a alquimia ocidental, e que tinha pretensões metafísicas e espirituais, foi fortemente criticada por isso mesmo pela Igreja Católica. Ao fazê-lo, a Igreja procurava erradicar o espírito de magia e hermetismo que considerava nocivo para a doutrina cristã e para o conhecimento em geral.

Chega a ser irónico que tu apresentes a alquimia como exemplo de método científico ou pré-científico quando a motivação por detrás de todo o alquimista sério (havia também o alquimista burlão, que só queria enganar, e o ganancioso, que só procurava fortuna fácil) era uma motivação ocultista ou hermética, a motivação diametralmente oposta à do cientista.

O surgimento da ciência moderna é um fenómeno complexo e ainda cheio de pontas soltas. Por exemplo, há umas décadas atrás, Frances Yates propôs a teoria singular e polémica (mas ainda em debate) de que a corrente hermética tinha sido muito importante para o surgimento da ciência moderna, ao procurar, com a sua rebeldia intelectual, fugir do "hiper-racionalismo" da tradição escolástica, e procurar através da magia, da cabala e da alquimia, manipular as "forças do mundo". É uma tese muito interessante e séria, que ainda hoje tem defensores e oponentes.

É certo que as experimentações alquímicas vão desembocar, mais tarde ou mais cedo, na química moderna. Não nego que estejas certo neste ponto. Mas vês uma linearidade, uma relação causa-efeito tão limpinha, que chocarias qualquer historiador da Alquimia. Parece-me que te está a passar completamente ao lado, pela visão que tens acerca destes assuntos (uma visão típica de um triunfalismo céptico-iluminista tão comum nos séculos XVIII e XIX), como é que estas transições se deram ao longo da História, e passa-te também ao lado o papel fundamental que a Igreja teve neste processo. Mersenne, por exemplo, pelo papel que teve no combate à cultura hermética, foi uma peça-chave nesse virar cultural que inaugurou a era científica moderna.

«Mais cedo ou mais tarde, empurradas pelo que se observa, estas especulações acabariam por convergir numa descrição mais próxima da realidade. Coisa que o fundamento subjectivo das religiões impede.»

Quem te lê, julga que a ciência moderna surgiu por milagre, no século XVIII, graças ao secularismo iluminista, e que surgiu APESAR do catolicismo dominante. Galileu, Newton, Leibniz, Descartes, e toda a elite intelectual do renascimento e do iluminismo andou aos ombros de gigantes. A começar pelas bases: quase todos os grandes cientistas e intelectuais da modernidade receberam os seus estudos básicos e universitários em instituições cristãs (católicas ou protestantes).

Quem julgas tu que, pela primeira vez na História, ensinou a alunos universitários como é que se montava um telescópio galileano? Achas que foi um desses cientistas seculares do iluminismo, um desses adversários da "superstição" religiosa? Foi o jesuíta Giovanni Lembo, do Collegio Romano, que estava a dar aulas no Colégio de Santo Antão, em Lisboa, instituição jesuíta.

Quem julgas tu que levou para o extremo oriente as descobertas científicas de Galileu? Achas que foi um desses cientistas seculares do iluminismo, um desses adversários da "superstição" religiosa? Foi o jesuíta Manuel Dias quem traduziu para chinês, em 1614, as descobertas astronómicas de Galileu, apenas poucos anos após terem sido feitas.

O Marquês de Pombal, esse “campeão” do iluminismo secularista em Portugal, conseguiu a notável proeza de destruir a rede de ensino jesuíta que existia em Portugal, deixando o país mergulhado no analfabetismo e desligado das redes internacionais de conhecimento (das quais se destacava, a larga distância, a rede jesuíta de ensino). Expulsou os detentores do saber. É preciso recuar uns séculos para encontrar uma estupidez do mesmo calibre, quando o nosso rei D. Manuel I decidiu expulsar os judeus, detentores dos recursos financeiros.

Os teus "subjectivistas religiosos" garantiram, durante séculos, não só a preservação do conhecimento científico (os copistas, as bibliotecas, as universidades) mas também a produção de genuíno conhecimento científico.

«Religiões e ciência são incompatíveis à partida porque não podemos subordinar as crenças aos dados que obtemos ao mesmo tempo que assentamos uma visão do mundo num crer arbitrário.»

E cais no mesmo... Das duas uma: ou admites que estás a aglutinar todas as religiões no mesmo saco, passando por cima das enormes diferenças entre elas, ou então admites que é por teimosia que continuas a dizer que o crer cristão é arbitrário. No último texto que escrevi, frisei de forma clara que esse crer arbitrário, baseado exclusivamente em argumentos de autoridade, e desconfiado da razão humana, é considerado pela Igreja, e há muitos séculos, como uma HERESIA, chamada "fideísmo". Ludwig: o que é que quer dizer “teologia”? Não vem de “theos-logos”, ou seja, a procura da razão, da lógica, de Deus?

«Isto não impede que alguém seja religioso e cientista. Também há pára-quedistas que fazem mergulho. Mas a capacidade humana para fazer e pensar coisas incompatíveis não faz com que deixem de o ser. Não é por um cientista ir à missa que provam a compatibilidade. Para isso teriam de mostrar como se faz ciência com rezas, fé e dogmas religiosos.»

Alguma vez leste a introdução do "De revolutionibus orbium coelestium", do Copérnico? O que é que lá aparece? Não me refiro ao prefácio espúrio do protestante Osiander, refiro-me às próprias palavras do Copérnico na introdução, às palavras que ele usa para explicar ao leitor porque razão decidiu escrever aquela obra...
Ah, Copérnico era cristão.

Só desconhecendo totalmente a mentalidade dos cientistas cristãos é que se pode dizer que eles faziam ciência separadamente das suas crenças religiosas. Dá mesmo vontade de rir. Está no dogma cristão, está na doutrina cristã, toda a motivação para a descoberta científica: todos estes grandes nomes investigavam o mundo com a profunda convicção de quem está a ler "o livro de Deus", de quem está a entrar no intelecto divino através das Suas obras, interpretando o desígnio de Deus através do estudo da Criação. É judaico-cristã a ideia de que a Criação é boa, racional, inteligível, obra de um Deus bom.

Dizes que não se faz ciência com rezas... Talvez concorde contigo, mas o cientista cristão reza para pedir a Deus a inspiração necessária para um trabalho intelectual de qualidade, para que o intelecto humano limitado do cientista possa penetrar nas verdades acerca da realidade natural. E isto porque o cientista cristão, aquele a quem deves quase toda a ciência que tens hoje em dia, vê o seu trabalho científico como um diálogo intelectual com Deus. Para alguns cientistas cristãos, não poucos, a sua investigação científica é apenas mais uma forma de rezar, ou seja, de estabelecer um diálogo racional com Deus através do estudo da Sua obra.

Tu, porém, regulaste tudo com medida, número e peso.
Livro da Sabedoria, 11,20

O que é que achas que esta citação quer dizer, Ludwig?

«Por exemplo, muitas religiões – entre as quais a católica – afirmam a existência de seres conscientes e imateriais. Deus, almas, anjos, espíritos santos. E isto a ciência diz, claramente, ser impossível.»

Onde é que ela diz isso?
Vamos ver se eu percebi. A ciência, cujo domínio é 100% empírico, ao excluir do seu campo de estudo tudo o que não é empírico (como Deus, almas, anjos, espíritos santos), ainda assim, diz que esses conceitos são irreais? Como?

Seria como tentar medir temperaturas com uma balança, ou medir pesos com um termómetro. Explica-me como é que a ciência prova, cientificamente, que esses conceitos fora do âmbito científico não existem...

«É algo que segue da física mais fundamental. O processamento de informação, no sentido mais lato que abrange certamente qualquer forma de consciência, exige energia e acarreta custos em entropia. Disso não há escapa. A menos que a ciência moderna esteja redondamente enganada.»

Não é preciso, de forma alguma, dizer mal da ciência moderna. Mas entendes que falas de processamento de informação feito por consciências humanas? Que podes dizer tu acerca do consumo de energia, acerca da entropia, do raciocínio divino? Que pode a ciência natural dizer acerca disso?

Que pode a ciência moderna dizer acerca de uma alma imaterial?
Entendes que, por definição, a ciência exclui trabalhar sobre esse tipo de conceitos?

O meu desafio mantém-se: mostra-me onde é que a ciência moderna refuta a doutrina cristã. Só me estás a dar razão... Os teus exemplos são inaplicáveis. Metes abusivamente a ciência a falar fora da sua esfera de trabalho.

«Quando nos diz que não se pode acelerar objectos à velocidade da luz é mesmo isso que quer dizer.»

Onde é que me viste defender a ideia de que Deus seria capaz de fazer um objecto ultrapassar a velocidade da luz? Deus, como os cristãos O entendem, é racional. Se faz realmente parte da estrutura do nosso cosmos, como tudo indica, esse limite da velocidade da luz, porque razão haveria Deus, que criou o cosmos, e portanto esse mesmo limite, querer ultrapassá-lo? Só para provar a sua omnipotência?

Para os cristãos, Deus fez as regras do jogo. Caramba, Deus criou o jogo! Logo, seria irracional Deus querer quebrá-las. E Deus não é irracional.

«Para disfarçar esta contradição é costume alegar-se que Deus opera num domínio diferente ou que ele é que criou as leis da natureza e pode fazer o que quiser. Nada disso serve.»

Claro que serve.
Eu não estou a dizer que Deus viola leis da Natureza. Porque razão haveria de dar esse salto arriscado? Posso apenas dizer que Deus criou o mundo dotado de certas leis que Ele mesmo desenhou e projectou. Ao fazê-lo terá certamente pensado em formas de intervir na Sua criação. E, do ponto de vista de Deus, essas formas de intervir são perfeitamente "lícitas" em termos das leis que Ele mesmo concebeu. Sucede apenas que essas “intromissões” de Deus no mundo, apesar de serem “legais” e “lícitas” do ponto de vista de Deus, são impossíveis de analisar pela ciência, pelo facto de que causas sobrenaturais estão fora do método científico.

Um milagre, da forma como este fenómeno é entendido pelo cristão, não é uma violação de qualquer tipo de leis da Natureza.

«Torçam-se como quiserem, mas dizer que há um deus que o pode fazer é contradizer a ciência.»

Estás a bater num espantalho. Eu não disse nada disso.

«Quando alguém se cura e dá jeito mais um santo, reúne-se cientistas para certificar que a cura é cientificamente impossível e oficializa-se o milagre.»

Não é nada disso que se passa. A comissão científica que analisa o suposto milagre, após análise de todos os dados, e se não encontrar explicação científica, apenas diz que não a encontrou. Não diz nunca, nem nunca disse, que a cura por via natural do caso em estudo era cientificamente impossível. Se uma dada comissão dessas conclui que não encontra explicação científica, isso apenas abre caminho para uma explicação sobrenatural (esta explicação apenas sugere que se coloque a causa do fenómeno "fora" da realidade natural, e não altera nem os efeitos naturais do milagre, nem os processos naturais que decorrem juntamente com os efeitos naturais).

A base explicativa do milagre, que é claramente metafísica e não científica, está em apontar uma causa externa à Natureza. Mas tal explicação metafísica não tem que, e não pode, levar à conclusão de que se violaram leis científicas. Se um dado fenómeno, devido a uma causa sobrenatural, não pode ser logicamente analisado puramente com causas naturais, não tenho que deduzir que se violaram leis científicas.

«É claro que o Bernardo vai dizer que Deus é um ser transcendente»

Sim...

«...que está para além do tempo e do espaço...»

Sim, não entendendo o termo "além" em sentido espacial ou temporal...

«...é incompreensível para a mente humana...»

Depende. Se tomares "incompreensível" no sentido de que o intelecto humano não consegue abarcar a divindade, é realmente isso que eu defendo. Se tomares "incompreensível" no sentido de irracional, então discordo radicalmente. De novo, a ideia de uma suposta "irracionalidade" da revelação cristã é precisamente uma das ideias condenadas pela Igreja, ao atacar a heresia fideísta.

«O que o leva a mais uma contradição com a ciência.»

Eu não entendo mais este ponto no teu discurso: quando usas a palavra "contradição", estás a assumir que a não existência de contradição equivale a uma espécie de equiparação? Ou seja, julgas que eu, por defender que não há contradição entre Ciência e doutrina cristã, vou defender algum tipo de equiparação?

Esse risco não existe. Quando eu digo que a ciência moderna não contradiz a doutrina cristã, estou a dizer que não há verdades científicas em colisão com verdades de doutrina cristã. Não estou a dizer que elas operam com as mesmas ferramentas. Por exemplo, o conceito de "prova" é totalmente diferente para o trabalho científico e para a discussão filosófica ou teológica. Mas isso não quer dizer que a razão tenha sido posta a andar do debate filosófico ou teológico: a razão é intrínseca a este debate. Esta diferença tem a ver com método de trabalho e com âmbito de trabalho. Ciência e doutrina cristã estão interessadas em aspectos tipicamente diferentes da realidade (se bem que, como referi, há por vezes sobreposição): a ciência foca-se nas explicações naturais para os fenómenos naturais, enquanto que a doutrina cristã se foca em realidades sobrenaturais. Por vezes, como nos milagres, a doutrina cristã foca-se em explicações sobrenaturais para fenómenos naturais. Mas porque razão não haveriam ambas as coisas, naturas e sobrenaturais, de coexistir numa mesma realidade?

Pergunto-te: porque razão não poderia toda a realidade estar dividida em dois domínios distintos, mas co-existentes: o natural e o sobrenatural? Se assim fosse, e não percebo porque razão excluis "a priori" esta explicação, o mais natural era que conceitos como os de "prova" ou de "demonstração" tivessem que ser diferentes para os diferentes domínios do real.

Mesmo no dia-a-dia, eu uso "prova" nestes dois sentidos diferentes. Uma coisa é uma prova científica, outra coisa é eu achar que pessoa A gosta de mim. Posso estar seguro de ambas as coisas, mas eu sei bem que as valido de forma diferente.

«Em ciência, essas desculpas são inaceitáveis. Porque não há maneira nenhuma de saber se isso é mesmo assim ou se é tudo treta. Nem faz qualquer diferença...»

O teu problema principal, Ludwig, é que na tua guerra louvável contra as tretas, estás a mandar fora o bebé com a água do banho. E olha que esse bebé, nascido numas palhotas em Belém há 2.000 anos, é o único bebé realmente eficaz contra todo o tipo de tretas, científicas e metafísicas.

Um abraço!

Igreja Católica - Construtora da Civilização - III

Igreja Católica - Construtora da Civilização - II

Igreja Católica - Construtora da Civilização - I

terça-feira, 6 de outubro de 2009

«Crenças e diferenças»

No seu artigo "Crenças e Diferenças", o Ludwig defende a incompatibilidade entre crença científica e crença religiosa.

Pretendo brevemente apontar alguns erros no artigo em questão, aproveitando algumas afirmações específicas feitas pelo Ludwig:

«Os crentes mais moderados defendem que as crenças científicas e religiosas estão ao mesmo nível, assentando as primeiras na ideia de um universo regular e observável e as últimas num deus que revela os seus mistérios.»

Há aqui um problema claro de generalização. O Ludwig não o especifica, mas esta frase não pode ser escrita assim. Os hindus, por exemplo, não confiam na regularidade e observabilidade do universo. Nem entendem Deus como alguém que revela coisas sagradas à Humanidade.

Mas há outro problema mais grave: na esfera concreta da crença católica, nenhum católico pode defender que as crenças científicas e religiosas estão ao mesmo nível. Há duas nuances importantes:

a) para o crente católico, a fonte da crença religiosa é Deus e nessa qualidade, trata-se de crença infalivelmente verdadeira; a crença científica, tendo sempre uma fundamentação empírica (mais ou menos sólida), nunca é definitiva e é sempre passível de refutação (pior caso) ou melhoria (melhor caso)

b) para o crente católico, a realidade é toda a mesma e foi toda criada por Deus, ou seja, o objecto da crença científica faz parte da mesma realidade do objecto da crença religiosa: os milagres de Cristo foram realizados no mesmo mundo real no qual se desenrolam todos os fenómenos estudados pela ciência

Um pouco adiante, o Ludwig escreve:

«A crença do cristão é diferente. O cristão que crê que Maria era virgem não está a assumir que, algures, existem os exames ginecológicos necessários para substanciar esta proposição, que pode ter acesso a esses registos e que, se os analisar cuidadosamente, concluirá que Maria era mesmo virgem. Esta sua crença não é condicional. Não depende de assumir que há fundamento objectivo para a proposição. É uma crença categórica. O cristão crê. Ponto final.»


Não é nada disto que o cristão diz. A crença cristã não é cega. Por exemplo, nenhum cristão pode afirmar a crença numa proposição refutada pela experiência ou pelo conhecimento prático das coisas. A fé é entendida como a aceitação daquilo que é revelado por Deus, e tem como objecto proposições às quais nunca chegaríamos pela via empírica. No entanto, a via empírica não pode refutar uma proposição de fé, senão essa proposição era falsa.

Por exemplo: imaginemos que alguns dos discípulos de Cristo afirmavam que o Mestre era imaterial. Isso era facilmente refutado pelo simples facto de que os discípulos próximos de Cristo poderiam facilmente fazer o teste.

Outro exemplo: imaginemos que se descobria uma sepultura muito antiga, com os restos mortais de uma mulher da Galileia, e que era possível estabelecer, graças a inscrições e a tradições orais e escritas, que se tratava da sepultura de Maria, Mãe de Cristo. Automaticamente, estava refutado o dogma da assunção de Maria aos céus, pois esse dogma afirma de modo categórico que o corpo de Maria foi "absorvido para fora" da materialidade, para fora do tempo e do espaço.

Segundo a forma errada como o Ludwig vê a fé cristã, então o cristão deveria manter a crença no dogma da assunção de Maria, MESMO que surgissem restos mortais de Maria. Ora isso é totalmente falso, e nenhuma verdade cristã é assumida CONTRA verdades empíricas demonstradas.

1) Não só não podem existir incompatibilidades entre a doutrina e as verdades manifestas e indiscutíveis (incluídas as regras da lógica, essenciais ao raciocínio coerente e estruturado)

2) Como são tidos e pesados todos os argumentos a favor de uma tese doutrinal: não se chegou a nenhum dogma da Igreja através de argumentos puros de autoridade, ou através de literalismos escriturísticos, mas sim através de longos e extensos debates (basta conhecer a história dos concílios para se ver como a Igreja amadureceu a exposição da sua doutrina)

O cristão afirma que Maria era virgem por várias fortes razões, que vão desde a tradição oral de quem viveu na altura próximo a Maria, até à coerência teológica que foi procurada tenazmente nos primeiros séculos: para Cristo ser realmente Deus (e este postulado data do tempo dos primeiros doze) e realmente Homem, teria que ter um progenitor humano (Maria) e outro divino (Espírito Santo). A doutrina cristã é o resultado de séculos de consolidação doutrinal (eliminando incoerências e contradições) efectuada sobre tradição escrita e oral.

O cristão não afirma que Maria era virgem só porque "está escrito", ou porque "alguém disse". Isso é fideísmo (ver abaixo), e é uma heresia.

«Esta é uma razão importante para a incompatibilidade entre a ciência e as religiões.»

Não há qualquer incompatibilidade entre fé cristã e ciência. Até seria ilógico supô-lo, uma vez que o cristianismo foi o berço e a motivação do progresso da ciência moderna.

O que se passa é que o cristão não defende um absurdo reducionismo filosófico. É por puro preconceito filosófico que o ateu materialista julga que a realidade tem que ser toda material porque o método científico (por natureza empírico) não vai mais longe. Ora isto é ridículo. Seria o mesmo que afirmar que não existe amor humano só porque não o conseguimos medir com instrumentos. É que o ateu materialista confunde mesmo o real com o empírico, como se não pudesse existir nada que não pudesse ser medido empiricamente. Isto é um preconceito filosófico, e nada tem a ver com ciência.

Já no que toca à compatibilidade entre outras religiões e ciência, então é certo que há muita fé religiosa que é incompatível em maior ou menor grau com a ciência, e é por isso que erra todo e qualquer ateu, como o Ludwig, que trata a crença religiosa toda por igual. Ao não distinguir aqueles credos (como o cristão) que afirmam cabalmente que nenhuma verdade de fé contradiz uma verdade de ciência, o Ludwig generaliza demais e acaba por ser injusto para com o cristianismo.

Por exemplo, o Hinduismo desconfia profundamente dos sentidos (por causa do conceito de "maya"), e por isso, é impossível a integração no hinduísmo da abordagem empírica essencial ao trabalho científico.

Outro exemplo: no Islão, a crença religiosa pode ser irracional, algo impossível na crença cristã. Por isso, é complicado conciliar, na mente do crente muçulmano, a doutrina do Islão com a metodologia do trabalho científico.

«Como as crenças científicas são todas condicionadas à premissa de haver fundamento objectivo, acessível e compreensível, para as proposições em que se crê, os cientistas têm uma exigência quase paranóica de registos de resultados, descrições detalhadas dos procedimentos, conclusões cautelosas, crítica aberta, verificação independente e todo esse aparato que nos dá confiança que, quando chegam a acordo acerca de algo, há por trás um forte fundamento para o que defendem.»

Eu não vejo nada de paranóico nisso. Essa boa escola do cientista é a boa escola da cosmovisão judaico-cristã. O cristão só pode valorizar o empirismo, uma vez que o Cristão acredita que a realidade é boa, porque é obra de um Deus bom, que não engana, e que os sentidos do Homem, feitos por Deus, são fiáveis, e que o intelecto humano, feito à imagem do de Deus, é minimamente fiável, e que ambos os intelectos partilham do uso da razão e da lógica.

Desafio o Ludwig a explicar como é que essa escola científica teria chegado aos nossos dias se não tivesse sido precisamente a Igreja Católica a pior inimiga das heresias opostas a essa escola, como a heresia gnóstica, ou a tradição hermético/ocultista ocidental, que via magia e "poderes ocultos" na Natureza.

«As religiões fazem o contrário. A crença incondicional e dogmática vira as religiões para dentro, para as suas figuras de autoridade ou escritos sagrados onde o fundamento último de tudo é o mistério insondável da fé.»

Isto é uma heresia cristã: chama-se "fideísmo". É estranhíssimo, mas está longe de ser um caso raro, que tantos ateus continuem a insistir numa generalização que acaba por ser injusta para com a Igreja Católica.

Como se pode ver aqui, a Igreja justamente considerou herética a filosofia de crença que o Ludwig tanto critica, e que ele julga erradamente ser algo geral e comum a todas as religiões. Há muitas religiões, mas não a cristã, que pensam assim. Vendo bem, da heresia do "fideísmo" à superstição pura e dura vai um passo curto.

Termino com um desafio: peço ao Ludwig que me aponte uma contradição, basta apenas uma, entre doutrina católica e ciência. Note-se bem: não pergunto se há coisas na doutrina católica que a ciência não pode nem provar nem refutar (é certo que as há). Pergunto se há verdades científicas que tenham refutado pontos da doutrina cristã...
Porque será que não existem?
Será só sorte da doutrina cristã?
Estará a primeira refutação ao virar da esquina?